PARTE I – O MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM
2.1 ANTES DO MST: MEMÓRIAS PESSOAIS E SOCIAIS
Como viviam as pessoas entrevistadas e o que faziam antes de ingressarem no Movimento Sem Terra?
– “A gente sempre viveu disso”: vinculações com o campo
Todos os homens e mulheres participantes da pesquisa têm algum tipo de ligação com a zona rural, através da agricultura, do extrativismo de recursos naturais e da criação de animais, mesmo quando provenientes das áreas urbanas. Explica Afonso:
Eu sempre fui camponês e, até a década de 1970, muitas famílias viveram no campo, inclusive a nossa. E com a mecanização na década de 1970 e começo da década de 1980, o êxodo rural atingiu essas famílias de um modo brutal, porque antes da mecanização a mão-de-obra no campo era só de camponeses. A partir desse momento, esse trabalho foi substituído pelo trator. Então foram dez anos de um êxodo rural enorme. Essas famílias todas, que eram arrendatários, parceiros, meeiros, ou então aquele camponês que tinha terra suficiente para sua família, mas que tinha o filho que ia casar e constituir uma nova família, esse pessoal todo ficou sem acesso à terra. Eu era um camponês nesta situação. E essa enxurrada de famílias saindo da área rural, substituídas pelo trator. Era o tal milagre verde, e eu também fui uma das famílias que deveria deixar o campo. E nessa época, a Igreja Católica e a luterana, através das pastorais rurais, começaram a mostrar para o povo que a terra deveria ser de quem nela trabalha e que dela precisa para sobreviver. Então, com esse lema: Terra de Deus, Terra de Irmão!, conseguiram fazer uma coletivização tal que essa pastoral da terra ficou muito forte. Isso fez com que essas famílias refletissem: bom, temos que deixar a área rural, deixar o campo, então, vamos fazer o quê na cidade? Foi nesse momento que começou a surgir a idéia do povo se organizar. Então também a minha origem é desse ponto. No começo já da década de 1980, surge, e se fortalece, essa idéia de que esse povo tem que se organizar, ter um movimento. Nesse primeiro momento se apostou muito no movimento sindical, o sindicato dos
trabalhadores rurais de uma linha sindical combativa, um sindicalismo voltado para defender os interesses desse povo que ficou marginalizado [...]. E os padres e os pastores que faziam essa pastoral forte sempre diziam: não é a Igreja que tem que fazer o movimento; a Igreja tem que mostrar que há solução para esse problema, há terra, e muitas famílias que precisam da terra. Então nós conseguimos ganhar os sindicatos de alguns municípios aqui da região, especialmente Medianeira, em 1983-1985. E foi aqui na nossa região, especificamente, que coincidiu com o enchimento do Lago de Itaipu e que afetou alguns municípios aqui, pelo tamanho que era Itaipu: houve problema com as famílias que não possuíam título de propriedade. A desapropriação e a indenização eram para o proprietário, que tinha escritura. E todas as famílias de parceiros, arrendatários, meeiros que moravam na região e ainda não tinham saído, porque não tinham para onde ir, teriam que deixar a área do alagamento, porque a água pegaria. Então esses viraram um problema concreto e urgente. (AFONSO, 51, Paraná, Assentado, Frente de Massa).
No tempo em que se aproximaram do Movimento eram, ou tinham sido, trabalhadores e trabalhadoras rurais: pequenos agricultores – ou filhos(as) e netos(as) destes, que herdaram pequenos pedaços de terra de suas famílias ou que ajudavam seus pais –, arrendatários, meeiros, assalariados rurais, bóias-frias nos cafezais, canaviais ou plantações de algodão, posseiros, capatazes de grandes fazendas, parceiros, técnicos agrícolas em imóveis rurais, peões, mulheres que se dedicavam aos serviços da casa ou à plantação de hortaliças e ervas medicinais. Relatam duas assentadas:
Eu nasci em um povoado numa região cafeeira, e a gente, como sem terra daquela região, éramos famílias de meeiros. A gente trabalhava como meeiros ou bóias-frias nos cafezais, numa região que fica no distrito de Inhobim, no município de Vitória da Conquista, na Bahia. Então meus pais tiveram duas filhas. Até quatorze anos de idade a gente trabalhava ainda desta forma, nos mais diferentes serviços que existem na lavoura cafeeira, desde fazer a muda de café até plantar a muda, adubar cova, fazer as colheitas. A gente sempre viveu disso. É claro, evidente, que nunca deu para ter uma vida digna e também nunca deu para a gente se sentir bem, pelo fato de não possuir o concreto, que é a terra. Então, a terra sempre foi um grande sonho do meu pai e com certeza da família inteira: minha, de minha irmã e de minha mãe, que era uma forma que a gente pensava de encontrar estabilidade. (ROSELANDIA, 25, Bahia, Assentada, Setor de Educação).
