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O Modelo de Sociedade, no Tempo de Paulo, Um Histórico de Traumas

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IMPERADORES ROMANOS NA ÉPOCA DO NOVO TESTAMENTO

1.2.6 O Modelo de Sociedade, no Tempo de Paulo, Um Histórico de Traumas

As sociedades, judaica e palestina, do séc. I, não eram monolíticas. Havia uma pluralidade social tanto do ponto de vista econômico, quanto do cultural, inclusive religioso. As cidades judaicas, p. ex., tinham enorme facilidade de se abrir às diversidades culturais dos outros povos por dois motivos. Primeiro, a Palestina é ponto de ligação comercial e militar entre os povos asiáticos, orientais, europeus e africanos. Segundo, porque o Estado judeu e a Palestina eram alvos constantes de

invasões por outras nações as quais, enquanto incorporavam sua cultura a essas nações, assimilava as delas.

Em relação à Judéia, no período que vai de 332 a.C., até a invasão de Jerusalém (70 d.C.) “o processo de helenização, que começou no início do período helenístico, afetou todo o país e finalmente a própria cidade de Jerusalém”. Nesse processo, “as cidades foram os principais agentes de helenização” (KOESTER, 2005, p. 213).

Enquanto boa parte dos moradores das cidades construídas era de macedônios e gregos, nelas ainda predominavam os “semitas helenizados: sírios, fenícios, árabes e, naturalmente, também israelitas” (KOESTER, 2005, p. 213). Essa amálgama étnica persistiu até, possivelmente, a invasão de Jerusalém, como mencionado acima.

Por isto se justifica que o escritor de Atos (2,1-11) mencione nominalmente e com muita naturalidade a presença, em Jerusalém, de aproximadamente dezesseis nações, além dos judeus e prosélitos, no dia de Pentecostes (30 – 33 d.C.). Nessa ocasião Paulo devia ter entre 20 e 23 anos.

“Paulo pode ter nascido na última década a.C. ou na primeira década d.C.” (ELLIOTT, 2010, p. 11). A passagem bíblica de Atos serve para esclarecer, no mínimo, dois fatos determinantes para uma análise do pluralismo social predominante na Judéia, onde Paulo residia. Primeiro era a quantidade de pessoas de outras nações que residia e transitava ali, disseminando sua cultura e seus costumes (At. 2,5). Segundo, era a facilidade com que os estrangeiros, os judeus nativos e os prosélitos entendiam uns aos outros, quando falavam.

Daí entende-se que cada idioma não era pertença exclusiva do seu respectivo povo, mas fazia parte de um compartilhamento cultural, de injunção e assimilação, entre as nações mais orientais, como a Síria, a Pérsia, a Babilônia, etc., (At. 2,7).

O idioma grego, mesmo que tenha sido incorporado à cultura palestina e judia, contudo, ao que se infere, não substituiu os idiomas nativos. “Ele não substituiu o aramaico como língua falada normalmente; a literatura religiosa continuou sendo escrita em hebraico, enquanto a Bíblia, ainda copiada em hebraico, foi traduzida em aramaico para uso nas sinagogas” (ELLIOTT, 2010, p. 226).

Analisando o aspecto sócio-econômico, inclusive nos dias de Paulo, Stegemann e Stegemann (2004) traça um perfil bem elucidativo. Na expressão dos autores a terra sempre aparece como alvo da cobiça da classe dominante, desde a antiguidade. Esta classe é representada pelas forças hegemônicas estrangeiras ou seus vassalos, apoiadas pela aristocracia judaica as quais estavam sempre em oposição aos interesses da classe dos agricultores, que era a maioria.

As atividades econômicas eram favorecidas pela grande parcela de terras cultiváveis, regularidade e abundância de chuvas em regiões como a da Galiléia. Havia uma consistente atividade pesqueira e facilidade de contato com as populações mediterrâneas. Mas não era só agricultura e pesca. Havia, igualmente, atividade artesanal, manufatureira e comercial (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.127).

No tempo de Herodes, O Grande, (fim do séc. I a.C.) a atividade de construção em larga escala “proporcionou trabalho e rendimento a muitas pessoas” (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.129), inclusive com a reconstrução do Templo, em Jerusalém.

O período de hegemonia ptolemaica ou helênica (séc. III a.C.) trouxe mudança substancial na política econômica e, conseqüentemente, no ordenamento social. Nessa ocasião havia uma economia voltada mais para atender aos interesses da casa real. Nesse período Ptolomeu instituiu o arrendamento e subarrendamento de tributos a “particulares e sociedades” (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.131) começando com este ato um processo de asfixia que fez que uma grande parcela das terras fosse para as mãos de poucos latifundiários.

