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ANTECEDENTES HISTÓRICOS E A CRIAÇÃO DA OIT

OIT E SUAS CONVENÇÕES

2.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS E A CRIAÇÃO DA OIT

A idéia da internacionalização da legislação social trabalhista aparece na primeira metade do século XIX. Nesse momento, houve uma proliferação da tese de que deveria existir uma intervenção do Estado nas relações de trabalho, para que fosse assegurado um mínimo de direitos irrenunciáveis aos trabalhadores.

A Revolução Industrial foi um dos fatores que determinaram o aparecimento dessa idéia, pois, nesse período, foi evidenciado que o princípio da liberdade contratual, consagrado pela Revolução Francesa e seguido por muitos países, quando aplicado às relações de trabalho, mostrou-se cruel. O surgimento da máquina a vapor e a conseqüente susbstituição da mão-de-obra humana fazem com que a oferta de empregos se torne menor que a demanda, levando a um fortalecimento das empresas. A necessidade leva o homem a aceitar as mais vis condições de trabalho registradas na História.

Assim, a liberdade prometida pela Revolução Francesa não se concretiza. A miséria, contudo, une trabalhadores e intelectuais na luta pela conquista de direitos, limitando-se, portanto, a autonomia da vontade nos contratos de trabalho.

Nesse aspecto destaca-se Robert Owen, que foi considerado o pai da legislação trabalhista e das cooperativas. Ele defendeu amplas reformas sociais e chegou a aplicar suas idéias em sua fábrica de tecidos. Porém, não obteve apoio dos intelectuais e dos governantes.

O banqueiro suíço Necker, contudo, em sua obra “Da importância das opiniões religiosas”, foi o primeiro a desenvolver idéias acerca da proteção do trabalhador. Ele defendeu que a proteção ao descanso do trabalhador aos domingos só poderia ser mantida se todos os Estados observassem a essa regra. Entretanto, Necker apenas expôs o problema da necessidade de uma harmonização das normas trabalhistas a nível global, não chegou a enfrentá-lo ou mesmo a propor a realização de acordos internacionais que garantissem a proteção do empregado.

Essa tarefa de propor normas internacionais do trabalho ficou a cargo de Daniel Legrand, empresário francês. Ele endereçou apelos aos estadistas suíços, alemães, franceses e ingleses, entre os anos de 1840 a 1848, sustentando que o bem estar físico e a moralidade da classe operária estava intimamente ligada à prosperidade do Estado.

Nesse período destacam-se as idéias de Charles Hindley, que lançou a idéia de um Direito Internacional do Trabalho.

Essas idéias influenciam Edoard Ducpétiaux, precursor dos movimentos coletivos, que passa a sustentar a internacionalização em congressos. A 1ª Internacional de Marx e Engels defendeu a idéia de uma legislação protecionista supranacional, de modo a reinvindicar questões trabalhistas idênticas em todos os países.

Contudo, somente a partir de 1867, a idéia ganha corpo, quando passa a atingir assembléias e congressos em vários países da Europa Ocidental, principalmente na França, na Alemanha e Suíça.

Nesse último país, o movimento desenvolve-se, de forma que é criada uma entidade internacional. Essa entidade, efetuando consultas, em 1889, dá origem a uma conferência, sem caráter diplomático, que é marcada para ser realizada em Berna, em 1890.

Entretanto, a partir da iniciativa do Kaiser Guilherme II, a Suíça abre mão de seu projeto. Então, na Alemanha, mais precisamente em Berlim, entre os dias 15 a 29 de março de 1890, reúnem-se representantes de treze países: o próprio Estado-sede da conferência, Áustria-Hungria, Bélgica, Dinamarca, França, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Holanda, Portugal, Suécia e Suíça.

Nesse momento, a maioria absoluta dos países, a exceção da Alemanha e da Suíça, mostram-se conservadores, apegados ao conceito clássico de soberania, ou seja, de um poder- direito estatal que não pode ser afetado ou relativizado. Eles, então, não se dispõem a adotar nenhuma forma concreta de legislação internacional, ficando restritos na questão relativa à adoção de medidas internas a serem tomadas por deles.

Contudo, mesmo que tenha tido resultados comedidos, não se pode negar a importância desse evento, pois a troca de informações sobre a matéria e o compromisso de verificação da possibilidade de ações internas resultam em um marco no desenvolvimento do Direito Internacional do Trabalho.

