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Apontamentos teóricosApontamentos teóricos

No documento O mosaico do desemprego (páginas 35-40)

Apontamentos teóricos

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Convém inicialmente indicar que há três fios condutores guiando esta tese, a saber: i) a idéia do trabalhador desempregado como ator social capaz de compreender e explicar sua condição, que é derivada do entendimento de que não há teorização possível sem que se leve em consideração os atores diretamente envolvidos; ii) a visão de que a ordem social como sistema aberto pressupõe considerar que, nas análises que fazemos, simplificamos os processos, decompondo-os analiticamente, mas que, empiricamente, tais processos têm suas existências inter-relacionadas. Mais ainda, a ordem social não está dada, é produzida constantemente a partir das complexas relações entre os fatores econômicos, políticos, sociais e culturais presentes num determinado contexto e na interação e conflito dos grupos, e sob aquilo que os atores sociais supõem que ela deva ser. iii) a compreensão de que as percepções e as práticas dos sujeitos não devem ser pensadas somente a partir das privações econômicas, mas também pelo seu impacto sobre a subjetividade. (SANTOS, 1987 e LEITE, 1994 e 2003).

Em tempo, ao abordar pela ótica da subjetividade - a maneira como os desempregados vêm elaborando suas condições de existência, a partir da qual eles irão definindo e orientando sua prática – estou tomando o aspecto subjetivo como parte constitutiva das condições objetivas. Como Leite (1994), considero que a importância da abordagem subjetiva reside no fato de que ela fornece diretamente subsídios às análises das condições objetivas – já que ela orienta as ações e vivências concretas dos indivíduos – e permite ao pesquisador compreender os modelos explicativos subjacentes.

Alguns autores ajudam a olhar e a analisar o objeto de estudo em questão por meio dos três fios condutores citados acima: Thompson (2002), Bourdieu (1996, 1994 e 2004), Demazière (1995a), Castel (2003) e Dubar (2005). Embora a contribuição de cada um seja diferenciada, conforme será explicitado ao longo da tese, considero pertinente pontuar nesse momento alguns pressupostos que ligam este estudo a esses autores.

Thompson (2002) ressalta a importância de buscar as experiências dos considerados “perdedores da história”, procurando dar vida e voz àqueles que comumente são ignorados como objetos de pesquisa ou informantes. A noção de "experiência" formulada pelo autor possibilita articular as percepções do desemprego combinando aspectos subjetivos e estruturais, isto porque se a experiência é determinada, em grande parte, pelas relações de produção, ela também é marcada pela maneira como os homens a vivem em termos culturais (tradição, valores, idéias e formas institucionais).

A noção de experiência, tal como definida por Thompson (2002), permite considerar os desempregados enquanto sujeitos do processo, experimentando suas situações dentro de um conjunto de relações sociais, com sua cultura própria e expectativas herdadas, informando e orientando suas ações. Mais ainda, esse conceito possibilita articular dialeticamente estrutura e ação - se as estruturas sociais têm efeitos sobre as ações e percepções dos indivíduos, estas não estão pré- determinadas, mas são susceptíveis às maneiras como os sujeitos as vivenciam e lidam com elas.

Bourdieu (1996, 2004) também nos auxilia a fundamentar esta idéia; ao propor uma ciência articuladora das dimensões objetivas e subjetivas, possibilita-nos transitar entre as esferas micro e macro, entre as idéias de indivíduo e de sociedade sem fazer delas dicotomias e, sim, processos complementares e justapostos. Bourdieu (2004) também nos interessa por desvendar o processo de legitimação do que é tido como "dizível" socialmente. Para o autor, o poder social reside em sua capacidade de se fazer existir explicitamente, de publicizar, de se fazer dizível e aceito. E, para se estabelecer o modo de percepção tido como legítimo é necessária uma disputa. “(...) e o reconhecimento da legitimidade mais absoluta não é outra coisa senão a apreensão do mundo comum como coisa evidente, natural, que resulta da coincidência quase perfeita das estruturas objetivas e das estruturas incorporadas”. (BOURDIEU, 2004, p. 145).

Na disputa, a probabilidade de se obter sucesso na imposição de uma visão legítima do mundo é proporcional ao “capital social” possuído: quanto mais capital, maiores as possibilidades de imposição. Pode-se dizer, então, que existe uma

relação intimamente imbricada entre o reconhecimento que o indivíduo recebe do grupo e a sua capacidade de impor uma visão de mundo.

Seguindo as recomendações do autor, procurarei pensar sobre o processo de institucionalização da noção de desemprego, expondo o mecanismo de disputa de poder que se trava em torno da imposição de uma definição “legítima”, bem como as implicações que a aceitação desta definição traz para as percepções e para as práticas sociais dos desempregados.

Castel (2003), ao elucidar o percurso feito pela sociedade até se transformar em sociedade salarial e os atuais desdobramentos decorrentes das mudanças no mundo do trabalho, ajuda a dimensionar o risco de fratura social posto pela presença cada vez mais constante dos “supranuméricos” e da vulnerabilidade social desencadeada pelo capitalismo contemporâneo. Ademais, o autor pontua que o trabalho não só permanece como ponto central na vida das pessoas em termos econômicos, como continua sendo fonte de referências psicológica e cultural. Mais ainda, para o autor, o trabalho é um suporte privilegiado de inscrição dos indivíduos na estrutura social. Ele parte do pressuposto de que o trabalho, como eixo das relações sociais, configura aspectos culturais, simbólicos e identitários e em decorrência disto, o processo de degradação dos pilares que sustentaram a sociedade salarial a partir dos anos 1970 nos colocam diante de rupturas nas formas de socialização, de integração pelo trabalho, de solidariedade e de identidade e até mesmo da possibilidade da vida social.

