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CAPÍTULO

2 A RELAÇÃO MULTIDIMENSIONAL TERRITÓRIO PAISAGEM: DO MATERIAL AO SIMBÓLICO

Para compreender o universo das APAs se propõe neste estudo analisar a APABF à luz do território e da paisagem, pois parte-se do pressuposto que as APAs constituem um território – nos termos do território usado e vivido, apropriado material e imaterial - e que a paisagem é um importante elemento de ligação entre os atores e esse território. Para tanto, esta seção apresenta uma discussão teórica- conceitual acerca de território e paisagem para que se possa compreender melhor essa relação dualista.

Os estudos sobre áreas de proteção ambiental pouco enfatizam a abordagem territorial e quando o fazem, é na perspectiva do desenvolvimento territorial, sem considerar de que tipo de território está se falando e, geralmente tratam de realidades ligadas a territórios rurais.

No entanto, na zona marinho-costeira brasileira estão situadas áreas de proteção que possuem realidades ligadas a outros contextos: urbano, de expansão urbana e turística, por exemplo. Assim, questiona-se aqui como promover a gestão territorial ou até mesmo, o desenvolvimento territorial em áreas protegidas que compreendem estes contextos? Para tanto, inicialmente se quer destacar o que se compreende por território, os conceitos secundários ligados a ele, por paisagem e por fim, gestão territorial e da paisagem.

2.1 DO SIMBÓLICO AO CONCRETO: IDENTIDADE E TERRITÓRIO

A definição de território está associada a um campo de forças, onde se desenvolve uma teia de relações sociais. Tem relação com espaços de poder e é constituído em diferentes escalas físicas e temporais. O território é um “espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder”. Sempre que houver interação homem-natureza num dado espaço, transformando-o e criando valor ao transformar este espaço, se estará diante de um território (SOUZA, 2003, p. 96),.

Santos (2001, p.19) evidencia que o território só existe quando considera-se o seu uso e os atores que o utilizam - tem relação com o sentimento de pertencimento. A “territorialidade humana pressupõe também a preocupação com o destino, a construção do futuro [...]”. Para o autor é preciso analisar sistematicamente a constituição de um território, numa concepção de território utilizado, podendo ser definido pelo

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dinamismo econômico e social; levando em conta a interdependência entre a materialidade – que inclui a natureza – e o seu uso, que inclui a ação do homem sobre o espaço geográfico, sobre o território. O território é o conjunto de sistemas naturais e dos sistemas de engenharia e envolve relações de poder intra e inter-territórios. O conceito de território está ligado diretamente às relações sociais e as relações de poder que se estabelecem sobre ele.

Segundo Haesbaert (2013) o termo território tem uma dupla conotação – material e simbólica. De um lado, o termo pode estar relacionado a dominação da terra, considera relações de poder, é mais concreto (material), ligado ao valor de troca. Por outro lado, pode estar ligado à identificação, apropriação, num sentido mais simbólico, ligado ao valor de uso, do “vivido”.

Assim, o território deve ser abordado dentro de um amplo continuum, desde os territórios de caráter mais material-funcional até aqueles com maior carga simbólica [...]. No primeiro caso, eles estariam vinculados tanto aos efeitos concretos das relações de poder e ao controle da mobilidade via fortalecimento de limites (ou “fronteira”), quanto a determinados circuitos de produção, circulação e consumo, que têm enorme relevância, hoje, em termos de controle territorial. Já no segundo caso o “controle” (e o próprio poder) se exerceria no campo do vivido e do simbolismo – indissociáveis na visão de Lefebvre” (HAESBAERT, 2013, p.24). No que concerne ao debate sobre território, o autor aponta alguns aspectos importantes a serem considerados: a) As relações de poder ocorrem com múltiplos atores, não somente a partir da figura do Estado; b) O território está intrinsecamente ligado a questões econômicas, políticas e as simbólicas, culturais; c) Há que se considerar a concepção de limites dos territórios, mas também “admitir a existência de territórios descontínuos, construídos no e pelo movimento, cujo componente fundamental é a rede” (HAESBAERT, 2013, p. 25). Podem existir territórios em diferentes escalas, eles podem ter um caráter permanente, periódico ou cíclico (SOUZA, 2003).

