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Arcimboldonasceu em Milão, provavelmente em uma família de origem alemã, pois sabe-se que seu sobrenome, com o sufixo 'boldo', origina-se do sul da Alemanha (KRIEGESKORTE, 2006), o que torna mais compreensivel a sua transferência posterior para o Império Romano Germânico, próximo das suas “raízes”. Viveu no período compreendido entre 1526 ou 1527 – não havendo ainda um consenso quanto ao ano do nascimento do artista – e 1593. Veio a falecer na sua cidade natal no dia 11 de julho de 1593, aos 66 anos de idade, em decorrência de problemas renais (KRIEGESKORTE, 2006; KAUFMANN, 2009).

Não se tem informações sobre a infância e a juventude do artista, mas conjectura-se que a base para as suas invenções posteriores foi construída nessa época de sua vida. As informações do ponto de vista de sua personalidade e vida pessoal ainda são escassas, não existindo escritos autobiográficos.

Sobre a origem da família do artista, não há certeza se ele tinha antepassados com título de nobreza. Em relatos ao seu amigo padre Paolo Morigia (1592), Arcimboldo costumava dizer que em sua família haviam nobres com tradição em servir a reis e imperadores. Tendo recebido o reconhecimento disso por Rodolfo II (em 1580), obteve o título de Conde Paladino (em 1592), concedido a poucos entre os que se destacavam na corte e possuíam ascendência nobre. Mas ainda permanecem dúvidas com relação a tal histórico familiar. Kriegeskorte (2006), entre outros, inclina-se a acreditar que tal informação era verdadeira, com base no relato apresentado pelo amigo do artista, e no conhecimento da existência de brasões de sua família na Alemanha. Enquanto Kaufmann (2009) é um dos autores que afirmam

taxativamente que Arcimboldo não tinha origem nobre, assim como também Silvio Leydi (2007), que se baseia em pesquisa documental, afirma com certeza que Arcimboldo não descende de família nobre, remetendo à genealogia do artista realizada pelo genealogista aristocrata Pompeo Litta no século XIX, o qual afirma que Arcimboldo teria vindo de uma família exclusivamente de artistas. Portanto, a afirmação de Arcimboldo entra em contradição com evidências genealógicas e históricas.

Tal questão é aqui mencionada por ser objeto de pesquisa sobre o artista, e porque sabe-se que foi um assunto importante para ele, tendo se esforçado para comprovar tal origem e obter o reconhecimento do Imperador, o que “diz” sobre os valores do artista e da sociedade da época. Mas, apesar de tal pesquisa ser interessante no sentido de se buscar conhecer mais sobre o artista e o seu contexto, cujo conhecimento é limitado, não se trata de um fato que possa ter influenciado suas criações. Ou seja, todas as informações são bem vindas para esclarecimento de uma época relativamente longínqua no tempo, em que muito se perdeu, mas, por exemplo, sua trajetória profissional, ao que parece, é indiferente ao fato de ele ter tido ou não origem nobre, a não ser talvez ter-lhe facilitado o acesso a relacionamentos influentes.

Consta, conforme relata Kriegeskorte, situando-se na vertente que acredita nahipótese de que Arcimboldo tinha origem nobre, que seu tio- avô Gianangelo Arcimboldo, nascido em 1487, arcebispo de Milão desde 1550 até sua morte cinco anos depois, teria exercido grande influência em sua juventude, ao apresentar-lhe artistas, eruditos, escritores e humanistas importantes que lhe freqüentavam a casa. Para Kriegeskorte, “tais contatos ajudaram, provavelmente a lançar os alicerces para aquela reviravolta que viria acontecer na arte de Arcimboldo e que, de certo modo, foi considerada excêntrica.” (KRIEGESKORTE, 2006, p.10).

Seu pai, Biagio, também era artista, e ao que tudo indica, foi quem lhe ensinou a pintar. O fato de vir de uma família de artistas, por si só, pode ter-lhe propiciado contatos relevantes para a sua formação artística e intelectual. Sabe-se que seu pai era amigo do pintor Bernardino Luini, aluno de Leonardo da Vinci, sendo que diversos discípulos e assistentes de Leonardo em Milão tinham obras deste. E que Arcimboldo não teve contato direto com Luini nem com Leonardo, pois este havia saído de Milão em 1516, antes do nascimento do artista, e morrido sete anos antes de Arcimboldo nascer; e Luini, que possuía

