PARTE II PRÁXIS POLÍTICA E PRODUÇÃO DE SABERES NO MST
3.2 APROFUNDAMENTO DA CAPACIDADE DE COMPREENSÃO
A participação de homens e mulheres nas atividades organizativas dos movimentos sociais populares converge para a apreensão da realidade, para representações e práticas sociais e culturais e conseqüente socialização política desses sujeitos.
A aprendizagem neste capítulo, relacionada em um sentido mais estrito à aquisição de conhecimentos, habilidades e significações, é construída através de um processo interativo, no qual informações recentes integram-se aos aspectos relevantes da estrutura cognitiva anterior do indivíduo: conteúdos são agregados aos conhecimentos prévios do sujeito. As idéias relevantes são apropriadas e relacionadas de forma substancial com o que as pessoas já conhecem, ampliando seus aprendizados, estes tornados potencialmente mais inclusivos.
Tal conhecimento é construído pelos(as) Sem Terra a partir de suas experiências ativas com a natureza e com os objetos produzidos pelos seres humanos, mas prioritariamente através das interações sociais – intercâmbio de idéias entre pessoas –, considerando-se também os condicionantes socioculturais.
No MST os processos formais ou informais de ensino – propostos na forma de relações educativas horizontais e dialógicas – objetivam a elaboração de conhecimento a
61 Cidadania, neste texto, refere-se à participação ativa de pessoas e grupos que, através de suas ações, avocam a
condição de sujeitos na conquista, manutenção e ampliação de direitos civis, políticos e sociais assumindo, portanto, a condição de protagonistas da sua própria história.
partir das relações recíprocas entre pensamento e prática e, por conseguinte, o desvelamento da realidade e a formação da consciência crítica. Mas essa aprendizagem é efetivada principalmente porque há uma disposição expressiva nesse sentido de parte da maioria das pessoas, além da influência significativa do material didático utilizado, visando atender aos objetivos pretendidos pelo Movimento.
Assim, os conhecimentos que os atores sociais engajados na práxis política do MST adquirem contribuem para o aprofundamento das suas possibilidades de decifração do mundo e leitura crítica da realidade, como explicam Valdemar e Jonas:
E no Movimento fui aprendendo a ler e escrever melhor. E posteriormente a dominar o mundo. Ver o mundo com a minha visão, não com a visão dos outros. (VALDEMAR, 31, Bahia, Assentado, Setor de Formação).
Várias vezes eu me pergunto como estaria se não tivesse entrado no MST. A gente fica se perguntando: se não fosse o MST, aonde é que a gente estaria? Acho que estaria ainda naquele mundinho ali reduzido, simplesmente numa pequena propriedade, onde era o mesmo que a gente estar dentro de um poço, que a gente não conseguia ver praticamente ao redor da gente. E assim dentro do MST acabou abrindo várias visões, vários horizontes. (JONAS, 43, Rondônia, Assentado, Setor de Educação).
Contribuem, também, para o autoconhecimento e autocompreensão: um entendimento da realidade e de si mesmos que possibilita a transformação do mundo e dos seres humanos, através da passagem do pensamento à ação. “O homem age conhecendo, do mesmo modo que [...] se conhece agindo” (VÁZQUEZ, 1990, p. 192).
Os(as) Sem Terra, ao adquirirem informações mais precisas sobre coisas que desconhecem, ao aprenderem aquilo que representa novidade, revelação sobre algum aspecto da sociedade ou sobre si mesmos, alteram seu psiquismo: atendem ao desenvolvimento de funções gnosiológicas e intelectivas, que se caracterizam por comportar a capacidade de compreensão relativa a diferentes aspectos estruturais e conjunturais da vida social. A propósito da compreensão da realidade propiciada pela participação nas lutas do MST, enfatiza Erinaldo:
Principalmente sobre essa questão da compreensão das relações sociais... Eu acho que esse é o grande prêmio que o Movimento dá para todos os seus militantes, assentados, mulheres, homens, crianças, jovens, idosos. É a realidade do que é a sociedade que nós vivemos e a perspectiva de uma sociedade diferente. Essa compreensão é o grande prêmio que o Movimento mostra pra todo mundo. (ERINALDO, 28, Maranhão, Assentado, Direção Estadual do MST).
As interrogações, as especulações, as descobertas, as formulações, análises, generalizações, enfim, a interpretação do real, possibilita a cada pessoa uma concepção sobre o mundo e sobre elas mesmas, bem como a elaboração – inicialmente na dimensão do pensamento – das alternativas para as mudanças micro e macro-estruturais que consideram necessárias à humanização das pessoas e da sociedade. A aprendizagem da pergunta é ressaltada por Neiva e Roselandia:
Depois que eu passei a fazer parte do MST mudei muito. De uma pessoa alienada, passei a ser uma pessoa questionadora, capaz de questionar e de me questionar. (NEIVA VÍVIAN, 40, Rio Grande do Sul, Assentada, Setor de Produção).
Aprendi muito! Para resumir, aprendi a perguntar: porque é que tem sem terra? Por que essas pessoas estão assim numa vida tão miserável? O que elas já viveram? Tenho muita curiosidade. Quando chego em áreas que nós estamos organizando, gosto de bater papo com os assentados ou acampados e costumo perguntar o que eles já viveram antes de chegar ali. E, às vezes, eles me contam coisas inacreditáveis, as barbaridades que já sofreram. Então eu aprendi assim: tudo que existe tem uma causa e nós temos que diagnosticar e tentar transformar a realidade em que essa pessoa, o sujeito, se encontra. Então, em todo esse processo que vivo no Movimento, posso dizer que aprendi muita coisa, mas a coisa que fica mais prevalecida dentro de mim são as interrogações diante de tudo que vejo, as interrogações no sentido de querer mudança, de saber o porquê. E vamos fazer o que para melhorar? Então as interrogações existem para mim em qualquer trabalho, teórico ou prático. O Movimento me ensinou a perguntar. (ROSELANDIA, 25, Bahia, Assentada, Setor de Educação).
A necessidade de saber, muitas vezes relaciona-se ao combate às angústias e temores das pessoas jovens e adultas, pois o desconhecido, o obscuro, o imprevisto, o incomum são entes e episódios capazes de intimidar, de suscitar medos. Assim, conhecer e compreender as coisas são meios de familiarização, previsão, controle, isto é, elas se tornam inofensivas, controláveis e não mais assustam. O conhecimento, portanto, pode contribuir para o desenvolvimento de funções cognitivas, como também para a redução de ansiedades.
Conhecer as coisas, compreender seus significados, questionar, teorizar, proceder a uma decifração crítica do mundo, isto faz com que as pessoas se sintam mais perceptivas, competentes, habilidosas, produtivas, menos imperfeitas, mais fortes e mais sabidas. Consideram-se, então, mais inteligentes, evidenciando uma concepção de inteligência relacionada a um repertório de informações e competências que pode ser incrementado mediante o empenho pessoal.
3.3 ASSIMILAÇÃO DE UM CONJUNTO DE CONVENÇÕES SIMBÓLICAS,