2 MENTALIDADE E ENSINO SUPERIOR: NOBILITAR OU PROFISSIONALIZAR?
2.4 ANTICLERICALISMO E CIENTIFICISMO: AINDA, O DIPLOMA COMO ACESSO AO PODER
Apesar do conservadorismo político-cultural do Império, a segunda metade do século XIX marca um momento de grande transformação da história brasileira, quando o país inicia seu processo de modernização e se esforça por sincronizar sua estrutura econômico-social com a do mundo capitalista contemporâneo (SODRÉ, 1940).
Esse período representa, ainda, um momento de acentuação dos antagonismos econômicos e políticos entre a grande burguesia agrária tradicional – formada por
proprietários rurais que, proclamada a República, seriam defensores de um modelo político presidencialista-federalista de caráter liberal-autoritário –, e os representantes da pequena burguesia, também liberal-autoritários, que defendiam uma centralização política no poder Executivo. Estes últimos assumem um importante papel no setor intelectual, com a formação de militares, médicos e engenheiros, afinados por suas profissões com as ciências matemáticas e naturais, o que iria propiciar simpatia por novas idéias, sobretudo positivistas, postas em circulação, relativas ao incremento dos estudos das ciências, ao evolucionismo
spenceriano24e à fundação da escola de Minas.25
Os grandes pensadores modernos, no Brasil, longe de pertencerem às camadas populares, eram filhos de senhores de engenho ou de fazendeiros de café, ou representantes e herdeiros da incipiente burguesia de comerciantes ou de burocratas, surgidos das camadas urbanas, que prosperaram após as transformações econômicas que se processaram no período. No dizer de Costa, J. (1967, p. 124-125),
os representantes dessas novas elites do século XIX são a expressão de uma nova modalidade de burguesia, que se opõe à tradicional, a que em regra era tirada da aristocracia – proprietária da terra e do instrumento mais importante do trabalho daquele tempo – o negro. São, assim, os filhos da modesta burguesia comercial e burocrática, de importância relativamente secundária, que irão aparecer, graças ao desenvolvimento também modesto do capitalismo no Brasil, no cenário político e intelectual da segunda metade do século XIX. Nas novas gerações, que ingressam nas Faculdades de Direito do País, infiltrar-se-iam esses novos burgueses. Nas escolas técnicas, a Central e a Militar, também procurarão eles, em virtude de não possuírem recursos necessários para enfrentar estudos longos e caros, satisfação para as suas tendências intelectuais. [...] Geração que se formou sob o influxo de Benjamin Constant, com idéias nitidamente democráticas e concorreu para a queda do regime monárquico e implantou a república inspirada nos princípios de Augusto Comte. Na escola Militar, e logo depois na Escola Central, os representantes da nascente pequena burguesia procurariam, na segunda metade do século, educação e instrução que lhes permitissem constituir uma nova elite, de espírito talvez um pouco diferente daquele que era representado pelos bacharéis em leis, de Coimbra, de Recife ou de São Paulo, onde recebia formação superior grande parte dos filhos das famílias do patriciado rural. O aparecimento destes representantes da burguesia nova tornará mais nítido o antagonismo de interesses entre o ‘agrarismo latifundiário e o nascente comercialismo em marcha para a indústria’.
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O positivismo evolucionista de Spencer propõe estender a todo o universo o conceito de progresso e procura fazê-lo valer em todos os ramos da ciência (ABBAGNANO, 1982).
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Sobre a elite diferenciada que começa a se formar, sobretudo na segunda metade do século XIX, sob a influência das escolas de Direito, fundadas no Império e mais distantes da cultura européia, conferir Carvalho, J. (1980), Dias (2002) e Pereira, N. (1977).
