2 AGENDA E A MINIRREFORMA ELEITORAL DE
2.1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ANÁLISE DA AGENDA
2.1.3 Aplicabilidade do Modelo de Múltiplos Fluxos
Como assinala Baumgartner (2016) ao explorar a produção bibliográfica de John W. Kingdon, a maioria das ideias do autor derivariam de sua experiência com pesquisas empíricas
no Congresso estadunidense. Inclusive, todo o Modelo de Múltiplos Fluxos seria inspirado no sistema político presidencialista dos EUA, assim como estaria voltado para o nível federal, e não o estadual ou local. Essas especificações merecem destaque considerando que uma pergunta recorrente costuma ser levantada ao se utilizar como referência teórica o Modelo de Múltiplos Fluxos: seria ele aplicável a outros contextos distintos do qual a teoria foi gerada?
Segundo o próprio Kingdon (2014), em edições mais recentes da obra na qual essa teoria foi desenvolvida, Agendas, Alternatives and Public Policies (originalmente publicado em 1984), a resposta seria afirmativa. Após apresentar novos casos aos quais o modelo poderia ser aplicado, para além daqueles que incialmente embasaram sua teoria, o autor afirma com contundência: “parece que temos uma teoria geral muito útil sobre o estabelecimento de agenda, especificação de alternativas e sobre a elaboração de políticas públicas”43. Baumgartner (2016) parece concordar com o autor, afirmando que “enquanto o próprio Kingdon permaneceu firme como um americanista, ele claramente estava interessado na capacidade de generalização de conceitos da ciência política para além das fronteiras dos EUA”44.
Essas afirmações, por sua vez, parecem encontrar respaldo empírico. A partir de análises feitas sobre a bibliografia relativa ao uso da teoria de Kingdon (2014), pode-se afirmar que o modelo é passível de aplicação em diferentes países (além dos EUA e dos países tidos como desenvolvidos), em diferentes sistemas de governo (além do presidencialista), em diferentes níveis governamentais (além da esfera federativa), e nas mais distintas áreas temáticas de políticas públicas – além das áreas de saúde e transporte que inicialmente inspiraram Kingdon (CAIRNEY e JONES, 2016; JONES et al, 2016; RAWAT e MORRIS, 2016).45 A principal explicação para essa “universalidade” do Modelo de Múltiplos Fluxos estaria na natureza dos pressupostos teóricos mobilizados pelo autor, considerando que noções como as de “competição por atenção” e “restrição de tempo” seriam condições que independeriam do país ou do sistema de governo, o que geraria a flexibilidade necessária para que sua teoria fosse adaptável a diversos contextos (CAIRNEY e ZAHARIADIS, 2016).
43 No original, “it seems that we have quite a useful general theory of agenda setting, alternative specification, and
policy making” (KINGDON, 2014, p. 221, tradução nossa)
44 No original, “While Kingdon himself remained firmly an Americanist, he was clearly interested in the
generalizability of political science concepts beyond US borders” (BAUMGARTNER, 2016, p. 56, tradução nossa)
45 É importante frisar que o Modelo de Múltiplos Fluxos nem sempre é utilizado em toda sua dimensão, assim
como é recorrente sugestões de complementação da teoria, principalmente em aplicações empíricas específicas, como a mudança do nível nacional para o subnacional (CAIRNEY e JONES, 2016).
Essa amplitude, por outro lado, pode levar a uma outra questão relevante: qual seria, metodologicamente, a melhor escolha para que a teoria de Kingdon (2014) fosse utilizada empiricamente? Uma vez mais, a revisão da bibliografia oferece algumas possíveis pistas. Além do já mencionado uso recorrente de estudos de caso, os métodos que aparecem em maior profusão são as entrevistas e a análise documental (CAIRNEY e JONES, 2016; JONES et al, 2016), que eram também os principais métodos utilizados por Kingdon (2014). Ainda que menos comuns, outras formas de aplicação também são identificadas na literatura, como por exemplo a análise de conteúdo, surveys e grupos focais (JONES et al, 2016; RAWAT e MORRIS, 2016). Ao que parece, portanto, a flexibilidade apresentada pelo modelo permitiu que diferentes métodos fossem empregados, conforme a necessidade e os objetivos dos pesquisadores.
A presente dissertação trabalha com alguns contextos semelhantes aos inicialmente trabalhados por Kingdon (2014), mas diverge em outros aspectos. Quanto às proximidades, destacam-se o foco no âmbito federal e a análise da passagem de um item da agenda governamental à decisória dentro de um sistema presidencialista. Já com relação às diferenças, a análise é voltada para o caso brasileiro – e não o estadunidense – e, tematicamente, observa políticas públicas relacionadas a mudanças no sistema político, partidário e eleitoral, em especial no que tange à inclusão representativa de mulheres à política. Em termos dos métodos empregados para aplicar o modelo, a presente pesquisa partiu do pressuposto de que seria mais relevante, dados os objetivos propostos, entender como o processo de estabelecimento de agenda ocorreu à luz de sua própria época.46 Kingdon (2014) parece ter o mesmo objetivo, ao utilizar uma série de entrevistas entre os anos 1976 e 1979 para entender o processo de condução de políticas públicas à agenda durante esses mesmos quatro anos. No entanto, considerando que o caso selecionado para ser estudado no presente trabalho ocorreu há mais de uma década (fundamentalmente, no ano de 2009), não seria possível replicar o uso de entrevistas com os mesmos objetivos perseguidos por Kingdon. A alternativa encontrada, portanto, foi entender o processo de condução de uma política pública à agenda com a utilização, principalmente, de análise de conteúdo qualitativa dos discursos realizados no Plenário da Câmara dos Deputados brasileira, desde as primeiras sessões legislativas do ano de 2009 até a sanção da proposição de interesse, a Minirreforma Eleitoral de 2009.
Considerando que a análise de conteúdo qualitativa seria uma boa abordagem para pesquisas empíricas e para o entendimento de textos dentro de seu próprio contexto de
comunicação (MAYRING, 2000), essa escolha metodológica parece se enquadrar aos objetivos propostos de entender a articulação das pessoas dentro e ao redor do governo a partir dos acontecimentos relativos ao ano de 2009. Em termos do uso do modelo, essa opção parece encontrar respaldo na teorização de Kingdon (2014). Levando em conta que grande parte do processo de estabelecimento de agenda ocorre com o envolvimento de participantes visíveis, os congressistas – que seriam um dos principais atores desse cluster – e principalmente o conteúdo de seus discursos poderiam prover valiosas informações sobre o processo de condução de uma política pública até a agenda decisória. Por fim, a utilização da análise de conteúdo para se aplicar o Modelo de Múltiplos Fluxos não seria algo novo: ainda que não seja o método mais comum, também já teria sido utilizado empiricamente em outras obras que referenciam a teoria de Kingdon (JONES et al, 2016; RAWAT e MORRIS, 2016). Feitas essas considerações, cabe à próxima seção apresentar, de maneira pormenorizada, como esse método foi operacionalizado para atender aos objetivos propostos.