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Antropologia da Arte

No documento Joalheria, arte ou design? (páginas 33-38)

Por outro lado, fazendo um contraponto com a sociologia de Bourdieu, que não se detém no objeto de arte em si, como um produto da genialidade humana, mas apenas como um poderoso demarcador de distinção social, outras abordagens, como de Alfred Gell (1998), define os objetos de arte por sua eficácia. O autor defende uma visão de arte como uma forma de tecnologia, como um dispositivo que garante a aceitação dos indivíduos na rede de intencionalidades em que estão enredados, sem sucumbir à fascinação e aura desses objetos. Essa abordagem auxiliaria no entendimento que a categoria da joalheria contemporânea tem dos objetos de arte a partir da plataforma da joalheria.

Alguns aspectos da teoria de Gell levam-nos a pensar na sua fertilidade para analisar os artefatos que são produzidos por artistas joalheiros e joalheiros. De acordo com Nicholas Thomas, que prefaciou seu livro, Gell (1998, p. 8) não estava especialmente interessado nas questões levantadas pelo mundo da arte; ao contrário, ele achava que a antropologia da arte poderia abordar o funcionamento da arte em geral. Nesse sentido, parece oportuno usar esse instrumental para pensar uma categoria que luta para ser aceita e reconhecida como arte, através da eficácia do objeto como ferramenta dessa luta.

Embora sua produção teórica não tenha sido extensa, pois morreu prematuramente, com apenas 51 anos de idade, em “Art & Agency” o autor se propunha abordar os objetos de arte por sua eficácia, inseridos nas redes das relações sociais e agenciamentos nos quais circulam e que os dotam de sentido; ao contrário do afastamento que se opera na nossa sociedade entre os objetos de arte e as outras dimensões da vida cotidiana. De acordo com o autor, sucumbe-se à veneração que esses objetos suscitam na sociedade moderna, reverência, que segundo o mesmo, pode ser vistos de maneira quase religiosa. De acordo com Gell (1992), ética e estética pertencem à mesma categoria. A sugestão do autor é que o estudo da estética no domínio da arte é como o estudo da teologia para o estudo da religião. Mais ainda, a estética é um ramo do discurso moral, o qual depende da aceitação dos artigos iniciais de fé. No valor estético do objeto reside o princípio da

Verdade e do Bem, de modo que o estudo dos objetos de valor estético constitui um caminho para a transcendência. De novo, o aspecto estético de um objeto faz parte e revela as outras dimensões da vida social.

Dois aspectos se destacam neste livro, primeiro é a intenção de se afastar de uma estética transcultural e, o outro aspecto, é sua rejeição às teorias semióticas da arte, na qual vê a arte como comunicação e uma questão de sentido. Gell, ao contrário, vai afirmar que arte diz respeito ao fazer. Fazer é teorizado como agência, trata-se de um processo envolvendo indexes e efeitos, cuja intenção foi criar uma teoria da agência.

A questão da técnica e do fazer foi o foco de atenção no artigo, "The technology of enchantment and the enchantment of technology" (1992), onde ele afirma que reconhece os trabalhos de arte como resultado de processos de técnicos, tipos de processos técnicos, aos quais os artistas estão habilitados. Nas tatuagens ele chama atenção para a técnica e o fazer. Técnica de embelezamento. Não a beleza no sentido vazio e pouco significativo. Técnica de desenhar, marcar, furar, introduzir pigmento, etc.

No artigo "Wrapping in images" (1993), a elaboração sobre o corpo aponta para as consequências do adornar. A superfície é impregnada de agência, se contrapondo a uma visão da superfície do corpo como vazia e ilusiva; a superfície fala sobre a conexão entre interioridade / exterioridade. Nesse trabalho o adorno corporal ainda vai refletir a sociedade.