Com as mudanças econômicas em curso, na segunda metade do século, passa a haver uma substituição, na direção do país, dos antigos senhores de engenho – proprietários rurais escravistas – pela elite cafeeira, que se dividia, de um lado, em uma ala de defensores de ideais tradicionais de manutenção do escravismo e, de outro, em um grupo de defensores do imigrantismo e do trabalho livre, cujas idéias liberais contaminavam as novas classes dirigentes do Brasil, em prol da ideologia do progresso e da modernização da economia. Entre
as transformações ocorridas no Brasil do século XIX, nenhuma terá contribuído tanto para modificar a fisionomia do País como a verdadeira revolução que se opera na distribuição de suas atividades produtivas. [...] é a decadência das lavouras tradicionais do Brasil – da cana-de-açúcar, do algodão, do tabaco – e o desenvolvimento paralelo e considerável da produção de um gênero até então de pequena importância: o café, que acabará por figurar quase isolado na balança econômica brasileira. O renascimento agrícola iniciado em fins do século XVIII e grandemente impulsionado depois da abertura dos portos e da emancipação política do país, favorece sobretudo de início as regiões agrícolas mais antigas do Norte; as províncias marítimas que se estendem do Maranhão até à Bahia. Elas voltam então a ocupar a posição dominante desfrutada no passado e que tinham parcialmente perdido em favor das minas. [...] já na primeira metade do século XIX o centro-sul irá progressivamente tomando a dianteira das atividades econômicas do País. E na segunda chega-se a uma inversão completa de posições: o Norte estacionário senão decadente; o Sul em primeiro lugar e em pleno florescimento (PRADO JÚNIOR, 1945, p. 167).
Segundo Prado Júnior (1945), o desenvolvimento econômico do Brasil se fazia em um clima de incertezas e especulações, que tanto poderiam levar as famílias à fortuna súbita como à ruína inesperada, passando de “nobres” a fracassados, num rápido período de tempo, justificando um adágio popular que dizia: “Pai taberneiro, filho fidalgo e neto mendigo”. Essa relativa mobilidade era fruto direto do declínio de famílias tradicionais e abastadas, da ascensão de pequenos comerciantes e da intensa miscigenação que conduzia os apadrinhados ou filhos bastardos, tornados doutores, aos altos cargos públicos ou administrativos (ADORNO, S., 1988). Ou, em outras palavras,
a mobilidade econômica e financeira impede, assim, que se possa falar de burgueses e aristocratas. O problema da miscigenação também tem uma considerável importância na formação da nossa sociedade e no difícil estabelecimento de níveis e de classes (COSTA, J., 1967, p. 127).
Esses aspectos talvez justifiquem o fato de que, até meados do século XIX, a cultura intelectual ainda continuava desvinculada da formação técnico-científica, adquirindo, nesse sentido, um caráter “ornamental” por ser responsável pela produção de humanistas, voltados quase sempre para a retórica e a eloqüência, formados através das duas Faculdades de Direito do país, que participavam da administração pública e da política do Império (WEREBE, 1982).
Esses intelectuais, em grande parte, mesmo sem exercerem a profissão enquanto juristas e jurisconsultos, agiram como importantes intelectuais orgânicos26, representando de modo competente os interesses das classes a que pertenciam e/ou que representavam. Em síntese:
Quanto à cultura intelectual, era então mais literária do que científica, em virtude das disposições antes estéticas do que teóricas do povo brasileiro, como dos seus antecedentes históricos. As classes dirigentes procuravam em geral as profissões
jurídicas. Só os militares do Exército e da Marinha, por um lado, e por outro lado,
os engenheiros e médicos, chegavam a entregar-se a estudos científicos. Quase todos à porfia ambicionavam acercar-se do monarca, e começavam a formar em torno dele essa atmosfera pedantesca que foi o maior deleite de sua vida (MENDES, R., 1913, p. 22, grifos nossos).
Romero (1905, p. 93-94), inicialmente em 1878 e, posteriormente em 1905, fez uma importante classificação dos filósofos, no Brasil, dividindo os intelectuais em oito grupos, quais sejam:
I. Espíritos educados em fins do século XVIII e começos do século XIX nas doutrinas do sensualismo francês de Destutt de Tracy e Larominguière, que passaram depois para o ecletismo espiritualista de Cousin e Jouffroy (1820- 1850), sendo os mais notórios Mont’Alverne e Eduardo Ferreira França. II. Puros sectários do ecletismo, sendo os principais Domingos J. Gonçalves de Magalhães e Morais Vale (1850-1870). III. Reação católica com Patrício Muniz e Soriano de Sousa, no mesmo tempo da segunda fase e anos posteriores. IV. Reação pelo agnosticismo crítico a princípio e depois, pelo monismo evolucionista à Haeckel e Noiré, com Tobias Barreto (1870-1889). V. A corrente
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Os intelectuais orgânicos são aqui entendidos, no sentido gramsciano, como “[...] os ‘comissários’ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político [...]” (GRAMSCI, 1982, p. 11). A relação que é estabelecida entre esses intelectuais e o mundo da produção é, segundo Gramsci (1982, p. 10), “[...] ‘mediatizada’, em diversos graus, por todo o contexto social, pelo conjunto das superestruturas, do qual os intelectuais são precisamente os ‘funcionários’ ”.
