Tradução do grego para o português do texto da Bíblia de Jerusalém, (2002):
OS EFEITOS DA GRAÇA E DA JUSTIFICAÇÃO SÃO MAIORES QUE O CASTIGO DO PECADO
3.1 Antes de Cristo: o Reino do Pecado e da Morte
A intelecção da proeminência da justificação (Rm 5,12-21) poderia estar bem à frente, no domínio popular, se não houvesse a presença confusa de interesses institucionais e circunstanciais em manter a velha ordem do reino da morte. Essa conclusão é compartilhada por diversas vozes relevantes do mundo teológico, conforme será visto a seguir.
Refletindo sobre o histórico da teologia paulina da justificação pela fé (Rm 5,15-21), vemos certa dificuldade quanto à compreensão da mesma pela massa de fiéis das comunidades cristãs, católicas ou protestantes. Essa dificuldade parece normal para quem está habituado a conviver sob os símbolos do pecado, da morte e do inferno, superestimados pela teologia tradicional (DELUMEAU, 2003). Torna-se difícil para as massas, ‘enxergarem’ e abraçarem as benesses da justificação e da vida, embora as evidências do ‘antes’ e ‘depois’ sejam, teoricamente, identificáveis na religião cristã, em função da leitura de Rm 5,12-21.
Portanto, a opção de fixar o olhar no retrovisor do plano de salvação, abrindo mão de viver a experiência da alegria e da liberdade, oferecida como presente por Cristo é uma opção no mínimo suspeita, opressora e institucional. “Não atingimos as exigências de nossos tempos reproduzindo a teologia moral do passado” (BRAGA, 1984, p. 7). Essa opção beneficia a opressão, a dominação e a ignorância, pois impede que a justiça seja colocada a serviço dos mais fracos (TAMEZ, 1995). Vem delas, então, a iniciativa de bloquear o caminho da liberdade e do acesso à teologia da graça (BRAGA, 1984, p. 7).
Portanto, quando os sistemas religiosos cristãos optam pela vinculação ao passado e suas pertenças, trata-se de uma opção consciente, pela permanência da culpa e do medo (DELUMEAU, 2003) em detrimento da experiência da liberdade e da esperança conquistadas por Cristo e repassadas gratuitamente aos seus discípulos, como herança. Quem submete os fiéis à vivência da culpa e do medo ainda não teve a visão da cruz, nem tampouco adentrou o portal da graça, pela fé. Essa atitude impede que se ouçam os apelos pela liberdade, da “multidão” oprimida. (TAMEZ, 1995, p. 63).
A opção pelos sentimentos de culpa e medo (DELUMEAU, 2003) indica para muitos cristãos a não transposição dos limites da moral pessoal, individual. Não conseguiram enxergar o túmulo vazio; ainda estão presos exclusivamente às figuras do pecado e da morte. Estas figuras favorecem a quem se coloca a serviço de uma moral dominante (VVAA, 1980), enrustida e ‘congelada’. A concepção de pecado necessita ser permanentemente revisada pela teologia (LIBÂNIO, 1975, p. 14), a fim de que a graça de Cristo possa aparecer no horizonte do oprimido. Isso acontece porque “o problema do pecado é como um desses assuntos que sempre guardarão atualidade” (LIBÂNIO, 1975, p. 14). A vinculação à imagem da maldição da cruz, faz esquecer as bênçãos provenientes do túmulo vazio. Da ressurreição.
Os cristãos que se mantêm presos a um passado de medo e culpa não se realizaram, ainda, como cristãos. Medo e culpa, anulam o aspecto da dignidade humana. O texto de Paulo (Rm 5,12-21) não deve ser entendido como mensagem de depressão. Ele não abre ferida; ele cura ferida. A teologia de Paulo abre a porta do passado, da caverna do tempo, para a saída dos prisioneiros da morte e, ato contínuo, abre a porta da liberdade para que aqueles entrem por ela e respirem os ares do tempo da graça. Quem se aprisiona ao reino da morte é porque não entendeu a morte de Cristo.
Quem não morre com Cristo, também não ressuscita com Ele. Sem a experiência da ressurreição, que é a libertação da lei do pecado e da escravidão da morte (Rm 5,20), não há cristianismo. Os cristãos que assim vivem, ainda estão presos a uma moral tradicional (MORAL E VIDA CRISTÃ, 1980, p. 44), ‘fabricada’ por instituições cristãs, para fins de dominação (TAMEZ, 1995) e de indignidades. A dignidade humana é a essência do cristianismo. Não “se pode fazer uma moral da comunidade e/ou do povo sem se ter presente responsavelmente o valor e dignidade de cada pessoa concreta” (BRAGA, 1984, p. 15).
A opção por uma vida movida pela culpa e pelo medo da condenação, por causa do pecado, tem por opção os vícios, ou hábitos adquiridos e incrustados na ‘velha mente’, pela primeira infância. Mente de uma sociedade formada sob a égide de um reino antigo. Este reino da primeira infância tem uma mentalidade formada em Adão (Rm 5,12-13). Uma geração que não abraça o desafio da fé na justificação de Cristo, ainda vive da memória dos ancestrais, do pecado e da morte. “É da
interação pessoa-comunidade-povo que nasce a prática e a consciência libertadora [...] a serviço da construção da história segundo o projeto de Deus” (BRAGA, 1984, p. 15)
Quem ainda vive em um tempo permeado das figuras do pecado e do medo estão vivendo o período histórico antes de Cristo. (MORAL E VIDA CRISTÃ, 1980, p. 16). Não se acharam sequer como seres humanos porque essa consciência só aparece, junto com a prática da liberdade. Que sentido pode haver na pregação das boas novas da justificação pela fé (Rm 5,12-21), que dignifica o homem, se este prefere continuar escravo da indignidade do pecado?
A memória escrava é o maior empecilho para a multidão alcançar a liberdade, a dignidade e a justiça social. À memória genética da escravidão só interessa o pecado de Adão, sua expulsão do paraíso, a maldição da terra, o reino do pecado e da morte. Não há bem nenhum para lembrar. Não existe a experiência da liberdade para ser lembrada. Como escravos do pecado e da morte, o campo de ação se resume ao mundo, local onde o pecado entrou e se deu bem.
O que é o mundo? O mundo é a totalidade de nossa existência conforme está caracterizada pelo pecado. Ele consiste de uma parte EXTERIOR, fora de nós destacada de nosso interior; um Cosmos que não é “criação” porque já não conhecemos o seu Criador e, de outra parte, a INTERIOR, que está em nós e que se espelha [e se projeta], por sua vez, no Cosmos – que está ao redor de nós (BARTH, 2009, p. 262).
Ninguém alcançará a justificação se não sair da primeira infância, da qual Adão é o pai, e não adentrar a segunda infância cujo pai é Jesus.