CAPÍTULO I. A censura na ditadura militar: o controle sobre as diversões públicas.
2. A censura de diversões públicas
2.2. A censura de diversões públicas nos tribunais
2.2.2. Apreensão de periódicos com base na Lei de Imprensa (Lei nº 5.250/1967)
a) Jornal “EX” (TFR, Mandado de Segurança nº 77.536/DF, Rel. Min. Jarbas
Nobre, 20/05/1976).31
A ação questionava a apreensão de edição extraordinária do jornal mensal “EX”, determinada pelo Ministro da Justiça, sob a justificativa de que a publicação afrontava a moral pública e os bons costumes, nos termos do art. 61, II c/c o art. 63 da Lei de Imprensa (Lei nº 5.250/1967).32
Dentre os diversos argumentos suscitados pela impetrante, cabe mencionar os seguintes: (i) a ausência de fundamentação do ato do Ministro da Justiça, o que impediria o exercício do direito de defesa; e (ii) a edição extraordinária que foi objeto de apreensão apenas reproduzia conteúdo constante de outras edições, que não foram alvo de censura.
Em seu voto, o Ministro Jarbas Nobre, relator do caso, transcreveu alguns trechos publicados para concluir que estes não possuíam qualquer valor cultural ou artístico. Sustentou a sua análise no conceito de “homem médio”, definindo-o como um meio termo entre o puritano e o liberal, isto é, “aquele que encontra encantamento ou deleite num trabalho que, inclusive, traga material lascivo, textos escabrosos, mas que no seu todo, contém matéria de cunho social ou artístico que de modo compensatório, oferece um resultado útil ou positivo” (BRASIL, TFR, 1976, p. 270).
Assim, de acordo com esse raciocínio, poderia ser admitido algum grau de conteúdo “lascivo”, desde que este fosse “compensado” com algum conteúdo de teor instrutivo, cultural ou artístico. Tal “compensação” inexistiria no caso da publicação objeto de censura, razão pela qual o Relator, acompanhado por todos os demais Ministros, votou pela denegação da segurança.33 Confira-se a ementa do acórdão:
Mandado de Segurança. Presta-se a exame de matéria de fato que fira direito de alguém, desde que demonstrado por prova preconstituída. Seu conhecimento. Edição extraordinária de
31 O jornal “EX” integrava, segundo a classificação de Bernardo Kucinski, a “vertente existencial” (em oposição
à “vertente ideológica”) dos periódicos alternativos. Segundo o autor, esses jornais se inspiravam nos movimentos de contracultura norte-americanos e “investiam principalmente contra o autoritarismo na esfera dos costumes e o moralismo hipócrita da classe média”. Especificamente sobre o jornal, o autor conta que “Bondinho e Ex, criados em sequência pela antiga equipe da revista Realidade, tinham raízes no new jornalism americano dos anos 60, que com Gay Talese, Truman Capote e Norman Mailer criaram uma nova narrativa jornalística com ambições literárias e a valoração da reportagem baseada na vivência dos fatos e situações.” (KUCINSKI, 1998, p. 180-181).
32 Art. 61. Estão sujeitos à apreensão os impressos que: I - contiverem propaganda de guerra ou de preconceitos
de raça ou de classe, bem como os que promoverem incitamento à subversão da ordem política e social; II - ofenderem a moral pública e os bons costumes. [...] Art. 63. Nos casos dos incisos I e II do art. 61, quando a situação reclamar urgência, a apreensão poderá ser determinada, independentemente de mandado judicial, pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores.
33Em suas palavras, “a reportagem que examinei, nada tem de artístico, de bom gosto e de aceitável sob o ponto
de vista literário. Sequer é espirituosa. Nada, absolutamente nada, remete como compensação no terreno instrutivo, cultural ou humorístico. A publicação é pobre em tudo e enaltece vício nefando” (BRASIL, TFR, 1976, p. 271).
mensário – “EX”, apreendida à alegação de afrontosa à moral e aos bons costumes. Apurado que a edição apreendida nada contém de artístico, científico, educacional ou literário, e que narra história sem conteúdo aproveitável, e faz quase idolatria de um viciado, como homem médio, isto é, comum ou ordinário, nem puritano, erudito ou liberal e nem, opostamente, pecador por vontade deliberada, libidinoso ou extravagante, não me sinto com liberdade, nem em condições de afirmar que o mensário apreendido não infringe a moral e os bons costumes. Segurança denegada. (BRASIL, TFR, 1976, p. 257).
