Primeira Turma Cível
EMENTA
RESPONSABILIDADE CIVIL. CONCESSIONÁRIA DE ENERGIA ELÉTRICA. ACIDENTE EM REDE DE ALTA TENSÃO. DANO DECORRENTE DE ATIVIDADE DE TER- CEIRO. RESPONSABILIDADE INEXISTENTE. AUSÊNCIA DE NEXO CAUSAL.
1. O artigo 37, § 6 º da Constituição Federal, ao dispor que “As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”, não diferencia a modalidade de responsabilidade dessas pessoas jurídicas perante terceiros, não usuários do serviço. 2. Pela teoria do risco administrativo, buscou-se fundamentar a responsabilidade objetiva do Estado, que deve responder pelos danos causados a terceiros, independente de culpa e dolo. Con- tudo, a teoria do risco administrativo não se confunde com risco integral, não podendo o Estado ser responsabilizado nos casos em que o dano não decorra direta ou indiretamente da atividade administrativa.
3. In casu, o dano decorreu de atividades de terceiro, pois, da forma como estava sendo usado o local, com barcos de mastros altos estacionados próximo à rede primária da CEB, havia risco de choque elétrico.
4. Recurso conhecido e desprovido. ACÓRDÃO
Acordam os Senhores Desembargadores da 1ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Leila Arlanch - Relatora, Lecir Manoel da Luz - Revisor, Teófilo Caetano - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador Lécio Resende, em proferir a seguinte decisão: conhecer e negar provimento, unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
RELATÓRIO
Adoto, em parte, o relatório da r. sentença (fls. 259/264), in verbis:
“Vistos. Trata-se de conhecimento proposta por S. L. V. T. em face da COMPANHIA ENERGÉTICA DE BRASÍLIA - CEB. A autora narra que foi casada com J. R. T. que trabalha para a empresa Beatriz - Locações de Embarcações e Comércio LTDA. Em 17/02/2005 o senhor J. estava trabalhando no clube de caça e pesca e ao subir no veleiro o mesmo tombou e o mastro encostou- -se à fiação elétrica, levando-o a óbito. Explica que o veleiro se localizava exatamente abaixo da fiação de distribuição de tensão primária e que o mesmo havia uma emenda na fiação. Alega responsabilidade objetiva da CEB pelos danos sofridos. Requer indenização a título de danos morais e pagamento de pensão. Juntou documentos às fls. 08/31.
Devidamente citada, a CEB apresentou contestação às fls. 39/50. Em preliminar alega necessidade de denunciação à lide e ilegiti- midade passiva. No mérito, sustenta que a linha de transmissão foi instalada nos moldes estabelecidos pelas normas previstas e que a houve invasão da área de servidão por parte da empresa BIA-JET, empregadora do senhor J.
Réplica às fls. 86/88.
Saneado o processo em decisão de fls. 112/116, afastadas as pre- liminares e indeferido o pedido de denunciação à lide. Deferido o pedido de prova pericia e testemunhal.
Laudo pericial juntado às fls. 161/174.
Audiência de instrução e julgamento realizada em 12/05/2011. Vieram os autos conclusos.”
Acrescento que o MM Juiz a quo julgou improcedentes os pedidos, sob o fundamento de que se aplica à hipótese a responsabilidade subjetiva, pois a vítima não se caracteriza como consumidor do serviço, e inexiste nexo causal entre o acidente e conduta da CEB.
Irresignada, a autora apela. Em suas razões recursais (fls. 267/279), afirma que se aplica na hipótese o art. 37, § 6º, da Constituição Federal, sendo a responsabilidade da ré objetiva. Aduz que não houve culpa exclusiva de terceiro, mas sim ausência de fiscalização por parte da CEB. Requer a reforma da sentença, julgando procedentes os pedidos da inicial.
Dispensada do preparo, em razão da gratuidade de justiça, deferida a fl. 32. Não houve apresentação de contrarrazões.
VOTOS
Desa. Leila Arlanch (Relatora) - Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.
Conforme relatado, cuida-se de apelação interposta em face da r. sentença, que nos autos da ação de reparação de danos, julgou improcedentes os pedidos da inicial, ao fundamento de que a responsabilidade da ré, no caso, é subjetiva, e que inexiste nexo causal entre o dano e a conduta da ré.
