5.2 A REDE FORMAL DE CUIDADO À SAÚDE
5.2.3 Dificuldades Relacionadas ao Acompanhamento Hormonal
Quando se pensa acerca do acompanhamento hormonal, encontram-se relatos de pessoas transexuais que ressaltam a dificuldade em encontrar médicos endocrinologistas preparados para realizar esse tipo de atendimento, além de relatos acerca de médicos que se negam a fazê-lo.
E1, E2, Brune e Michel relataram algumas dificuldades enfrentadas relacionadas ao acompanhamento hormonal, principalmente no que diz respeito ao acompanhamento por endocrinologistas, tanto na rede pública quanto na rede privada:
[...] mesmo quando a gente tem condições e se dispõe a pagar também não é tão simples, tem profissionais que simplesmente não sabem te atender. Já ouvi falar em casos de pessoas que foram a endócrinos e eles não sabem sequer o que é uma pessoa trans e,
tipo assim, “eu não posso receitar hormônios, quê que eu vou fazer com você?” e fica por isso mesmo. (E1)
[...] quando eu comecei a querer fazer a transição hormonal eu fiquei praticamente um ano procurando um médico para poder me atender, que é o endocrinologista né, que dá a receita dos hormônios para gente [...] Procurei através do SUS, não consegui ninguém, procurei através do particular, tinham duas pessoas que faziam no início [...] só que quando eu procurei essas duas pessoas elas não estavam mais atendendo a sociedade trans. Então eu fiquei praticamente um ano procurando algum médico que pudesse me ajudar e eu não consegui médico nenhum. Eu procurei particular do meu plano, procurei SUS, procurei outros particulares [...] Então pra começar a transição foi muito difícil. (E2)
O primeiro problema foi a terapia hormonal. Era muito difícil conseguir [...] Aí depois, um ano e meio, quase dois anos depois eu consegui acompanhamento lá no IEDE, vinculado à UFRJ no setor de endocrinologia lá. Aí eu comecei a fazer acompanhamento hormonal, e lá que eu comecei a fazer de uma maneira mais sistemática. Só que eu vinha para cá e eu marcava todos os meus exames particular, tudo aqui em Juiz de Fora. (Brune)
[...] quando eu comecei o processo eu procurei médico [...] eu fui em alguns endocrinologistas aqui em Juiz de Fora e nenhum quis me acompanhar. Aí o máximo que eles fizeram foi me passar os exames [...] Mas assim, foi complicado porque não tinha mesmo ninguém pra atender. Minha mãe ela fez o plano para mim e eu não consegui achar um profissional que me desse assim o mínimo de amparo nisso, eles não queriam nem acompanhar [...] depois que eu comecei a usar também eu voltei para ver o quê que tava acontecendo com meu corpo, mas assim, era nítido assim que eles não queriam fazer o acompanhamento. (Michel)
Jason ressaltou o despreparo do profissional médico que o acompanha:
[...] o endocrinologista que me acompanha hoje em dia [...] ele não é preconceituoso, ele meio que me acolheu, não tem problema de receitar, ele conversa, só que ele não é uma pessoa instruída pra tá fazendo esse atendimento [...] Eu meio que tinha um médico que me dava a receita. O resto eu tinha que descobrir sozinho, porque ele não sabia. (Jason)
Felipe destacou a concepção de alguns profissionais médicos que se recusam a fazer o acompanhamento por considerar a hormonização como mutilação. Destacou também o fato de que alguns médicos pedem para que o usuário do serviço assine um termo de responsabilidade caso aconteça algo em decorrência do uso do hormônio:
[...] quando a gente chega em profissionais tanto da rede particular quanto da rede pública eles às vezes se negam a fazer isso porque eles acham que isso é mutilar o corpo humano. A gente já ouviu várias vezes profissionais dizerem que não fazem a hormonização porque acham que é uma atrocidade contra o corpo humano, porque é péssimo, porque isso não pode acontecer [...] A decisão é minha sabe, não é nem tipo uma decisão, a necessidade é minha, entendeu? [...] Já ouvi caso de gente que fala que o médico manda você assinar um termo de responsabilidade, que se você se arrepender ou acontecer alguma coisa em decorrência do uso do hormônio, a responsabilidade é toda sua, tipo, isentando ele de qualquer coisa. Tem um amigo meu que tem plano da Operadora Z, e aí ele foi em todos os endocrinologistas da Operadora Z, todos, todos e nenhum aceitou. Foi em todos os urologistas e nenhum aceitou, foi em todos os ginecologistas, nenhum aceitou. Eles falavam isso, que era perigoso, que não ia fazer porque podia dar um monte de coisas e que se fosse fazer seria necessário ter o termo de responsabilidade e tal. (Felipe)
A fala de Felipe sobre a possibilidade em decidir sobre aquilo que faz com seu próprio corpo, colocando as mudanças desejadas como necessidade, remete ao conceito de necessidades de saúde.
