1.3. REGIME PREVISTO NA LEI N.º 67/2007, DE 31 DE DEZEMBRO
1.3.6. APLICAÇÃO DA RESPONSABILIDADE AOS MUNICIPIOS: BREVES CONCLUSÕES
Finalizada a análise sobre a responsabilidade civil da Administração Pública, passamos a tecer as seguintes conclusões (breves): a nossa dissertação Mestrado tem por objetivo a análise da responsabilidade que recai sobre os Municípios quando os mesmos não cumpram o dever de vigilância sobre as vias pertencentes ao seu leque de competências.
Nesse sentido, procedemos, no presente capítulo à análise da responsabilidade civil administrativa para percebermos onde se insere a responsabilidade do Município.
Assim, verificamos que, sempre que haja uma omissão dos deveres legalmente impostos, por parte do Município – no caso concreto do nosso estudo – do dever de vigilância, recais sobre aquela entidade pública, o dever de indemnizar o particular que sofreu os danos, o que equivale a dizer que os Município, quando não cumpram os deveres de vigilância das vias da sua competência ou mesmo titularidade, incorrerem em responsabilidade civil administrativa (extracontratual), decorrente da função administrativa, por facto ilícito.
CAPITULO III
CULPA IN VIGILANDO
Chegamos, assim, ao terceiro e último capítulo da nossa dissertação de mestrado, no qual
abordaremos a matéria relativa à culpa in vigilando dos Municípios em relação às vias de
comunicação da sua competência.
Depois de tecermos todas as considerações necessárias sobre as atribuições e competências que os Municípios detêm sobre as vias de comunicação a eles pertencentes, e depois também de analisarmos a responsabilidade que impende sobre os Municípios quando os mesmos não cumpram
os deveres a que se encontram adstritos, é hora de analisarmos, em concreto, o dever de vigilância
que recai sobre aquela entidade e a responsabilidade que advém da sua omissão, análise que será feita com base na legislação atual, na doutrina e essencialmente na jurisprudência.
Vários são os exemplos de omissão do dever de vigilância que podemos encontrar no quotidiano dos particulares. A título de exemplo podemos referir os acidentes de viação originados por falta de sinalização de uma situação de perigo, como é o caso da existência de determinado buraco numa via municipal, o qual, por não tendo sido sinalizado atempadamente, não permitiu ao condutor do veículo ter conhecimento da existência do mesmo e, por conseguinte, acaba por não lhe ser possível adequar a sua condução às circunstâncias da via porque não há qualquer sinalização que indique a existência daquele obstáculo/situação de perigo. O mesmo sucede quando o condutor de determinado veículo é surpreendido pelo aparecimento de pedras na via municipal, as quais não foram removidas em tempo útil, nem se encontravam sinalizadas, não permitindo, de igual forma, ao condutor adequar a sua condução aquela circunstância e, consequentemente evitar a colisão.
Assim, esta falta de sinalização pela entidade por ela responsável constitui uma omissão ilícita do cumprimento daquele dever, levando-nos para uma situação de culpa por negligência leve ou grave. Situação contrária serão os casos em que haja uma correta sinalização das vias municipais de situações de perigo e, mesmo assim, ocorra determinado acidente. Nesses casos, por regra, estaremos perante uma situação de risco.
Um outro exemplo de omissão do dever de vigilância e ocorrência de danos por via dessa violação são os casos de queda de árvores que se encontram nos passeios das vias municipais, situação que gera sérios prejuízos aos particulares e, a qual poderia ser evitada se, efetivamente fosse cumprido o dever de vigilância sobre o estado fitossanitário daquela árvore, de forma a evitar a queda da mesma e os consequentes danos a terceiros.
A estes exemplos poderíamos acrescentar tantos outros que se têm debatido, até aos dias de hoje, nos Tribunais Administrativos.
A culpa in vigilando traduz-se, assim, na culpa por omissão dos deveres de vigilância, a qual se encontra prevista, atualmente, no n.º 3 do artigo 10.º da Lei n.º 67/2007 e no n.º 1 do artigo 493.º do CC que estabelecem, como já vimos, uma presunção de culpa a favor do lesado.
No âmbito do nosso estudo, propusemo-nos debater a responsabilidade civil administrativa
extracontratual dos Municípios por culpa in vigilando, no panorama das vias de comunicação da rede
municipal, ou seja, das vias cuja titularidade pertence ao Município. No entanto, aquela responsabilidade poderá também verificar-se em relação às vias cuja titularidade não pertence ao Município, mas pertence o dever de gestão e conservação.
Nesse sentido, conforme também já tivemos oportunidade de referir, em sede de atribuições/competências das Autarquias Locais e dos Municípios, é da competência dos Municípios, através câmara municipal, como seu órgão representativo e a quem compete a administração do domínio público, a conservação, gestão, manutenção das vias/caminhos municipais, bem como a sinalização de perigos. Assim, de forma a assegurar o cumprimento destes deveres é necessária uma concreta e eficaz vigilância das vias/caminhos municipais por parte da entidade competente – Municípios.
Ao longo da nossa dissertação referimos também que a culpa in vigilando e consequente
presunção de culpa leve era já definida pela jurisprudência, ou seja, apesar do Decreto-Lei n.º 48 051
não prever especificamente a culpa in vigilando, era entendimento da jurisprudência que a remissão
que o artigo 4.º daquele Decreto-Lei fazia para o artigo 487.º do CC abrangia também o n.º 1 deste que, por sua vez admitia situações de presunções legais, incluindo a presunção prevista no n.º 1 do artigo 493.º do CC, ou seja, as situações de incumprimento do dever de vigilância.
A este respeito e de forma a demonstrar o que acabamos de referir, trazemos, a título de exemplo, sumários de dois Acórdãos proferidos à luz do regime previsto no Decreto-Lei n.º 48 051:
Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 15 de março de 2005:89 “A presunção de
culpa in vigilando estabelecida no art. 493º, nº 1 do C. Civil é aplicável no domínio da responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais pessoas colectivas por factos ilícitos.”
Acórdão do Tribunal Central Administrativo Norte, de 25 de outubro de 2007:90 “A remissão
contida no art. 04, n.º 1 do DL n.º 48 051 para o art. 487º do CC abrange também o n.º 1 deste
89 Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, processo n.º 036/04, de 15 de março de 2005, disponível em www.dgsi.pt
último artigo e daí a admissão de presunções legais de culpa, entre as quais se inclui a do art. 493.º, n.º 1do CC, pelo que a responsabilidade civil extracontratual dos entes públicos por facto ilícito de gestão pública, designadamente no que respeita à violação dos deveres de fiscalização e conservação de vias de trânsito, é aplicável a presunção de culpa prevista no art. 493.º, n.º 1.”
1.4. CONTRIBUTO DO CÓDIGO CIVIL E DA LEI N.º 67/2007, DE 31 DE PARA A