Da Responsabilidade da Concessionária de Serviços Públicos
Primeiramente, cumpre salientar que a responsabilidade da concessionária de serviços públicos perante terceiros não usuários dos serviços foi matéria examinada pelo Supremo no RE 591874-2 MT, sendo considerada de repercussão geral, cuja ementa transcrevo a seguir:
CONSTITUCIONAL. RESPONSABILIDADE DO ESTADO, ART. 37, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO. PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO PRESTADORAS DE SERVIÇO PÚBLICO. CONCESSIONÁRIO OU PERMISSIONÁRIO DO SERVIÇO DE TRANSPORTE COLETIVO. RESPONSA- BILIDADE OBJETIVA EM RELAÇÃO A TERCEIROS NÃO USUÁRIOS DO SERVIÇO. RECURSO DESPROVIDO. I - A responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito pri- vado prestadoras de serviços públicos é objetiva relativamente a terceiros usuários e não usuários do serviço, segundo decorre do art. 37, § 6º, da Constituição Federal
II - A inequívoca presença do nexo de causalidade entre o ato administrativo e o dano causado a o terceiros usuários e não usuários do serviço público é condição suficiente para estabelecer a responsabilidade objetiva da pessoa jurídica de direito privado. III - Recurso extraordinário desprovido.
O artigo 37, § 6 º da Constituição Federal, ao dispor que “As pessoas jurídicas
de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”, não diferencia a modalidade
de responsabilidade dessas pessoas jurídicas perante terceiros, não usuários do serviço. Dessa forma, não tendo o legislador feito qualquer diferenciação, não cabe ao intérprete fazê-lo.
“Com fundamento nesse argumento, penso também que não se pode interpretar restritivamente o alcance do referido art. 37, sobretudo porque o texto magno, interpretado à luz do princípio da isonomia, não permite que se faça qualquer distinção entre os chamados terceiros, isto é, usuários e não usuários do serviço públi- co, vez que todos eles, de igual modo, podem sofrer dano em razão da ação administrativa do Estado, seja ela realizada diretamente, seja por meio de pessoa jurídica de direito privado.”(Programa de Responsabilidade Civil, 10ª ed., São Paulo: Editora Atlas, 2012 p. 275).
Conclui-se, com efeito, que a responsabilidade da concessionária, pessoa jurídica de direito privado, prestadora de serviços públicos, é objetiva, seja perante terceiros, seja perante usuários do serviço.
Pela teoria do risco administrativo, pela qual se atribui ao Estado a responsabilidade pelo risco criado pela sua atividade administrativa, buscou-se fundamentar a responsabilidade objetiva do Estado, que deve responder pelos danos causados a terceiros, independente de culpa e dolo. Contudo, ressalta-se que a teoria do risco administrativo não se confunde com risco integral, não podendo o Estado ser responsabilizado nos casos em que o dano não decorra direta ou indiretamente da atividade administrativa.
Assim, é ônus da apelante provar a conduta, dano e nexo causal, só podendo a Administração Pública ser responsabilizada por esses danos se ficar provado que, por sua omissão genérica ou atuação deficiente, concorreu decisivamente para o evento, deixando de realizar obras que razoavelmente lhe seriam exigíveis, ou de tomar providências que lhe seriam possíveis.
No caso em exame, o laudo realizado pela Polícia Civil, ao descrever o local do acidente, apontou que:
“Examinando o aludido veleiro, os peritos constataram que o seu mastro central tinha a possibilidade de encostar-se à rede, em virtude da sua altura estar maior ou igual à altura dos cabos da rede. A embarcação achava-se sobre um reboque que elevava a base do citado mastro a aproximadamente 1,6 m do solo. Segundo informações de outros empregados da empresa que ad- ministrava a marina, o barco já mencionado não estava calçado na porção inferior da popa, ou seja, passível de desequilíbrio por simples força, quando a vítima alcançou o seu interior, tombando- -o para trás e fazendo com que o mastro encostasse-se à fiação de 13,8 KV, rompendo um dos condutores.” (fl. 19)
Constatou ainda a Polícia Civil que a embarcação, da forma que estava posicionada, não obedecia a condições mínimas de segurança. Vejamos:
“Conforme a NTD - 6.05 e a NBR 5414, deverão ser adotados afas- tamentos mínimos dos condutores em relação a janelas, sacadas, saídas de incêndio etc, e, por analogia, seria inviável a presença de embarcações, sobretudo com mastros elevados, estacionadas ou em movimentação sob a rede primária.