Demazière (1995a) sugere uma definição sociológica de desemprego e parte do pressuposto de que este fenômeno é uma construção social derivada de algumas situações de não-trabalho, como também do desenvolvimento da sociedade industrial, do emprego assalariado e da constituição de instituições especializadas. Nesses termos, o que o autor aponta é - a despeito dos limites fluidos do conceito de desemprego - a urgência em defini-lo por meio da trajetória de sua institucionalização e incorporação dos sujeitos envolvidos no processo, ou seja, os próprios desempregados. Para ele, se a definição do desemprego do ponto de vista jurídico já está feita, falta definir seus contornos, que ainda permanecem nebulosos. De qualquer forma, o esforço caminha no sentido de articular nessa definição aspectos

culturais, econômicos, sociais e geográficos, sempre localizados no tempo e no espaço.

E, propositalmente por último, mas eixo central para essa tese, Dubar (2005) ajuda a pensar duas questões importantes para esta pesquisa: de forma direta, aponta o caminho para uma definição de identidade dentro de uma abordagem sociológica e de maneira indireta, ao traçar uma teoria das identidades profissionais, ele permite pensar o lado oposto, qual seja, as identidades dos que estão fora do universo profissional experimentando a situação de desemprego.

O autor argumenta que

(...) a identidade humana não é dada, de uma vez por todas, no nascimento: ela é reconstruída no decorrer da vida. O indivíduo jamais a constrói sozinho: ele depende tanto dos juízos dos outros quanto de suas próprias orientações e autodefinições. E nesse sentido ele diz ser a identidade um produto de sucessivas socializações. (DUBAR, 2005, p. XXV).

Dessa forma, a identidade é fruto de uma construção conjunta, resulta das transações subjetivas e objetivas, envolvendo aspectos culturais e econômicos. A identidade assim esquematizada encerra a um só tempo um processo individual e coletivo, objetivo e subjetivo, biográfico e estrutural, que conjuntamente constrói os indivíduos e define as instituições.

O centro da teoria de Dubar (2005) é o reconhecimento de que a identidade se dá na articulação dos dois mecanismos: “identidade atribuída pelos outros” (os rótulos) e a “identidade para si” (incorporação). Todavia, a ligação entre a identidade para si e a identidade para o outro é simultaneamente inseparável e incerta, pois não há harmonização entre elas, e sim processos de negociação. Pode, por exemplo, haver desacordo entre o que o indivíduo “pensa de si” e o que os outros “pensam sobre ele”; nesse caso, aparecem as “estratégias identitárias” enquanto mecanismo de “transações”, nos quais os indivíduos tentam incorporar/acomodar a identidade para si à identidade para o outro, seja abandonando alguns traços seus, recusando outros traços atribuídos ou mesmo incorporando-os. A transação subjetiva é a chave do processo de construção da identidade social e por isso é possível dizer que “ a

identidade de uma pessoa não é feita à sua revelia, no entanto não podemos prescindir dos outros para forjar nossa própria identidade” (DUBAR, 2005: 143).

Ademais, é preciso reconhecer as identidades como relação circunscrita no espaço e no tempo: temporalmente, na medida em que a identidade de si é um processo biográfico construído pelos indivíduos a partir de uma situação determinada e localizada de família, de escola ou de trabalho; e espacialmente, dado que a identidade atribuída pelos outros é sempre um processo relacional e se dá dentro de determinado espaço de legitimação (instituição).

Cada um possui uma “definição da situação” feita pela definição de si e dos outros. O procedimento sociológico é coletar essas definições da situação, que não são estritamente determinadas pelo contexto, já que os sujeitos têm uma história, um passado que pesa na sua identidade. Ou seja, há uma leitura interpretativa do passado e uma projeção do futuro formando a trajetória subjetiva. A identidade é, assim, relacional, dos sujeitos em contextos de ação, e biográfica, dos sujeitos engajados em uma trajetória – nela cabe a um só tempo uma estrutura de ação e uma história da formação.

Embora heterogêneos os dois processos (biográfico e relacional) que produzem a identidade não são infinitos, pois os indivíduos, situados no tempo e no espaço, dispõem de um número limitado de categorias a serem utilizadas nas percepções de si mesmo e nas percepções sobre os outros. O que significa dizer que, embora não fechadas em modelos identitários pré-definidos, as identidades são construídas a partir de um estoque limitado de categorias previamente conhecidas e legitimadas socialmente. Então, por ser a identidade simultaneamente coerente e dinâmica o autor sugere falar de “configurações identitárias”.

É possível operacionalizar a teoria de Dubar (2005) para entender o que se passa no universo das pessoas que vivem o desemprego de duas formas: i) como teoria que auxilia no discernimento das mudanças nos modelos identitários e que permite apreender a maneira como os indivíduos lidam com as categorias oficiais (pervertendo-as, aceitando-as ou recusando-as). ii) como modelo de análise, ao proporcionar a investida na construção das “configurações identitárias” dos desempregados da cidade de Salvador e de Vitória da Conquista.

No documento O mosaico do desemprego (páginas 35-40)

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