A partir de então, o sistema de impostos e tributos estrangulava os pequenos agricultores que endividados, humilhados e escravizados perdiam suas propriedades para a classe dominante, constituindo-se esta prática uma das principais causas do surgimento das distinções de classes sociais e seus intermináveis antagonismos ((STEGEMANN e STEGEMANN, 2004). Foi um período foi marcado pelo surgimento de duas classes dominantes, a dos estrangeiros invasores e a dos nativos, de Israel, que apoiavam os primeiros. É desse período a figura do cobrador de impostos nativos, os “publicanos”.

Sob os selêucidas (domínio helênico/sírio) houve uma isenção de impostos para Jerusalém, porém “no que tange à política tributária, piorou a situação para a

população judaica” (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p. 133) e sob os hasmoneus (período dos macabeus séc. II e I a.C.) não houve muita mudança econômica visto que os mais de cem anos de guerra macabéia tiveram um pesado ônus que precisava ser pago pela população.

Quanto às mudanças durante a “supremacia romana e herodiana” Stegemann e Stegemann (2004, p.134) afirmam que os conflitos de terra e os altos impostos foram um retrocesso em relação às parcas conquistas dos períodos anteriores. Herodes, o Grande, vassalo de Roma, imprimiu um ritmo acelerado de construções (inclusive do Templo), pagou altos tributos a Roma, além de concentrar enormes parcelas de terra em seu poder. “Endividamento e desapropriação dos pequenos agricultores são, pois, a característica dessa época romana” (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.136).

A vasta exposição histórica dos ciclos de poder em Israel, segundo os autores, sempre redunda em dominação dos ricos sobre os pobres com o consequente aumento destes. O critério de dominação era recolher impostos estatais e religiosos e a finalidade era o incremento do poder e o enriquecimento de poucos à custa da crescente miséria de muitas pessoas.

Nem a religião escapava e o símbolo desta era a presença dos cambistas e vendedores de animais, a serviço do Templo e dos sacrifícios, em Jerusalém. “As principais famílias sacerdotais da Transjordânia, Jerusalém e de Samária, estreitamente ligadas por vínculos matrimoniais, eram todos helenizados. Porém, segundo Elliott (2010, p. 214) o contraste entre a religião nativa e tradicional, e a helenização acelerada até então, “não era em si causa suficiente para uma revolução sangrenta”.

As convulsões sociais fomentaram-se, de fato, por dois importantes fatores surgentes no cenário político-religioso da Palestina. Primeiro, foi a sobrecarga tributária e ideológica imposta à região pelos romanos, através das forças ptolemaicas (Egito) e dos selêucidas (Síria).

Em segundo lugar foi o surgimento de “elementos de apocaliptismo utópico, que vinham adquirindo força desde o tempo do exílio”, os quais encontraram ampla aceitação nas camadas mais populares da sociedade (ELLIOTT, 2010, p. 214). “O segundo século da época helenística caracteriza-se por inúmeros movimentos

revolucionários em que conceitos utópicos assumem papel de grande relevância” e vão se proliferando, até o ano 70 d.C.

Essa sucessão de conjunturas patrocinadas por forças políticas externas ocasionou o surgimento de “movimentos de protesto” tanto violentos quanto pacíficos. “Na revolta macabaica, o movimento contra a aristocracia abastada foi liderada por pessoas pobres do interior” (ELLIOTT, 2010, p. 214). Talvez porque tenha sido nesse estrato social que o messianismo ganhou mais espaço. “O seguimento de Jesus” mais tarde denominado ‘cristianismo’ (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.124), é um desses movimentos de caráter pacífico, mas com notável importância social.

Abaixo são descritos, de acordo com a classificação de Stegemann e Stegemann,8 (2004) alguns estamentos que compunham as sociedades e, especialmente, a israelita, no séc. I:

Elite ou grupos do estrato superior: compondo este estrato social havia a aristocracia provincial, a casa regente herodiana, a aristocracia sacerdotal e leiga e os membros isolados do Sinédrio.

Séquito (retainers): imediatamente abaixo da elite estava o estrato composto pelos membros isolados do Sinédrio, funcionários administrativos e militares, sacerdotes e mestres da lei, juízes locais, arrendatários de tributos (publicanos) e grandes comerciantes.

Não-elite ou estrato inferior: Eram os artífices bem-situados, comerciantes, agricultores, arrendatários e os diversos ramos de prestação de serviços. Os elementos desse estrato tanto habitavam as cidades quanto os campos.

O Mínimo necessário à existência: Os indivíduos que compunham esse que sequer era denominado de classe eram os pequenos agricultores, pequenos arrendatários, pequenos comerciantes e manufatureiros, diaristas, pescadores, pastores, viúvas, órfãos, prostitutas, mendigos, bandidos que residiam na cidade e no campo (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p.163).

Em suma, verifica-se que em todas as abordagens sobre o modelo de sociedade nos tempos de Paulo (séc. I) o mote sempre gira em torno da terra. Ou seja, a sociedade de então é eminentemente agrária e pobre.

8

“Pirâmide social 2: Estratificação social da sociedade judaica na terra de Israel (sem os grupos religiosos)”. Gráfico na p. 163

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