• Nenhum resultado encontrado

uma obra de arte encontra diversas questões problemáticas, referentes a perspectivas teóricas contraditórias entre si, sendo necessário analisá-las com atenção e tomar uma posição que seja a mais coerente e pertinente com a perspectiva teórica e a configuração metodológica que se pretende utilizar, e assim a investigação possa chegar a um bom termo.

O estudo do simbolismo é permeado de contradições e controvérsias resultando no consenso de que se trata de um conceito que não pode ser definido com clareza e exatidão. De modo geral, pode ser definido da seguinte forma, numa definição tautológica:

(...) entende-se por simbolismo a representação e interpretação simbólica; assim, pode-se falar do simbolismo de uma figura mítica ou literária ou de uma obra de arte, bem como do simbolismo de uma época, cultura, religião (…), dos sonhos. (LURKER, 2003, p.649).

Um ponto a ser destacado é que o significado ao qual um símbolo remete está atrelado à imagem específica que lhe encontra correspondência, portanto, tal simbolismo especificamente atribuído a um determinado símbolo, por partir de semelhanças em sua forma e características concretas, não é intercambiável.

(...). Entre o símbolo e aquilo que ele representa existe uma relação interna, que resulta em uma unidade essencial. O designado (significado) e o designante (significante) não podem ser intercambiados, ao contrário dos sinais colocados

arbitrariamente. O surgimento do símbolo não é algo devido ao acaso, mas pertence, em última análise, à natureza da realidade que se apresenta. (LURKER, 2003, p.656-657).

Ao que outros autores também concordam: “(...) a imagem simbólica não é um 'exemplo' (relação externa e possível entre dois objetos ou conexões), mas sim uma analogia interna (relação necessária e constante).” (CIRLOT,1984, p.37). E “O analogon que a imagem constitui não é nunca um signo arbitrariamente escolhido, é sempre intrinsecamente motivado, o que significa que é sempre símbolo.” (DURAND, 2002, p.29 – grifo do autor). Ressaltando o aspecto analógico da imagem que serve de receptáculo para uma significação simbólica, o que diferencia o conceito de símbolo com o de signo: “O signo é uma expressão semiótica, uma abreviatura convencional para uma coisa conhecida.” (CIRLOT, 1984, p.37), enquanto o símbolo aponta para o desconhecido. Assim, apesar de signo também ser um conceito com concepções contraditórias, e por este conceito também ser utilizado com relação “a algo que está para uma outra coisa”, atua de forma mais direta e concreta nos processos comunicativos, intermediando o processo semiótico (EPSTEIN, 1986, p.17).

O símbolo não tem relação direta com o simbolizado representado no sentido de sua significação, e não é esse algo, por se tratar de algo que é incorpóreo. Pois a relação intrínseca do símbolo com o simbolizado refere-se ao fato de não poder ser substituído por outro símbolo, assim como também o simbolizado não pode ser confundido com o símbolo que o representa, por não se tratar de um sentido literal, muito preso à imagem, referindo-se a algo não imediatamente visível. “O princípio do simbolismo é a existência de uma relação de analogia entre a ideia e a imagem que a representa. O símbolo sugere, não expressa, por isso é a linguagem eletiva da metafísica tradicional.”8 (ASTI VERA, 2001, p.25 – grifos do autor).

o símbolo nunca é o equivalente ao simbolizado, nem análogo sequer, nem intercambiável com ele, mas essencialmente externo e alheio, útil somente enquanto meio para orientar em direção a ele.

8 Transcrição traduzida. No original: “El principio del simbolismo es la existencia de una

relación de analogía entre la idea y la imagen que la representa. El símbolo sugiere, no

expresa, por ello es el lenguaje electivo de la metafísica tradicional.” (ASTI VERA, 2001, p.25

Cabe duvidar acerca de qualquer tendência a vincular o símbolo de um modo demasiado estreito com o simbolizado.9 (REVILLA, 2007,

p.15).

Nesse sentido, o mundo simbólico constitui-se como intermediário entre os mundos concreto e abstrato (CIRLOT, 1984), sendo que a humanidade não vive somente e diretamente no primeiro, mas sempre com a intermediação dos símbolos, caracterizando o meio cultural no qual vive. Como afirma Cassirer (1994, p.48-49), o ser humano “envolveu-se de tal modo em formas lingüísticas, imagens artísticas, símbolos míticos ou ritos religiosos que não consegue ver ou conhecer coisa alguma a não ser pela interposição desse meio artificial.” Para este autor, o simbólico consiste numa segunda realidade, um mundo abstrato de significados, que está para além da realidade concreta, consistindo em um universo de significação, conforme o autor também assinala: “Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em uma realidade mais ampla: vive, pode-se dizer, em uma nova dimensão de realidade.” (CASSIRER, 1994, p.47-48 – grifo do autor). Nesse sentido, os símbolos caracterizam-se pela abstração, transcendendo os limites do mundo real imediato, ou seja, “um símbolo não tem existência real como parte do mundo físico; tem um 'sentido'.” (CASSIRER, 1994, p.97).

