7 APRESENTANDO E ANALISANDO OS ADOLESCENTES E JOVENS
7.5 ANTES E DEPOIS DO PRIMEIRO CONTRATO DE APRENDIZAGEM
No Quadro 6 são apresentadas as atividades profissionais e a relação com o trabalho dos jovens antes e depois de estabelecer Contrato de Aprendizagem.
QUADRO 6 – ATIVIDADES PROFISSIONAIS ANTES E DEPOIS DO PRIMEIRO CONTRATO DE APRENDIZAGEM
JT ANTES DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM APÓS FINALIZAR CONTRATO DE APRENDIZAGEM134
JT 1
Trabalho informal: Costureiro em Fábrica de Tapete (R$90,00 por semana);
Empacotador de supermercado (R$20,00 por dia);
Ajudante de pedreiro (R$50,00 por semana)135
Aprendiz: Curso de Aprendizagem em logística136
Estagiário: área administrativa;
Trabalho formal: Vendedor em uma loja de autopeças;
Trabalho informal: Construção civil (ajudante de pedreiro)137
JT 2 Trabalho informal: Auxiliar em escritório de contabilidade138 (R$25,00 por dia)
Aprendiz: Curso de Aprendizagem em Construção Civil139
134 O último trabalho apontado no quadro,era o que estavam realizando no momento da coleta de dados para a pesquisa.
135 Começou a trabalhar com 12 anos de idade.
136 Estabelecendo assim, um novo Contrato de Aprendizagem, porém, realizava o curso de aprendizagem em uma ONG localizada no município de Curitiba.
137 Só realiza tal atividade quando precisa de dinheiro.
138 O proprietário do escritório de contabilidade era um primo e o jovem só trabalhava quando era solicitado. Também relata que realizava as atividades quando tinha 13 anos de idade.
JT ANTES DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM APÓS FINALIZAR CONTRATO DE APRENDIZAGEM134
JT 3
Trabalho informal: Auxiliava o pai - que era eletricista autônomo (sem
remuneração)140
Trabalho informal: Garçon em uma pizzaria; Trabalho formal: Ajudante de mecânico de
automóveis
Trabalho informal: Auxiliar administrativo em um depósito
JT 4 -Não realizou nenhuma atividade antes do Contrato de Aprendizagem
Trabalho formal: Auxiliar administrativo141 Aprendiz: Curso de Aprendizagem em
Produção Industrial142
JT 5 Não realizou nenhuma atividade antes do Contrato de Aprendizagem Desempregada
JT 6
Trabalho informal: Empacotador em loja de Utilidades Domésticas (R$25,00 por dia);
Trabalhava com o pai, carregando e descarregando caminhão (R$100,00 por dia)143
Trabalho informal: Carrega e descarrega caminhão
JT 7 Trabalho informal: Entregador de marmita (R$20,00 por dia)144; Estagiário: Auxiliar de produção
JT 8
Trabalho informal: Servente de pedreiro (R$45,00 por dia);
Empacotador de mercado (R$20,00 por dia);
Entregava panfleto na rua (R$25,00 por dia)145
Desemprego
Trabalho Formal: Atendente de farmácia; Auxiliar Administrativo em almoxarifado; Porteiro; Operador de máquina.
JT 9
Trabalho informal: Atendente de panificadora – balconista (R$40,00 por dia);
Auxiliava na fabricação de produtos de limpeza (R$400,00 por mês – 4 horas por dia)146
Trabalho informal: Atendente de panificadora (balconista)
JT 10
Trabalho informal: Diarista (R$70,00 por dia – trabalhava dois dias na semana);
Vendedora de loja (R$430,00 por mês – oito horas diárias)147
Estágio: Auxiliar administrativo Trabalho formal: Atendente em uma
copiadora
Aprendiz: Curso de Aprendizagem Básica em Mecânica Industrial148
Desempregada
JT 11 Não realizou nenhuma atividade antes do Contrato de Aprendizagem Estágio: Auxiliar administrativo
JT 12 Não realizou nenhuma atividade antes Aprendiz: Curso de Aprendizagem em
139 Estabelecendo assim, um novo Contrato de Aprendizagem, porém, realizava o curso de aprendizagem em uma ONG localizada no município de Curitiba. A data deste novo contrato de aprendizagem é de 2 de dezembro de 2016 à 22 de outubro de 2018.