desenhos de seu mestre, faleceu em 1532, quando Arcimboldo tinha apenas cinco anos de idade. Mas Arcimboldo pode ter visto desenhos e manuscritos de Leonardo que estavam em posse do filho de Bernardino, Aurelio Luini. Imagina-se que tais desenhos tenham causado forte impressão sobre ele, e que os tenha estudado detidamente (KAUFMANN, 2009). Além disso, as obras de Leonardo foram assimiladas e amplamente conhecidas no meio artístico de Milão naquele tempo, as quais Arcimboldo provavelmente viu, como “A Última Ceia” (KAUFMANN, 2009). Outros representantes do legado de Leonardo que Arcimboldo pode ter conhecido são: Melzi, Girolamo Figino e Carlos Urbino, durante o período de cerca de 1550 a 1560, enquanto o artista ainda residia em sua cidade-natal (KAUFMANN, 2009).

Os seus primeiros trabalhos foram como assistente de seu pai. Consta que ambos fizeram juntos os desenhos para alguns vitrais da Catedral de Milão, no ano de 1549, o qual parece ter sido o início de sua trajetória profissional. Nesse mesmo ano, Arcimboldo fez esboços para uma tapeçaria intitulada “O Falecimento da Virgem” realizada por tecelões treze anos depois (em 1562) para ser exposta na Catedral de Como. Além desse, existem também oito esboços para tapeçarias com temas do Antigo e do Novo Testamentos, os quais provavelmente são todos de autoria de Arcimboldo.

Ele ficou trabalhando com seu pai até o ano de falecimento deste, em 1551. A partir desse momento, Arcimboldo recebeu encomendas de trabalhos e participou de competições com outros artistas para realizar pinturas importantes, o que era comum na época. Foi nesse período que pintou o afresco com um artista mais novo que ele, Giuseppe Meda, denominado “A Árvore de Jessé”, além de um desenho para uma tapeçaria para a mesma Catedral de Monza. Consta ainda que ainda nesse mesmo período inicial da trajetória do artista, ele teria realizado o desenho naturalista de répteis, datado de 1553 (figura 16) (BERRA, 2011a). Ainda antes de sua partida da Lombardia, Arcimboldo tinha vencido um concurso entre artistas para pintar São Ambrósio, o patrono de Milão, em um banner para as comemorações da cidade do dia do santo, chegando a desenhar um esboço mas não chegou a pintar essa obra devido a sua partida para a corte dos Habsburgo (MILLER, 2011).

Fig. 16 – “Estudo de um lagarto, um camaleão e uma salamandra”, de G. Arcimboldo. 1553. Aquarela e guache. Österreichische Nationalbibliothek, Vienna. Créditos: Web Gallery of Art. Fonte: http://www.wga.hu/index1.html

De todo modo, considera-se certo que Arcimboldo cultivou contato com pintores, filósofos e outros eruditos influentes em sua época. Nesse sentido, Kaufmann (2009) aponta ser importante para a compreensão de sua obra a menção de sua participação em círculos literários, seus relacionamentos com escritores, bem como também a sua própria atividade como poeta. O principal desses centros artísticos e literários de Milão, foi a “Academia Val de Blenio” (“Accademia della Val di Blenio” ou ainda “Accademia della Valle di Bregno”) (KAUFMANN, 2007, 2009), formada por artistas maneiristas locais que se inspiravam nas obras de Leonardo, não apenas pintores, como também poetas, escultores, músicos, atores e colecionadores, sendo que vários deles exerciam mais de uma dessas atividades. Tinham em comum o fato de criarem formas grotescas, desafiarem as normas de expressão clássicas, e defendiam uma atitude transgressora e burlesca, e a liberdade de imaginação. Foi fundada por Giovanni Paolo Lomazzo em 1560, dois anos antes de Arcimboldo deixar a cidade. Entre outros artistas, estavam: o escultor Annibale Fontana, e os pintores Aurelio Luini e Ottavio Semino (DE ARMAS, 2004; KAUFMANN, 2009; PALOMBI, 2010; PORZIO, 2011). Os artistas pertencentes a essa Academia inspiravam-se nos desenhos grotescos de Leonardo para as suas criações, utilizando tais trabalhos como uma forma de oposição às regras impostas pelo movimento de Contra-Reforma, que visava a

