CAPÍTULO
1 O ESTADO DA QUESTÃO DAS ÁREAS PROTEGIDAS NO BRASIL
1.3 A APA DA BALEIA FRANCA, PENSANDO UM NOVO MODELO DE GESTÃO
A APABF é uma unidade constituída por área marítima, terrestre e insular, conformada por paisagem montanhosa, baías e enseadas ao norte e por planícies e litoral mais retilíneo ao sul. Foi criada no ano de 2000 com o objetivo de proteger a espécie da Eubalaena australis, a Baleia Franca e “ordenar e garantir o uso racional dos recursos naturais da região, ordenar a ocupação e utilização do solo e das águas, ordenar o uso turístico e recreativo, as atividades de pesquisa e o tráfego local de embarcações e aeronaves” (BRASIL, 2000).
Está localizada ao sul da região metropolitana de Florianópolis e entre as cidades pólo regionais de Criciúma e Tubarão (Figura 3). Abrange nove municípios destas três regiões geográficas, os quais tem apresentando crescimento populacional e urbano significativo nas últimas décadas. Em conjunto, estes totalizam 848.494 habitantes (IBGE, 2010) e tem população predominantemente urbana - que representa a média de 90% da população total. Na década de 1970 a população total destes municípios era de 326.069 habitantes e a média total da população urbana no território era de 46% (IBGE, 1970).
Nos municípios situados mais ao norte, o limite da APABF envolve apenas área marítima e insular; de Garopaba para o sul, o limite da UC incorpora áreas terrestres, onde se encontram áreas estratégicas para a conservação ambiental. Nesta mesma zona, se encontram os principais destinos turísticos destes municípios, que recebem uma grande quantidade de turistas na temporada de verão. Em alguns casos, alcançando o dobro da população existente.
A paisagem da APABF é bastante diversificada e singular, resultado da combinação de agentes e processos naturais específicos da zona marinho-costeira sul catarinense e da ação humana em diferentes períodos históricos. Os principais pilares ecológicos de sua paisagem da APAB são a Baleia, o mar, as dunas e a vegetação de restinga. Enquanto, os pilares culturais são as comunidades tradicionais e toda a cultura ligada à pesca artesanal (DELFINO y PÈLACHS, 2015).
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Dentre as principais ameaças para a APABF, está a degradação de áreas de dunas e vegetação de restinga13, o crescimento populacional, o turismo de massa sazonal e o crescimento do mercado imobiliário nas praias – o que vem compromentendo a conservação da biodiversidade e dos valores locais ligado direta e indiretamente a seus objetivos de criação. Dentre as principais problemáticas verificadas, estão a falta do Plano de Manejo e a sobreposição e falta de integração dos diferentes instrumentos de gestão nas escalas federal, estadual e municipal (ICMBIO, 2016; ROCHA, 2015; MARTINS, 2012; ICMBIO, 2008; MACEDO, 2008; CONAPABF, 2015).
As áreas de dunas e vegetação de restinga estão presentes en todo o território da APABF. As dunas exercem importante função de formação e recarga de aquíferos, no controle dos processos erosivos na zona costeira, além de possuir grande beleza cênica e paisagística (MMA, 2003). No território da APABF, estas áreas estão no alvo do mercado imobiliário, que as vem ocupando de forma irregular e desordenada.
Sua localização gera conflito com as prefeituras municipais pela regulação do uso e ocupação do solo. Assim como, com os agentes imobiliários e com os empresários que estão à frente da instalação de grandes obras no território: empreendimentos imobiliários, condomínios residenciais, duplicação do trecho sul da rodovia BR-101, ampliação do porto de Imbituba, ampliação do aeroporto de Florianópolis, construção do aeroporto de Jaguaruna. Além, da área de expansão urbana da Grande Florianópolis (ICMBIO, 2016; ROCHA, 2015; MARTINS, 2012; ICMBIO, 2008; MACEDO, 2008).
O principal desafio de gestão da APABF está em equiparar o desenvolvimento econômico do território com a conservação ambiental. Em 2013, a equipe gestora iniciou a elaboração do Plano de Manejo da UC, o que segundo a própria equipe, exigirá participação e engajamento dos diferentes grupos de atores envolvidos. Bem como, maior envolvimento dos municípios na regulação do uso e ocupação do solo urbano, principalmente ao longo do litoral. Uma vez que este Plano de Manejo pretende ser “transgressor”, promovendo diálogos e acordos com os atores para resolver os conflitos entorno das diferentes territorialidades estabelecidas (MARRUL FILHO, 2016; ROCHA, 2014; CONAPABF, 2015; 2013; 2008).
Como estratégia de gestão, a APABF antes de elaborar seu Plano de Manejo, resolveu criar o CONAPABF em 2006, a fim de dar início a gestão participativa. Os gestores da APABF têm promovido a participação do CONAPABF nas decisões pertinentes ao território - pela promoção e mediação de diálogo com atores estratégicos, como os empresários e prefeituras, no intuito de influenciar as políticas urbanísticas, regionais e setoriais e pelo envolvimento na elaboração do Plano de Manejo da UC, dentre outras ações (DELFINO Y BELTRAME, 2014).
Segundo Macedo (2008), o CONAPABF foi concebido como um espaço efetivamente legítimo, representativo e democrático, sob o enfoque da cogestão. Através deste, a APABF estabelece relações interinstitucionais, que lhe proporcionam credibilidade e legitimidade no contexto nacional, onde ocupa o status de referência nacional.
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Em trabalho anterior (DELFINO Y BELTRAME, 2013; 2014) se verificou que, entre os grupos de atores, os principais conflitos giram em torno dos recursos e dos valores da paisagem litoral. Entre eles, se destacou o importante papel dos municípios, os agentes imobiliários, os residentes nativos14 e seus descendentes, e os imigrantes15 provenientes de outras regiões.
Estes grupos de atores de alguma maneira competem pelo mesmo objeto - a paisagem litoral - ainda que o façam de diferentes modos, atribuindo-lhes diferentes valores e gerando diferentes conflitos. De maneira que, se supõe que a paisagem é o elemento de conexão entre os municípios e a APABF, já que ultrapassa a fronteira delimitada pela dimensão jurídico-política de proteção dos recursos naturais do território e compreende também, as dimensões cultural e econômica, como pode ser visto nos capítulos seguintes.
14 Por residentes nativos, refere-se aqui àquelas pessoas que nasceram e vivem no
território.
15 Por imigrantes, refere-se aqui àquelas pessoas que não nasceram no território, porém aí
2 A RELAÇÃO MULTIDIMENSIONAL TERRITÓRIO-