Tanto é assim que, em 1897, é realizado um congresso em Zurich e outro, com caráter científico, em Bruxelas. Seguindo estes, em 1900, concretiza-se um evento, sediado em Paris, que reúne professores, economistas, sociólogos, parlamentares, estadistas e inspetores do trabalho.

Esse Congresso propõe a criação de uma associação internacional de caráter privado, com seções nacionais autônomas, bem como um Escritório Internacional do Trabalho, que serviu de molde para a configuração do que viria a ser a Organização Internacional do Trabalho.

A concretização do projeto dá-se no ano seguinte, em assembléia realizada na Basiléia, na Suíça. Ela também teve um papel importante na preparação para as importantes Conferência de Berna, realizadas nos anos de 1905 e 1906.

A primeira Conferência de Berna foi convocada pela Suíça. Nela, foram tomadas medidas concretas de preparação de convênios internacionais: pretendiam a abolição do trabalho noturno das mulheres nas indústrias e a proibição do uso do fósforo branco.

Nesse aspecto, cabe ressaltar a importância histórica desses convênios: apesar de protestos quanto ao possível malferimento da soberania, o fato é que tornaram-se conveções

ratificadas por todos os Estados que participaram do Congresso e entraram em vigor em 1912. Por isso, são consideradas o marco inicial do surgimento do Direito Internacional do Trabalho.

Nesse período, também merece destacar a expansão da Associação Internacional do Trabalho, criada no Congresso de Paris. Movida pelo sucesso do Congresso de Berna, ela pleiteia ao governo da Suíça a convocação de novas reuniões, a fim de serem criadas duas novas convenções internacionais do trabalho: uma proibindo o trabalho de menores na indústria e outra limitando a jornada de trabalho de mulheres e de menores a dez horas diárias. Com base nesse pedido, o governo suíço convoca duas conferências. A primeira acontece em 1913 e ter por objeto a prepação técnica dos instrumentos internacionais supramencionados. A segunda foi marcada para ser realizada em 1914. Contudo, a eclosão da Primeira Guerra Mundial impediu sua feitura.

Todavia, durante a guerra, organizações de trabalhadores e movimentos de países neutros pressionam a sociedade internacional no sentido da realização, concomitante à Conferência de Paz, de uma Conferência Trabalhista e da inserção de cláusulas que garatissem melhores condições de trabalho no Tratado de Paz.

Nesse sentido, foram realizados os Congressos da Federação Americana do Trabalho, na Filadélfia, em 1914, dos dirigentes sindicais da França , Bélgica, Itália e Inglaterra, em Leeds, em 1916, e da Federação Sindical de Berna, em 1917.

As várias pressões exercidas por grupos de trabalhadores, somadas à Revolução Russa de 1917 e a vários países em estado de pré-revolução fazem com que, no Tratado de Paz, fosse incluído por parte das potências vencedoras da Guerra um capítulo inteiro sobre os direitos trabalhistas.

E, a partir de projetos elaborados pela Associação Internacional para a Proteção Legal dos Trabalhadores, é entregue um texto final à Conferência de Plenipotenciários, que é aprovado e, posteriormente, passa a constituir o preâmbulo da Constituição da Organização Internacional do Trabalho.

A Organização Internacional do Trabalho - OIT - é então criada pela Conferência de Paz, após a Primeira Guerra Mundial. A sua Constituição converteu-se na Parte XIII do Tratado de Versalhes.

O local de sua sede foi escolhido como forma de homenagear o mais antimilitarista dos países europeus: a Suíça, que foi tão importante na elaboração do então nascente Direito Internacional do Trabalho e que acolheu em seu território a sede da Oficina Internacional para a Proteção dos Trabalhadores.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a OIT mudou sua sede pra Montreal, no Canadá, em razão dos perigos que a Europa enfrentava.