imposição de comportamentos austeros, contra o excesso de ornamentos, contra a ostentação e o estilo fantástico, o que já estava acontecendo naquela época antes de tornar-se norma no século XVII com a predominância do estilo barroco. Conforme menciona Palombi (2010), quem encarregou-se de aplicar regras de costume mais severas na cidade, como parte da contra-reforma religiosa e cuja concepção tornou-se consensualmente aceita nos séculos seguintes, foi o Arcebispo de Milão, Cardeal Carlo Borromeo, existindo o risco de que tais festividades fossem eliminadas, nas quais Arcimboldo estava diretamente envolvido. Tendo ocorrido tensões entre Borromeo e a sociedade civil também no contexto teatral da cidade, tendo proibido a presença de atores no palco, havendo evidências documentadas desse conflito (PALOMBI, 2010). Sendo que esse círculo de artistas a que Arcimboldo provavelmente pertencia era contrário à reforma iniciada por Borromeo, o qual foi contra o excesso de ornamentos, ostentação e a representação do fantástico e bizarro, antecipando normas estéticas que prevaleceram cerca de 100 anos mais tarde com o estabelecimento do estilo barroco, principalmente nas Igrejas, coincidindo com o período da Contra-Reforma.

Embora não haja prova do pertencimento de Arcimboldo a essa Academia, as características maneiristas de suas obras levam a crer que tal vinculação existia, e também devido ao fato de que o artista relacionava-se com vários deles (amigos e colegas seus): “Enquanto não há prova de que Arcimboldo era membro da Academia, o estilo de seu trabalho, quando comparado com a arte rebelde produzida por seus colegas desse tempo, parece indicar que ele compartilhava seus sentimentos.”19 (PALOMBI, 2010, p.15).

No tempo de Arcimboldo, Milão já era uma cidade extensa e populosa que tinha uma tradição na arte naturalista a partir da influência exercida por Leonardo da Vinci que viveu na cidade quando serviu o duque Ludovico Sforza durante dezessete anos; e segundo De Armas (2004), Milão era o centro de arte grotesca no século XVI. Além de importância artística, essa cidade também era o centro financeiro, comercial e manufatureiro mais importante da Europa naquele período, fabricando e exportando para toda a Europa metais, artigos de luxo para as cortes, destacando-se pela inventividade e refinamento em cristais,

19 Transcrição traduzida. No original: “While there is no proof that Arcimboldo was a member

of the Accademia, the style of his work, when compared with the rebellious art produced by his colleagues at this time, seems to indicate that he shared their sentiments.” (PALOMBI, 2010, p.15).

pedras preciosas, e tecidos como veludos e seda (BUSS, 2011; FERINO-PAGDEN, 2011a; LEYDI, 2007). Milão também era importante politicamente, sendo que na época de Arcimboldo era governada pelo ramo espanhol da família Habsburgo, fazendo parte do reino de Felipe II, que era católico, passando a vigorar regras de costume mais rígidas, impondo limites à liberdade de criação artística (PALOMBI, 2010). Mas quando Arcimboldo partiu de Milão, esta cidade não ocupava mais um lugar relevante no campo das artes, proliferando conflitos políticos e religiosos, e também doenças epidêmicas (KRIEGESKORTE, 2006).

Leydi (2007) afirma que nesse período o artista não fazia só quadros, pois os pagamentos não seriam suficientes para a sua subsistência. Nessa época ele também pode ter trabalhado em carnavais de Milão, e em eventos como festivais e casamentos de reis e imperadores, trabalhando não somente com pintura, mas também com figurinos e cenários, semelhantes aos trabalhos desse tipo que realizará posteriormente na corte em Viena e Praga (PALOMBI, 2010; KAUFMANN, 2009; KRIEGESKORTE, 2006). Mais recentemente foi encontrado “Il Libro del Sarto”, com desenhos de vestimentas e fantasias para festivais e espetáculos diversos, sem atribuição de autoria, mas que pelas características de desenhos desse tipo elaborados por Arcimboldo posteriormente, podem muito bem ter sido elaborados por ele para os eventos nessa época em Milão, anterior a 1562 (PALOMBI, 2010; LEYDI, 2007).

Palombi (2010) sustenta a hipótese de que Arcimboldo deve ter sido convidado por Maximiliano II (ou Ferdinando I – esta informação varia conforme os diferentes autores) justamente por causa de suas criações nos festivais em Milão, pelas quais ele pode ter sido conhecido, mas isso não é comprovado. No tocante a esse fato, embora os comentários da época que embasam a opinião geralmente aceita, Arcimboldo teria sido chamado para a corte como retratista em virtude do reconhecimento por suas obras pictóricas, esta autora sustenta a tese de que o artista foi chamado para a corte dos Habsburgo principalmente devido ao seu trabalho como idealizador e realizador de espetáculos.

