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2. OS OUTSIDERS: O PROTESTANTISMO E SUA IMPLANTAÇÃO NO BRASIL

2.2. ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO PROTESTANTISMO

Ao abordar os antecedentes históricos do protestantismo no Brasil destaca-se a presença protestante no Brasil e no Ceará quando na “conquista” francesa e holandesa ao solo brasileiro. Ambas tentativas abortadas, mas que refletem a intenção e possibilidade do protestantismo de implantar-se em solo brasileiro.

2.2.1. A PRESENÇA PROTESTANTE NO BRASIL

O protestantismo fez ecoar sua expressão logo nos dois primeiros séculos da colonização do Brasil. No século XVI, os franceses tentaram fundar no Brasil a França Antártica, junto com o vice-almirante Nicolas Durand Villegaignon. Em 1555, desembarcaram na Baía do Rio de Janeiro dezenas de imigrantes calvinistas (huguenotes),21 que fugiam da perseguição religiosa da França.22 Posteriormente, chegaram mais 300 colonos com carta de recomendação do reformador genebrino João Calvino.23 O mesmo enviou dois pastores ordenados para ajudarem os colonos e para estabelecerem a ordem e a disciplina na Igreja, segundo a forma de governo da Igreja de Genebra. Essa forma de governo, que posteriormente foi chamada de presbiterianismo, possuía no seu cerne o Consistório que era formado por pastores e anciãos (membros da Reverenda Congregação). Estes eram eleitos com a tarefa de formar a representação autônoma da igreja para administração de seus assuntos (HERMELINK, 1981, p. 37). A novidade consistia no fato da criação de um sistema representativo de governo e na formação de um corpo que, por vez, excluía a intervenção do Estado, mesmo prescrevendo-lhe obediência. É importante ressaltar esse interesse de João Calvino, advindo da necessidade de proteger os fiéis e encontrar um lugar seguro em consequência das perseguições religiosas na Europa. O Brasil foi alvo de tal empenho devido a propaganda de Villegaignon que, em busca de financiamento, convenceu ao governo e a Igreja dos encantos da nova terra e da oportunidade de nela implantar uma Igreja Reformada que serviria de refúgio aos perseguidos.

Essa primeira tentativa foi frustrada por dois motivos. Primeiro, devido à traição de Villegaignon que em vez de oferecer proteção perseguiu tenazmente os protestantes, sendo

21 Huguenotes era o nome dado aos protestantes calvinistas na França a partir de 1560 (CAIRNS, 1995, p. 257). 22 As lutas políticas e religiosas entre católicos e protestantes na França culminaram na Noite de São Bartolomeu,

em 24 de agosto de 1572, quando milhares de huguenotes foram executados por católicos.

23 Dentre os que aqui aportaram estava um jovem estudante de teologia, chamado Jean de Léry, que vinte anos

apelidado, posteriormente, de “Caim das Américas”. A quebra das promessas de Villegaignon, de favorecer o florescimento da Igreja Reformada, teve motivações políticas e religiosas. O sistema de governo da Igreja Reformada atingira um comportamento de independência em relação ao Estado. Villegaignon mostrou-se como um comandante que centralizava todos os poderes em sua pessoa e requeria obediência da Igreja. Seu comportamento chegou a ponto de intervir legislando na questão da compreensão do significado da Eucaristia. Isto o levou a condenar à morte por afogamento, em 09 de fevereiro de 1558, os pastores Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon por não concordarem com sua interpretação (AZEVEDO, 1980, p. 54). Segundo, devido a queda da colônia nas mãos de Mem de Sá, português, em maio de 1560. Com a saída da França termina a primeira tentativa de implantação do protestantismo no Brasil.

Essa primeira tentativa protestante de inserção no Brasil, por mais breve que tenha sido, tem um valor histórico singular. O Brasil foi o primeiro país a ser alvo da tentativa protestante de encontrar um lugar de refúgio das lutas religiosas. Ele torna-se centro dos anseios do protestantismo em seu estágio inicial e em processo de estruturação. O envolvimento de João Calvino nesse empreendimento mostra como o Brasil era a alternativa imediata à formação do espaço para a vivência da Igreja não romana e em formação protestante na busca de segurança e paz para a prática de sua fé.

A segunda tentativa ocorreu no século XVII, com os calvinistas holandeses no Nordeste, no período de 1630 a 1654.24 Através da Companhia das Índias Ocidentais, a Holanda pretendeu ampliar os seus interesses comerciais no Atlântico. O Nordeste foi a área escolhida para essa empreitada. Inicialmente, os holandeses fracassaram na tentativa de ocupar a Bahia de Todos os Santos. Contudo, conseguiram se impor em Pernambuco, tomando Recife e Olinda. Apoiados pelo príncipe João Maurício de Nassau, os calvinistas desenvolveram importante trabalho pastoral e missionário, fundando 22 congregações com 50 pastores em atividade.25 Quanto a Nassau, Sérgio B. de Hollanda (2000, p. 240) escreve: “Sobretudo digna de nota foi sua atitude de tolerância para com os católicos.” Devido as divergências nas estratégias da colonização, em 1644, Nassau foi substituído. A colonização holandesa terminou em 1654 e, com ela, a segunda tentativa de implantação do protestantismo no Brasil.

