CAPÍTULO VI - O ACESSO AO DIREITO E À JUSTIÇA NO TRABALHO
6. P APEL DA S EGURANÇA S OCIAL
Através da Lei nº. 30-E/2000, de 20 de Dezembro, passou a ser da competência da Segurança Social a apreciação dos pedidos de concessão de apoio judiciário, já que até aí competia ao juiz da causa fazer essa apreciação. Como explica Salvador da Costa (2007), a motivação dessa opção legislativa foi a de aliviar as pendências processuais dos tribunais e acelerar o processo de decisão sobre os pedidos de apoio judiciário. Já em 2004, através da Lei nº. 34/2004115, de 29 de Julho, o regime de acesso ao direito sofreu algumas alterações, mas manteve-se inalterada a entidade com competência para fazer a apreciação dos pedidos, isto é, a Segurança Social. Assim, nos termos do nº. 1 do artigo 20º116, a decisão sobre a concessão de protecção jurídica compete ao dirigente máximo dos serviços de Segurança Social (seja da área de residência ou da sede do requerente). Prevê, ainda, o nº. 2 do artigo 20º que, num caso de especial complexidade (isto é, nos casos em que os critérios decisórios relativos à determinação da insuficiência económica das pessoas singulares não se adequam ao caso concreto), se os serviços da Segurança Social entenderem não dever aplicar o resultado da apreciação efectuada no nº. 1, devem remeter o pedido, acompanhado de informação fundamentada, para uma comissão constituída por um magistrado designado pelo Conselho Superior da Magistratura, um magistrado do Ministério Público designado pelo Conselho Superior do Ministério Público, um advogado designado pela Ordem dos Advogados e um representante do Ministério da Justiça, a qual decide e remete tal decisão aos serviços da Segurança Social.
Como se sabe, a protecção jurídica abrange as modalidades de consulta jurídica117, apoio judiciário118 (dispensa de pagamento de taxa de justiça inicial e subsequente, preparos para despesas e de custas) e patrocínio judiciário (nomeação de
115 Como se mencionou em sede própria (cf, Capítulo II), a Lei nº. 34/2004 foi alterada pela Lei nº. 47/2007, que entrará em vigor no dia 01 de Janeiro de 2008. Ora, nos termos desta nova Lei, continua a ser da competência da Segurança Social a apreciação dos pedidos e a concessão do apoio judiciário. Como é a Lei nº. 34/2004 que se mantém em vigor, é sobre ela que recairá a nossa atenção, até porque todo este estudo se fez durante a sua vigência.
116 Há, todavia, uma ressalva, constante do artigo 20º, nº.1, parte final, e que remete para o artigo 21º, segundo o qual competirá à Ordem dos Advogados, e não à Segurança Social, a formulação do juízo sobre o fundamento legal da pretensão apresentada pelo requerente em sede de consulta jurídica (Costa, 2007: 135).
117 Cf. artigos 14º e seguintes. O Ministério da Justiça garante, por sua vez, a existência de gabinetes de consulta jurídica, com vista à gradual cobertura do país.
patrono119 com honorários e despesas a suportar pelo Estado), modalidades estas que podem ser cumuladas. O requerente deve apresentar o seu pedido, formulado em modelo próprio e onde expressa qual ou quais as modalidades pretendidas, em qualquer serviço de atendimento ao público dos serviços de Segurança Social (art. 22º, nº. 1 e 2). No dia seguinte ao da entrada do requerimento, a Segurança Social tem um prazo de 30 dias (prazo esse que é contínuo, não se suspendendo durante as férias judiciais e, terminando em dia em que os serviços da segurança social estejam encerrados, transfere-se o seu termo para o 1.º dia útil seguinte) para conclusão do processo e decisão sobre o pedido. Se, decorridos esses 30 dias, não houver decisão sobre o pedido, considera-se tacitamente deferido e concedido o pedido de protecção jurídica (art. 25º).
Olhamos agora, e a título de exemplo, para alguns dados dos Serviços da Segurança Social de Coimbra relativamente aos processos de protecção jurídica nos conflitos de trabalho. Para tal iremos usar dados do primeiro trimestre de 2006 e de 2007, para compreender a evolução dos pedidos de protecção.
119 No caso de ser concedido apoio judiciário na modalidade de nomeação de patrono, compete à Ordem dos Advogados a escolha e a nomeação do advogado, que deve ter escritório na comarca onde tramita o processo (art. 30º).
GRÁFICO 20: PROCESSOS DE PROTECÇÃO JURÍDICA NOS CONFLITOS DE TRABALHO (%) 0 20 40 60 80 100 120 140
deferidos inferidos arquivados
1.º Trim es tre 2006 2.º Trim es tre 2007
FONTE: SERVIÇOS DA SEGURANÇA SOCIAL DE COIMBRA
No primeiro trimestre de 2006 deram entrada nos serviços da Segurança Social 145 pedidos de protecção jurídica, o que representou 10% do total de pedidos. Destes, 98 foram deferidos, 46 indeferidos e 1 arquivado. No primeiro trimestre de 2007 registou-se um aumento do número de pedidos de protecção jurídica, 162 pedidos, que representaram um aumento de cerca de 17% comparativamente ao ano anterior.
Relativamente à caracterização dos utilizadores, no primeiro trimestre de 2006 a maioria é do sexo masculino (57,3% contra 43,7% das mulheres). Quanto à nacionalidade, a esmagadora maioria são trabalhadores portugueses (87,6% contra 12,4% de trabalhadores estrangeiros).
GRÁFICO 21:CARACTERIZAÇÃO DOS UTILIZADORES, SEGUNDO O SEXO (%) 0 10 20 30 40 50 60 70
1.º Trim es tre 2006 1.º Trim es tre 2007
Hom ens Mulheres
FONTE: SERVIÇOS DA SEGURANÇA SOCIAL DE COIMBRA
Quanto ao perfil dos utilizadores a realidade é idêntica à do ano anterior, tendo-se, no entanto, registado uma diminuição do número de mulheres e do número de trabalhadores estrangeiros, comparativamente a igual período do ano anterior – 58,7% de homens contra 41,3% de mulheres; 88,3% portugueses contra 11,7% de estrangeiros.
GRÁFICO 22:CARACTERIZAÇÃO DOS UTILIZADORES, SEGUNDO A NACIONALIDADE (%)
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
1.º Trim es tre 2006 1.º Trim es tre de 2007
Portugues es Es trangeiros
Relativamente às modalidades de protecção jurídica, no primeiro trimestre de 2006, dos 145 processos, 80 diziam respeito à nomeação de patrono (55,2%) e 65 sem nomeação de patrono (44,8%). O cenário no primeiro trimestre de 2007é idêntico, detectando-se, contudo, uma diminuição dos processos com nomeação de patrono (53,7%), aumentando assim os processos sem nomeação (46,3%).
GRÁFICO 23:CARACTERIZAÇÃO DAS MODALIDADES DE PROTECÇÃO JURÍDICA (%)
0 10 20 30 40 50 60
1.º Trim es tre de 2006 1.º Trim es tre de 2007
com nom eação de patrono s em nom eação de patrono
FONTE: SERVIÇOS DA SEGURANÇA SOCIAL DE COIMBRA
7.ANÁLISE DO FOCUS-GROUP COM OS PRINCIPAIS ACTORES NA ÁREA DA JUSTIÇA