5. TRAJETÓRIAS DE APRENDIZAGEM
5.5 Aprendendo a ser professor: elementos de aprendizagem
Os professores de caratê participantes da pesquisa possuem trajetórias
muito peculiares. No que diz respeito à formação acadêmica, Celso possui
extenso currículo. Cursou a pós-‐‑graduação logo que se graduou, além de
fazer diversos cursos voltados para a área de educação física. Douglas
também tem formação superior, graduado em Gestão Pública e tendo cursado
dois anos de Educação Física. Ele também almeja continuar os estudos
fazendo pós-‐‑graduação em breve. Teo e Firmino estudaram até o ensino
médio. O primeiro, ao relatar sua formação, logo se explicou “Eu não fiz
faculdade ainda porque não deu tempo, só terminei o colegial completo”. O último
demorou a entender o que eu queria dizer com “formação”, referindo-‐‑se à sua
graduação no caratê.
A trajetória de caratê de todos os participantes é marcada pelo desafio
de formação, forma de reconhecimento e superação pessoal. Começaram a
treinar entre a infância e a adolescência e todos demonstram ser muito gratos
ao que a arte marcial proporcionou em suas vidas.
A carreira docente dos participantes começou, em geral, ao substituir
seus professores, seja por atraso ou por alguma necessidade da escola.
era difícil se ausentar, mas quando tinha alguma coisa, era eu
que assumia a turma, é... ele já vinha fazendo essa experiência,
muitas vezes com ele presente, ele falava “puxa o
aquecimento, faz isso, faz aquilo” e algumas vezes ele falava
“hoje você dá aula” ele interpelava no meio assim né, fala
“olha, isso não! Isso, assim, assim” e explicava, ele mais ou
menos, foi me ensinando como é que eu deveria fazer e eu
tinha uma retaguarda né, meu pai, faixa preta também, tinha
muito conhecimento, isso foi ajudando e foi assim que eu
comecei a dar aula. (Celso)
aí um belo dia em 2001 ou 2002, o dono da academia me falou
“Olha, eu não posso dar aula, você vai dar aula.” Eu tomei
um susto na verdade porque assim, pra você dar aula, tem
que ter toda a metodologia, é diferente. (Douglas)
o Celso chegou em mim e falou assim “olha, vai surgir a vaga
lá na Paulista pra dar aula, você não vai ganhar muito, quer?”
falei “quero!” (Teo)
logo já me jogaram nessa! (nas aulas de caratê). Às vezes
também tem diferença né, se você é um aluno dedicado, se
você quer aquilo, né? Seu objetivo é aquilo lá, “eu vou me
formar em faixa preta, vou ser professor, eu vou dar aula”
(Firmino)
Sem experiência concreta, um elemento de aprendizagem da docência
bastante recorrente nas entrevistas gira em torno da experiência dos
participantes como alunos e como eles resgatam esses conhecimentos.
eu cheguei sem experiência nenhuma de dar aula, sem
mecânica de dar aula, sem processo pedagógico, nada, eu só
sabia caratê e como eu ia passar isso? Entendeu? Do jeito que
eu aprendi. (Teo)
Eles optaram por continuar na carreira por diversos motivos; imersos
neste contexto, afirmam gostar muito do que fazem. Celso enxerga sua
escolha como um percurso natural, que foi acontecendo gradualmente e que
ele se esforçou (e ainda se esforça) para se aprimorar, explorando diferentes
estratégias de ensino. Teo também entende como um caminho já esperado e
afirma que sempre quis e, ousa dizer, que é um desafio que sempre esteve
pronto para assumir. Para Douglas, essa opção se deu, principalmente,
quando encontrou satisfação pessoal ao ver os alunos progredindo. Firmino
diz que não optou e, em tom de brincadeira, fala que o “jogaram” lá, mas
mostra que gosta muito do que faz, mesmo com a rotina puxada. Os
sentimentos positivos que tiveram em relação às aulas, a satisfação pessoal, o
apreço que guardam pela docência são, segundo eles, os principais motivos
para permanecerem na profissão.
Todos os docentes trabalham na mesma escola e já tiveram convites para
sair, mas, por terem uma forte história com o lugar (se formaram e iniciaram a
carreira ali), sentem enorme gratidão pela academia. Isso evidencia que as
imagens e crenças que os professores trazem e que os acompanham ao longo
de sua trajetória exercem grande influência sobre seu pensamento e prática
(GARCIA, 1997, p. 56) e enfatizam as relações de afetividade presentes nos
relatos.