No "art & agency" (1998), Gell avança na sua formulação. Aqui o artefato não reflete a organização social. Esse artefato é mais um agente social. Diferente da proposição do texto “Wrapping in images” (1993), que ele ainda mantém relacionado ao social. No entanto, Gell não dá autonomia ao objeto como em Latour, que vai propor romper ainda mais com essa fronteira entre humano e não-humano. No "art & agency" (1998), Gell vai, de alguma maneira, propor que essa agência do objeto seria um reflexo da agência humana. O objeto de arte é o mediador da agência do seu produtor, que é o artista. Nesse sentido, ele não está autonomizando o objeto, pois a agência não é do objeto. Para Gell, o objeto é um condutor da agência do artista. O avanço em sua teoria refere-se à autonomia do objeto em termos de já não

refletir a dimensão social. Na sua obra mais emblemática, "art & agency", o objeto passa a ser um agente secundário. O agente primário é o artista.

Na sua teoria da arte, Gell (1992) não está interessado na produção de arte das sociedades coloniais ou pós-coloniais que os antropólogos estudam. E não vê sentido numa teoria da arte para a nossa arte e outra distinta teoria, para a arte das culturas que foram alvo do colonialismo. Ou seja, para o autor, se a estética da teoria da arte é aplicada à nossa arte, logo deveria ser aplicada a qualquer arte.

Gell (1998) corrobora com a premissa de outros antropólogos e sociólogos, de que a produção de arte de um período particular da história do ocidente está vinculada à maneira como a arte era vista na ocasião, ou seja, também há um sentido histórico na maneira como a arte é vista.

O autor observa que, a característica que a nossa sociedade possui de ver a arte das outras culturas esteticamente, reflete nossa própria ideologia e veneração, mais uma vez, quase religiosa dos objetos de arte como talismãs estéticos. Nesse sentido, o uso da noção de “estética” se torna vedada como parâmetro universal de comparação e discrição cultural. Assim, para o desenvolvimento de uma teoria antropológica da arte, é insuficiente pegar emprestado uma teoria existente da arte e aplicar a um novo objeto, de um diferente contexto. O que Gell (1998) propõe é usar o arcabouço da teoria antropológica e aplicá-la à arte. O autor diz estar interessado numa teoria sobre as relações sociais, em que os agentes sociais são, em certo sentido, substituídos pelos objetos de arte. Em outros termos, essa é uma teoria antropológica na qual, em certas situações, os objetos ocupam o lugar de pessoas ou de "agentes (operadores) sociais".

Através da sua teoria, “art nexus”, Gell produz uma reflexão de como o objeto passa a ser agente. Agente secundário, visto ser um agente na vizinhança das relações sociais nas quais ele está inserido. Em contrapartida, na teoria do ator-rede Bruno Latour vai além, ao partir de um pressuposto no qual as fronteiras de humanos e não-humanos foram desmanteladas, atores humanos e atores não- humanos têm o mesmo estatuto ontológico e ambos são capazes de agir. Torna-se mais claro a capacidade dos atores não-humanos de agir, quando identifica-se que interferem na ação dos atores humanos. Assim, pode-se pensar na montagem de uma obra de arte, em que é condicionada também por uma variedade de atores não- humanos – ANH, a saber: materiais, técnicas e ferramentas necessários para sua

execução, além da edificação que a comportará, entre outros. Em compensação, Gell está preocupado com a questão da criação do artista, o que não seria menos genuíno. O mesmo se propõe a refletir sobre a criação artística, pensar o fazer, pensar o que distingue o objeto de arte do não objeto de arte. Ainda que diga que todo objeto pode ser pensado como objeto de arte, alguns objetos são mais artísticos do que outros. Tal aspecto se vê no texto do "The technology of enchantment and the enchantment of technology" (1992). Através dessa preponderância do fazer e do artista, Gell permite pensar a questão da individualidade do trabalho do artista.