140 Relata que desde os nove anos de idade auxiliava o pai, no entanto, ocorria no contra turno escolar, pois não tinha como ficar sozinho em casa.
141 Após finalizar o contrato de aprendizagem, não foi efetivada, porém, cinco meses depois, ocorreu a efetivação na empresa em que foi aprendiz.
142 Estabelecendo assim, um novo Contrato de Aprendizagem, porém, realizava o curso de aprendizagem em uma ONG localizada no município de Curitiba.
143 Na época, relata que tinha 14 anos de idade 144 Na época, relata que tinha 12 anos de idade. 145 Na época, relata que tinha 12 anos de idade. 146 Na época, relata que tinha 14 anos de idade. 147 Na época, relata que tinha 12 anos de idade.
148 Num novo Contrato de Aprendizagem. O mesmo foi realizado no SENAI ARAUCÁRIA, porém, em outra modalidade da vivenciada anteriormente.
JT ANTES DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM APÓS FINALIZAR CONTRATO DE APRENDIZAGEM134
do Contrato de Aprendizagem Logística149
JT 13 Trabalho informal: Auxiliava o pai que era mecânico industrial autônomo150 (15 anos de idade)
Trabalho formal: Auxiliar de produção151 Desempregado
FONTE: A pesquisadora (2017)
Diante destes dados, percebe-se que, antes de se tornarem aprendizes, estes jovens e adolescentes, em sua maioria, além de se relacionar com o trabalho de forma extremamente prematura, vivenciaram a informalidade e a ilegalidade, demonstrando que ainda há muito que se fazer para erradicar ou até mesmo amenizar a condição do trabalho infantil na sociedade brasileira.
Justificando essa percepção, podem se verificar as atividades laborais relatadas pelos participantes da pesquisa – principalmente pelos JT1, JT6, JT7, JT8, JT9 e JT10 - eram ocupações que não somente exigiam força física, mas também cognitiva, ou seja, atividades laborais que violavam a proteção integral estabelecida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e são consideradas, pelo Decreto Lei nº 6.481, de 12 de junho de 2008152, como as piores formas de trabalho infantil153. Como se pode notar, além de vivenciar o trabalho prematuramente, obrigaram-se a amadurecer e se responsabilizarem por atividades e situações requeridas a um trabalhador adulto.
Outros participantes da pesquisa também relataram ter vivenciado o trabalho desde muito cedo, como é o caso dos JT2, JT3 e JT13. Enfatizaram, porém, que as atividades laborais eram realizadas no seio familiar como forma de proteção e de ensinamento. Também destacaram que auxiliavam no trabalho quando necessário, diferente dos citados acima, que se obrigavam a trabalhar para auxiliar no sustento familiar ou para poder comprar o que almejavam.
149 Estabelecendo assim, um novo Contrato de Aprendizagem, porém, realizava curso de aprendizagem em uma ONG localizada no município de Curitiba.
150 Na época, relata que tinha 15 anos de idade. Entretanto, destaca que auxiliava o pai quando era solicitado e de tempos, em tempos, o pai dava uns R$100,00 reais prá ele gastar como quisesse. 151 Foi contratado pela empresa após finalizar o Contrato de Aprendizagem, com salário de
R$1.860,00 reais. Realizava as mesmas atividades quando era trabalhador aprendiz.
152 “Regulamenta os artigos 3o, alínea “d”, e 4o da Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata da proibição das piores formas de trabalho infantil e ação imediata para sua eliminação, aprovada pelo Decreto Legislativo no 178, de 14 de dezembro de 1999, e promulgada pelo Decreto no 3.597, de 12 de setembro de 2000, e dá outras providências”. (BRASIL, 2008)
153 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>. Acesso em: 22 jan. 2017.