Vale destacar que o argumento utilizado para justificar a censura se vale de uma concepção instrumental de liberdade de expressão. De acordo com essa leitura, apenas caberia a proteção a esse direito nas hipóteses em que o conteúdo expressado contivesse algum elemento valorado positivamente ou, ainda, que implicasse alguma contribuição para a sociedade como um todo. É o que decorreria no caso de um discurso que, embora ofensivo à moral pública, apresentasse teor educativo ou literário.
O problema das concepções instrumentais, como a própria decisão em tela demonstra, é que a avaliação quanto ao “valor positivo” de um discurso acaba por ficar sujeita à sua compatibilidade com as concepções predominantes em um dado momento histórico, às quais, em regra, são aquelas definidas de acordo com as idiossincrasias de cada julgador, o que, entre outros efeitos, diminui, sensivelmente, a autonomia individual, na medida em que o leitor é impedido de fazer o seu próprio juízo sobre a publicação. Em última instância, submete-se o direito fundamental em causa a uma análise de meios e fins ou de custo e benefício, o que, na prática, alarga as possibilidades de restrição.
b) Jornal “Jerusalém” (TFR, Mandado de Segurança nº 99.312/DF, Rel. Min.
Carlos Madeira, 24/03/1983).
O mandado de segurança foi ajuizado em face de ato do Ministro da Justiça que determinara a apreensão do jornal “Jerusalém”, sob a justificativa de que a publicação continha propaganda de preconceito de raça. Tal discriminação estaria consubstanciada na divulgação tendenciosa de “torturas e baixas sofridas pelos palestinos, com intuito de estimular o ódio contra os judeus, provocando movimentos de solidariedade àquele povo” (BRASIL, TFR, 1983a, p. 184), o que seria suficiente para autorizar o recurso à medida prevista nos arts. 61, I, e 63 da Lei nº 5.250, de 1967.34
Por unanimidade, a Quinta Turma do TFR entendeu que, de fato, o jornal continha publicações discriminatórias. A título de exemplo, o Ministro Carlos Madeira,
34 Art . 61. Estão sujeitos à apreensão os impressos que: I - contiverem propaganda de guerra ou de preconceitos
de raça ou de classe, bem como os que promoverem incitamento à subversão da ordem política e social. Art. 63. Nos casos dos incisos I e II do art. 61, quando a situação reclamar urgência, a apreensão poderá ser determinada, independentemente de mandado judicial, pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores.
relator do caso, analisou o conteúdo de duas reportagens – intituladas, respectivamente, “Não esqueceremos” e “Israel: ideologia do ódio e doutrina do terror” – que conteriam acusações contra os israelenses, reforçadas pelas cartas enviadas por leitores em solidariedade aos povos árabes. Com base nesses pressupostos, o Ministro assim concluiu o seu raciocínio:
Ora, essa insuflação de ódio entre dois segmentos de nossa população, choca-se não só com as nossas necessidades sociais, mas com a tradição de convivência pacífica de raças, que está na base de nossa formação e de nossa cultura. Há interesses não só do Estado, mas da sociedade brasileira, em que as divergências e as disputas entre as nações, por mais acirradas que se travem lá fora, sejam minimizadas e absorvidas no nosso modo de vida, de forma a amortecer ódios e preconceitos.
A apreensão do jornal, portanto, é exercício de poder de polícia, na medida em que busca preservar, na vida de relação dos cidadãos, as regras de boa conduta e bom convívio, que são necessárias para evitar conflito de direitos e garantir a cada um o gozo ininterrupto de seu próprio direito [...]. (BRASIL, TFR, 1983a, p. 188).
Este caso e o anterior demonstram que o TFR considerou legal a apreensão de livros e periódicos por ordem do Ministro da Justiça. Em ambos, o tribunal chancelou o ato repressivo não só do ponto de vista da competência administrativa, mas, também, do ponto de vista do mérito, tendo os julgadores manifestado concordância quanto à configuração de afronta ao ordenamento jurídico, seja no que concerne à violação à moral pública e aos bons costumes, como no caso do periódico “EX”, seja quanto ao preconceito de raça supostamente contido no jornal “Jerusalém”.
c) “Luta, O Jornal do Povo” (TFR, Mandado de Segurança nº 99.602/DF, Rel.
Min. Sebastião Alves dos Reis, 19/05/1983).
A ação questionava a legalidade da censura sobre o diário popular “Luta – O Jornal do Povo”, que foi impedido de ser impresso e de circular nas bancas, além de ter exemplares apreendidos. Segundo a impetrante, o ato censório foi efetivado de maneira violenta e sem qualquer documento formal que o autorizasse, tendo os agentes policiais se limitado a se referir ao cumprimento de ordens superiores.