A relação dos entrevistados com a arte marcial também é marcada pela
afetividade. O caratê é parte essencial da vida deles, sendo grande influência
para a escolha da profissão.
[o caratê] me contagiou de uma certa maneira, a parte
filosófica, física (...) a estrutura que o caratê me deu na parte
de formador e na parte de atleta na verdade, aonde eu tenho
que conter esse espirito de agressão (...) é bom pra mente.
Então o caratê é isso que eu gosto nele, é a parte emocional,
física, ele é muito completo, a disciplina, ela é muito completa.
E realmente pra você ser um bom profissional, uma boa
pessoa, você tem que ter disciplina. (Douglas)
Vivenciar emoções positivas traz, segundo Arantes (2003), “uma maior
possibilidade de as pessoas, diante de conflitos, abstraírem elementos, atribuírem
significados e estabelecerem relações e/ou implicações que contemplem virtudes como a
generosidade e a solidariedade”. Nesse sentido, a afetividade é essencial para que
outros elementos inerentes à docência se desenvolvam.
A relação entre professor e aluno é singular. De forma geral, na escola
estudada, a turma é composta por alunos com diferentes idades, sexos e
níveis de aprendizagem (faixas). Como acontecem algumas vezes por semana,
cada uma delas é frequentada por grupos também diferentes, não tendo
regularidade na turma (ex: alguns frequentas as aulas às segundas e quartas,
outros somente uma vez por semana, outros estão presentes em todas, etc.).
Com isso, os docentes questionam alguns aspectos relacionados ao
planejamento de aulas, pois nunca se sabe como será a formação da turma e
com que disposição estarão.
você não sabe como a pessoa vai tá no dia, você não sabe que
tipo de ânimo os alunos chegam, ai você fala “hoje vou dar
kata”, ai chega todo mundo com uma disposição horrível, que
se você der kumite vai todo mundo despertar, “pô é mais da
hora tal, vamos trocar porrada!” ai você fala “hoje vou dar
kumite” ai chega todo mundo com uma disposição alta que se
você der kata e kihon vai evoluir, então, eu não preparo aula,
eu vou pela necessidade do momento. (Teo)
Essas mudanças ocasionadas por momentos em que os professores
alteram determinada aula em consequência de algum elemento surpresa são
classificadas por Schon (2000) de reflexão na ação.
Quando um aluno apresenta alguma dificuldade, os docentes afirmam
que mudam a estratégia para fazê-‐‑los entender determinado conteúdo. A fala
do professor Teo ilustra esse aspecto:
começo a adotar outras maneiras, chama decompor a técnica.
Começo a decompor a técnica até ele entender passo a passo
do que ele tem que fazer e depois que ele entendeu passo a
passo, a gente monta a técnica de novo e ele começa a
desenvolver, leva um certo tempo, mais que os outros, mas
funciona sempre. (Teo)
Durante a observação feita em campo, foi possível ver diferentes formas
de ensinar, como quando Celso corrigiu uma posição de mão dizendo que
“ela deveria ficar reta, e não como se estivesse segurando um ovo” ou ao ver que eu
estava confundindo o movimento das mãos, usou analogias como “uma mão é
a casa (sofá), a outra é a visita. Visitas não deitam no sofá dos outros”. Ou seja,
docentes que possuem o conhecimento pedagógico do conteúdo utilizam
diversas maneiras de representar determinado assunto, utilizando analogias,
ilustrações, exemplos, explanações e demonstrações, alguns dos quais
derivam de pesquisas, outros se originam no saber da prática. (SHULMAN,
1986).
No caso de Firmino, o professor com menos experiência, foi possível ver
esse conhecimento sendo construído quando ele tentou me explicar um
movimento apenas com os gestos:
Fernanda, olha aqui o movimento didático. Ajusta o pé. Faz
assim ó... Assim ó... (e repete o movimento tentando me
mostrar o erro, replicando com o corpo) hum... entendeu?
Ele mostra o movimento, mas não explica verbalmente. Ao notar que eu
ainda não havia conseguido acertar pela minha dificuldade com
demonstrações em forma de “espelho” ele sai da minha frente (espelho) e fica
ao meu lado. Firmino também demostra essa reflexão ao tentar mudar a
estratégia para ensinar um movimento a um aluno:
-‐‑ Sensei, como faço o shutô-‐‑uke neste kata?
