3 LEI DA APRENDIZAGEM: ENTRE CONTINUIDADES E
3.1 PÚBLICO ALVO: QUEM PODE SER TRABALHADOR APRENDIZ?
Quando sancionada, em 2000, a Lei do Menor Aprendiz estabeleceu que poderia ser empregado como aprendiz, sem nenhuma restrição, todo e qualquer adolescente entre 14 e 18 anos de idade. Num novo contexto, quando foi regulamentada pelo Decreto Lei nº 5.598, em dezembro de 2005, e passou a ser conhecida como Lei da Aprendizagem, a idade mínima de ingresso como aprendiz permaneceu em 14 anos, mas a idade máxima se estendeu de 18 para 24 anos.
Na realidade, esta alteração de faixa etária já havia sido estabelecida antes da regulamentação da própria legislação, quando, em 23 de setembro de 2005, com a promulgação da Lei nº 11.18051, foram alteradas as redações dos artigos 428 e 433 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que passaram a vigorar com o seguinte texto:
Art. 428. Contrato de aprendizagem é o contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze)
e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito em programa de
aprendizagem formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as tarefas necessárias a essa formação.
§ 5o A idade máxima prevista no caput deste artigo não se aplica a aprendizes portadores de deficiência.
§ 6o Para os fins do contrato de aprendizagem, a comprovação da escolaridade de aprendiz portador de deficiência mental deve considerar, sobretudo, as habilidades e competências relacionadas com a profissionalização.
Art. 433.O contrato de aprendizagem extinguir-se-á no seu termo ou quando o aprendiz completar 24 (vinte e quatro) anos, [...]. (BRASIL, 2005b)
Se de um lado a Lei da Aprendizagem oportunizou a inserção temporária de jovens entre 18 e 24 anos de idade como trabalhador aprendiz no mercado de trabalho, na tentativa de promover a experiência do primeiro emprego, seguindo assim, as diretrizes do Plano Nacional de Qualificação (PNQ) e consequentemente, do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego (PNPE), por outro, a alteração de faixa etária acabou beneficiando diretamente o empregador, pois
51 Texto original encontrado na página:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/ 2005/ lei/ l11180.htm>. Acesso em: 20 de novembro de 2017.
proporcionou uma mudança significativa que veio atender aos interesses da classe empresarial, que anteriormente a esta modificação, devido à proteção integral estabelecida em Lei, não podiam contar com as atividades práticas do aprendiz em área de produção, além de serem obrigados a indicar um profissional efetivo da empresa para supervisionar suas atividades52. Com a alteração da idade, foi viabilizado ao empregador a apropriação desta força de trabalho sem nenhuma restrição, apenas tendo o dever de remunerá-la conforme determinação estabelecida em lei.
Entretanto, esta alteração acabou promovendo, mesmo que temporariamente, a inserção legalizada destes jovens no mercado de trabalho formal, visto que muitos deles, devido à sua baixa escolaridade, falta de experiência profissional e pouca ou nenhuma formação profissional, encontravam-se desempregados ou na informalidade.
Essa situação já havia sido verificada por Oliveira (2015), para quem
[...] as práticas de formação profissional, particularmente aquelas voltadas para a juventude, funcionam como mecanismos de conformação de trabalhadores à lógica do capital. Embora tais políticas busquem justificar-se pelo aumento da empregabilidade dos trabalhadores e pelo fomento de práticas empreendedoras, tornam-se também funcionais ao capital por terem um papel ativo de formação de trabalhadores para a ocupação de postos precarizados. Consideramos que as políticas públicas de qualificação profissional voltadas para os setores juvenis em condições econômicas precarizadas vinculam-se diretamente à má qualidade da escola pública, e convertem-se em instrumentos funcionais ao processo de reprodução do capital e de acirramento dos processos de exploração dos trabalhadores. (OLIVEIRA, 2015, p. 249)
Perante tal contradição, outra alteração promovida se refere à falta de delimitação etária para os adolescentes e jovens portadores de deficiência53, o que pode resultar em uma carreira profissional pautada em várias reinserções
52 De acordo com o item 20 da edição de 2014 do Manual da Aprendizagem, que reproduz a primeira edição, de 2005, “A empresa deve designar formalmente um monitor [...]. O designado profissional ficará responsável pela coordenação de exercícios práticos e acompanhamento das atividades do aprendiz no estabelecimento, buscando garantir sempre uma formação que possa, de fato, contribuir para o seu desenvolvimento integral e a consonância com os conteúdos estabelecidos no curso em que foi matriculado, de acordo com o programa de aprendizagem (art. 23, § 1º, do Decreto nº 5.598/05). Por sua vez, a entidade qualificadora acompanhará as atividades práticas dos aprendizes nas empresas por meio de profissional por ela designado”. Disponível em: <http://acesso.mte.gov.br/data/files/8A7C816A454D74C101459564521D7BED/manual_aprendizag em_miolo.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2017.