Meu pai veio para o Estado do Pará. E minha mãe é piauiense. Em conseqüência de grandes projetos ela também veio para o Estado e se encontraram. E o meu pai, desde que chegou aqui, sempre trabalhou com latifundiário. Desde o princípio... Foi durante mais de vinte anos uma espécie de braço direito de um dos latifundiários mais importantes da região. Era o dono de uma fazenda do grupo Bamerindus, na época uma grande fazenda, era um grande grupo que depois foi perdendo o poderio
econômico. Mas meu pai era uma espécie de capataz. Essas pessoas que, entre aspas, a gente chama de capataz, mas a gente imagina que cumprem as ordens do fazendeiro. E fazem tudo. Uma espécie de braço direito mesmo. (POLIANNE, 21, Pará, Assentada, Setor de Formação).
Dois participantes da pesquisa aliaram-se casualmente aos(às) Sem Terra quando a fazenda em que trabalhavam foi ocupada, optando pelo acampamento.
– “Nós saímos da roça sem nada...”: exploração, expropriação, migração
Os trabalhadores e trabalhadoras rurais que aderiram ao MST eram submetidos à exploração em seus trabalhos, expropriação de suas propriedades ou saída compulsória das terras em que viviam, como recorda dona Roseli:
Qual é o nosso lema? É conseguir lutar por um pedaço de terra. Porque você vê, nós trabalhamos dez anos em terra dos outros, na roça, de meia com os outros e o quê que nós tivemos? O patrão tem a meia dele livre, você paga o adubo, tem a manutenção todinha, no final sobra o quê para você? Nada! Não sobra nada. As contas do dia-a-dia, filho estudando, comida, roupa... Não sobra nada, para você fazer nada. Nós saímos da roça sem nada! (ROSELI, 45, Acampada, São Paulo, Cozinheira).
Essas pessoas eram impelidas à migração47 para vilarejos, sedes dos municípios em que habitavam ou capitais dos Estados, muitos com passagem pela cidade de São Paulo. Nesses locais, trabalhavam como operários, notadamente em indústrias paulistas, vendedores(as) ambulantes, empregadas domésticas (mães ou filhas), auxiliares administrativos ou ajudantes de serviços gerais em empresas privadas, serventes, merendeiras ou faxineiros(as) em escolas públicas, pasteleiro, doceiras, biscateiros. Um deles era aposentado, outros estavam desempregados. Aqueles(as) que viviam em seminários ou conventos da Igreja Católica ocupavam-se de atividades missionárias ou trabalho pastoral nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Os que se vinculavam a movimentos religiosos de jovens dedicavam-se à catequese e ao trabalho voluntário nas pastorais.
47 Sobre os(as) migrantes como demandatários das terras pelas quais luta o MST, assim se expressa Graziano
(2004, p. 36): “Estima-se que 28,4 milhões de pessoas deixaram o campo entre 1960 e 1980, criando-se uma população urbana que enfrenta problemas de emprego e renda e que se torna vítima tanto desse processo quanto das ações do MST, que ali recruta sua massa de manobra.”
– “A gente tinha a oportunidade de conhecer outras pessoas e organizações”: experiências com grupos populares organizados
Tanto os homens quanto as mulheres destacaram algum tipo de ligação com organizações populares dos locais de precedência, principalmente sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais, associações de bairros, movimentos estudantis, movimentos sociais de atingidos por barragens ou de agricultores sem-terra ou militância em federações de trabalhadores da agricultura no Sul e Centro-Oeste do Brasil. Verifica-se, ainda, a participação de quase todos os sujeitos nas Igrejas Católica e Luterana, através das pastorais rurais, particularmente a Comissão Pastoral da Terra – CPT. Jonas e Judite são exemplos de pessoas que participaram de sindicatos e outras organizações da classe proletária:
Eu nasci em Linhares, Espírito Santo, e com dois meses de idade a gente já migrou para Mato Grosso, onde morei até os 14 anos, sempre no sítio. Meu pai conseguiu um sítio e os filhos trabalhavam junto. Em 1977, a gente foi embora para Rondônia, porque Mato Grosso não dava mais para viver, cercados pelos médios proprietários. Com a questão da colonização de Rondônia, a gente acabou indo embora para lá, em 1977. Também continuei trabalhando no sítio junto com eles, até que a gente foi crescendo, eu e meus irmãos. O sítio acabou ficando pequeno para todo mundo trabalhar... E eu já tinha começado a participar da vida das comunidades, participava do sindicato. (JONAS, 43, Rondônia, Assentado, Setor de Educação).