Em sua maioria154, tendo vivenciado o trabalho infantil, acabaram se inserindo legalmente como aprendizes no mercado de trabalho e, ao finalizarem o curso de aprendizagem tiveram seus contratos rescindidos, com exceção do JT13, que foi efetivado pela empresa contratante155. A JT4 relata que quando houve a finalização do contrato, ainda era menor de idade, entretanto, quando completou 18 anos, foi contrata para trabalhar de auxiliar administrativo no setor financeiro156.
De certa forma, este fato reflete os dados apresentados em uma matéria jornalística (em 17 de julho de 2015)157 realizada em comemoração aos 10 anos do Programa Aprendiz no município de Araucária. Ao se referir à turma que estava se formando naquele momento, a reportagem informou que entre 60 formandos, apenas quatro jovens foram efetivados nas empresas, ou seja, nem 10 % dos alunos que realizaram o Curso de Aprendizagem Básica em Auxiliar Administrativo e Produção Industrial, conseguiram ser efetivados após terem vivenciado a experiência profissional como trabalhador aprendiz.
Nesse sentido, vale destacar que os outros participantes, mesmo não se encontrando em idade legalmente produtiva, ao finalizar o Contrato de Aprendizagem – como demonstram os dados da tabela -, acabaram se inserindo novamente no mercado de trabalho, vivenciando não somente a informalidade, como também a condição de estagiário ou até mesmo, novamente, como trabalhador aprendiz, pois a vigente Lei da Aprendizagem não proíbe nova inserção, pois, caso os aprendizes não sejam contratados ou não encontrem um emprego após o encerramento do Contrato de Aprendizagem, eles podem realizar outros cursos de aprendizagem e inserir-se sucessivamente em várias outras empresas como trabalhador aprendiz, até completarem 24 anos de idade (idade limite para tal inserção).
Tal situação é tão recorrente que, dos 13 entrevistados, cinco retornaram ao mercado de trabalho como aprendizes, a JT10 novamente pela Instituição em questão (SENAI-ARAUCÁRIA), porém, realizando o curso de Aprendizagem em
154 Aborda-se como maioria, pois apenas o JT4, JT5, JT11 e JT12 não realizaram nenhum tipo de atividade laboral antes de ingressar no curso e no mercado de trabalho como aprendiz.
155 De todos os participantes da pesquisa, o JT13 foi o único que, ao finalizar Contrato de Aprendizagem, encontrava-se com 18 anos de idade. Todos os demais eram menores de idade, o que pode ter resultado, em sua maioria, na não efetivação no mercado de trabalho.
156 Quando atuava como aprendiz, trabalhou no setor de Recursos Humanos.
157 Site: http://www.opopularpr.com.br/noticias/geral/programaadolescenteaprendizcompletauma -decada-em-araucaria/>.
Mecânica de Manutenção Industrial, e o restante dos participantes da pesquisa em Organizações não governamentais localizadas no município de Curitiba.
Aqueles que não ingressaram novamente como aprendizes e por ainda não terem atingido a maioridade, como os JT1, JT6 e JT9, acabaram retornando para o mercado informal, inclusive, retomando as atividades laborais de antes de seu ingresso como trabalhador aprendiz.
Boa parte deles também enfrentou uma certa rotatividade, conseguindo, em alguns momentos, inserirem-se no mercado de trabalho, caso que foi vivenciado pelo JT8, que mesmo ficando um tempo em situação de desemprego, no período de três anos passou por quatro empregos diferentes, inclusive realizando funções em diversas áreas, o que nos permite inferir que, apesar das diferenças apresentadas entre um jovem e outro, após finalizarem o Contrato de Aprendizagem, acabaram vivenciando e consequentemente, se adaptando técnica e ideologicamente à dinâmica do emprego precário e da vida profissional incerta.