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1. REVISÃO DA LITERTURA

1.5. Apontamentos sobre agentes e momento histórico

Ao tentar entender o que ocorre nessas áreas de expansão urbana, onde novas realidades/situações estão se configurando, busca-se verificar sua inserção no

16Realizado em 8 e 9 de dezembro de 2006. Local: Departamento de Geografia/FFLCH/USP, em co- promoção com o Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS.

contexto capitalista e na propalada globalização, além de formas teóricas de se discutir urbanização e as relações sociais locais.

Harvey (2006) aponta que o poder de organizar o espaço se origina em um conjunto complexo de forças mobilizado por diversos agentes sociais. Para ele a urbanização deveria ser considerada um:

[...] processo social, espacialmente fundamentado, no qual um amplo leque de atores, com objetivos e compromissos diversos, interagem por meio de uma configuração específica de práticas espaciais entrelaçadas. Em uma sociedade vinculada por classes, como a sociedade capitalista, essas praticas espaciais adquirem um conteúdo de classe definido, o que não quer dizer que todas as práticas espaciais possam ser assim interpretadas. (HARVEY, 2006, p. 170).

No tocante à atuação do Estado, Corrêa aponta que o Estado Capitalista desempenha múltiplos papéis em relação à produção do espaço. Essa multiplicidade

decorre do fato de o Estado constituir uma arena na qual diferentes interesses e conflitos se enfrentam. (CORRÊA, 2011, p. 45). Nas áreas de estudo, o Estado, assume

o papel de agente imobiliário ao criar uma empresa como a Terracap para gerenciar a venda das terras. Ao ampliar as áreas urbanas nos Planos de Ordenamento Territorial e legalizar loteamentos irregulares o Estado local segue a lógica apontada por Lojkine:

Na medida em que a planificação estatal aparece subordinada não a uma lógica de controle racional, pela sociedade, de seu desenvolvimento coletivo mas sim à lógica de acumulação do capital privado, a planificação assim como o conjunto da política estatal agem menos como instrumento de regulação do que como revelador de uma sociedade retalhada pelo conflito de classes antagônicas. (LOJKINE, 1981, p.321)

Como se observa nas discussões conceituais da relação cidade-campo e dos espaços de transição, para entender o que ocorre em determinado local, é importante entender seu contexto num período histórico. Entender também que o que ocorre num local pode estar relacionado a fatores distantes. Neste sentido, segundo Santos (2002), no tocante à globalização, não existe um espaço global, mas, apenas, espaços da globalização. O autor aponta que a ordem global busca impor, a todos os lugares,

uma única racionalidade. E os lugares respondem ao Mundo segundo os diversos modos de sua própria racionalidade. (SANTOS, 2002, p.338)

Conforme aponta Sposito (2010), observa-se novas práticas socioespaciais, novas formas de habitat e de interação social, novos conteúdos culturais que diferentes sujeitos sociais atribuem aos espaços em que vivem, independentemente de suas qualificações, como urbanos ou rurais (SPOSITO, 2010, p.129). Além da atuação do Estado e dos incorporadores imobiliários interessa-nos aqui a atuação dos demais sujeitos sociais, busca-se tentar entender o que vem ocorrendo no sentido de resistência a esse processo de expansão urbana controlado por especuladores imobiliários:

Por enquanto, o lugar – não importa sua dimensão – é, espontaneamente, a sede da resistência, às vezes involuntária, da sociedade civil, mas é possível pensar em elevar esse movimento a desígnios mais amplos e escalas mais altas. Para isso é indispensável insistir na necessidade de um conhecimento sistemático da realidade, mediante o tratamento analítico do território, interrogando-o a propósito de sua própria constituição no momento histórico atual. (SANTOS, 2002, p.259)

Outro ponto de análise ao verificar o processo de expansão urbana é a discussão sobre a urbanização da sociedade. Para tanto busca-se aqui as conceituações de Henry Lefebvre e as considerações de pesquisadores utilizando-o como referência.

Ao se falar do direito à cidade, Lefebvre fala de um direito à vida urbana, onde o urbano é o lugar do encontro, prioridade do valor de uso sobre o valor de troca (Lefebvre, 2008). Conforme aponta Monte-Mór, Lefebvre questiona a fragmentação funcional da cidade com:

[...] a concepção da habitação separada do espaço do poder, separada do espaço do lazer e da cultura, dos centros históricos e da centralidade urbana em si mesma e tratando a questão da habitação como uma função humana e social contida nela mesma e com lógica própria, justificando a expulsão dos pobres e proletários do centro do poder para jogá-los para as periferias. (MONTE-MÓR, 2011, p.206).

Na atualidade, é considerado que esse direito envolve também ter acesso à serviços, equipamentos e infraestrutura geralmente relacionados às cidades (embora o histórico das cidades brasileiras seja de carência desses itens).

Lefebvre fala ainda de um processo de urbanização da sociedade onde se conquistaria a sociedade urbana por meio de uma revolução urbana. A sociedade urbana é uma potencialidade que pode vir a se realizar. Segundo Monte-Mór (2011), a

revolução urbana se daria a partir da luta centrada na vida cotidiana, na qualidade de vida, na cultura. Esta luta centrada na reprodução coletiva tem como parceira central a preocupação e a ação política voltada para a questão ecológica e ambiental, referencial das questões ligadas à reprodução. (MONTE-MÓR, 2011, p. 215)

Também referenciando Lefebvre, Endlich (2009) assinala que a sociedade urbana deveria representar a apropriação do tempo e do espaço para o ser humano, como sendo uma modalidade superior de liberdade. A apropriação, assim compreendida, significa tornar próprio e adequado pelo uso, sem que isso represente posse e sem que se paute pela ideia de propriedade. Apropriação significaria mais do que simplesmente habitar, ela faz parte da recuperação da autonomia.

O desafio para a sociedade é conquistar urbanidade em meio a esse intenso e contraditório processo de urbanização, urbanidade compreendida como resultado de conquistas políticas advindas da vida urbana, bem como o acesso e intercâmbio de manifestações culturais diversas. (ENDLICH, 2009, p.36).

Entendemos que a busca de uma sociedade urbana compreende busca de qualidade de vida, de serviços, de cultura, etc., independente de ser área urbana ou rural.