Segundo Cassirer, não é somente a linguagem que faz parte desse mundo simbólico intermediário, fazendo parte também o mito, a arte e a religião, formas de vida cultural que este autor denomina de “formas simbólicas”: “A linguagem, o mito, a arte e a religião são partes desse universo. São os variados fios que tecem a rede simbólica, o emaranhado da experiência humana.” (CASSIRER, 1994, p.48). Tal desenvolvimento simbólico, como assinala Cassirer, faz com que a humanidade seja caracterizada pela vivência dos fatos não por eles mesmos, mas sempre a partir de sentimentos e interpretações suscitadas por expectativas e reações: “o homem não vive em um mundo de fatos nus e crus, ou segundo suas necessidades e desejos imediatos. Vive antes em meio a emoções imaginárias, em esperanças e temores, ilusões e desilusões, em suas fantasias e sonhos” (CASSIRER, 1994, p.49), portanto, tal aspecto está intimamente relacionado com a imaginação.

9Transcrição traduzida. No original: “el símbolo no es nunca equivalente a lo simbolizado, ni

análogo siquiera, ni intercambiable con ello, sino esencialmente exterior y ajeno, útil sólo en cuanto medio para orientar hacia ello. Cabe dudar acerca de cualquier tendencia a vincular el símbolo de un modo demasiado estrecho con lo simbolizado.” (REVILLA, 2007, p.15).

Contudo, embora o simbolismo seja caracterizado pela abstração, e portanto por uma diferenciação entre símbolo e natureza, não foi sempre assim, pois em outras civilizações, o símbolo evidenciava uma característica mais concreta de presentificação do simbolizado, sendo o próprio simbolizado. Como nos seguintes excertos, em que Eliade toma como exemplo o símbolo árvore: “Para a mentalidade arcaica, a natureza e o símbolo coexistem” (ELIADE, 2010a, p.216), ou seja,

a árvore repete o que, para a experiência arcaica, é o cosmos inteiro. A árvore pode, sem dúvida, tornar-se um símbolo do universo, forma sob a qual nós a encontramos nas civilizações evoluídas; mas para uma consciência arcaica a árvore é o universo, e se ela é o universo é porque o repete e o resume ao mesmo tempo que o 'simboliza'. (ELIADE, 2010a, p.217 – grifos do autor).

E sendo uma abstração, o símbolo aponta para uma significação para além dele mesmo, voltado para questões transcendentes como o sentido da vida de modo mais amplo (HOPCKE, 2011, p.143), concordando com a concepção de Cirlot (1984) de que o símbolo aponta para o desconhecido. E Durand assinala que o símbolo refere-se ao sentido figurado, pré-lógico e situado fora do âmbito estritamente racional de significação. Nesse sentido, “o símbolo é útil para aproximar o inapreensível.”10 (REVILLA, 2007, p.28). Por esse motivo, o símbolo tradicionalmente muitas vezes tem sido direcionado para o espiritual, evidenciando o significado religioso do símbolo, como nas antigas civilizações em que os símbolos tinham um lugar de importância nas adivinhações (STRUCK, 2005). Durand também aponta para o aspecto religioso a que o simbolismo se dirige, bem como os âmbitos culturais nos quais pode ser encontrado segundo essa compreensão:

Novamente adverte-se qual é o domínio predileto do simbolismo: o não-sensível em todas as suas formas; inconsciente, metafísico, sobrenatural e surreal. Estas 'coisas ausentes ou impossíveis de serem percebidas', por definição, serão de maneira privilegiada os temas próprios da metafísica, da arte, da religión, da magia: causa primeira, fim

10 Transcrição traduzida. No original: “el símbolo es útil para aproximarse a lo

último, 'finalidade sem fim', alma, espíritos, deuses, etcétera.11 (DURAND, 1968, p.14).

