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3 Primeira República (1910-1926)

3.6 Apontamento final

Reflexos do ideário da Escola Nova na organização curricular do Ensino Secundário Técnico e Liceal

As sucessivas reformas ocorridas durante a 1ª República contribuíram para a estabilização da estrutura do ensino secundário liceal, que passaria a ser dividido a partir de 1918, num curso geral de dois ciclos, o primeiro de dois anos e o segundo de três anos, a que se sucederia um curso complementar de dois anos, dividido nas secções de Letras e de Ciências125 – uma organização que se manteve até 1974.

Apesar de os planos de estudos dos cursos Técnico e Liceal já se organizarem por uma sucessão e progressão de ciclos de aprendizagem, as reformulações ocorridas durante a 1ª República dão uma especial atenção ao chamado Grau Preliminar (Ensino Técnico) e 1ª Secção (Ensino Liceal), ou seja, ao período de transição entre a instrução primária e a instrução geral, naquele que viria a ser até hoje o nível de escolaridade mais sujeito a experiências pedagógicas.

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Decreto nº 4:799 de 12 de setembro de 1918.Secretaria de Estado da Instrução Pública, Diário do Governo nº 198, I Série.

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Em ambos os sistemas de ensino observamos os reflexos do ideário do movimento da Escola Nova. A preocupação com uma educação integral dará origem a um conjunto de disciplinas de formação geral no ensino liceal e no ensino técnico. No ensino liceal incluiem-se nesta finalidade, disciplinas como ginástica, a música e o canto coral e os trabalhos manuais (masculinos e femininos), valorizadas pelo seu potencial de formação e de desanuviamento intelectual. No ensino técnico, as disciplinas de educação geral ainda ficariam em minoria no currículo, uma vez que a carga horária nestes cursos incidia maioritariamente no Desenho, nas especializações e nos trabalhos oficinais. Relativamente ao pensamento pedagógico e didático, valoriza-se a dedução, através dos trabalhos práticos individuais; a observação e a experimentação; incentiva-se o contacto com a natureza e com o património cultural do país, pelo facto de possibilitarem a formação e a a educação estética dos alunos. As exposições escolares representam uma rutura com metodologias de ensino e de aprendizagem de rotina, características do período anterior, e vêm reforçar a ideia, se não duma escola nova, pelo menos duma escola mais dinâmica. Ainda que não se utilizasse a palavra “interdisciplinaridade”, esperava-se de algum modo que estas atividades pudessem contribuir para quebrar o excessivo individualismo dos professores.

No ensino técnico, estas atividades poderiam constituir-se como complemento ao plano de estudos, mediante conferências, criação de bibliotecas e museus junto da escola e cursos dominicais. O ideário da Escola Nova encontra um bom terreno neste sistema de ensino, tendo em conta que, desde a sua fundação, é dado um particular relevo à flexibilidade curricular e à articulação entre a teoria e a prática. Contudo, os programas de Desenho no ensino secundário não revelam alterações dignas de relevo. Contrariamente, é no ensino primário que se verificam grandes alterações, uma vez que o método estimográfico é suprimido radicalmente, surgindo então as expressões “desenho livre” e “modelação livre”126

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Com o esgotamento da 1ª República, a pedagogia progressista viria a ser coartada na sua verdadeira dimensão. Em junho de 1923, quase no termo da 1ª República, João Camoesas, o então Ministro da Instrução, apresentou para discussão à Câmara de Deputados, o "Estatuto da Educação Pública". Nesta proposta, da autoria de Faria de Vasconcelos e de António Sérgio, o Curso Geral do Ensino Secundário passaria a ter a duração de quatro anos, a que se seguiriam três anos de Curso Especial, distribuído por quatro áreas: Letras, Ciências, Técnico e Normal. Com um alcance que ainda hoje se admira, a proposta, defendida por António Sérgio, entre outros progressistas, ficou como documento histórico, pois o governo em que Camoesas era ministro caiu em novembro do mesmo ano.

O regime autoritário que se avizinhava, exerceu todo o tipo de repressão e perseguição aos cultores da educação democrática. Alguns pedagogos foram vigiados pela censura e

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impedidos de se manifestar: Irene Lisboa, Faria de Vasconcelos, António Sérgio ou Bento de Jesus Caraça, defensor de uma “escola única” como fator de democratização do ensino e garantia de igualdade de oportunidades.

A 1ª República, mais do que resultados, propiciou um ambiente favorável ao desenvolvimento de novas práticas e ideias, cujas experiências pedagógicas se verificaram sobretudo no contexto educativo informal. A luta contra o analfabetismo e a promessa de amplo desenvolvimento das instituições educativas fizeram parte das prioridades políticas. De acordo com o ambiente anti-clerical da época, defendeu-se energicamente a laicização e a expansão do ensino, empreendendo-se ações de educação popular levadas a cabo por universidades, grupos independentes e cooperativas de trabalhadores.

Ao afã experimentalista deste período não terá sido alheio o destaque que então se deu à formação de professores, aspeto que vinha a ser consolidado desde o princípio do século. Em 1901, na Faculdade de Letras de Lisboa, havia sido criado o primeiro curso de formação de professores do ensino secundário. Com a duração de quatro anos e uma forte componente psicopedagógica, seguia-se-lhe uma prova pública – exigência que passou a ser feita também aos professores de Desenho (9º Grupo de Docência) a partir de 1911, equiparando-os assim aos demais docentes no acesso à profissão. A habilitação académica requerida aos docentes do 9º grupo passa a ser o diploma de qualquer um dos cursos ministrados pelas escolas de Belas Artes ou pelas Escolas Industriais127 de artes decorativas. Este facto coloca-os em pé de igualdade com os docentes provenientes das universidades, no acesso às Escolas Normais Superiores, e à formação pedagógica específica. O estabelecimento das habilitações e acesso à formação profissional viria a operar transformações qualitativas na preparação dos professores do ensino secundário, cujos reflexos havemos de verificar nos anos 50 e 60, muito particularmente na disciplina de Desenho.

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