Com o início do movimento de Contra-Reforma a partir do Concílio de Trento (em 1563), tais festivais estariam sofrendo restrições em Milão, principalmente pelas ações do arcebispo da cidade, Carlo Borromeo – ele teria ido à Viena para continuar com esse tipo de trabalho (procissões, festivais e torneios) sem as limitações impostas em sua cidade natal, buscando assim a liberdade de expressão que acabou

encontrando nesse outro ambiente. Assim, Palombi (2010) afirma que a sua ida para a corte dos Habsburgo seria uma oportunidade para ele continuar o seu trabalho artístico nos festivais, e também para expandir o seu trabalho com grotescos em sua pintura (PALOMBI, 2010). Portanto, Arcimboldo teria sido famoso pelo seu design de roupas e decorações pertinentes a festivais, celebrações e torneios. Esta autora enfatiza tais desenhos como elementos relevantes da expressão artística na época, pois tais festivais eram extremamente elaborados e pomposos, e os desenhos de Arcimboldo consistem em documento de “uma cultura de festividades efêmeras”20 (PALOMBI, 2010).

Leydi (2007) também considera mais provável que a participação de Arcimboldo em festividades em Milão tenha possibilitado a sua partida para Viena. Este autor menciona uma celebração de carnaval em 5 de fevereiro de 1559, com a presença de pessoas politicamente poderosas, com um tema que aparecerá em desenhos posteriores do artista: “as sete artes liberais”. Mas não se tem o registro de quem foi o responsável pelas fantasias, por isso não se pode afirmar com certeza que tenha sido Arcimboldo (LEYDI, 2007a). Leydi menciona também a celebração do casamento da filha de Ferdinando I, Eleanor de Habsburg, irmã de Maximiliano II, realizado em Mântua, no qual contrataram 200 artífices. É possível que Arcimboldo estivesse entre esses profissionais (LEYDI, 2007). Outro indício de que Arcimboldo realizou esse tipo de atividade em Milão antes de sua transferência para a corte em Viena, é a atribuição que lhe é feita dos desenhos que constam no “Il libro del sarto” (LEYDI, 2007). Nesse sentido, Palombi (2010) e Leydi (2007) contrariam a visão geralmente aceita, embasada nos escritos da época, de que Arcimboldo foi convidado para a corte em virtude de sua fama como pintor, já que a função para a qual tinha sido chamado a ocupar era a de retratista da corte.

Ainda a respeito dos trabalhos que realizou em Milão, Torpy (2008), em um texto breve e não-especializado, afirma que antes de servir aos Habsburgos Arcimboldo foi reconhecido por seus trabalhos de arte religiosa, possibilidade que também não é consenso para todos os estudiosos. Mas esta hipótese é interessante, e é nessa direção que indica a descoberta que resulta da presente tese, apresentada detalhadamente em tópico posterior, na análise (cap. 7). No entanto, como será visto com maiores detalhes mais adiante, na época de Milão ele já tinha criado pelo menos uma cabeça composta, embora ninguém ainda a tenha reconhecido, com características diferentes do período de Viena e Praga,

sendo que algumas especificidades desses contextos pode ter levado a tais características diferenciadas. Pelo que se tem notícia, Arcimboldo não pintou o tema religioso após sua partida de Milão, e mesmo também quando retornou a essa cidade, já ao final da sua vida.

Como já foi mencionado, tendo em vista que o Arcebispo de Milão, Cardeal Carlo Borromeo, começou a aplicar regras rígidas nos costumes e nas artes, havia o risco de que as festividades populares nas quais Arcimboldo estava envolvido fossem proibidas. Em decorrência dessa situação, Palombi (2010) considera provável que Arcimboldo estivesse encontrando dificuldade em conseguir trabalho em Milão durante a década de 1560. Leydi (2007) também tinha mencionado a coincidência quase exata com alguns poucos anos de diferença da partida e retorno a Milão com o período do arcebispo Carlo Borromeo (o qual esteve em Milão de 1560 até sua morte em 1584), que buscava estabelecer limites para a expressão artística da época, já colocando em prática antecipadamente ideais da Contra-Reforma. Além desse possível motivo, Arcimboldo saiu de Milão no momento em que a cidade tinha deixado de ocupar um lugar de relevância no campo da arte, tornando-se um local de constantes conflitos políticos e religiosos e de doenças epidêmicas (KRIEGESKORTE, 2006).