24 Sobre a presença holandesa no Nordeste e em especial sobre a Igreja Reformada da Holanda, igreja estatal

implantada aqui, a obra de Schalkwijk (1989), Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), que além da rica bibliografia e pesquisa, apresenta uma tentativa de mostrar o aspecto contextual, organizacional e missionário desta igreja na colônia.

25 Tem-se uma noção da abrangência do trabalho religioso exercido neste período quando se depara com o fato

A pergunta que geralmente surge quando se estuda a presença holandesa no Brasil é sobre se o rumo do Brasil seria outro caso tivesse ficado nas mãos da Holanda e não de Portugal. Em resposta Boris Fausto (2004, p. 89) afirma que

Não há uma resposta para essa questão, pois ela envolve uma conjectura, uma possibilidade que não se tornou real. Quando se compara o governo de Nassau com a rudeza lusa e a natureza muitas vezes predatória de sua colonização, a resposta parece ser positiva. Mas... quando se constata o que aconteceu nas colônias holandesas da Ásia e das Antilhas, as dúvidas crescem.

Antônio G. de Mendonça (1984, p. 19) é de opinião que:

Tivesse, contudo, a conquista sido definida, é bem pouco provável que o Brasil permanecesse católico, ao menos uniformemente católico. A história tem mostrado que o conquistador quase sempre acaba impondo a sua cultura e, com ela, o seu sistema religioso.

Vê-se por detrás da pergunta não uma preocupação religiosa, mas a antiga suspeita de que se o Brasil tivesse sido colonizado por países protestantes, a exemplo de outros como os Estados Unidos, teria alcançado um desenvolvimento econômico mais acentuado. Essa suspeita foi difundida através do imaginário liberal anti-católico e bem aproveitado pela propaganda protestante sugestionada por Max Weber (2001), que vinculava a expansão do capitalismo (pensado como progresso e acúmulo de capital) ao ethos protestante.

Essas tentativas de implantação, devido a sua profunda relação com projetos colonizadores e pela brevidade de tempo que as caracterizaram, não vingaram no solo brasileiro e nem deixaram marcas significativas no campo religioso. Em abordagem historiográfica, a intervenção foi bem sucedida e o protestantismo francês e holandês é parte da história religiosa brasileira.

2.2.2. A PRESENÇA PROTESTANTE NO CEARÁ

A primeira tentativa de implantação do Protestantismo no Ceará ocorreu no período da ocupação do nordeste pelos holandeses (1630-1645). Marcada por interesse comercial da empresa holandesa nessa região, não significava que também não existisse um profundo interesse religioso.

A ocupação holandesa no Ceará durou cerca de cinco anos (1644-1649). Sob o comando de Matias Beck, o propósito era conquistar o Ceará e explorar os seus produtos

minerais.26 Beck veio acompanhado de soldados, operários e engenheiros (com suas esposas). Ele também trouxe um ministro do Evangelho, o pastor Kempis, “com a finalidade de instruir os nativos, batizar aqueles de seus filhos que ainda estiveram pagãos, casar os que viverem juntos ilegitimamente, esforçar-se por imprimir entre eles a boa ordem e disciplina cristã, pregar-lhe em sua língua a Santa Palavra de Deus” (KROMMEN, 1997, p. 73). Raimundo Girão (1962, p. 309) observa que:

Não pode vingar a semente da Igreja reformada trazida pelos flamengos quando de sua segunda e última expedição ao Ceará. O ministro Kempins, que tomou parte nessa expedição, muito fez pela conversão da indiada às lições dos Evangelhos, deixando, ao sair no espírito desta, os frutos de uma pregação que, sem eco, não repercutiria muito longe no tempo. Morreu a plantazinha holandeza à falta de rega.

Os holandeses partiram forçados devido aos acontecimentos militares e políticos na Europa. Com sua saída, encerrava-se a primeira tentativa de implantação do protestantismo no Ceará. As influências religiosas que deixaram, principalmente entre os indígenas, o Santo Ofício, órgão de intervenção catequético e jurídico católico, fez com que, nas décadas posteriores à saída holandesa, fosse apagada qualquer memória de tal religiosidade.

2.3. IMPLANTAÇÃO DO PROTESTANTISMO E DO PRESBITERIANISMO