5.3 A REDE INFORMAL DE CUIDADO À SAÚDE
5.3.1 Apoio de Outras Pessoas Trans e LGBTQI+ no Processo de Identificação
As redes informais de cuidado à saúde são redes vivas citadas por Merhy et al. (2014). São redes afetivas, inacabadas e que estão em processo constante de construção e de desconstrução. Atravessam a rede formal de cuidados à saúde e incluem a construção e compartilhamento de saberes e de conexões entre sujeitos e coletividades com o território por estes habitados. Influenciam a produção do cuidado e são marcadas pela presença da comunidade, do trabalho, de amigos e de familiares.
E1, E2, Sofia, Brune, Jason e Felipe relataram que outras pessoas LGBTQI+ tiveram um papel importante no processo de identificação da transexualidade, algumas sendo retratadas como uma referência nesse processo. Relataram também a importância de leituras feitas sobre o assunto e o contato com essas discussões no espaço acadêmico:
Aos 20 anos, em uma conversa com um amigo meu que também é trans, inclusive foi a primeira pessoa trans que eu conheci, é... ele me fez umas perguntas sobre como que eu tava indo assim... minha cabeça né [...] E eu tava preocupada, porque eu tava com uns pensamentos estranhos [...] e ele falou que podia ser porquê eu era como ele. Aí eu “como assim?”, ele “é, eu noto muito isso em você e... eu sentia muito isso quando eu tava no começo da transição e tudo mais...” e eu fiquei com aquilo na cabeça durante um tempão. Mais ou menos um mês depois de ter essa conversa com ele que caiu a ficha, aquele choque de realidade, tipo “Caramba! Eu sou trans, e agora? (E1)
E eu não sabia o que era ser transexual também, então eu fui pesquisando, sabendo sobre as siglas LGBT [...] E aí eu soube quê que era transexual e fiquei pensando se eu me encaixaria nessa... “categoria”. Aí eu conheci algumas pessoas realmente também que já era, que já tava fazendo tratamento hormonal e tudo, e eu fui pesquisando. E acabei que eu mesmo decidi, falei “não... eu sou transexual, é isso que eu sou”. Aí procurei o psicólogo na época pra poder entender se era isso mesmo, entendeu? O psicólogo acabou concordando comigo e daí para frente eu já comecei a querer fazer o meu tratamento hormonal para poder... para poder ter as características mais masculinas mesmo. (E2)
[...] um belo dia minha vizinha me chamou, ela sempre sai de Drag, e... é isso aí! Coloquei um salto e fui. (Sofia)
E aí eu entrei na universidade, aí eu conheci a X, que é a minha orientadora, logo no primeiro ou segundo período, e ela tinha um projeto pra jovens LGBT. Aí eu fiz seleção, entrei, comecei a ler, a estudar, e quanto mais eu lia mais eu me identificava nesses processos. Então, a partir daí eu vi, eu comecei a saber a nomear o meu processo né. Eu já tinha notícia de algumas histórias, mas elas eram distantes [...] durante a graduação que eu comecei de fato no processo de transição assim, mas de modo mais aprofundado né. Aí eu conheci a T lá na universidade, que tava no projeto, conheci a B também que tava no MGM [...] Comecei de fato ter contato com pessoas trans, que eu nunca tinha visto antes uma pessoa pessoalmente, conversado, não sabia como eram essas histórias. A gente sempre imaginava é uma história que vai ser, sei lá, vai ser uma história que necessariamente tem que ser ruim, tem que ser sofrida, que necessariamente ninguém vai aceitar, você tem que tomar muita burduada. Então assim, você vai ter que pagar um preço muito alto. Depois eu percebi que não necessariamente. Por mais que a história delas tenham questões fortes e tal [...] eu comecei a ver que era possível sobreviver em relação a tudo isso, que era possível entrar na universidade, entrar nesses outros espaços sabe, que era possível viver de uma outra maneira além do que a sociedade dizia. Aí eu acho que eu vi como referências mesmo, de “ah, é possível! Se elas estão aqui, tão próximas de mim sabe, quem sabe eu posso...”. (Brune)
