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2 2 2 2.5 5 5 5 Alguns aspectos do mercado de trabalho na Bahia Alguns aspectos do mercado de trabalho na Bahia Alguns aspectos do mercado de trabalho na Bahia Alguns aspectos do mercado de trabalho na Bahia

No documento O mosaico do desemprego (páginas 107-114)

Como se sabe, o sistema capitalista enfrentou uma crise profunda a partir dos anos de 1970 e de 1980 e tentou superá-la por meio da globalização, de políticas liberalizantes e da reestruturação produtiva. Por meio desta reestruturação, o capital conseguiu reorganizar as bases econômicas, tecnológicas e organizacionais de forma a ampliar seus ganhos sem alterar o modo de produção. Com a adoção do neoliberalismo, o sistema buscou dar legitimidade às mudanças, apontando-as como elementos indispensáveis à modernização e ao desenvolvimento (ANTUNES, 2000, OLIVEIRA e PAOLI, 1999 e MALAGUTI e CARCANHOLO, 2000).

Nos países de economia periférica como o Brasil, os efeitos negativos da reestruturação produtiva somaram-se aos antigos problemas, agravando ainda mais a situação. Para Guimarães (2004b), a especificidade do nosso mercado de trabalho

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Já em 2007, o desemprego feminino foi de 15,2%, o que significou uma redução de 7,7% em relação ao ano de 2006. (DIEESE, 2008).

e o autoritarismo do Estado em sua relação com os sindicatos fizeram com que o mundo do trabalho se organizasse sob permanente instabilidade e precariedade no emprego. A maneira débil como foram institucionalizados o mercado de trabalho e o sistema de proteção social fez com que, aqui, os efeitos negativos da reestruturação produtiva fossem ainda mais graves. Tivemos, portanto, um "fordismo à brasileira" que, por sua vez, resultou em uma adoção, também peculiar, da produção flexível. Assim, hoje, para Hirata (1998) e Leite (1996), não se pode falar em mudança de padrão, seja porque se verifica no Brasil uma superposição de padrões (às vezes, dentro de uma mesma empresa, existem setores fordistas convivendo lado a lado com outros mais flexibilizados), seja porque a flexibilidade não foi adotada no conjunto de setores e empresas.

Estas especificidades históricas do mercado de trabalho brasileiro, atreladas às mudanças dos anos de 1990, acabaram por provocar um processo de precarização intensa do mundo do trabalho e o agravamento dos problemas sociais, com a adoção das políticas neoliberais delineando o desmonte do Estado por meio de sucessivas privatizações de empresas públicas, abertura econômica do mercado, mudanças no papel do Estado como agente regulador, cortes no orçamento público, sobretudo nos gastos sociais e reestruturação tecnológica e organizacional de muitas empresas.

Sabe-se que a precariedade do mundo do trabalho não constitui uma novidade no mundo capitalista - basta rememorarmos as descrições feitas por Marx (1989), Thompson (1987), Hobsbawm (1982) e Huberman (1981) sobre as condições dos trabalhadores no início do século XVIII e XIX. Entretanto, para Alves (2000), vemos hoje inaugurada uma nova condição de precarização, em que os obstáculos à exploração do trabalho, historicamente construídos pela luta de classes, estão gradativamente sendo diluídos. Situação compreensível quando se considera a capacidade do neoliberalismo de se colocar como única alternativa possível diante da crise. Para Oliveira e Paoli (1999), o totalitarismo neoliberal esgota as energias utópicas por meio de dois fenômenos de subjetivação: modificação da classe operária e privatização do público por meio da disseminação da idéia de desnecessidade do público. Somado a tudo isso, há ainda a difusão das noções de

empreendedorismo/empregabilidade, que pensamos funcionar como mecanismo de ocultação dos antagonismos inerentes à relação capital-trabalho, uma vez que criam a ilusão da possibilidade de inserção no mercado de trabalho, a partir de capacidades exclusivamente individuais.

