De Collor a FHC e os
113 tão senador Roberto Freire. Em maio de 1994, durante o
9º Encontro Nacional do partido, foram aprovadas as Bases do Programa de Governo, que continha o subtítu- lo ―Uma Revolução Democrática no Brasil‖.
A idéia da ―Revolução Democrática‖ é fruto de dis- cussões realizadas dentro do PT a partir do seu 1º Con- gresso, ocorrido em dezembro de 1991. Naquela oca- sião, o partido se propunha a realizar a ―atualização do seu projeto histórico, fruto de 11 anos de luta pela de- mocracia e pela igualdade social‖.23 Nas resoluções apro- vadas no Congresso, volta-se a condenar as experiências do socialismo real e da social-democracia. Sobre a pri- meira, o partido afirma: ―o socialismo real teve como resultado global uma verdadeira contra-revolução, que alijou os trabalhadores do exercício do poder e a con-
centrou nas mãos de uma burocracia transformada na nova camada dominante (...). Mesmo com o progresso material da sociedade, a resolução burocrática e admi- nistrativa da organização da produção, da circulação de bens e da vida social acabou por pressupor uma nova forma de gerir instituições que pouco se diferenciava das velhas instituições capitalistas. A nova ordem, a ci- dadania plena, a liberdade não só não chegaram a essas sociedades, nem penetraram em suas instituições, como foram negadas em nome da ‗defesa das conquistas soci- ais ameaçadas constantemente pelo inimigo externo‘
(...). Não pode haver esperança com esse horizonte so- cialista. Por isso, o PT tem que recusar claramente esse
23 PT, 1998, p. 481.
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modelo‖.24 Sobre a segunda, declara: ―O PT não vê na social-democracia um caminho para a construção do socialismo nem tampouco uma alternativa real aos impasses da sociedade brasileira‖.25
Partindo desta crítica, o PT volta a defender uma nova concepção de socialismo, o chamado socialismo democrático. Vejamos: ―O socialismo pelo qual o PT luta prevê (...) a existência de um Estado de Direito, no qual prevaleçam as mais amplas liberdades civis e polí- ticas (...). A democracia socialista que ambicionamos construir estabelece a legitimação majoritária do poder político, o respeito às minorias e a possibilidade de alternância no poder‖.2 6 Apesar de defender a institucionalidade e as transformações da sociedade a partir dela, o PT não recusa definitivamente o caminho
revolucionário. Buscando descobrir se o viés leninista
havia sido abandonado pelo partido no 1º Congresso,
Azevedo chega à seguinte conclusão: ―Não se pode afir- mar que o PT, em 1991, tenha abandonado a estratégia de ‗acúmulo de forças para a revolução socialista‘. Caso positivo, seria preciso que o partido dissesse sem rodeios, sem meias palavras, sem titubeios, sem tergiversações. O PT não o fez. Muito ao contrário, no próprio 1º Con- gresso afirmava-se ainda que o crescimento, a generaliza- ção e a politização dos movimentos sociais é fundamen- tal em nossa política de acúmulo de forças e disputa de
24 Idem, pp. 494-495.
25 Idem, p. 502.
26 Idem, p. 500.
115 hegemonia. Em síntese, o problema permanece, pois ou bem se aceita o jogo democrático ou se acumulam forças para a revolução. O PT não exclui nenhuma das duas hipóteses‖.27 Podemos daqui extrair que, apesar da pre- tensão de atualizar seu projeto histórico e da defesa radi- cal da democracia, o PT pouco avançou, no seu 1º Con- gresso, quanto às ambigüidades e contradições da sua proposta de socialismo democrático.