Destarte, os peritos consideram que a embarcação posicionada embaixo dos condutores de 13,8 KV, encontrava-se em condições inseguras.
Concluem ainda que no local examinado imperava condição insegura de trabalho, uma vez que o estacionamento das embar- cações era feito no solo, logo abaixo dos condutores primários (13,8 KV).” (fl. 20) (Grifos nossos)
Observa-se ainda que, em 26 de abril de 1994, foi publicado Edital, no Diário Oficial do Distrito Federal, expedido pelo Juízo de Direito da 1ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal (fl. 56), notificando todos os proprietários e ocupantes de áreas públicas que constituem as faixas de servidão das redes e linhas de transmissão ou de distribuição de energia elétrica de propriedade da CEB ou próximo delas, para tomarem as providências necessárias quanto à desobstrução dessas áreas e limites de segurança, em um prazo máximo de 180 dias.
Conforme informação do edital, as edificações no perímetro urbano deviam obedecer a distâncias mínimas de segurança, de 1,5 m (horizontal) e 3,0 m (vertical), em redes de tensão igual ou até 13,8 KV.
Conforme verificado no laudo realizado pela Polícia Civil, os barcos estavam posicionados, não observando a distância mínima de segurança dos fios de alta tensão. A prova pericial produzida nos autos corrobora o Laudo da Polícia Civil, uma vez que o perito concluiu que o local do acidente era de risco:
“Pelo exposto, pode-se dizer que da maneira como a área estava sendo usada, ou seja, sem os afastamentos mínimos da rede pri- mária de energia elétrica e com os barcos de mastros altos esta- cionados sob o alinhamento de fiação de distribuição de energia elétrica, o local do acidente era de risco.” (fl. 166)
No presente caso, não se verifica o nexo causal entre o dano e qualquer conduta omissiva ou comissiva por parte da ré. Na verdade, o dano decorreu de atividades de terceiro, pois, da forma como estava sendo usado o local, com barcos
de mastros altos estacionados próximo à rede primária da CEB, havia risco de choque elétrico, o que não pode ser imputado à ré.
Nas lições de Sérgio Cavalieri Filho:
“O risco administrativo, repita-se, torna o Estado responsável pelos riscos da sua atividade administrativa, e não pela atividade de terceiros ou da própria vítima, e nem, ainda, por fenômenos da Natureza, estranhos à sua atividade. (...) Se o Estado, por seus agentes, não deram causa a esse dano, se inexiste relação de causa e efeito entre a atividade administrativa e a lesão, não terá lugar aplicação da teoria do risco administrativo e, por via de consequ- ência, o Poder Público não poderá ser responsabilizado.”(Programa de Responsabilidade Civil, 10ª ed., São Paulo: Editora Atlas, 2012, p. 257)
Ao contrário do que argumenta a recorrente, também não se verifica a violação do dever de cuidado ou ausência de fiscalização por parte da ré, tendo em vista que as providências preventivas que deveriam ter sido tomadas constam do edital de notificação do Juízo de Direito da 1ª Vara de Fazenda Pública do DF.
A ausência de sinalização também não ampara a tese da recorrente de que tenha havido omissão por parte da ré, uma vez que as redes de alta tensão são visíveis. Colaciono precedentes de casos semelhantes de acidentes ocorridos em redes de alta tensão:
CONCESSIONÁRIA DE ENERGIA ELÉTRICA - ACIDENTE EM REDE DE ALTA TENSÃO - RESPONSABILIDADE INE- XISTENTE - CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA.
1)- A concessionária de energia elétrica não tem responsabili- dade por morte de pessoa em decorrência de descarga elétrica de rede de alta tensão, quando ela se mostrava visível, dando-se o acidente em razão de ato de imprudência, o de tentativa de retirada de frutas de árvore que ficava nas suas proximidades, com uso de barra de ferro, que conhecidamente são condutoras de eletricidade.
2)- O fato público e notório o risco de acontecimento de acidentes graves quando se toca em rede de alta tensão, transmissora de energia elétrica, dispensando provas.
