(...)Envolve-me, silêncio. Pega-me sob as axilas, silêncio. Faz-me silenciar, silêncio. Torna-me receptível, silêncio.
Grito por ti, silêncio. Sobretudo: tu, silêncio! Silêncio, fonte original das imagens!
Silêncio, oh grande imagem! Silêncio, mãe da fantasia. (HANDKE, 1989, p. 100)
Escutar para dar um sentido. Perceber-se no vazio-cheio para poder dar voz, ou vozes às manifestações anímicas que atravessam o ator quando esse realmente se depara com um material poético qualquer, escutando-o. O silêncio é a primeira ferramenta de seu ofício, pois transgride o ambiente cheio de ruídos que o cotidiano instaura, fazendo com que ele coloque-se num estado de dilatação poética e atenção, uma vez que percebe e alimenta profundamente seu estado interior de silenciamento e incompletude.
Quanto à completude, já tivemos ocasião de observar em diversas ocasiões que a incompletude é fundamental no dizer. É a incompletude que produz a possibilidade de múltiplo, base da polissemia. E é o silêncio que preside essa possibilidade. A linguagem empurra o que ela não é para o “nada”. Mas o silêncio significa esse “nada” se multiplicando em sentidos: quanto mais falta, mais silêncio se instala, mais possibilidades de sentidos se apresentam. (ORLANDI, 2007, p. 47)
O silêncio para o ator, neste estudo, é derivação do conceito de
silêncio fundador, “(...) aquele que existe nas palavras, que significa o não-dito
e que dá espaço de recuo significante, produzindo as condições para significar” (ORLANDI, 2007, p. 24), de acordo com o termo criado pela autora. O conceito estrutura-se em um pensamento polissêmico – qualidade cara ao Campo de Visão, como veremos em outros capítulos – pois as palavras não são materiais que contrapõem o silêncio, mas derivam dele, multiplicando seus próprios sentidos. As palavras, antes de qualquer coisa, são constituídas por silêncio, ou melhor, por silêncios: o primeiro, os “microssilêncios” que evidenciam os contrastes entre os tipos de consoantes e vogais presentes em qualquer linguagem como possibilidade de articulação sonora, alargando os espaços entre cada fonema que constitui as palavras; o outro, um material profundo que abarca toda criação de linguagem, que gera, que faz nascer múltiplos sentidos e gramáticas, sensações e regras de concordância, formas e conteúdos indissociáveis, enfim, a lava da voz, com suas intensidades e composições.
De forma diferente ao que é estabelecido pelo pensamento comum, em que o silêncio é ausência de palavras e de som, aqui atribuímos ao silêncio a qualidade primeira da vocalidade do ator, o silêncio enquanto dilatação poética, enquanto amplificação de suas qualidades perceptivas e possibilidade de acesso verdadeiro aos seus materiais internos mais profundos – seu território de imagens. O ator ao silenciar-se adquire possibilidades de inteligência sensível para a criação poética, ele redimensiona seu próprio pensamento, objetivando a criação, tornando seu terreno-imaginário fértil o suficiente para fazer brotar vocalidades carregadas de verdade ficcional.
O silêncio envolve em primeiro lugar a escuta, percepção que vem sendo estudada e problematizada pela maioria dos pensadores das Artes Cênicas. O silêncio através da concentração do ator e sua sensibilidade auditiva acaba instaurando em si mesmo outra maneira de se colocar perante sua criação: ouvindo os ruídos comumente imperceptíveis, aguçando o sentido da visão pela complementação das informações “microssonoras”, ouvindo seus próprios ruídos, como alega John Cage.
Quando se entra em uma câmera anecóica – isto é, uma sala completamente à prova de som –, sente-se um pouso desse mesmo terror [o silêncio eterno]. Fala-se e o som parece despencar dos lábios para o chão. Os ouvidos se apuram para colher indícios de que ainda há vida no mundo. Quando John Cage entrou em uma dessas salas, entretanto, ouviu dois sons, um agudo e um grave. “Quando os descrevi ao engenheiro responsável, ele informou-me que o som mais agudo era meu próprio sistema nervoso em funcionamento, e o grave, meu sangue circulando.” (SCHAFER, 2001, p. 355)
O silêncio revira as vísceras do ator, traz à sua consciência as qualidades orgânicas de si mesmo, ele percebe seus fluidos internos, seus órgãos e humores, ritmos e pulsos internos, o fluxo respiratório – que será o principal responsável por sua emissão vocal, além de revelar e aquietar o que veio antes do ensaio ou apresentação: seus estados emocionais, temperamentos
e trajetórias até aquele instante. Assim, temos no silêncio um aliado potente para ouvirmos o máximo de nós e podermos assim nos entregarmos ao espaço.
O silêncio do espaço
O espaço da criação cênica é o primeiro Outro com que o ator se relaciona. Ele coloca-se com qualidades corporais e vocais apropriadas para o preenchimento energético necessário para cada tipo de localidade. O ator, ao ensaiar ou apresentar-se em qualquer espaço, adquire desse as informações e percepções necessárias para que os silêncios interior e exterior dialoguem entre si.
O silêncio do espaço se dá pela percepção do ator em como o ambiente se encontra antes de sua criação poética, comunicando sensações ao intérprete, que deverá estar pronto para tirar proveito de tais estímulos. Aspectos físicos da sala ou espaço aberto são as primeiras informações que o ator consegue extrair, como: a arquitetura (formas, cores, tamanho de pé direito, estruturas, tamanho do palco ou área de ensaio, densidades diversas), a acústica (o ator deve testar sua própria voz no silêncio do espaço para ter informações auditivas de seu comportamento vocal naquele ambiente) e o clima (temperaturas, possíveis ondas de ar, umidade – aspectos que vão influenciar o nível de energia exigida para seu fazer artístico), inicialmente.
A relação com o silêncio se dá na mistura das qualidades de percepção. O silêncio do espaço é o meu silêncio, meu início, meu Ponto Zero.
(...) Ponto Zero é também um lugar de latência, um lugar de acesso às energias motivacionais, um lugar de concentração poética. Não se trata de um lugar esvaziado de sentido, um lugar do neutro absoluto, de um zero absoluto. (...) O Ponto Zero é também um ponto de retorno, de encontrar-se novamente em um lugar primordial, de ter novamente com as energias motivacionais, de acesso às energias primevas. (LAZZARATTO, 2011, p. 49)
No Ponto Zero, o ator acessa o silêncio fundador, o barro virgem que será esculturado na dinâmica. E uma vez silenciados, estamos prontos para mergulharmos nas águas do Campo de Visão.