CAPÍTULO 3 – A RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL NO MODELO DE
3.1 Aplicabilidade da responsabilidade social segundo a teoria de John Rawls
Nesse momento será analisada a possibilidade de aplicar uma responsabilidade social às sociedades empresárias com fundamento na teoria rawlsiana em um determinado momento como se fosse uma posição original. John Rawls (2016, p. 168) deixa evidente que a posição original, muito embora não possa ser considerada uma assembleia geral, nem uma reunião de todas as pessoas reais ou possíveis de uma sociedade, todavia, pode ser adotada nessa perspectiva a qualquer momento.
Nessa perspectiva, após esse momento e já formatada uma estrutura social, na qual está inserido o sistema econômico e sabendo que os princípios informadores dessa sociedade foram escolhidos, questiona-se: é possível aplica-los ao sistema econômico?
Em primeiro lugar Rawls (2016, p. 330) ao falar sobre o sistema econômico diz que o mesmo não é um simples dispositivo institucional para atender as necessidades existentes, mas para moldar necessidades futuras. No entanto, observa que “é essencial ter em mente que o nosso tema é a teoria da justiça, e não a economia, por mais elementar que seja. Somente estamos interessados em certos problemas morais de economia política”.
O autor acrescenta que, enquanto a economia política trata do setor público e do modo adequado das instituições básicas que normatizam os mercados, direito de propriedade, formato de mercado, entre outros, o sistema econômico regula quais bens são produzidos e por quais meios, quem os recebe e em troca de quais contribuições, quais parcelas de recursos sociais são destinadas à poupança e ao abastecimento de bens públicos.
Além de tudo isso, Rawls (2003) asseverou na obra „Justiça como Equidade: uma reformulação‟, de modo preciso que
Uma vez que a justiça como equidade parte do caso especial da estrutura básica, seus princípios regulam essa estrutura e não se aplicam diretamente ou regulam internamente instituições e associações da sociedade. Empresas e sindicatos, igrejas, universidades e família estão submetidos a exigências oriundas dos princípios de justiça, mas essas exigências provem indiretamente das instituições de fundo justas
dentro das quais associações e grupos existem, e que restringem a conduta de seus
membros.
Por exemplo, embora as igrejas possam excomungar hereges, não podem queimá- los; tal exigência tem por objetivo garantir a liberdade de consciência. As universidades não podem cometer certas formas de discriminação: essa exigência objetiva ajudar a estabelecer a igualdade equitativa de oportunidades. Os pais (mulheres assim como homens) são cidadãos iguais e têm direitos básicos iguais, entre os quais o direito de propriedade; eles têm de respeitar os direitos de seus filhos (futuros cidadãos) e não podem, por exemplo, privá-los de cuidados médicos essenciais. Além disso, estabelecer igualdade entre homens e mulheres no tocante ao trabalho na sociedade, à preservação de sua cultura e à sua reprodução ao longo do tempo, são necessárias disposições especiais no direito de família (e sem dúvida também em outros âmbitos) para que o encargo alimentar, criar e educar filhos não recaia mais pesadamente sobre as mulheres, prejudicando assim sua igualdade equitativa de oportunidades (RAWLS, 2003, pp. 14-15).
Infere-se sobre a concepção de justiça rawlsiana que ela é formulada em diferentes estágios. No primeiro momento, ocorre a escolha dos princípios que vão reger a sociedade e no segundo, a escolha das instituições reais, criadas de acordo com os princípios anteriormente escolhidos.
Rawls (2003, p. 15) explica que não se deve presumir antecipadamente que os princípios razoáveis e justos para a estrutura básica também o sejam para as instituições, associações e práticas sociais de um modo geral. Pois, muito embora os princípios de justiça como equidade determinem limitações aos arranjos sociais na estrutura básica, esta estrutura e as associações e outras formas sociais existentes são governadas, cada uma, por princípios diversos em razão dos seus propósitos e objetivos díspares, bem como por sua natureza particular e exigências individuais. Isto porque, para o autor, a justiça como equidade é uma concepção política, não geral, de justiça que deve ser aplicada à estrutura básica, enquanto nessas outras questões de justiça global, de direito dos povos, exigem o emprego de mérito independente.
Concordamos com o posicionamento de Bobbio (2004, p. 69) quando entende que a mudança dos direitos fundamentais se altera de acordo com cada época, pois responde ao que cada sociedade real reclama. O direito à instrução hoje consta de todas as cartas de direitos das sociedades modernas, o que não ocorria antes. A lista dos direitos fundamentais continua aumentando, mostrando com isso que não basta um elenco de direitos à vida, à liberdade e à propriedade, hoje a sociedade moderna reclama por mais direitos ou proteção para seus indivíduos. Para Bobbio (2004, p. 70) “[...] as exigências de direitos sociais tornam-se tanto mais numerosas, quanto mais rápida e profunda for a transformação da sociedade”. Para ilustrar lembremos que no Brasil, após turbulento período autoritário, a ordem constitucional
vigente promulgou a Constituição Federal de 1988, a qual estipulou no Capítulo reservado à Ordem Econômica, a liberdade do empreendedor que sedimentam as normas-princípio da livre inciativa e da livre concorrência.
A sociedade privada, dessa forma, não se mantém unida por convicção de que os arranjos institucionais básicos são justos em si mesmos, mas em decorrência da avaliação de todos, ou de parte desta sociedade mantenedora do sistema, de que outras alterações praticáveis reduziriam o estoque de meios com os quais eles podem obter seus fins privados. Assim, fica difícil sustentar afirmativamente a exigência de uma responsabilidade social com fulcro nos princípios51 fundamentais descritos na posição original.
Entretanto, levando-se em conta a perspectiva de auto sustentabilidade do sistema, proposta por John Rawls (2016, p. 325), a partir da qual o próprio sistema deve procurar gerar sua própria sustentação, se organizando de maneira que crie em seus membros o senso de justiça e o desejo de atuar de acordo com as leis do próprio sistema. Isso impõe restrições às instituições, devem ser justas e estruturadas de maneira a incentivar a virtude de justiça. Desse modo, a responsabilidade social com base na teoria rawlsiana passa a ser exigida, não com fundamento no campo normativo e impositivo estatal, mas através de arranjo socioeconômico imposto e exigido coercitivamente para o âmbito do dever de sobrevivência ou mesmo do dever da moralidade ou da ética empresarial dentro do sistema econômico.