• Nenhum resultado encontrado

121 Apesar do esforço petista em demonstrar maior

No documento As mudanças do programa petista nos anos 90 (páginas 120-128)

De Collor a FHC e os

121 Apesar do esforço petista em demonstrar maior

concretude e viabilidade nas suas propostas, alguns im- portantes itens do programa foram tratados de forma genérica e pouco clara. No segundo capítulo, declara o partido:

A participação popular é um princípio que perpassa nos- sa concepção de organização da sociedade e do Estado. Para o processo de radicalização da democracia, a participação popu- lar é tão importante quanto os mecanismos da democracia re- presentativa.

A participação popular será o instrumento privilegiado pelo Governo Democrático e Popular para socializar o poder e a política, pois uma nova sociedade só poderá ser construída se a política for assumida como preocupação por dezenas de mi-

lhões de brasileiros e se o poder não ficar confinado nas estrutu- ras burocráticas de um Estado tradicionalmente organizado para garantir a dominação de uma minoria.38

Não há, porém, a menor indicação de como isso seria feito, chegando o partido a afirmar que tal par- ticipação resultaria da auto-organização da sociedade, o que pouco esclarece. Quanto à instituição de meca- nismos de aprimoramento da democracia representati- va, novamente o partido adota um discurso evasivo, de- fendendo apenas a realização de plebiscitos, referendos e consultas populares. Outro instrumento de ampliação

38 Idem, pp. 14-15.

122

da democracia citado no programa são os conselhos po- pulares. Sobre eles declara o programa:

Considerando que nosso governo necessitará do apoio or- ganizado da maioria do povo, a preocupação com os conselhos populares deve estar presente. Ela se apoiará nas lutas e orga- nizações existentes nos bairros e fábricas, no campo pela refor- ma agrária e nas formas de controle das estatais.39

Genéricas e inconclusivas, as colocações petistas sobre a formação de conselhos populares não permitem antever como eles se relacionariam com as instituições existentes, como o Parlamento.

Na área econômica, como foi apontado dentro do

próprio PT, a principal falha nas propostas foi a ausên- cia de um plano alternativo ao Real. Marco Aurélio Garcia, coordenador dos programas de governo das can- didaturas Lula em 1994 e 1998, ao analisar a questão, afirmou: ―Ninguém subestimou a importância eleitoral que o Plano Real teria. Não imaginávamos, no entanto, que essa importância fosse tão grande e imediata. Nos- so programa foi capaz de apontar respostas adequadas, ainda que pouco aprofundadas, à questão crucial de compatibilizar crescimento com distribuição de renda.

(...) As esquerdas não têm a mesma facilidade que a direita para formular projetos de combate à inflação.

Nossas fórmulas a respeito da estabilização eram muito

39 Idem, p. 17.

123 genéricas, ainda que corretas. Alegávamos – o que é cer- to – que somente estando no governo teríamos condi- ções de precisar nossas políticas concretas de combate à inflação‖.40 Os dois trechos a seguir ilustram as obser- vações de Garcia:

[O Governo e as maiorias nacionais] procurarão reorientar a economia, buscando um novo ciclo de desenvolvimento, ba- seado na constituição de um mercado interno de massas, isto é, na criação de um círculo virtuoso de crescimento entre salários, produtividade, consumo e investimentos.

(...) A inflação será combatida nos marcos de uma políti- ca global de desenvolvimento e distribuição de renda, com uma estratégia que atacará suas várias causas: conflito distributivo,

transferência de recursos para o exterior, juros altos e especula- ção financeira, crescimento da dívida pública, expansão mone- tária e fragilidade financeira no setor público.41

Já as críticas ao Real, que ocupam todo um subitem, não vieram acompanhadas de propostas alternativas e terminam denunciando o caráter exclusivamente eleitoreiro do plano:

Tudo indica que a eventual redução da inflação conseguida com as medidas anunciadas não poderia se manter por muito

40 Teoria & Debate nº 28, 1995, p. 20.

41 PT, 1994, pp. 116-117.

124

tempo: o plano tem antes de mais nada um caráter de mano- bra eleitoral.42

O último ponto a ser destacado nesta análise é a maior incorporação de experiências administrativas ao programa petista. Em 1994, o partido já havia vencido disputas em sete capitais e em Porto Alegre já entrava no sexto ano consecutivo de governo. Não à toa, uma das experiências citadas, o Orçamento Participativo, que trataremos com mais detalhe adiante, teve consistente desenvolvimento na capital gaúcha. Sobre ele, afirma o programa:

[O orçamento participativo] tem sido a marca principal das administrações municipais democráticas e populares, de- monstrando sua viabilidade e seu papel estratégico entre as políticas de gestão democrática tanto em pequenos quanto em

grandes municípios.43

Nesta breve análise sobre o programa petista para as eleições presidenciais de 1994 podemos ver alguns indí- cios das mudanças que ocorreriam nas propostas petistas ao longo da década de 90. Embora amplo e com a marcada intenção de mostrar-se como de esquerda, o programa não vincula diretamente suas propostas a um iminente futuro socialista e busca articular o aspecto transforma- dor do partido com a capacidade de resolver problemas concretos, enfatizada com a maior inclusão de experiên- cias administrativas consideradas bem-sucedidas.