3)- Recurso conhecido e improvido. (Acórdão n. 349173, 20050111249745APC, Relator LUCIANO MOREIRA VAS- CONCELLOS, 5ª Turma Cível, julgado em 25/03/2009, DJ 02/04/2009 p. 82)
RESPONSABILIDADE CIVIL. CULPA OBJETIVA. RISCO ADMINISTRATIVO. CULPA EXCLUSIVA. REDE ELÉTRICA. MORTE DE PARTICULAR. Se o exercício de atividade do Es- tado causa danos a qualquer, tem-se a responsabilidade objetiva daquele em reparar o dano, responsabilidade que se afasta sendo o caso de culpa exclusiva do particular. Se ficar demonstrado que a rede elétrica passa em relação a conjunto residencial, em distância suficiente e recomendada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, afasta-se a responsabilidade do Estado em indenizar a morte de particular que, agindo sem a cautela devida, posiciona trilho de cortina de forma a encostar nos fios de alta tensão. (Acórdão n. 87869, APC3645595, Relator GETÚLIO DE MORAES OLIVEIRA, 2ª Turma Cível, julgado em 05/08/1996, DJ 02/10/1996 p. 17.409)
Por fim, diante da ausência de nexo causal entre o dano e conduta da ré, não se pode falar em dever de indenizar.
Forte nessas razões, nego provimento ao recurso, mantendo a sentença recorrida na íntegra.
É como voto.
Des. Lecir Manoel da Luz (Revisor) - Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.
Trata-se de ação de reparação de danos ajuizada por S. L. V. T. em desfavor da CEB - Companhia Energética de Brasília, ao fundamento de que seu marido, J. R. T., estava trabalhando no clube de caça e pesca e ao subir no veleiro, que se encontrava embaixo da fiação de distribuição de tensão primária, este tombou e o mastro encostou-se nos fios elétricos levando-o a óbito. Invoca a responsabilidade objetiva da companhia energética, requerendo reparação de danos morais e pagamento de pensão.
O douto magistrado sentenciante julgou improcedente o pedido indenizatório, concluindo, pela análise dos fatos e da perícia feita pela Polícia Civil do Distrito Federal, que não houve nexo causal entre o evento e as ações da CEB, parte apelada. Afastou, ainda, o pagamento de prestação alimentícia, ao argumento de que é essencial para tanto a configuração de culpa da prestadora de serviço energético, sendo esta inexistente na hipótese.
Razão não assiste à apelante, que invoca a aplicação do artigo 37, § 6º do CPC, bem como alega que houve ausência de cuidado quanto à fiscalização e sinalização por parte da empresa apelada.
Importante frisar, inicialmente, que a responsabilidade civil da CEB, como pessoa jurídica de direito privado e empresa concessionária de serviço público, é objetiva
ainda que perante terceiros não usuários do serviço, conforme orientação da teoria do risco administrativo.
Necessário, pois, a prova de conduta, dano e nexo causal. Ocorre que, a ação deverá ser decorrente de omissão ou ato imperfeito inerente a atividade administrativa, bem como precisará ser decisiva para a ocorrência do evento danoso, a mitigar a imputação do risco integral a Administração Pública.
Com efeito, de acordo com laudo pericial do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal (fls. 18/29), a embarcação envolvida no acidente encontrava-se em local inseguro para o trabalho, além do que não foi constada irregularidade na instalação da linha de transmissão sob a qual estava localizado o barco.
Desse modo, não existe nexo causal entre o acidente e qualquer conduta da CEB, podendo-se afirmar que o fortuito decorreu da forma irregular e insegura de utilização do local para a prática das atividades da empresa empregadora do falecido.
O dano ocorreu, pois, da atividade de terceiro, a qual não pode ser imputada à Administração Pública.
Ademais, afasto a alegada violação ao dever de fiscalização e sinalização, uma vez que os fios da rede elétrica são visíveis e houve notícia nos autos de publicação de edital de notificação, expedido pelo Juízo da 1ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal, dando ciência aos ocupantes de áreas públicas em faixas de servidão das redes e linhas de transmissão ou de distribuição de energia elétrica, como na hipótese, para providenciarem a desobstrução da área e observarem os limites de segurança (fl. 56).
Desta feita, em que pese ser inconteste que a situação causou grande sofrimento à apelante, não há como imputar responsabilidade civil à CEB em relação ao acidente que causou o falecimento de seu cônjuge.
Frente às razões supra, nego provimento ao recurso, e, mantenho inalterada a r. sentença apelada.
É como voto.
Des. Teófilo Caetano (Vogal) - Com o Relator. DECISÃO
Conhecer e negar provimento, unânime.
APELAÇÃO CÍVEL Nº 2007011153590-3