Quando se considera a função da Região Nordeste no processo histórico do Brasil, percebe-se o papel desigual atribuído às distintas Regiões: para o Sul e Sudeste, coube a tarefa da modernização e da industrialização do País; ao Norte e ao Nordeste, apenas um papel secundário. Essa configuração havia sido diferente durante o Período Colonial e durante o Império, visto que, neste período, a Região Nordeste ocupou uma posição social, política e econômica central.

A Bahia vivenciou um processo de industrialização tardio em relação às Regiões Sul e Sudeste. Somente na década de 1950, o Estado se inseriu no desenvolvimento industrial brasileiro por meio da implantação do setor petrolífero no Recôncavo Baiano. Para Oliveira (2003), a chegada da Petrobrás à Bahia mudou o padrão de desenvolvimento até então dominante - o da exploração da cana-de- açúcar - impulsionando e dinamizando a construção civil (pesada e relacionada à habitação) e redes em torno de pequenas empresas metalúrgicas e mecânicas.

Na década de 1960, o destaque foi a criação do Centro Industrial de Aratu (CIA), que promoveu uma industrialização incentivada pelo Estado. Porém, para Druck (1999) e Oliveira (2003), a industrialização na Bahia, além de tardia, se instalou como complemento do processo já em andamento nas Regiões Sul e Sudeste, atuando como fornecedora de bens intermediários necessários à dinamização da industrialização dessas regiões.

De forma análoga à assimetria existente entre a Bahia e as Regiões Sul e Sudeste do país, internamente também há uma hierarquização. Para Dias e Fernandes (2007) o processo de modernização do Estado concentrou-se na cidade de Salvador e seu entorno e foi desarticulador dos setores produtivos já existentes em outras áreas do Estado. O resultado não poderia ser outro que não o fortalecimento da área metropolitana de Salvador em detrimento das demais, configurando uma concentração social e espacial da renda, dos serviços públicos e

privados, dos investimentos e da estrutura produtiva do Estado na área metropolitana.

Mais tarde, durante os anos de 1970, com a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari, em uma junção de investimentos estatais, privados, nacionais e estrangeiros, a região passou por mudanças substanciais: a estrutura sócio-econômica-cultural da Bahia alterou-se diante da introdução de um novo padrão de vida e de assalariamento (mais elevado), bem como de uma aceleração da urbanização e de mudanças na estrutura do emprego. (DRUCK,1999).

Contudo, Oliveira (2003) ressalta que o processo de industrialização ocorreu de forma excludente, o que gerou uma acentuada divisão entre, de um lado, os trabalhadores qualificados e absorvidos por esse novo mercado capitalista e, do outro, uma massa de indivíduos que tentam garantir sua sobrevivência por meio de diversas atividades informais. Assim, constata-se que a industrialização baiana formou um mercado de trabalho marcadamente hierarquizado e desigual, o qual combinou formas modernas de exploração do trabalho assalariado com práticas mercantis de troca sem nenhuma proteção social.

Nos anos de 1980 a Bahia entra para o padrão fordista de produção com um contingente significativo de assalariados, resultante, como já dito acima, da instalação do Setor Petroquímico, que desencadeou uma série de contratações de trabalhadores sob um novo padrão de gestão do trabalho, com a ampliação do funcionalismo público, que se somou ao assalariado que já havia se estabelecido com a instalação da Petrobrás. A adaptação desses trabalhadores ao padrão fordista trouxe uma série de mudanças em toda estrutura social: para os que haviam sido absorvidos, possibilitou salário estável e prestígio social; para os que estavam fora, orientou planos e alimentou sonhos de uma futura inserção.

