3 AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE X RECUSA NA REALIZAÇÃO
3.5 RECUSA NA REALIZAÇÃO DO EXAME DE DNA
4.1.1 Apelação cível n 0010084-39.2011.8.24.0064, de São José
Trata-se de um acórdão proferido na data de 18 de outubro de 2018, tendo como relator o desembargador Jorge Luis Costa Beber, da 1ª Câmara de Direito Civil, do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, com sentença oriunda da comarca de São José (ANEXO A). A ementa do referido acórdão e os entendimentos da decisão são expostos como seguem:
APELAÇÃO CÍVEL. INVESTIGATÓRIA DE PATERNIDADE. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA FUNDADA NA PRESUNÇÃO QUE DECORRE DA RECUSA À REALIZAÇÃO DE EXAME HEMATOLÓGICO DE DNA (SÚMULA 301, STJ). APELO DE AMBAS AS PARTES. I. RECLAMO DO RÉU. I.I. PRELIMINARES. ANÁLISE DESPICIENDA. RESULTADO DE MÉRITO QUE BENEFICIA AQUELE QUE SUSCITA A PREJUDICIAL. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA RESOLUÇÃO MERITÓRIA DAS DEMANDAS. ART. 4º DO CPC/15. A lei processual civil vigente prestigia à resolução definitiva das lides, em detrimento da proclamação de resultados extintivos do processo, mas não do conflito, de modo que é despicienda a análise de preliminares suscitadas pela parte a cujo resultado de mérito
aproveita. I.II. MÉRITO. ALEGADA INEXISTÊNCIA DE PROVAS, QUANTO À PATERNIDADE ALEGADA. TESE SUBSISTENTE. ATIVIDADE PROBRANTE DO AUTOR LIMITADA A APRESENTAÇÃO TARDIA DE UMA FOTOGRAFIA DE DUVIDOSA INTEPRETAÇÃO. RÉU QUE, AO REVÉS, EMBORA RECUSANDO-SE A REALIZAR O EXAME, ARROLOU TESTEMUNHAS E JUNTOU DOCUMENTOS, EVIDENCIANDO A FRAGILIDADE DOS FATOS TAL COMO EXPOSTOS NA EXORDIAL. PAI REGISTRAL OUVIDO EM JUÍZO QUE REJEITA A EXISTÊNCIA DA PATERNIDADE RECLAMADA E CONFERE ÂNIMO OPORTUNISTA AO PEDIDO. ACERVO PROBATÓRIO INCAPAZ DE SUSTENTAR A PROCEDÊNCIA DO PEDIDO, AINDA QUE CONSIDERADA A PRESUNÇÃO JURIS TANTUM DE PATERNIDADE PREVISTA EM LEI E SÚMULA 301 DO STJ. PRECEDENTES. É impossível reputar o comportamento das partes no desenvolvimento da demanda como um dado inexpressivo, incolor ou irrelevante, máxime quando o litígio envolve direito indisponível, como a investigação do estado de filiação, cujos efeitos são prioritários à dignidade da pessoa. Ainda assim, não se cogita declarar a paternidade apenas e tão somente com espeque na presunção que decorre da resistência do investigado a submeter-se a exame de DNA, como se a recusa, por maior valor probante que ostente, fosse prova peremptória da paternidade. Caso concreto em que não se retira dos autos quaisquer elementos que possam induzir à mínima, mas suficiente, segurança quanto à paternidade alegada, o que não pode conduzir a outro desfecho senão aquele de improcedência. Mesmo porque o iter intelectivo do julgador, sob qual está assentado o seu convencimento, não pode e não deve estar lastreado em prova frágil, duvidosa ou conflitante, ornada de circunstâncias que conspiram contra aquilo que é, de fato, possível extrair dos autos, devendo, ao contrário disso, estar supedaneado em elementos com espessura suficiente para gerar uma convicção escoimada de dúvidas substanciais. SENTENÇA REFORMADA. IMPROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS INICIAIS. II. RECLAMO DO AUTOR. II.I. "ISENÇÃO" DE CUSTAS NA SENTENÇA. PARTE BENEFICIÁRIA DA JUSTIÇA GRATUITA. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DA CONDENAÇÃO QUE SE IMPÕE. EXEGESE DO ART. 98, §§2º E 3º, DO CPC/15. II.II. DEFENSORIA DATIVA. ARBITRAMENTO DE HONORÁRIOS. CABIMENTO. FIXAÇÃO EQUITATIVA (ART. 85, §8º, CPC/15) CONFORME INDICADORES DO ART. 85, § 2º, DO CPC/15. RECURSOS CONHECIDOS, PROVIDO O DO RÉU E PROVIDO EM PARTE O DO AUTOR. (TJSC, Apelação Cível n. 0010084-39.2011.8.24.0064, de São José, rel. Des. Jorge Luis Costa Beber, Primeira Câmara de Direito Civil, j. 18-10-2018) (SANTA CATARINA, 2018).