Então minha mãe criou sete filhos, sempre trabalhando na roça. Meu pai também. Mas teve uma época que meu pai começou a participar de outras atividades: ingressou no sindicato, nas associações. Minha mãe também, fazendo parte dessas organizações que a gente conhecia na comunidade onde a gente morava. E meu pai foi presidente dos sindicatos dos trabalhadores rurais em Ribeirão Branco, que é a cidade onde eu nasci e onde vivi até os 14 anos. E como a gente fazia parte de igrejas, comunidades eclesiais de base, associações, sindicatos, a gente tinha a oportunidade de conhecer outras pessoas e organizações também. (JUDITE, 22, São Paulo, Acampada, Setor de Educação).
– “A escola era muito longe, a gente sofria para ir estudar”: dificuldades no processo de escolarização
No campo, os(as) trabalhadores(as) submetiam-se à exploração da sua força de trabalho, exercendo atividades exaustivas e pessimamente remuneradas, inclusive com a utilização da mão-de-obra infantil, para complementação da renda familiar. As escolas
situavam-se em locais muito distantes, obrigando crianças e jovens, predominantemente, a caminharem até doze quilômetros, apenas no caminho de ida para as instituições em que estudavam. Não raro os filhos e filhas, sempre numerosos, eram obrigados a separarem-se, para que seus pais pudessem assegurar-lhes o sustento e o estudo. Desse modo, iam morar com outras famílias ou com parentes nas pequenas cidades, ingressavam escolas agrícolas de tempo integral ou em instituições religiosas. Ainda assim tinham restrições concernentes ao ingresso e permanência na escola, pelas dificuldades em obter uniforme e materiais escolares, como lembra Edileuza:
Sou filha de pequeno agricultor. Meu pai vivia lá num pedacinho de terra que era dos meus avôs, herança de família, mas um pedacinho pequeno, que não tinha nenhuma condição: nem água. Era muito difícil. A gente passava muita dificuldade, a escola era muito longe, a gente sofria para ir estudar, andava não sei quantos quilômetros para ir à escola e só tinha até a 4ª série. Só que meu pai era muito ligado a essas coisas de igreja, minha mãe também. Começou aquele negócio da CPT. Depois eles começaram a participar do sindicato. Naquela época o sindicato era bem rural, de ajudar as pessoas na agricultura, até conquistar a terra. (EDILEUZA, 34, Espírito Santo, Assentada, Setor de Formação).
– “Nessa favela, a gente morando num barraquinho, que molhava tudo quando vinha chuva”: dificuldades de sobrevivência e subsistência
Todas as condições adversas experienciadas pelas pessoas provocavam a mudança periódica de uma região para outra, especialmente a migração para as cidades, na tentativa de melhores condições de existência, como fez Gislene e sua família:
Meu pai é soldador de manutenção e trabalhava nas indústrias em São Paulo. Minha mãe iniciou a vida como doméstica. Eu tenho duas irmãs e a gente cresceu no meio urbano. Mas meu pai ficou muito cansado da vida que levava, muito sofrida. Então, minha família tomou a decisão de retornar ao Estado de origem, para começar uma vida nova, próximo da família. Estava muito difícil o lado financeiro. Minha mãe deixou de trabalhar em casa de família, começou a fazer pecinha para aparelho de televisão. Eu e minhas irmãs ajudávamos, virando a madrugada, colando pecinhas para vender para a fábrica e ela tirar uma porcentagem disso. Teve uma época também que mãe precisou trabalhar como vendedora ambulante de roupas: ela pegava a roupa e a gente saía vendendo pelos bairros de São Paulo. Estava muito difícil a vida lá. Então, tomamos uma decisão e, em 1994-95, a gente veio para Sergipe, onde, com a ajuda dos tios, começamos uma nova vida. Fomos para a cidade, a princípio na capital, Aracaju. Mas estava muito difícil, porque a gente não tinha condições de pagar aluguel e nem de manter a casa. Então, meu pai foi até a cidade de Laranjeiras, onde tinham
alguns amigos. A gente conseguiu adquirir uma casa e começou uma nova vida. Tivemos possibilidade de continuar os estudos. Foi uma das coisas que meus pais sempre até se sacrificaram muito, para que a gente nunca parasse de estudar. A partir do 2º grau, cada uma de nós foi pensando que a gente tinha de fazer alguma coisa também. Então a gente vendia produtos de revistas, para ajudar em casa. E meu pai, mesmo com a aposentadoria especial, conseguiu outro trabalho de soldador para adquirir mais renda. O meu avô tinha um sitiozinho e ele entrou para o sindicato dos trabalhadores rurais sem terra, dos trabalhadores rurais, sindicato. (GISLENE, 23, Sergipe, Assentada, Setor de Formação).