Hoje, após três emendas, ocorridas em 1922, 1945 e 1953, o texto do Preâmbulo da Constituição da OIT possui a seguinte redação:

“Considerando que a paz para ser universal e duradoura deve assentar sobre a justiça social;

Considerando que existem condições de trabalho que implicam, para grande número de indivíduos, miséria e privações, e que o descontentamento que daí decorre põe em perigo a paz e a harmonia universais, e considerando que é urgente melhorar essas condições no que se refere, por exemplo, à regulamentação das horas de trabalho, à fixação de uma duração máxima do dia e da semana de trabalho, ao recrutamento da mão-de-obra, à luta contra o desemprego, à garantia de um salário que assegure condições de existência convenientes, à proteção dos trabalhadores contra as moléstias graves ou profissionais e os acidentes do trabalho, à proteção das crianças, dos adolescentes e das mulheres, às pensões de velhice e de invalidez, à defesa dos interesses dos trabalhadores empregados no estrangeiro, à afirmação do princípio ‘para igual trabalho, mesmo salário’, à afirmação do princípio de liberdade sindical, à organização do ensino profissional e técnico, e outras medidas análogas;

Considerando que a não adoção por qualquer nação de um regime de trabalho realmente humano cria obstáculos aos esforços das outras nações desejosas de melhorar a sorte dos trabalhadores nos seus próprios territórios.

AS ALTAS PARTES CONTRATANTES, movidas por sentimentos de justiça e humanidade e pelo desejo de assegurar uma paz mundial duradoura, visando os fins enunciados neste preâmbulo, aprovam a presente Constituição da Organização Internacional do Trabalho.”

A atividade normativa da OIT, após a Segunda Guerra manteve-se ainda mais ativa, regulamento mais assuntos voltados ao Direito Internacional do Trabalho. Nesse sentido, afirma Wagner Giglio26:

A obra legislativa prosseguiu, mas grande ênfase foi dada, no após guerra, à assistência técnica, com a organização de serviços de mão- de-obra e de administração do trabalho, de educação dos trabalhadores, de seguridade social e de melhoria do nível de vida, em benefício dos países em vias de desenvolvimento, principalmente. Em 1969, em seu 50º aniversário, a Organização foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz.

2.2 MEMBROS

Em face do disposto no art. 387 do Tratado de Versalhes, os países que ratificassem este Tratado de Paz se tornavam países membros fundadores, pois essa condição decorria automaticamente da filiação à Sociedade das Nações (SDN).

Os membros originários ou fundadores são: África do Sul, Austrália, Bélgica, Bolívia, Brasil, Canadá, Checoslováquia, China, Cuba, França, Grécia, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Inglaterra, Itália, Japão, Libéria, Nicarágua, Nova Zelândia, Panamá, Peru, Polônia, Portugal, Rumânia, Sérvia-Croácia-Eslovênia, Sião e Uruguai.

Outros treze Estados também adquiriram essa qualidade porque aderiram, após convite, ao Tratado de Versalhes. São eles: Argentina, Chile, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Holanda, Noruega, Paraguai, Pérsia, Salvador, Suécia, Suíça e Venezuela.

26 GIGLIO. Wagner D. OIT e Convenções Internacionais do Trabalho Ratificadas pelo Brasil. São Paulo:Sugestões Literárias, 1973. p. 29-30.

Estados Unidos e Equador não se tornaram, nessa oportunidade, membros da OIT, pois não ratificaram o Tratado de Paz - Tratado de Versalhes.

A Alemanha e a Áustria foram admitidas por meio de resolução, obtida na Conferência de Washington de 1919, apesar de não serem membros da SDN.

A partir de 1946, para se tornar membro da OIT, deve o Estado interessado obedecer à disposição dos §§ 2º, 3º e 4º da Constituição da OIT:

“2. Serão Membros da Organização Internacional do Trabalho os Estados que já o eram a 1º de novembro de 1945, assim como quaisquer outros que o venham a ser, de acordo com os dispositivos dos parágrafos 3º e 4º do presente artigo.

3. Todo Estado-Membro das Nações Unidas, desde a criação desta instituição e todo Estado que for a ela admitido, na qualidade de Membro, de acordo com as disposições da Carta, por decisão da Assembléia Geral, podem tornar-se Membros da Organização Internacional do Trabalho, comunicando ao Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho que aceitou, integralmente as obrigações decorrentes da Constituição da Organização Internacional do Trabalho.

4. A Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho tem igualmente poderes para conferir a qualidade de Membro da Organização, por maioria de dois terços do conjunto dos votos presentes, se a mesma maioria prevalecer entre os votos dos delegados governamentais. A admissão do novo Estado-Membro tornar-se-á efetiva quando ele houver comunicado ao Diretor-Geral da Repartição Internacional do Trabalho que aceita integralmente as obrigações decorrentes da Constituição da Organização. “

A OIT conta hoje com 182 países membros.