O acordão é decorrente da ação de investigação de paternidade c/c alimentos ajuizada pelo filho e o pai registral, que afirmam conhecer a circunstância da paternidade biológica em desfavor do suposto pai. Em suma, alega o apelante carência da ação haja vista o autor já ser registrado em nome de outro pai pressupondo a desconstituição do registro, que quem deveria realizar o exame de DNA era o pai registral, para excluir a paternidade biológica voluntária declarada e ainda que já decaiu o direito do autor a impugnar o reconhecimento da paternidade tendo em vista que transcorridos mais de quatro anos da maioridade. Afirma ainda que não há indícios suficientes de paternidade nos autos, que as fotografias juntadas aos autos foram juntadas de má-fé, pois juntadas apenas nas alegações finais. Já a parte autora requereu a revisão quanto à assistência judiciária que já tinha sido concedida, alegando que embora tenha disso parcialmente vencido no mérito continua sendo beneficiário da justiça gratuita, devendo ser isento de custas.
A sentença foi de procedência parcial dos pedidos iniciais: declarou a paternidade, mas negou o pedido de alimentos, ausente prova da necessidade; calcando-se na presunção juris
tantum derivada da recusa injustificada à realização de exame de DNA o acolhimento da
pretensão declaratória, pois que no entender da digna magistrada sentenciante, a referida presunção perfilhou-se aos elementos de prova carreados aos autos. Afirma o relator que o apelante concorda que teve uma única relação com a genitora do autor, mas muito antes do nascimento do mesmo, e afirma que nada nos autos aponta para a existência da paternidade alegada.
Extraem-se do relato, as informações de que não há nenhuma prova do relacionamento de um ano entre o réu e a genitora do autor, nem depoimentos de testemunhas que confirmem a relação, não tendo o autor arrolado testemunhas; as testemunhas ouvidas declararam que o réu casou-se com a primeira namorada que teve com quem permanece até hoje. Conforme depoimento do pai registral, verifica-se que há possibilidade de uma terceira pessoa ser o pai biológico do autor, haja vista informações da genitora.
Na sentença, foi consignada a ausência de provas indiciárias da paternidade imputada ao recorrente; mesmo reconhecendo a ausência de provas, julgou procedente o pedido de declaração da paternidade, apresentando, como único fundamento, a presunção gerada pela recusa do recorrente em coletar o material genético. Não obstante tenha o recorrente deixado de realizar, injustificadamente, o exame de DNA, incumbia à recorrida, minimamente, por meio de provas indiciárias, comprovar a possibilidade de ser reconhecida a paternidade, o que, na hipótese, não ocorreu.
Ante a ausência mínima de provas que possibilitem declarar a paternidade ao apelante, ainda que o último tenha se recusado a realizar o exame genético, decidiram por votação unânime, declarar a improcedência dos pedidos iniciais, condenando o autor em honorários e sucumbência, no entanto mantendo a inexigibilidade das verbas, haja vista o autor ser beneficiário da justiça gratuita.