42 Idem, p. 154.

43 Idem, p. 16.

O s u c e s s o no i n t e r i o r

125

As eleições municipais de 1996 tiveram para o PT características similares às de 1992. Como quatro anos antes, o partido não conseguiu emplacar seus candida- tos em importantes cidades que já administrava, como Belo Horizonte, Goiânia e Rio Branco, sendo também derrotado em Santos e Diadema, este último governa- do pelos petistas desde 1982. O amargo sabor da derro- ta nestas cidades foi compensado pelo crescimento de mais de 100% no número de prefeituras conquistadas (de 54 para 115) e de 80% no número de vereadores eleitos (de 1100 para 1985). Este crescimento se deve, em parte, ao aumento da votação petista no interior do país, embora a agremiação mantivesse uma performance

competitiva nas capitais, tendo vencido em Porto Ale- gre e Belém. Em 1996, 76% das vitórias petistas ocorre- ram em cidades com até 50 mil habitantes e o partido ampliou o número de prefeituras em todas as regiões do Brasil. Como comentou o prefeito de Chapecó, José Fritsch, ―o PT interiorizou-se, quer dizer, avançou em pequenas e médias cidades do interior do país, resul- tando em um grande crescimento eleitoral‖.44

Ainda sobre estas eleições deve-se destacar o bom desempenho petista no Rio Grande do Sul, Estado onde o PT passou de oito para 26 prefeituras e cuja capital, Porto Alegre, que desde 1989 era administrada pelo

44 Fritsch, 1997, p. 23.

126

partido, transformara-se na principal vitrine do ―Modo Petista de Governar‖.45 Boa parte do sucesso do PT em Porto Alegre veio da implantação do Orçamento Participativo (OP), modelo de administração que per- mite maior intervenção da sociedade na alocação de recursos e definição de prioridades, como podemos ob- servar no artigo 116 da Lei Orgânica desse município:

―Fica garantida a participação da comunidade, a partir das regiões do município, nas etapas de elaboração, de- finição e acompanhamento da execução do plano plurianual, de diretrizes orçamentárias e do orçamento anual‖.46 Sobre a importância do OP, Ubiratan de Sou- za analisa: ―Com a eleição do prefeito Raul Pont, em 1996, (...) consolidou-se a nossa maneira de governar, que tem o Orçamento Participativo como principal ins- trumento e novo paradigma para a esquerda‖.47

45 Embora não exista uma definição oficial do ―Modo Petista de Governar‖, podemos afirmar que, em linhas gerais, trata-se de um modelo de administração com ―ênfase nas questões sociais e na construção e aprofundamento de novas práticas democráti- cas‖ (PT, 1998, p. 628). Celso Daniel, ao comentar o ―Modo Petista de Governar‖, o identificou com o binômio ―inversão de prioridades-participação popular‖ (Barreto, Magalhães & Tre- vas, 1999, p. 183). Ainda sobre o assunto ver: Desafios do governo local: o modo petista de governar (Vários, 1997) e Governo e cidadania:balanço e reflexões sobre o modo petista de governar (Barreto, Magalhães & Trevas, 1999).

46 Genro & Souza, 2001, p. 48.

47 Idem, p. 45.

A r e e l e i ç ã o de FH C

127

As eleições gerais de 1998 ocorreram sob uma nova característica institucional: a reeleição para postos do executivo sem a necessidade do afastamento do cargo durante o período eleitoral. Aproveitando a possibilida- de de reeleição, Cardoso ampliou sua coligação de cen- tro-direita, que passou a contar com o apoio formal do Partido Progressista Brasileiro (PPB), de Paulo Maluf, e de amplos setores do PMDB. Como acontecera em 1994, o principal adversário do presidente foi o petista Luiz Inácio Lula da Silva, que contava com uma aliança com- posta por PSB, PC do B e, principalmente, PDT, que acabou por indicar Leonel Brizola para o cargo de vice- presidente. Sobre a reeleição e a correlação de forças se-

melhante à de 1994, comentou Giannotti: ―A campanha para a reeleição (...) foi inteiramente estruturada para

que nada de novo interviesse no processo, de tal modo que pudesse ser a mais semelhante àquela que resultou na eleição de 1995. Esta estratégia estava na lógica da reeleição. O presidente, muito competentemente, soube afastar todos os novos candidatos, com exceção de Ciro Gomes [do PPS], para que seu confronto se resumisse a uma contradança déjà vu entre ele e Lula‖.48

Esta contradança, porém, não ocorreu sem sobres- saltos. Na primeira etapa da campanha, que vai até ju- lho, o aumento do desemprego e a queda nos índices de

48 Giannotti, 1998, p. 7.

128

crescimento econômico e da renda média do brasileiro contribuíram para o desgaste de Cardoso, acentuado ain- da pela incapacidade do governo de responder positiva- mente a muitos problemas sociais, entre eles a seca no Nordeste e a onda de saques dos flagelados. Como con- seqüência, as intenções de voto no então presidente, en- tre abril e junho, caíram de 41% para 33%. No mesmo período, Lula subiu nas pesquisas, atingindo 30%.

Evolução da intenção de voto (estimulada) no 1º turno (em %):

129

No documento As mudanças do programa petista nos anos 90 (páginas 120-128)

Documentos relacionados