• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – A RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL NO MODELO DE

3.2 Eficácia da responsabilidade social e econômica

51

Mediante a quantidade de princípios mencionados no presente estudo, se faz necessário destacar alguns pontos doutrinários importantes ao entendimento da matéria. Na lição de Barroso (2014, p. 148-149), a constituição passou a ser entendida como um sistema aberto de princípios e regras que perpassam a valores jurídicos supra positivos, nos quais a ideia de justiça e concretização dos direitos fundamentais cumpre o papel central. Conforme a ideia de Dworkin (2010) e Robert Alexy (2013) os princípios e as regras os quais alteraram a concepção sobre os institutos, visto que as regras, por serem descritivas de condutas e delimitadas a casos específicos, devem incidir pela regra da subsunção, na coalisão entre duas regras, somente uma será válida e aplicada. Já os princípios, como seus relatos contêm maior grau de abstração, estes não detalham a conduta a ser obedecida e se aplicam a um maior número de situações, por vezes indeterminadas. Assim, numa ordem democrática, os princípios entram em tensão dialética, apontando diversas direções e sua aplicação se faz por meio da ponderação, ou seja, o intérprete, em vista ao caso concreto, irá aferir o peso de cada princípio na hipótese analisada e, mediante concessões recíprocas, mantendo o máximo de cada um, na medida do possível. Na mesma linha, Alexy (2013, p. 22) sublinha que os princípios possibilitam exceções, permitem conflito e contradições, mas eles não têm ambição de exclusividade, seu significado real somente se desenvolve por meio de um processo tanto de complemento como de limitações mútuas, além de necessitarem de outros princípios dependentes e valorações particulares de conteúdo material independente para sua realização concreta.

A eficácia da responsabilidade social da empresa, do ponto de vista da sociedade, será o próprio sucesso da sociedade empresarial. Drucker (1998, p. 343) acredita que “o bom desempenho da própria função constitui a principal responsabilidade social da entidade”. Se a entidade não desempenhar com responsabilidade sua missão, ela não poderá desempenhar outra coisa, porque a empresa falida não será considerada uma agradável vizinha na comunidade a que está integrada, porque não gerará capital necessário para os empregos aos trabalhadores do futuro, nem proporcionará as oportunidades de que eles necessitam.

Compreendendo que a pretensão duradoura é uma das características primordiais das organizações empresariais. A sua atuação se voltará para uma responsabilidade social e econômica. Os modos de atuação adotados podem lhe trazer rendimentos, os quais nem sempre serão necessariamente monetários e imediatos, mas certamente concorrem para a perpetuação da empresa no mercado, uma vez que a própria sociedade passa a avaliar os comportamentos das empresas para adquirir e gerir seus produtos.

Essa perspectiva vem evoluindo rapidamente, considerando que até bem pouco tempo não se falava tanto em analisar os produtos adquiridos quanto aos aspectos de sua utilização, de sua confecção, do emprego de mão de obra infantil em sua fabricação ou do uso ou não de estratégias para preservação do meio ambiente. Ademais, não resta dúvida que o dinamismo econômico é responsável por essa evolução e, também, acarreta benefícios sociais. Nesse sentido, Aragão (2013, p. 4) salienta que quando uma pessoa busca realizar suas necessidades no mercado, dentro de suas possibilidades e do melhor modo de satisfação acarreta o dinamismo econômico e isso gera benefícios para toda a coletividade. Para o autor, mesmo que se negue que as empresas atuem por benemerência, não há como desconsiderar que elas buscam lucro, mas desde que cumpram padrões éticos e jurídicos proporcionalmente impostos, nestas condições também geram benefícios coletivos.

Araújo (2008, p. 33) lembra que a eficácia da responsabilidade empresarial no contexto social não se fundamenta na solidariedade doadora de cunho religioso de tempos memoriais, como no século XVIII na Inglaterra, quando se procurava amenizar as injustiças sociais. Os agentes imbuídos de sentimento elevado de utilidade de ajudar ao próximo atuavam num movimento de solidariedade social com fundamento na retirada de recursos dos mais favorecidos economicamente em favor dos desfavorecidos de modo a resolver uma questão lógica: a sobrevivência harmônica da sociedade sem o risco social de criação de ilhas de riquezas rodeadas por oceanos de pobreza.

Sandel (2016, p. 16) lembra que, em épocas de crises uma sociedade tende a se unir com as pessoas buscando auferir vantagens recíprocas. Assim sendo, uma sociedade na qual seus membros são explorados para obtenção de lucros financeiros em tempos de crise não é uma boa sociedade. A excessiva ganância é um vício que a sociedade boa deve desencorajar e, mesmo que as leis contra o abuso não consigam exterminá-la, ao menos pode restringir sua máxima expressão e mostrar o desencanto da sociedade. Nesse sentido, a sociedade afirma a virtude cívica do sacrifício compartilhado em prol da comunidade, punindo esse comportamento ao invés de recompensá-lo.

Essa consciência social de troca mútua, desenvolvida na teoria rawlsiana pode ser aqui analisada sob a perspectiva do dever que a sociedade empresária tem em pagar impostos e contribuir para uma atuação mais cidadã como, por exemplo, a cobrança pelo consumidor da documentação fiscal devida em todas as negociações comerciais.

Sob esse aspecto, Cardoso (2014, p. 167) adverte que para compreender melhor o dever fundamental de recolher tributo fundado no princípio da solidariedade, os contribuintes, e não só o Estado, devem tomar maior consciência do seu papel de fiscal, assumindo postura de adesão a esse dever, entendendo a importante função dos impostos dentro de um Estado Democrático de Direito.

Ademais, como no modelo capitalista os interesses econômicos se sobrepujam aos interesses sociais, a solidariedade se torna efetiva se a mesma se torna retornável à sociedade empresária em forma de lucro. Quando a solidariedade for entendida como maneira de criar boa imagem da empresa e, consequentemente, agregar valores aos seus produtos ou serviços, os sujeitos sociais se sentirão agentes solidários voluntários ao consumir os respectivos produtos ou serviços. Com isso, a ideia de solidariedade se aparta completamente da perspectiva do exercício de caridade.

3.3 Aplicabilidade da responsabilidade econômica de acordo com a justiça equitativa de