positivista à Littré, com Luís Pereira Barreto, a que se vieram juntar Martins Júnior e Sousa Pinto, este passando mais tarde ao positivismo ortodoxo, acontecendo o mesmo a Aníbal Falcão e outros mais (1880-1904). VI. Corrente positivista ortodoxa, com Miguel Lemos, Teixeira Mendes e vários sectários, entre os quais não será sem razão contar, a despeito de pequenas dissidências, Benjamin Constant Botelho de Magalhães e seu genro Álvaro Joaquim de Oliveira (1880-1904). VII. Bifurcação spenceriana do evolucionismo, com Sílvio Romero, a que se prendem Artur Orlando, Clóvis Beviláqua, Samuel de Oliveira, Liberato Bittencourt, João Bandeira, França Pereira e poucos mais (1870-1904). VIII. Bifurcação haeckeliana do evolucionismo, com Domingos Guedes Cabral, Miranda Azevedo, Lívio de Castro, Fausto Cardoso, Oliveira Fausto e Marcolino Fragoso (1874-1904). Várias tentativas independentes de Estilita Tapajós e R. Farias Brito, já antes procedidas, em certo sentido e sem igual esforço, por J. de Araújo Ribeiro.
As várias correntes do pensamento filosófico, que chegaram ao país, partilham um traço comum: elas refletem os debates e embates políticos e filosóficos em ocorrência na Europa, dos quais se abeberam as nossas elites, muitas vezes, mais voltadas à realidade do Velho Continente do que aos problemas sociais e econômicos do país. Em 1870, algumas correntes do pensamento europeu do século XIX – o positivismo, o naturalismo e o evolucionismo – passam a contribuir para a melhoria do pensamento crítico no Brasil, juntamente com o progresso econômico, que avança a partir de 1860, com a implantação de serviços urbanos e das primeiras manufaturas, além da construção de estradas de ferro. O surto industrial no país também é um desdobramento do desenvolvimento da lavoura do café e das necessidades de seu escoamento e comércio.
Essa renovação intelectual teve no grupo da Faculdade de Direito do Recife um lugar privilegiado, de agitação e de reflexão: “A escola do Recife é, certamente, a parte mais fulgurante na renovação intelectual do Brasil no século XIX, mas esta renovação cobria o País todo, que atingira nessa época uma das mais prósperas fases de sua vida econômica” (COSTA, J., 1967, p. 122, grifo do autor).27
Corroborando com a visão renovadora da Faculdade de Direito do Recife e se contrapondo ao ensino humanista que caracterizava a formação dada aos jovens bacharéis,
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Merece destaque o trabalho de Montenegro (1943), como uma importante obra de cunho memorialista, retratando as experiências educacionais vividas no Recife.
sobretudo herdeiros da cultura coimbrã, Beviláqua (1927, p. 26) critica o modelo de ensino, ao mesmo tempo em que reconhece sua força e domínio, através de um importante depoimento: “O direito natural abria o curso. Assim devera ser numa época, em que predominavam o método dedutivo e as concepções metafísicas. Das generalizações aceitas como verdades descia-se para as particularidades” (Texto atualizado).
Algumas peculiaridades importantes da Faculdade do Recife são relatadas por Almeida, J. R. (2000), quando faz referência ao Relatório da Instrução Primária e Secundária de 1862, como as precárias instalações físicas, após a sua transferência de Olinda para o Recife, com uma vizinhança incômoda e inconveniente, pela proximidade com uma caserna que fazia confundir as aulas com os sons dos músicos. Outro aspecto enfocado é uma referência crítica ao título de doutor concedido pela instituição:
O título de doutor deve ser respeitado e não pode, sem perder seu prestígio e sua significação, ser dado a incompetentes. [...] O título de doutor é o grau mais elevado conferido pelas faculdades e universidades de todos os países civilizados (ALMEIDA, J. R., 2000, p. 106).
E continua mais adiante o autor, comentando a dissociação entre diploma e conhecimento, inscrita na cultura brasileira:
Para a massa do público, o ensino é de pouca importância, o que vale é o resultado do exame, o diploma. [...] Pode ser que um homem possua o saber, sem o diploma; mas, neste caso, uma imensa maioria negará sua ciência e isto será para ele como se ela não existisse; e se ele desejar fazer uso, será muitas vezes
considerado como um intruso. Se um outro, pelo contrário, possui um diploma
sem o saber, caso muito mais freqüente que o primeiro, recolherá todos os benefícios da ciência (ALMEIDA, J. R., 2000, p. 107-108, grifos nossos).