Durand (1968) confirma o símbolo como remetendo a um sentido abstrato, ao âmbito do misterioso e enigmático para a compreensão humana: “(...) a imagem simbólica é transfiguração de uma representação concreta com um sentido totalmente abstrato. O símbolo é, pois, uma representação que faz aparecer um sentido secreto; é a epifania de um mistério.”12 (DURAND, 1968, p.15-16 – grifos do autor).E tais sentidos, além de desconhecidos, abrangem muitas vezes significados opostos, ao abranger aspectos aparentemente inconciliáveis, caracterizando a pluridimensionalidade, complexidade e ambivalência do símbolo e evidenciando uma busca de totalidade, como por exemplo, a afirmação de que: “A ambivalência das divindades e seus símbolos está relacionada ao duplo caráter do numinoso: seu lado de bondade e seu lado de ira.” (LURKER, 2003, p.22). Em alguns casos, os significados totalizantes visando abranger a vida como um todo em seus múltiplos aspectos (“coincidentia oppositorum”), às vezes oscilam enfatizando uma polaridade ou outra: “A maioria dos símbolos apresenta mais de um significado, podendo oscilar entre um extremo e outro, exprimindo as polaridades da existência – vida e morte, bem e mal.” (LURKER, 2003, p.22). Cirlot concorda com essa característica ambivalente do símbolo, afirmando que, por originar-se do inconsciente, não conhece oposições (“o inconsciente, ou 'lugar' onde vivem os símbolos, ignora as distinções de contraposição”) e, sendo o símbolo unificador e sintético, é utilizado justamente quando se busca uma conciliação mas a qual ainda é desconhecida (“a 'função simbólica' aparece justamente quando há uma tensão de contrários que a consciência não pode resolver com seus meios usuais.”) (CIRLOT, 1984, p.27). Embora o mundo inconsciente desconheça oposições, no mundo consciente expresso pela linguagem há ideias que se opõem, demandando uma resolução que desfaça a ambiguidade.

11 Transcrição traduzida. No original: “Nuevamente se advierte cuál va a ser el dominio

predilecto del simbolismo: lo no-sensible en todas sus formas; inconsciente, metafísico, sobrenatural y surreal. Estas 'cosas ausentes o imposibles de percibir', por definición, serán de manera privilegiada los temas propios de la metafísica, el arte, la religión, la magia: causa primera, fin último, 'finalidad sin fin', alma, espíritus, dioses, etcétera.” (DURAND, 1968, p.14).

12Transcrição traduzida. No original: “(...) la imagen simbólica es transfiguración de una

representación concreta con un sentido totalmente abstracto. El símbolo es, pues, una representación que hace aparecer un sentido secreto; es la epifanía de un misterio.” (DURAND, 1968, p.15-16 – grifos do autor).

Esta linguagem [simbólica] de imagens e de emoções, baseada numa condensação expressiva e precisa, que fala das verdades transcendentes exteriores ao homem (ordem cósmica) e interiores (pensamento, ordem moral, evolução anímica, destino da alma), apresenta uma condição, segundo Schneider, que extrema seu dinamismo e confere-lhe indubitável caráter dramático. Efetivamente, a essência do símbolo consiste em poder expor simultaneamente os vários aspectos (tese e antítese) da ideia que expressa. (CIRLOT, 1984, p.26-27).

Portanto, o símbolo tem um sentido de integração do ser humano com a sociedade onde vive, e em sentido amplo, com o universo, desfazendo possíveis fragmentações do homem consigo mesmo e com os diversos níveis da realidade, devido à simultaneidade de sentidos característica dos símbolos (ELIADE, 2010b). E segundo este mesmo autor, tal integração é favorecida devido ao fato de que os símbolos são direcionados ao ser humano como um todo, e não somente à sua razão (ELIADE, 2010b).

Esta função unificadora é, certamente, de considerável importância, não só na experiência mágico-religiosa do homem, mas mesmo para a sua experiência total. Um símbolo revela sempre, qualquer que seja o seu contexto, a unidade fundamental de várias zonas do real. (ELIADE, 2010b, p.368).

Ainda, apesar de o símbolo estar vinculado a uma realidade abstrata, transcendente e ser de origem não racional, Eliade assinala para o fato de o símbolo possuir uma lógica própria: “(...) é legítimo falar de uma 'lógica do símbolo', no sentido de que os símbolos, qualquer que seja a sua natureza e o plano em que se manifestem, são sempre coerentes e sistemáticos.” (ELIADE, 2010b, p.370). Com base nisso, Eliade (2010b) aponta para uma forma de pensamento centralizada nos simbolismos, ou seja, para um pensamento simbólico:

Aquilo a que se poderia chamar o pensamento

circulação através de todos os níveis do real. (…) o símbolo (…) identifica, assimila, unifica planos heterogêneos e realidades aparentemente irredutíveis. Mais ainda: a experiência mágico- religiosa permite a transformação do próprio homem em símbolo. (ELIADE, 2010b, p.372 – grifos do autor).