Todavia, para Borges (2003), a difusão do assalariamento não chegou a se completar no mercado de trabalho da região, uma vez que, em fins dos anos de 1980, aproximadamente 20% dos ocupados não possuíam carteira de trabalho assinada. Para a autora, o inusitado residia no fato de que, neste mesmo período, em que o restante do país convivia com os efeitos da redução de postos de trabalho, desencadeados pela reestruturação produtiva, a Região Metropolitana de Salvador

(RMS) conseguiu manter os empregos em termos numéricos, porém perdendo em qualidade e na possibilidade de absorção de novos trabalhadores.

De acordo com Borges (2003) as mudanças mais acentuadas, no entanto, ocorrem durante a década de 1990 e início dos anos 2000, mais precisamente até 2003 e marcam a inserção da Bahia no Modelo Flexível: redução dos postos de trabalho estáveis, tanto na indústria quanto no setor de serviços, crescimento dos assalariados sem registro em carteira e também daqueles que passam a trabalhar por conta própria e, por fim, o aumento no número de desempregados.

Borges (2003) ainda observa que a redução do setor público emergiu como um fator importante no aumento do desemprego na região. Sabe-se que, no Brasil, o emprego no setor público se constituiu como o núcleo duro do assalariamento, tanto que na Bahia, segundo a autora, ele ocupou um papel central e atuou como moeda de troca em relação a favores políticos. Para se ter uma idéia da importância do setor, os dados da RAIS, em 1995, indicavam que 44,3% dos empregos formais na RMS eram públicos. Os efeitos da reforma do estado, executada em nível Federal, Estadual e Municipal, fizeram esse índice baixar para 39,7%, em 1999.

Cabe assinalar, que as consequências do processo de reestruturação produtiva são marcadamente heterogêneas, quando se considera a trajetória histórica, as especificidades e o lugar ocupado pela região na divisão internacional e inter-regional do trabalho: o de uma região periférica dentro de um país periférico. Para Borges (2003), um elemento essencial para se entender o mercado de trabalho baiano é pensá-lo como bipolar: vê-se, de um lado, o predomínio de atividades com baixíssima produtividade (tanto na zona rural quanto na urbana) e, do outro, um reduzido conjunto de atividades consideradas modernas, seja no setor de agronegócios, no industrial ou no de serviços com elevada produtividade, porém, com baixa geração de emprego.

No entanto, nos últimos anos, a exemplo das mudanças que os dados da PNAD (2006) indicam para o Brasil, também para a Bahia há indícios de alterações. Dentre os dados que nos chamam atenção, destacamos a taxa de analfabetismo e o nível de escolarização, já que estão intimamente imbricadas ao mercado de trabalho e ao desemprego. Para termos uma idéia, no Brasil, a taxa de analfabetismo em

2006 estava em 10,2% das pessoas de 15 anos ou mais de idade, enquanto para a Região Nordeste do País esse índice atingiu 20,7%. Também são desta Região os piores índices quando se trata de anos de estudo: a taxa média brasileira é de 7,2 anos e no Nordeste 5,8 anos. Juntando estes dados com a informação de que em 1992 os brasileiros com pouca escolaridade (até três anos de estudo) representavam 25,6 % dos ocupados e em 2006 19,7%, podemos inferir que para a Bahia a dificuldade de inserção das pessoas com baixa escolarização tenha aumentado significativamente nos últimos anos.

A SEI, analisando os dados sobre o mercado de trabalho baiano, a partir da PNAD 2006, destaca o seguinte quadro: a Bahia em 2006 era composta de uma PEA de 7,1 milhões de pessoas, sendo 66,1% no meio urbano e 33,9% no meio rural. Os homens correspondiam a 4,1 milhões (57,8%) e as mulheres 3 milhões (42,8%). Em 2006 os dados revelam uma redução da PEA Baiana em 0,5% em relação ao ano de 2005, fato bastante divergente em relação a expansão de 1,4% da PEA nacional. Tal redução, por sua vez, proporcionou uma diminuição da pressão para entrar no mercado de trabalho; no entanto, os demais dados nos revelam que as alterações não chegaram a configurar um cenário favorável aos desempregados.