A importância da Faculdade do Recife pode ser sentida, em termos quantitativos, sobretudo a partir dos anos de 1868 e 1869, quando ultrapassa o número de alunos da Faculdade de Direito de São Paulo, tendo 461 contra 286 desta última, sendo o quantitativo
médio, nesse mesmo período, da ordem de 1.479 alunos, distribuídos pelas escolas de Direito, Medicina e Farmácia (ALMEIDA, J. R., 2000).
No caso específico da Província da Paraíba, nos anos 70 e 80 do século XIX, a possibilidade de obtenção do título de bacharel em Direito restringia-se, quase sempre, à Faculdade do Recife, como afirma Menezes, J. (1982b, 116; 109): “ou se corre para o Recife ou nada se acrescenta ao ler e contar das iniciações domésticas”. Afinal de contas,
numa terra de analfabetos todo mundo pretendia ser doutor... E pelo currículo
mais fácil, pelo tipo de ensino menos custoso, o que bacharelava em Leis...
Aprendidas as primeiras letras, sabendo-se fazer contas, a inteligência desarnada passava a ter notícias e logo se excitava, em expectativas de bacharelato (Grifos nossos).
O autor cita, ainda, nomes de paraibanos que se destacaram no Recife, constituindo-se em um grupo coeso, cuja participação e destaque se duplicavam a cada ano, sendo a Paraíba a província que mais formava bacharéis em Olinda e Recife, depois de Pernambuco.28
Apesar do crescimento das escolas superiores brasileiras, o ensino ministrado nessas faculdades ainda é visto com enormes ressalvas, como podemos perceber no Relatório de 1882, do Conselheiro Rodolpho Epiphânio de Souza Dantas, Ministro do Império:
A instrução nas nossas faculdades é caracteristicamente superficial, atécnica;
perde-se, submerge-se nas teorias e nada se faz para despertar nos professores nem
nos estudantes o espírito de investigação. Inundam-se as profissões práticas de indivíduos sem iniciação real nas Artes e nas Ciências aplicadas (RELATÓRIO de 1882..., apud ALMEIDA, J. R., 2000, p. 209, grifos nossos).
Nesse sentido, Freyre (1936, p. 302-303) ressalta a substituição, no Segundo Reinado, da nobreza dos brasões de armas portuguesas pela nova nobreza, herdeira dos senhores de
28
Não consiste o objetivo deste trabalho examinar, em detalhe, a organização do Ensino Superior pernambucano, por isso faremos referência apenas à Faculdade de Direito do Recife por ter sido esta o berço de formação dos principais intelectuais paraibanos, inclusive os que foram responsáveis, mais tarde, pela implantação do Ensino Superior na Paraíba, conforme pode ser conferido em Menezes, J. (1977), Leitão (s.d), Moacyr (1939) e Beviláqua (1927).
engenho, dos fazendeiros de café e da burguesia comercial, cujos títulos acadêmicos, sejam provenientes da Europa ou das faculdades criadas no Império, passavam a adquirir o valor de verdadeiros títulos de nobreza:
A valorização social começara a fazer-se em volta de outros elementos: em torno da Europa, mas de uma Europa burguesa, donde nos foram chegando novos estilos de vida, contrários aos rurais e patriarcais: o chá, o governo de gabinete, a cerveja, a botina Clark, o pão torrado. Também a roupa do homem menos colorida e mais cinzenta; o maior gosto pelo teatro, que foi substituindo a igreja; pela carruagem de quatro rodas que foi substituindo o cavalo; pela bengala e pelo chapéu-de-sol, que foram substituindo a espada do capitão e do sargento-mor dos antigos senhores rurais. E todos esses valores foram se tornando as insígnias do mando de uma aristocracia: a dos sobrados. De uma nova nobreza: a dos doutores e dos bacharéis. Eram valores encarnados principalmente pelo bacharel, filho legítimo ou não do senhor de engenho ou do fazendeiro, que voltava da Europa – de Coimbra, de Montpellier, de Paris, da Inglaterra, da Alemanha – onde fora estudar por influência de algum parente maçom mais cosmopolita. Às vezes rapazes da burguesia mais nova das cidades, filhos e netos de mascates, valorizados pela educação européia, voltavam socialmente iguais aos
filhos das mais velhas e poderosas famílias de senhores de terras
(Grifos nossos).
Ainda sobre o mesmo tema, escreve Holanda (1963, p. 149) que as profissões liberais tiveram no Brasil o mesmo prestígio que “[...] as cercava tradicionalmente na mãe pátria”, sendo valorizadas e servindo como uma espécie de “carta de recomendação” para os cargos de governo.