Tal procedimento, ainda segundo a impetrante, violaria o disposto na legislação então em vigor, que somente autorizava a censura e a correlata apreensão de publicações em hipóteses restritas, nomeadamente, por ordem judicial ou, em caso de urgência, por determinação do Ministro da Justiça (Lei nº 5.250/1967, art. 61, § 1º; art. 63).
Intimada, a autoridade policial inicialmente indicada como responsável pelo ato informou que a apreensão fora determinada por ato do Ministro da Justiça. Por isso, o juiz de primeira instância declinou de sua competência para julgar o feito, encaminhando os autos ao TFR.
Já no âmbito deste Tribunal, o Ministro da Justiça alegou que o jornal apresentava noticiário “tendencioso”, valendo-se de “linguagem imprópria e rasteira” que, claramente, afrontava os preceitos da moral e dos bons costumes. Visando comprovar suas alegações, a autoridade impetrada transcreveu a seguinte manchete do jornal, da edição de 08/12/1982: “Quis dar uma de machão e sifu... Lutou pela xota e levou um tiro na bunda. Era Gay.” (BRASIL, TFR, 1983b, p. 145).
Por maioria, a Corte decidiu que o ato repressivo encontrava respaldo na ordem jurídica, uma vez que comprovado que a ordem emanara do Ministro da Justiça, autoridade competente para tanto, nos termos da Lei nº 5.250/1967.
Dentre os dois votos vencidos, cabe destacar a argumentação expendida pelo Ministro Carlos Mario Velloso. Para ele, os atos de apreensão de livros e impressos eram inconstitucionais, já que incompatíveis com a liberdade de manifestação do pensamento. Aliado a isso, tal prática repressiva não se amoldava às exceções previstas na Constituição de 1969, norma que, ademais, era expressa no sentido de que a publicação de livros e periódicos não dependia de qualquer licença estatal.
Para o Ministro, a regra prevista na parte final do § 8º do art. 153 da Constituição de 1969, que estatuía não ser tolerável “a propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de religião, de raça ou de classe, e as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes”, não poderia ser interpretada de modo a tornar inócua a garantia da livre manifestação do pensamento, prevista na parte inicial do mesmo dispositivo.
De acordo com essa leitura, a Constituição de 1969 não teria autorizado a imposição de censura prévia sobre a publicação de livros e periódicos. Sendo assim, a análise sobre eventual afronta à moralidade pública ou às demais hipóteses dispostas no texto constitucional somente poderia ser realizada a posteriori. A apreensão de publicações seria cabível apenas para viabilizar tal tipo de avaliação pelos órgãos administrativos e, mesmo assim, desde que observado o devido processo legal, outra garantia de matriz constitucional. Nas palavras do Ministro:
Então, para que possa ser iniciado o devido processo legal contra aquele que teria abusado do direito, far-se-á a apreensão de exemplares do jornal, ou do livro, a fim de servirem de corpo de delito. Admito que, dependendo da intensidade do abuso, poder-se-ia pensar até na apreensão de toda a edição do jornal, ou do livro. Essa apreensão, entretanto, somente poderia ser admitida numa ação cautelar, perante o Poder Judiciário, ou como medida preparatória de uma ação, ou como medida incidente. Admitir que edições inteiras de jornais possam ser apreendidas por ato de uma autoridade administrativa, o Ministro de Estado da Justiça, não se coaduna com a Constituição, pois representaria chancelar o Judiciário um ato de arbítrio.
[...] as garantias de direito individual devem ser interpretadas com largueza e não restritivamente, porque gozar das liberdades públicas, num Estado de Direito, num Estado democrático, constitucional, é a regra. O contrário é a exceção. É claro que, num Estado que não de direito,
que não democrático, gozar das liberdades públicas é a exceção. Mas nós pretendemos viver num Estado democrático, constitucional, num Estado cuja Constituição não seja, simplesmente, uma folha de papel. (BRASIL, TFR, 1983b, p. 160 e 164).
Como se pode observar, o voto dissidente do Ministro Carlos Velloso propunha uma releitura da Constituição de 1969, baseada na atribuição de algum grau de preponderância aos direitos individuais. Estes – tal como no caso da liberdade de expressão – somente poderiam ser objeto de limitação estatal em hipóteses específicas, as quais, além de serem interpretadas de forma restritiva, deveriam observar o devido processo legal.35