O estudo do território é multi-transdisciplinar e à geografia cabe pesquisar a dimensão espacial do território enquanto realização material das relações sociais, sobretudo, a partir das relações de poder; é um campo de multiplicidades, pois deve-se considerar suas transformações ao longo

do tempo. Sendo assim, território e espaço não são equivalentes, porém são inseparáveis, pois sem espaço não existiria território. Espaço corresponde a uma dimensão mais ampla e abstrata e território a uma dimensão mais concreta (HAESBAERT, 2013).

Os processos de territorialização não são necessariamente uma exclusividade do Estado (HAESBAERT, 2013; SOUZA, 2013).

Pelo contrário, Haesbaert (2013, p.27) afirma que o Estado “é o grande agente desterritorializador, viabilizador de uma nova ordem social”. No entanto, não pode-se esquecer “dos poderes heterônomos que nascem a partir de movimentos sociais, de resistência articuladores de territórios/territorialidades mais alternativos ou mais autônomos” (op. cit, p. 33). Na sua visão é essencial reconhecer e priorizar a existência e a multiplicidade de sujeitos envolvidos nesse processo e seus resultados.

Uma nova forma de territorialização considerada por Haesbaert (2013, p. 34) advém justamente da constituição de territórios alternativos, que levam em conta atividades e movimentos mais tradicionais, como as reservas indígenas e seringalistas. Estas “[...] conformam novas modalidades de territorialização que, em geral, aliam um tipo específico de domínio jurídico coletivo à forma tradicional de apropriação econômica e simbólica desses espaços por cada grupo sociocultural”. Estes territórios conformam diferentes territorialidades e, de acordo com o autor, compreendem o território nas suas três dimensões: jurídico- político, econômico e simbólico-cultural (Figura 4).

Territorialidade está ligada a uma estratégia de controle, onde o território representa o espaço de acesso controlado (SACK, 2013; SOUZA, 2003). Essa área geográfica corresponde ao território. Território e territorialidade estão intimamente ligados à relações de poder (SACK, 2013; HAESBAERT, 2013).

A definição de territorialidade ajuda a compreender que ela envolve uma forma de classificação por área; envolve uma forma de comunicação sobre os limites desse território; impõe o controle sobre o acesso a essa área. Essas três relações associadas a noção de territorialidade e suas interconexões são o significado da mesma e contribuem na definição de limites entre as relações e usos em um território num dado contexto histórico. “As funções de mudança da territorialidade nos ajudam a entender as relações históricas entre sociedade, espaço e tempo” (SACK, 2013, p. 63).

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Figura 4 - As dimensões conceituais de Território

Fonte: Haesbaert (2013) adaptado pela autora.

Nessa perspectiva, a APABF representa no universo das unidades de conservação um território ambiental, constituído juridicamente pelo Estado a partir da iniciativa de diferentes grupos de atores – universidade, movimento ambientalista e o próprio Estado. Sua criação representa a tentativa de estabelecer o controle sobre o uso dos recursos ambientais desse território, visto os impactos causados nas últimas décadas, principalmente, derivados do crescimento populacional e pela urbanização.

Ao mesmo tempo em que representa a estratégia de um grupo de atores, com uma visão mais conservacionista, desperta em outros grupos de atores, novas territorialidades em contraposição e/ou resistência aos primeiros. Essa dinâmica verificada no território da APABF – e no âmbito do conselho gestor – tem acentuado as relações de poder pré-existentes e criado novas relações de poder.

Olhar para a APABF na perspectiva do território e da territorialidade nos permite compreender que existe uma teia de relações e de atores entorno do uso e da limitação de uso de seus recursos ambientais.

Segundo Sack (2013), a territorialidade, está embutida de relações sociais, é construída socialmente e assume um ato de vontades, de razões e significados – tal como afirma Haesbaert (2013).

Território