É neste contexto que surge o termo ―Revolução De- mocrática‖ que, apesar do nome, designa, na verdade, um conjunto de reformas sociais capazes de romper com o poder dos grupos dominantes e abrir caminho para a construção de uma sociedade socialista. Como analisa Singer, ―ao adjetivar de democrática a transformação pretendida, o PT faz questão de frisar os compromissos assumidos com a democracia. Ao manter o termo ‗revo-
lução‘, faz uma ponte com o próprio passado‖.28
O programa de governo elaborado para as eleições de 1994 tem como eixo central a idéia da ―Revolução Democrática‖. Para os petistas, um eventual governo Lula teria condições de iniciar reformas que alterariam drasticamente a organização da sociedade brasileira, como é possível observar na seguinte passagem:
Neste programa estão contidas as alternativas para mu- dar as grandes estruturas sociais e políticas do Brasil. (...) Ele reflete nossa disposição de desencadear um grande movimento
27 Azevedo, 1995, p. 199.
28 Singer, 2001, p. 39.
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de idéias, uma verdadeira renovação da cultura política brasi- leira, parte integrante da revolução democrática que pretende- mos impulsionar no país.29
Como ocorrera em 1989, o PT busca mostrar ser uma opção à esquerda, afirmando claramente que to- das as ações do Estado sob seu comando privilegiariam a distribuição de renda. Os trechos abaixo não deixam dúvidas:
Este é o programa de um governo que submeterá todos seus objetivos à meta central de combater a pobreza e a indi- gência que atingem metade da população brasileira.30
Com o Governo Democrático e Popular (...) haverá um processo de distribuição da riqueza, da renda e do poder, condi-
ção do novo processo de desenvolvimento [do país].
(...) Estabeleceremos as bases para uma sociedade em que a riqueza social seja apropriada pelos que a produzem.31
Também como fizera cinco anos antes, o PT de- monstra abertamente sua oposição ao projeto neoliberal, defendendo o fortalecimento do papel do Estado na ela- boração e condução de um projeto nacional de desen- volvimento:
29 PT, 1994, p. 7.
30 Idem, p. 5.
31 Idem, pp. 116-117.
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O neoliberalismo opta pelo “Estado mínimo” em oposição a um Estado grande e forte que supostamente existiria no Bra- sil. Essa definição é falsa. O atual Estado brasileiro é simulta- neamente grande e fraco. É grande em função da hiperconcentração de poderes, da superposição de estruturas e ações, da burocratização desmedida (...). É fraco por sua ine- ficiência, por sua ausência na prestação de serviços públicos ou por sua privatização pelo poder do grande capital. Necessita-se de um Estado forte, capaz de assumir seu papel em um projeto nacional de desenvolvimento.32
Para fortalecer a ação estatal, o PT propõe uma re- forma do Estado baseada na sua democratização e cor- respondente desprivatização. De maneira um pouco mais sistematizada do que em 1989, as propostas petistas
estão articuladas no Capítulo III do programa, intitulado Reforma e Democratização do Estado. Neste capítulo, afirma o partido:
O desafio que se coloca para o Governo Democrático e Popular é realizar uma reforma do Estado que, introduzindo um novo modelo de gestão, crie condições para a implementação de um novo tipo de desenvolvimento econômico-social nos mar- cos da revolução democrática. Ao atraso e autoritarismo do Estado brasileiro, opõe-se um novo modelo de gestão. A moder- nização do Estado tem como pressuposto sua democratização.33
32 Idem, p. 45.
33 Idem, ibidem.
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As políticas de renda também ocupam importante espaço no programa petista. Reforma agrária, recupera- ção de salários e garantia de uma renda mínima a todas as famílias formam o núcleo das propostas:
O ataque à pobreza terá que ser feito em várias frentes, sendo uma delas a distribuição de propriedade propriamente dita, especialmente no caso da terra. Outra é uma política de rendas. Ela deverá ser gradual (...), ofensiva (...) e transpa- rente (...). Entre seus mecanismos, encontra-se em primeiro lugar a elevação gradual e permanente do salário mínimo real, tendo como meta dobrar seu valor atual no menor prazo possível.
(...) Como objetivo de promover a cidadania, melhorar a distribuição de renda, combater a fome e erradicar a miséria, será instituído um programa de renda mínima, definido em lei, compatível com o grau de desenvolvimento do país.34
É possível observar que, como em 1989, o PT rea- firma seu posicionamento à esquerda do espectro polí- tico enfatizando temas como a distribuição de renda, inclusive defendendo a implantação de políticas especí- ficas neste setor, e o fortalecimento da intervenção es- tatal no planejamento econômico. Em 1994, porém, as propostas aparecem timidamente vinculadas aos objeti- vos socialistas do partido. Muito diferente do que acon- tecera cinco anos antes, em apenas um momento o PT
34 Idem, pp. 123-124.
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