Segundo Cecílio (2009), as necessidades de saúde compreendem quatro aspectos, que estão relacionados às boas condições de vida, o que implica em diferentes necessidades de saúde; à necessidade de se ter acesso às tecnologias capazes de melhorar e de prolongar a vida conforme a necessidade do indivíduo e a importância que ele atribui à essa tecnologia; e a criação de vínculos entre o usuário e o profissional ou equipe de saúde que o assiste, vínculo este fundamental para que se construa uma relação baseada na confiança. As necessidades de saúde também se relacionam à autonomia do paciente, à necessidade de que este seja capaz de tomar suas próprias decisões e de conduzir a sua vida (CECÍLIO, 2009).
Observa-se através da fala de Felipe a interferência médica em sua autonomia, em sua possibilidade em decidir sobre seu próprio corpo. É importante que o profissional que fará o acompanhamento hormonal informe ao usuário os riscos e os benefícios da hormonização, mantendo, porém, a autonomia do usuário.
De acordo com Bento (2006), a medicina, em geral, atribui um caráter patologizante à transexualidade e frequentemente não respeita as identidades de gênero, reproduzindo o dimorfismo e considerando que a verdade sobre uma identidade está no sexo, na natureza. Dessa forma, são determinadas características padrões que universalizam as identidades transexuais, e aqueles que apresentam tais características são então considerados transexuais de verdade.
Porém, as identidades e as experiências são múltiplas. Para muitas pessoas transexuais as modificações corporais obtidas a partir do uso dos hormônios já são suficientes, e não desejam, necessariamente, uma cirurgia de redesignação sexual. Bento destaca ainda as microrrelações construídas entre pessoas transexuais e profissionais de saúde, que se mostram frequentemente como relações de favor, e não como um direito, podendo interferir nos rumos de suas vidas (BENTO, 2006).
Vale ressaltar que para Foucault (1999) o poder estaria vinculado a alguma forma do saber. Consiste portanto em um conjunto de relações e age de maneira difusa como em uma rede, envolvendo instituições como a família, o hospital, a clínica, a escola, por meio de regras e de normas. É fragmentado e encontra-se em constante movimento a depender dos espaços e das disputas ali presentes. Não é tomado como algo definitivo por alguém e tem a capacidade de produzir comportamentos.
Dessa forma, observa-se através do relato dos participantes dessa pesquisa e de outras a dificuldade em encontrar profissionais que não se neguem a fazer o acompanhamento hormonal, que estejam preparados para esse tipo de atendimento e que não responsabilizem apenas o usuário pelos resultados obtidos a partir da hormonização.
Observa-se ainda que o saber médico opera em uma relação de poder com as pessoas transexuais no que diz respeito às decisões sobre as mudanças corporais que desejam fazer, sendo necessário adotar estratégias de negociação com os profissionais de saúde, que interferem na autonomia das pessoas transexuais em decidir os rumos de sua própria vida.
Assim, a dificuldade em encontrar um profissional para tal acompanhamento, o desrespeito e o despreparo dos profissionais de saúde contribuem para que as pessoas transexuais façam o uso de hormônios por conta própria. Outra forma usada é a busca de informações por meio da internet e da própria rede de contatos, a partir de outras pessoas transexuais que já fazem o uso de hormônios a mais tempo.