Os novos nobres – bacharéis e doutores – encontravam no spencerianismo, com a afirmação da teoria do progresso e da lei da diferenciação progressista, a justificação para suas pretensões políticas, sociais e religiosas (ADORNO, S., 1988; BASTOS, 1944).
Com o projeto de criação de uma Universidade no Rio de Janeiro, em 1881, há uma nova influência dos positivistas no Brasil, que se mobilizam contra tal projeto. O intento de criação de uma Universidade, com quatro Faculdades (Direito, Medicina, Ciências
Matemáticas e Naturais e Teologia), na capital do Império, fora tentado também em 1870, com a reforma do ensino de Paulino de Sousa, que não obtivera sucesso.29
No projeto de 1881, o governo pretendia criar cinco faculdades, adicionando às quatro, anteriormente propostas, a Faculdade de Letras. O protesto dos positivistas pode ser sentido na intervenção de Miguel Lemos, no mesmo ano, contra o que ele caracterizou de tentativa
absurda em reafirmar a pedantocracia que teria como resultado o atrofiamento do desenvolvimento científico.
Os positivistas viam a Universidade como um verdadeiro atentado à liberdade espiritual, obstaculando-a em sua reorganização, e que não correspondia a nenhuma necessidade concreta do Brasil, embora reconhecessem que a Universidade tivesse sido um importante foco de liberdade, no século XIII, quando o catolicismo exercia seu grande poder opressor (COSTA, J., 1967).
Ainda para os positivistas, bastavam ao Brasil as escolas profissionais. A Universidade, para Lemos (1900, p. 31), iria contribuir apenas para “dar maior intensidade às deploráveis pretensões pedantocratas da nossa burguesia, cujos filhos abandonam as demais profissões, igualmente honrosas, para só se preocuparem com a aquisição de um diploma qualquer”. Não poderia haver, por parte da Universidade, nenhuma perturbação ao privilégio que deveria ser dado à instrução (MENDES, R., 1903).
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Destacamos, em relação ao Ensino Superior, três importante iniciativas: os Decretos nº 1.386 e 1.387, ambos de 28 de abril de 1854, referendados no governo do Marques do Paraná, pelo então ministro Luís Pedeira do Couto Ferraz, o Barão do Bom Retiro; as reformas ocorridas no governo do Visconde do Rio Branco, entre 1874 e 1875; e o famoso Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, conhecido como Reforma Leôncio de Carvalho, então ministro do Império, que instituía a liberdade de ensino, a liberdade de freqüência e a incompatibilidade entre o exercício do magistério e o de cargos públicos e administrativos. A Reforma Leôncio de Carvalho, de cunho fortemente liberal, representou a abolição da obrigatoriedade do ensino religioso no Colégio Pedro II, permitindo a concessão do grau de bacharel aos não católicos, sem o necessário curso de instrução religiosa, num claro rompimento com o modelo coimbrão, embora conservando e aperfeiçoando as instituições já criadas por D. João VI ou no Império, como os cursos jurídicos (divididos em duas seções: uma de Ciências Jurídicas e outra, de Ciências Sociais) e médicos, ou o Colégio Pedro II, criado no período regencial (RIBEIRO, 1979; AZEVEDO, 1996; ALMEIDA, J. R., 2000).
Tanto Mendes, R. (1903) quanto Lemos (1900) consideravam a fundação de uma Universidade, no Brasil, como uma puerilidade, vislumbrando a Universidade como um obstáculo ao ensino, o que era uma idéia espantosa no contexto cultural brasileiro da época. Acreditavam em uma reforma do ensino que contribuísse para a melhoria do país, atendendo às suas necessidades sociais, ou seja, num ensino primário que atingisse a todos os cidadãos, indistintamente. Como afirma Mendes, R. (1903, p. 7-8),
[...] a população se divide em duas classes: de um lado os indivíduos que cultivam o solo, extraem os produtos das minas, exercem sobre os materiais a ação necessária para que sirvam aos usos da vida, constroem os edifícios... os indivíduos, em suma, que estão a braços diretamente com a natureza, e constituem o proletariado; de um outro lado, os indivíduos que alimentam-se, vestem-se, moram e divertem-se... isto é, consomem o capital acumulado pelo proletariado desde a mais remota antiguidade, e que sem ele estariam condenados à morte. Neste segundo grupo cumpre ainda distinguir duas secções: a primeira compõe-se daqueles que