A coincidência das datas da presença de Borromeo em Milão e a partida e retorno do artista a Milão, parece indicar ser o motivo para a saída de Milão, e depois o pedido para ser dispensado da corte, o que teria levado algum tempo para ser atendido. (LEYDI, 2011). Como consta que o imperador relutou em consentir com a sua partida da corte, pode ser que o artista tenha aguardado três anos, quando finalmente Rodolfo II cedeu às insistências do artista em retornar à sua cidade- natal, em 1587, três anos após a morte de Borromeo. Assim, é provável que tanto a saída de Milão como o retorno estejam relacionados com esse arcebispo, que chegou a ser canonizado anos mais tarde.

Com base em textos da época sabe-se que Arcimboldo foi famoso em vida, tendo sido homenageado e celebrado por seus contemporâneos em poemas, biografias e tratados de arte, os quais trazem informações a respeito de sua pintura e da recepção de sua obra na época (KAUFMANN, 2009). A partir disso, Hocke (2005, p.246) afirma que “Arcimboldi era, sem dúvida, uma das figuras mais destacadas da arte européia na segunda metade do século XVI.” Um outro indicativo de sua fama na época foi o fato de ter sido imitado por outros artistas, enquanto ainda era vivo (CACCIARI, 1987; KAUFMANN, 2009; PORZIO, 1987), sendo que por esse motivo, sua fama poderia ter

começado após ter se juntado à corte. Tal fama é evidenciada na seguinte passagem de Paolo Morigia, um contemporâneo seu e que escreveu sobre ele, destacando que o artista já teria pintado obras exóticas e surpreendentes, ainda em Milão, antes de integrar a corte:

É um pintor de raro talento, e excelente em outros conhecimentos, e após ter dado provas de si e do seu valor, tanto na pintura como em diversas obras bizarras, não só na sua pátria como também no estrangeiro, recebeu os maiores dos louvores, de tal modo que a sua fama chegou até à corte imperial da Alemanha, aos ouvidos de Maximiliano II, eleito o Rei dos Romanos, o sucessor de seu pai no Império, colocando Arcimboldo a seu serviço.21 (MORIGIA, 1592, p.566)

Arcimboldo transferiu-se para a corte dos Habsburgos em 1562, tendo realizado trabalhos sob encomenda para Ferdinando I, mesmo antes de ser oficialmente artista de sua corte (KAUFMANN, 2009; KRIEGESKORTE, 2006). O artista serviu a corte que se localizava primeiramente em Viena, no império de Maximiliano II de 1564 até a morte deste, em 1576, durante 12 anos. E serviu Rodolfo II desse ano até 1587, ou seja, por 11 anos, sendo que a partir do ano de 1583 transferiu-se junto com a corte para Praga, onde permaneceu durante seis anos totalizando 26 anos nessa corte, sem contar ausências em que tinha retornado temporariamente a Milão. Sem contar os anos de interrupção em que Arcimboldo retornou a Milão, ele permaneceu 21 anos em Viena (de 1562 a 1583) e somente 5 anos em Praga. Consta que em todo o período em que integrou a corte, o artista realizou três saídas temporárias para Milão. A primeira foi do verão de 1566 a novembro de 1567, por motivo desconhecido. Em 1576 ou 1577, o artista retornou a Milão aonde registrou o seu testamento; e atravessou novamente os Alpes até Milão em 1581, para fazer uma modificação em seu testamento (BERRA, 2011a).

21Transcriçao traduzida. No original: “Questo è pittore raro, e in molte altre virtù studieso,

eccellente, doppo l'haver dato saggio di lui, e del suo valore, cosi nella pittura come in diverse bizzarie, no sollo nella patria, ma anco fuori, acquistobi gran lode, di maniera che il grido della sua fama volò fino nell'Alemagna, nella corte Imperiale, pervenne nell'orecchie di Massimiliano d'Austria, che fu eletto Re di Romani, dopo successe al padre nell'imperio; di modo che con istanza fece richiedere l'Arcimboldi al suo servigio.” (MORIGIA, 1592, p.566).

Aproveitando seus conhecimentos e habilidades diversificados durante a sua estada na corte, Arcimboldo exerceu diversas atividades.