Em suas narrações, as personagens dessas histórias vividas dão grande relevo à situação crítica experimentada, muitas vezes de indigência, outras de enormes dificuldades de reprodução da vida material – moradia, alimentação, água potável, vestuário, segurança, condições de higiene pessoal, eletrificação, saneamento básico, prevenção e atenção básica à saúde –, bem como de assegurar condições de escolarização para si mesmas ou para sua prole. Sem casa própria, domiciliavam-se em residências alugadas ou emprestadas de amigos, obrigando-se a mudanças constantes, além de construírem barracos nas favelas. Parte das pessoas vivia em condições subumanas, como historiado por Cristiane:
Nossa vida na cidade foi perambulando mesmo: várias casas, não tinha um lugar fixo... Meus pais sempre mudando de emprego. Nós moramos em Dourados (MS), em fazendas também. Meu pai trabalhou como peão. Minha mãe também. Fiquei na cidade com meus avôs. A situação financeira muito difícil, morando em favelas. Os últimos meses que a gente morou em Dourados, antes de ir para o acampamento foi favela: doação do lote via prefeitura. Nós estávamos ainda morando num barraquinho, construindo a primeira casa, numa favela. E, às vezes, a gente trabalhava de bóia-fria. Meu pai trabalhava de bóia-fria, catar algodão em grandes fazendas, grandes latifúndios. Tive só uma experiência de catar algodão, mas no meio do caminho aconteceu um acidente, os policiais mataram um índio dentro do caminhão [...]. E fiquei bem traumatizada com aquilo, que eu ia trabalhar para comprar um uniforme da escola, que não podia entrar sem uniforme. Essa foi minha primeira experiência de ir para a roça de algodão, de bóia- fria. No mais, a gente tinha muita dificuldade de alimentação, de moradia. Nós ficávamos mais com a avó, para os pais trabalharem. Minha mãe trabalhava de doméstica e tínhamos dificuldade de ter materiais escolares e estudar de uniforme limpo, que era uma exigência. Mas meus pais sempre batalhando para a gente conseguir um. E nossa família tem uma história de pobreza mesmo. E numa dessas crises, meu pai desempregado, minha mãe trabalhando de doméstica nessa favela, a gente morando num barraquinho, que molhava tudo quando vinha chuva, passaram as pessoas do MST fazendo trabalho de base... (CRISTIANE, 23, Minas Gerais, Coletivo Nacional de Gênero).
O trabalho de base a que a narradora se refere é a atividade que o(a) militante faz com as massas urbanas para organizá-las. Através dessa ação, o MST tem agregado diferentes tipos de trabalhadores(as) assalariados(as), desempregados(as), moradores de rua, configurando um novo perfil para os(as) acampados(as) e assentados(as). Em duas entrevistas sobre o assunto, Francisco Graziano discorre sobre a nova feição dos(as) Sem Terra, afirmando, em dezembro de 2004: "O estoque de militantes está se extinguindo, e, por isso, o MST precisa recrutar nas cidades. [...] Eles estão fabricando sem-terra." (RIZEK, 2004, p. 64). Alguns meses antes, em entrevista concedida ao jornalista José Edward (2004, p. 68), assim se referia ao que denominou de “incrível fábrica de sem-terra montada pelo movimento”:
O MST transforma, como que num passe de mágica, desempregados urbanos que nunca plantaram um pé de couve, em trabalhadores sem-terra. [...] Essa fábrica de sem-terra precisa ser desmascarada, sob pena de o país ficar eternamente refém dela. A lógica desse processo é equivocada, pois está alicerçada na idéia que pressupõe ser possível transformar párias em agricultores eficientes em pleno século XXI.
Em face de posições como esta, cabem duas indagações: para ser agricultor ou agricultora será mesmo necessária uma habilidade inata, uma disposição natural geneticamente herdada, ou então capacidades adquiridas pelas experiências anteriores de vida e de trabalho no campo? O que dizer das possibilidades de aprendizagem que têm as pessoas no sentido da aquisição de competências para lavrar a terra ou criar animais, como ocorre no exercício de atividades na indústria ou no comércio?
A quase totalidade dos(as) narradores(as) relata de forma muito resumida a sua situação existencial anterior à inserção no MST. Considerando a seletividade da memória e a diversidade de motivos que condicionam a triagem das recordações, penso que a brevidade das exposições pode tanto ser conseqüência da evitação de lembranças dolorosas, quanto da atribuição de maior importância aos acontecimentos posteriores às suas vinculações ao Movimento.
2.2 O MOVIMENTO DE APROXIMAÇÃO E INSERÇÃO DOS SUJEITOS NO MST