Entretanto, diferentemente do pensamento racional, seu significado não é totalmente alcançado pela razão, só em parte, restando algo indefinível e intraduzível, pois o que é representado pelo símbolo não pode ser conhecido totalmente e nem com total precisão devido a sua ambiguidade. Em certa medida sempre permanecerá desconhecido, principalmente quando se pretende sua passagem para a linguagem verbal, o que dificulta a sua interpretação.

O símbolo é simultaneamente ocultamento e revelação; esta é a razão da frequente dificuldade de interpretação dos símbolos. Na explicação do simbólico, na transferência à linguagem conceptual, sempre resta algo intraduzível. Exatamente porque o símbolo aponta ao invisível e incompreensível, e os representa, não pode ser apreendido pela nossa ratio. (…). O símbolo é sempre um extrato de uma abundância de pensamentos isolados; condensa séries inteiras de pensamentos numa síntese plástica não atingível por outros meios. Os símbolos não são formações rígidas, que podem ser precisamente limitadas, mas mutáveis e, muitas vezes, ambíguos. (LURKER, 2003, p.657).

Jung considera que os símbolos não são criados pela intenção consciente, a partir de uma vontade própria e objetiva, são como criações inconscientes: “(...) símbolo é a melhor expressão possível para um conteúdo inconsciente apenas pressentido, mas ainda desconhecido.” (JUNG, 2011b, p.5). Ou seja, o símbolo não tem origem intencional, sendo acessado no inconsciente coletivo, o que por sua vez não significa que o símbolo não possua significados dados à decifração.

(...) um símbolo sempre representa algo mais que seu significado evidente e imediato. Além disso, os símbolos são produtos naturais e espontâneos.

Jamais um gênio sentou-se com a caneta ou o pincel na mão, dizendo: 'Agora vou inventar um símbolo'. Ninguém pode ter um pensamento mais ou menos racional, alcançado como dedução lógica ou com deliberada intenção e logo dar-lhe forma 'simbólica'.13 (JUNG, 1995, p.55).

Coerentemente com os fins do presente trabalho, Jung apresenta uma definição de inconsciente, afirmando o seguinte: “Seja o que for o inconsciente, é um fenômeno natural que produz símbolos que possuem significado.”14 (JUNG, 1995, p.102). Assim, este autor apresenta a definição de símbolo transcrita a seguir, abrangendo, entre outras formas, a imagem visual pictórica. Nesta definição é destacado que o símbolo possui um aspecto inconsciente, e também outro consciente, cujo significado está além do sentido imediato, e aponta para o desconhecido, evidenciando uma concepção de símbolo concordante com as dos autores anteriormente mencionados.

O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou ainda uma pintura que pode ser conhecido na vida diária ainda que possua conotações específicas além de seu significado usual e óbvio. Representa algo vago, desconhecido ou oculto para nós. (…). Asim é que uma palavra ou uma imagem é simbólica quando representa algo mais que seu significado imediato e óbvio. Tem un aspecto 'inconsciente' mais amplo que nunca está definido com precisão ou completamente explicado. Nem se pode esperar definí-lo ou explicá-lo. Quando a mente explora o símbolo, vê-se levada a ideias que estão além do alcance da razão.15 (JUNG, 1995, p.20).

13Transcrição traduzida. No original: “(...) un símbolo siempre representa algo más que su

significado evidente e inmediato. Además, los símbolos son productos naturales y espontáneos. Ningún genio se sentó jamás con la pluma o el pincel en la mano, diciendo: 'Ahora voy a inventar un símbolo'. Nadie puede tomar un pensamiento más o menos racional, alcanzado como deducción lógica o con deliberada intención y luego darle forma 'simbólica'.” (JUNG, 1995, p.55).

14 Transcrição traduzida. No original: “Sea lo que fuere el inconsciente, es un fenómeno

natural que produce símbolos que tienen significado.” (JUNG, 1995, p.102).