No meu caso, uma vez, eu devia tá com por volta de 13, 14 anos, eu tava lendo uma revista que tinha uma matéria [...] alguma coisa que era um tema LGBT. Aí nisso tinha literalmente uma nota de rodapé que falava da diferença entre orientação sexual e identidade de gênero [...] Foi a partir dali que eu me toquei no caso de que eu era uma pessoa trans. (Jason)
Foi um processo muito assim natural e muito difícil na verdade, porque eu tava ali nos 13 para 14 anos e aí eu não sabia muito bem que existia essa situação de ser transexual, da transexualidade e tal [...] E aí foi tipo conversando com os meus amigos [...] Eu me assumi, me assumi mesmo com 15 pra 16, por aí [...] Quando eu tava no início da minha transição, bem bem no início mesmo eu conheci uma amiga minha que conhecia o antigo Visitatrans, que era um projeto de extensão da UFJF, aí ela falou assim “Ah, vai lá porque você vai se identificar, tem mais pessoas que sentem como você e tal”, e eu fui. A primeira vez que eu fui eu saí de lá chorando horrores porque eu tava, tipo assim, super assustado, não sabia nada do que tava acontecendo. (Felipe)
Na pesquisa de Santos (2017) os entrevistados referem-se à universidade como um espaço onde é possível viver e afirmar as diferentes identidades de gênero, principalmente através do contato com outras pessoas LGBTQI+. Além da possibilidade de construção de um conhecimento teórico acerca dessa temática,
fosse através da participação em grupos de pesquisa, fosse através do contato com algum professor ou professora que estimulava leituras referentes ao tema, o que contribui inclusive para a resistência e para a construção da própria identidade.
Os resultados da pesquisa de Santos (2017) se assemelham aos desse estudo, que referem tanto à importância de um conhecimento teórico, mesmo que não restrito à universidade, quanto ao contato com amigos e com outras pessoas LGBTQI+ que se fizeram referências próximas neste processo. A fala de Brune pode exemplificar a semelhança dos resultados encontrados, uma vez que ela destaca o contato estabelecido com uma professora na universidade, a qual a estimulou a pesquisar sobre essa temática e a participar de um projeto para jovens LGBTQI+, além das leituras e dos contatos com outras pessoas LGBTQI+, a partir dos quais foi possível para ela nomear o seu processo.
Vale ressaltar ainda que a entrada e permanência de pessoas transexuais na universidade como um espaço institucional configura-se como um movimento de resistência, uma vez que se observa, segundo Monzeli (2013), que nas instituições a circulação de pessoas transgêneros se faz através do que ele denomina de admissões condicionadas. Segundo o autor, as instituições são seletivas e dizem quem pode fazer parte delas e quem irá se inserir de forma marginalizada, e que, ao mesmo tempo em que adotam um discurso de que deve haver uma integração, prescrevem normas de comportamento para quem ocupa esses espaços, selecionando e discriminando.
Além disso, ao encontrar outras pessoas que compartilham o sentimento de não identificação com o gênero atribuído no nascimento por vezes é retratado como um momento de encontro em que conseguem nomear seus processos e entender o que sentem (BENTO, 2006).
Dessa forma, observou-se a importância da rede informal de cuidados à saúde no processo de identificação e de nomeação daquilo que se sente. Na trajetória de E1, Sofia e Felipe, os amigos foram fundamentais nesse processo. Na trajetória de E2, de Brune e de Jason o contato com o conhecimento acerca do termo e do que se tratava a transexualidade bem como o contato com a universidade e com profissionais que tinham algum tipo de conhecimento sobre o assunto também foram fundamentais. Essas redes construídas podem trazer benefícios para a saúde das pessoas transexuais, uma vez que, ao saber nomear
seus processos, torna-se possível traçar estratégias de cuidado que atendam às suas necessidades de saúde.