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1.3 SANTOS TERCEIROS FRANCISCANOS

3.4 ANTECEDENTES PROCESSIONAIS E APARATOS EFÊMEROS EM MINAS

Para falar da ostentação barroca das “festas religiosas” mineiras e seus aparatos efêmeros é fundamental discutir a importância do Triunfo Eucarístico e do Áureo Trono Episcopal, que antecederam a própria criação das Ordens Terceiras Franciscanas e sua Procissão de Cinzas em Minas.

A procissão é uma manifestação quase tão antiga quanto a própria cristandade, que verá reforçada a sua função logo após a política encetada pela igreja católica com a Contra-Reforma. Em

Portugal essa estratégia foi aplicada e desenvolvida, aproveitando-se ao máximo todas as suas potencialidades de persuasão. Os dias dos santos eram comemorados com rituais litúrgicos que culminavam com a sua passagem para o espaço da cidade. Praças e ruas, num itinerário previamente definido e repetitivo, enchiam-se de esplendor para deixar passar o sagrado, muitas vezes mesclado de um certo paganismo o que lhe dava uma feição burlesca e transformava muitas destas manifestações em grandiosos espetáculos, bem ao gosto da festa barroca. É esta vivência e este gosto pelo exótico e pelo maravilhoso que vamos transportar para o Brasil, nomeadamente para Minas Gerais, onde, por exemplo, aparece bem refletido no célebre Triunfo Eucarístico.44

Para Afonso Ávila, a linguagem barroca, quer a plástica ou a literária, na sua urgência comunicativa ou no estímulo puro à flexibilidade das estruturas, viria colocar-se sobre o primado de três elementos fundamentais: o lúdico, a ênfase visual e o persuasório. 45

O Triunfo Eucarístico 46 evidencia, sem dúvida, o estado de euforia da sociedade mineradora,

que se faz expandir através de uma festa mais de regozijo dos sentidos que propriamente de comprazimento espiritual. “(...) Depreende-se, da coordenação das danças (de turcos e

cristãos, de romeiros, de músicos), dos carros triunfais, das figuras alegóricas e das representações mitológicas-cristãs, a existência de uma direção que sabia jogar com recursos

e efeitos de ritmo e contraste, inclusive elementos de surpresa.” 47

(...) a encenação impregnava-se de requinte, acrescido pela exuberância dos adornos de ouro, prata, diamantes, pedraria, sedas, plumas, tanto na indumentária dos figurantes quanto nas suas montarias ou demais peças componentes do espetáculo. Após o desfile alegórico dos ventos, planetas, ninfas, pajens, etc. surgiria, culminante, a figura da nova matriz, também ela guarnecida do mesmo aparato ornamental. (...) a multiplicidade dos recursos cenográficos e a pompa coreográfica dos cortejos e danças são complementados, na descrição de Simão Ferreira Machado, pela

diversidade dos instrumentos e arranjos da música marcial e profana.48

44 TEDIM, TESE..1999. 2v. p. 87,88. 45 ÁVILA, 1980, p. 22.

46 Relato de Simão Ferreira Machado da transladação do Santíssimo Sacramento para a re-inaugurada Igreja

do Pilar em Vila Rica no ano de 1733.

47 ÁVILA, 1980, p. 117. 48 ÁVILA, 1980, p. 118,119.

Outra festa de cunho ao mesmo tempo religioso e profano é o Áureo Trono Episcopal 49. O

projeto seguiu em linhas gerais, a mesma disposição do espetáculo descrito por Simão Ferreira Machado no Triunfo Eucarístico, embora se observe em Mariana certa parcimônia na montagem coreográfica e na apresentação dos números musicais. A preocupação com a ostentatio barroca parece, ainda assim, ter prevalecido sobre as conveniências da realidade econômica, esmerando- se a população da sede episcopal e, de modo particular, o seu clero em revestir da possível pompa e do desejado brilhantismo as manifestações de regozijo pela posse do primeiro bispo das Minas. A partir de 28 de novembro de 1748, iniciaram-se as festas que se estenderam até o decorrer do mês de dezembro, entre procissões, desfiles alegóricos, jogos de iluminação, missas solenes, encenações teatrais e oralizaçoes poéticas, num misto espetaculoso de ritual católico, comprazimento intelectual e divertimento público. O cortejo processional conjugando elementos de simbologia cristã e figurações de natureza pagã, nada acrescenta em suas formas litúrgicas e coreográficas ao que já conhecemos da aparatosa exterioridade evidenciada no Triunfo Eucarístico.50

No Triunfo Eucarístico em 1733, construíram-se cinco elevados arcos de triunfo, um dos quais fabricados de cera e todos eles incrustados de ouro e diamantes, e para o Áureo Trono Episcopal em 1748 adornaram-se com idêntico aparato, com as ruas recobertas de areias e flores e as casas alcatifadas de sedas e tapeçarias. Na rua principal erguia-se um jardim suspenso, de considerável dimensão, plantado de árvores silvestres e flores no meio do qual, além de vinte e duas ninfas pintadas em cores alegres, levantava-se um chafariz, encimado por uma estátua de netuno, de onde a água caia num lago”.51

O barroco assumiu muitas vezes, como se sabe, a feição de arte persuasória, de instrumento destinado a realçar e infundir, através da imagem plástica ou da metáfora literária, a propensão religiosa, o senti- mento piedoso, a consciência místico-existencial da efemeridade do mundo. O impacto visual, que era o próprio fundamento estético do

49 O Áureo Trono Episcopal foi a solene posse de Dom Frei Manoel da Cruz, bispo que se instala no ano de

1748 na Diocese de Mariana. O Cônego Francisco Ribeiro da Silva, do cabido da nova Sé, fez editar em Lisboa, em 1749, um pequeno livro com relato de autor anônimo, ao qual se seguiu uma coletânea de peças literárias alusivas ao acontecimento.

50 ÁVILA, 1980, p. 127-133. 51 ÁVILA, 1980, p. 217.

estilo seiscentista, refugia em alguns casos ‘a tendência ao feérico, ao maravilhoso, para acentuar-se numa forma diferente de persuasão, im-

pregnada de dramaticidade, de noturnidade, até mesmo de morbidez.52

52 No que tange à ornamentação efêmera em Minas Gerais é importante também lembrar as comemorações das

Exéquias de Dom João V. A Realçam fiel (...) Correa de Alvarenga nos mostra como nossa comunidade

mineradora do século XVIII, de conformação residual comprovadamente seiscentista, se mantinha apegada as formas barroquizantes de teatralização do motivo fúnebre. A parte oficial das exéquias prossegue com a solenidade religiosa mandada celebrar pela câmara a 28 de dezembro de 1750, na matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del Rei.

ÁVILA, 198, p. 191.

3.5 - A PROCISSÃO DE CINZAS: IMAGENS E ANDORES, ORNAMENTAÇÃO,