15Transcrição traduzida. No original: “Lo que llamamos símbolo es un término, un nombre o

aun una pintura que puede ser conocido en la vida diaria auque posea connotaciones específicas además de su significado corriente y obvio. Representa algo vago, desconocido u oculto para nosotros. (…). Así es que una palabra o una imagen es simbólica cuando representa

No tocante ao conceito de inconsciente, para Jung trata-se de uma camada da psique cujo conteúdo permanece na obscuridade, escapando à concepção consciente; e distingue entre o inconsciente pessoal, – particular para cada indivíduo e relacionada às histórias de vida de cada um, com conteúdos próprios a partir de suas próprias experiências – e o inconsciente coletivo – o qual consiste no inconsciente que é comum para toda a humanidade, com conteúdos de origem muito antiga referentes a diversas épocas e períodos históricos, cujos símbolos podem ser acessados ao surgirem espontaneamente na imaginação, sonhos ou criações artísticas (BOECHAT, 2008; LURKER, 2003). Assim sendo, “as figuras mitológicas de todos os povos podem ser vistas como imagens arquetípicas, dentro da perspectiva psicológica.” (BOECHAT, 2008, p.196). Os conteúdos do inconsciente coletivo são chamados por Jung de arquétipos: “representam a tendência presente em todos para produzir as mesmas imagens, quando o indivíduo está submetido às experiências semelhantes.” (BOECHAT, 2008, p.196). Tais imagens produzidas, ou seja, as representações dos arquétipos, são as chamadas imagens arquetípicas, como por exemplo, sonhos com conteúdos mitológicos, podendo apresentar variações com relação a detalhes, mas sem perder a sua ideia básica, como afirma o próprio Jung: “O arquétipo é uma tendência a formar tais representações de um motivo, representações que podem variar muito em detalhe sem perder seu modelo básico”16 (JUNG, 1995, p.67).

Com relação a esse conceito de arquétipo, Raffaelli (2002) traz a seguinte definição enfatizando o seu aspecto imagético:

O arquétipo para Jung é a parte herdada da psique, que manifesta-se como padrões imagéticos do inconsciente coletivo. Por ser entendido como o correspondente do inconsciente coletivo aos complexos do inconsciente individual, como imagens atratoras de significado. (RAFFAELLI, 2002, p.24).

algo más que su significado inmediato y obvio. Tiene un aspecto 'inconsciente' más amplio que nunca está definido con precisión o completamente explicado. Ni se puede esperar definirlo o explicarlo. Cuando la mente explora el símbolo, se ve llevada a ideas que yacen más allá del alcance de la razón.” (JUNG, 1995, p.20).

16 Transcrição traduzida. No original: “El arquétipo es una tendencia a formar tales

representaciones de un motivo, representaciones que pueden variar muchíssimo en detalle sin perder su modelo básico” (JUNG, 1995, p.67).

Expandindo essa mesma definição, o arquétipo remete ao conceito de inconsciente coletivo junguiano e à idéia de representação, abrangendo tais concepções coletivas inconscientes depositadas em uma espécie de memória universal que pode ou não ser acessada, mas que para isso não depende exatamente de uma vontade consciente, pois trata-se de um 'depositório' inconsciente. Mas a idéia de representação abrange também conceitos conscientes acessáveis como conhecimentos que fazem parte do repertório cultural, compartilhado pelos seus integrantes.

Como representações, os símbolos são as manifestações dos arquétipos neste mundo, as imagens concretas, detalhadas e experimentais que expressam constelações arquetípicas de sentido e emoção. Mas os símbolos não são idênticos aos arquétipos que eles representam. (…). O arquétipo é o molde psíquico da experiência, enquanto o símbolo é sua manifestação peculiar; os arquétipos existem fora da vida assim como a conhecemos como num modo de percepção clara, ao passo que o símbolo é tirado da vida e aponta para o arquétipo que está além de nossa compreensão. (HOPCKE, 2011, p.40).

Os significados dos símbolos podem ser interpretados, embora existam alguns limites encontrados no tocante a sua intraduzibilidade, como apontado anteriormente. Sobre a questão da interpretação, Cirlot (1984) apresenta uma diferenciação denominando de interpretação objetiva aquela que se situa mais no sentido geral e compartilhado dos símbolos, na maior parte de sua obra preferindo referir-se a esse tipo de interpretação com o termo “compreensão”. E denomina de interpretação subjetiva aquela propriamente dita que recebe sempre um sentido particularizante e individualizado. Este autor mostra-se favorável apenas ao primeiro tipo de interpretação mencionado acima, que foi o utilizado por ele na construção do seu dicionário, afirmando que “o essencial é a apreensão, a identificação cultural do símbolo, sua intelecção em si mesmo, não sua 'interpretação' à luz de uma situação dada.” (CIRLOT, 1984, p.2). Ou seja, o seu interesse é pela universalidade do símbolo, seu significado comum nas mais diversas culturas, e não sua utilização em situações específicas, nas quais seu significado emocional pode

variar conforme a situação em que o símbolo se encontre. Sendo que a objeção deste autor à interpretação subjetiva na análise geral dos símbolos refere-se à possibilidade de reducionismo, sendo mais