Para Strathern (2014, p. 361), a teoria da arte de Gell tinha como premissa ser como as outras teorias antropológicas; qual seja, refletir sobre “o funcionamento das relações sociais”. Para a antropóloga, a intenção de Gell não era operar uma descrição da arte como representação, mas pensar a arte como “algo que opera no interior de um nexo de agência” (STRATHERN, op. Cit., p.361). Acrescenta ainda que, para o teórico, a arte pode ser ator, mas também pode sofrer ação. Assim, em termos de efeito, o objeto pode ser agente e paciente. O objeto de arte corporifica capacidades. De acordo com Strathern, a dificuldade que temos em pensar a agência dos objetos, entidades inanimadas, dá-se pela conformação do pensamento inapropriado dos euros-americanos ao ligar a agência à vontade e intenção. A saída encontrada por Gell foi pela chave da análise relacional, através da qual dota coisas e pessoas coapresentadas como atores com propriedades de efeito (STRATHERN, op. Cit., p.362).

Outro aspecto ressaltado por Strathern é a introdução dos termos introduzidos por Gell, tais como, índice, agente, paciente. Dessa forma, mesmo que o que seja relevante se refira aos conceitos, a vantagem dos termos foi se abster de trabalhar com os constructos de coisa e pessoa, os quais vincula a apreensão à linguagem cotidiana (STRATHERN, op. Cit., p.362).

No texto “Os recém-chegados ao mundo dos bens” Gell (2010) trata do consumo, mas vai pensar o consumo numa chave da antropologia da arte. Nesse sentido, arte é defendida como uma incorporação dos objetos consumidos que continuam a existir sob outra forma. Assim, quando um bem é consumido deixa de ser neutro, e ganha os atributos de alguma personalidade individual ou

demarcadores de relacionamentos e compromissos interpessoais específicos. A arte está envolvida com os objetos do cotidiano do grupo social, posição contrária ao modo tradicional de conceber arte nos contextos modernos. A arte, portanto, é definida de acordo com a sua intencionalidade e agência, bem como, pela sua capacidade de transformação.

Ainda nesse artigo, Gell vai abordar o artista como alguém que distribui agência pelo mundo, seja através da dissolução espaço-temporal do seu corpo físico, em forma de exúvias, películas e rastros que se deixa pelo mundo, seja através do fazer artístico. Assim, Gell (1998) pensa o artista como distribuindo sua agência, o seu eu. Quer dizer, essa agência é parte do eu do artista, não o seu todo. Partes da “pessoa distribuída” agem sobre o mundo e sobre aqueles que entram em contato e, ao mesmo tempo, são pacientes da agência de outros índices. Esses que sofrem a agência são testemunhas dos efeitos que esse artista causa no mundo.

No "art & agency", Gell já se descolou da conexão entre arte e sociedade, enquanto que no “Wrapping in images”, ele ainda está bastante preso a essa conexão. Na obra de Gell, pode-se acompanhar o percurso de um autor e identificar como o pensamento foi se constituindo, ainda que girando sobre as mesmas questões, tendo como ponto forte referencial, pensar o objeto de arte em termos distintos da lógica institucional, pois a arte afeta outras esferas da vida social; ao contrário do que ocorre quando se pensa um objeto como exclusivamente de arte.

Alguns críticos de Gell apontam como fragilidade do seu argumento a falta de consistência de “base teórica para a compreensão de como a arte pode ser uma forma de ação – um meio de intervir no mundo”, afinal são objetos e objetos não se modificam e, portanto, não possuiriam agência (MORPHY, 2012, p. 226). Contudo, na análise da volt sorcery (GELL, 1998) os objetos possuem um estatuto de pessoas e agem com a intencionalidade das pessoas. Ao defender seu argumento o autor invoca as feitiçarias que se operam utilizando imagens das vítimas ou exúvias, que não representam metonimicamente as vítimas, mas são fragmentos destacados da “pessoalidade distribuída” das vítimas (GELL, op. Cit., p. 102 – 104). É por essa perspectiva que Gell defende a intencionalidade dos objetos.

No documento Joalheria, arte ou design? (páginas 33-38)

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