53 No Parágrafo único, do Art. 2º da Lei da Aprendizagem (2005) fica estabelecido que “a idade máxima prevista no caput deste artigo não se aplica a aprendizes portadores de deficiência”, não havendo assim, limite máximo de idade para a contratação.
temporárias no mercado de trabalho como aprendiz, servindo, até mesmo, de alternativa profissional para aqueles que, vivenciando o desemprego ou a informalidade, encontram-se em idade produtiva e não conseguem colocação no mercado de trabalho formal, devido sua deficiência.
Proporcionando ao jovem trabalhador “apenas o necessário para, talvez, atenuar seu sofrimento”, como destaca Oliveira (2015, p 251), ao analisar as políticas governamentais de cunho profissionalizante, percebe-se que a Lei da Aprendizagem “não consegue diminuir o quadro de insegurança em que vivem os trabalhadores” (Ibid.), principalmente aqueles que, devido à inexperiência profissional e, até mesmo por uma questão de sobrevivência, se submetem às relações precárias de trabalho.
Essas inconsistências e contradições levou à edição do Decreto Lei 8740/201654, que dispôs sobre a experiência prática do aprendiz, segundo o qual o público alvo da Lei da Aprendizagem, que até então podia ser qualquer adolescente ou jovem entre 14 e 24 anos de idade, acabou sofrendo nova delimitação e passou a ser constituído de
§ 5º [...] I - adolescentes egressos do sistema socioeducativo ou em cumprimento de medidas socioeducativas; II - jovens em cumprimento de pena no sistema prisional; III - jovens e adolescentes cujas famílias sejam beneficiárias de programas de transferência de renda; IV - jovens e adolescentes em situação de acolhimento institucional; V - jovens e adolescentes egressos do trabalho infantil; VI - jovens e adolescentes com deficiência; VII - jovens e adolescentes matriculados na rede pública de ensino, em nível fundamental, médio regular ou médio técnico, inclusive na modalidade de Educação de Jovens e Adultos; e, VIII - jovens desempregados e com ensino fundamental ou médio concluído na rede pública (BRASIL, 2005).
Ao mesmo tempo em que acabou priorizando adolescentes e jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade, percebe-se que, ao estabelecer tais restrições, contraditoriamente, deixou de cumprir o estabelecido no Parágrafo único do Art. 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente segundo os quais
Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra
54 Texto encontrado na página: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/decreto/D8740.htm>. Acesso em: 20 de novembro de 2017.
condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem (BRASIL, 1990).
Na prática, entretanto, o que se tem verificado é o inverso do legislado. Os pressupostos teóricos da igualdade, que norteiam o ECA e que deveriam ser priorizados na Lei da Aprendizagem caem por terra e diante desta incoerência, percebe-se que ainda o trabalho é utilizado estrategicamente para disciplinar o filho da classe trabalhadora e para manter o controle da ordem em sociedade, ao ponto da legislação poder ainda ser concebida como “o ‘remédio’ indicado tanto para suprir a necessidade de sobrevivência quanto para afastar os riscos da ‘vadiagem’ (NEPOMUCENO, 1999, p. 347).
3.2 AS OBRIGAÇÕES TRABALHISTAS NA CONTRATAÇÃO DO TRABALHADOR