Em sentido semelhante, Cerqueira, Souza e Neves (2007), ao observarem a inserção das pessoas ocupadas no mercado de trabalho baiano e compararem com os dados obtidos no ano de 2005, verificam que houve um crescimento secundário de apenas 0,3% de ocupados, ou seja, em números absolutos foram 21 mil pessoas que entraram para o mercado de trabalho. Esse cenário de quase estagnação contrasta com os dados obtidos no cenário nacional, qual seja, o aumento percentual das pessoas ocupadas em cerca de 2,4% em 2006.

Encontramos outros dados interessantes na investigação de Cerqueira, Souza e Neves (2007), que afirmam que quanto às características da PEA Baiana percebe-se que, do ponto de vista etário, ainda há em 2006 mais de 200 mil crianças e adolescentes trabalhando; apesar deste número ser menor do que os obtidos em anos anteriores, ele ainda é bastante elevado. Também nota-se que os grupos de maior presença são os situados entre 30 e 39 anos de idade com 22,6% e 40 a 49

anos de idade com 18% da PEA. Já os idosos de mais 60 anos correspondem a 6,6%.

Em relação ao nível educacional das pessoas engajadas no mercado de trabalho, conforme já indicamos no início deste tópico, ele permanece baixo. Ilustrando este aspecto podemos indicar que 57,7% das pessoas que integram a PEA baiana não haviam concluído o ensino fundamental e apenas 3,7% possuíam o nível superior completo, contrastando com os 8,3% encontrados na média nacional e mesmo com os 4,6% observado na Região Nordeste. A assimetria educacional se estende entre mulheres e homens: as primeiras, mais escolarizadas apresentam uma taxa de 35,7% com o ensino médio contra 21,5% entre os homens, mas a despeito disso a taxa de desemprego é maior entre as mulheres. (CERQUEIRA, SOUZA e NEVES, 2007).

Também têm importância os ocupados sem carteira assinada, particularmente nas atividades do comércio, entre os trabalhadores do serviço doméstico e nos serviços pessoais, assim como as pessoas ocupadas na produção para consumo próprio e não remuneradas. Ainda com relação à distribuição dos ocupados, é possível destacar a diminuição crescente dos trabalhadores ocupados no setor agrícola. Tal queda é explicada a partir do ciclo de modernização agrícola que vem atravessando o Estado com a adoção de tecnologias poupadoras de mão- de-obra. (CERQUEIRA, SOUZA e NEVES, 2007).

Por fim, nota-se ainda, segundo os autores, que o mercado de trabalho baiano permanece precário. O baixo índice de formalização dos vínculos continua entre as ocupações tradicionais, que costumam contratar seus trabalhadores à margem da legislação trabalhista, e amplia-se em novos ramos, como o da indústria de transformação, verificados pelo baixo índice de contribuição à Previdência Social. Além disto, ao observar o rendimento da principal ocupação, constata-se que os trabalhadores baianos tiveram um rendimento médio de R$ 541,00, enquanto para o Brasil esse valor ficou em R$ 888,00 no ano de 2006

Todos esses dados se agravam ao considerarmos que dentro do Estado da Bahia há uma forte concentração espacial dos investimentos e da produção econômica; assim, se a precariedade nos causa inquietação quando vista pela média

estadual, ela agrava-se quando olhada município a município. A esse respeito é emblemático os dados da SEI (2008), que apontam que cinco municípios concentram sozinhos 48% do PIB Estadual. (Salvador, Camaçari, São Francisco do Conde, Feira de Santana e Candeias).

Nesse caso, tal concentração nos serve de indicativo do quão diferentes poderão ser os mercados de trabalho e, em decorrência, as múltiplas percepções sobre o desemprego que poderão se manifestar em Vitória da Conquista e em Salvador.

No documento O mosaico do desemprego (páginas 107-114)

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