-‐‑ Assim ó (repetiu três vezes).
-‐‑ E como eu deixo o braço, em que ângulo?
-‐‑ Assim (e mostrou mais duas vezes como executar).
O aluno refez o movimento e ainda não estava bom. O sensei
parou e deu uma risada: “onde estou errando?”
Aspectos como esses, reforçam a ideia de que a aprendizagem não se dá
somente na prática, mas sim, na reflexão sobre a prática. É importante pensar
no que se está fazendo e o porquê (SHULMAN, 2004, p. 514). Essa percepção
aguçada e aprimorada diariamente pela experiência profissional é um dos
processos mais ricos e fundamentais de aprendizagem da docência. Para
Mizukami (2004, p. 6), citando Shulman
Contextualizados por uma conceptualização da matéria, os
professores têm conhecimento sobre como ensiná-‐‑la, como os
alunos a aprendem (quais as dificuldades específicas na
aprendizagem, quais as capacidades desenvolvimentais dos
alunos para adquirirem tal conceito particular, quais são as
concepções prévias comuns), como os materiais curriculares
são organizados na disciplina e como tópicos particulares são
melhor incluídos no currículo. Influenciado tanto pelo
conhecimento da matéria quanto pelo conhecimento
pedagógico, o conhecimento pedagógico do conteúdo emerge
e cresce quando professores transformam seu conhecimento
do conteúdo específico considerando propósitos de ensino.
Os participantes possuem um visível domínio do conhecimento
específico, pois são trabalhados com segurança. Os professores Celso e
Douglas demonstram com clareza o domínio do conhecimento especializado
do conteúdo para o ensino (BALL et al, 2008), utilizando com propriedade
explicações sofisticadas no que diz respeito a particularidades de golpes e
movimentos relacionados estritamente ao ensino. Teo traz esse conhecimento
de uma forma que ele chama de “descompactação da técnica”, apontando que
utiliza este método apenas para ensinar e não para outros fins. Com as aulas
observadas e no discurso de Firmino, nota-‐‑se que este conhecimento ainda
está em construção, assim como o desenvolvimento do conhecimento
pedagógico do conteúdo, pois não poucas vezes demonstra dificuldades em
explicar determinados porquês ou orientar a execução de movimentos. Nesse
sentido, nota-‐‑se que a formação acadêmica de Douglas e Celso contribuíram
para o domínio de seu conteúdo específico, ou seja, foram processos
educacionais necessários a tal conhecimento.
Todos os professores afirmam ainda estar aprendendo a ser docentes,
procurando sempre melhorar sua atuação no cotidiano profissional, buscando
se atualizar continuamente, o que nos remete a uma aprendizagem contínua
da docência, sem modelos a seguir, tendo como base a experiência (AZANHA,
1985). Para tal, eles procuram compartilhar questões com colegas, trazer
novos elementos vistos em campeonatos ou treinamentos especiais e,
principalmente, recorrendo a seus próprios professores – tendo-‐‑os como
influência norteadora.
Uma das grandes fontes de aprendizagem dos participantes é Celso,
entrevistado que também foi professor dos outros três, reconhecido como um
grande modelo a ser seguido.
o sensei Celso, esse é o cara... Tanto que domingo eu tenho
treino com ele novamente e foi meio na verdade que me
incentivou mais a procurar novos estilos, procurar novos
professores, sempre absorver coisas boas, então a gente vai
tentando absorver o que é interessante (Douglas)
o Celso ficava no meu pé tal, pra eu poder melhorar, crescer...
(Teo)
eu tenho o meu sensei Celso, né? Aí sempre que tem dúvida,
as perguntas, se mudou alguma coisa né, ai ele: “Não, é assim,
assado...” (Firmino)
Mizukami e Reali (2002, p. 123) afirmam que “futuros professores
geralmente engajam-‐‑se em aprendizagens práticas pautando-‐‑se nos comportamentos
observáveis de professores”. Além de se espelharem em seus professores, é
possível notar, na observação feita em campo, “réplicas” de aula. Como
exemplo, o treino especial com um atleta que havia acabado de conquistar o
título mundial. Foi possível notar que os docentes deram os mesmos
exercícios em aula (implícita ou explicitamente). Teo reproduziu em aula
alguns exercícios e dicas dados no treino especial, mas sem citar nada a
respeito; Douglas perguntou aos alunos o que acharam de interessante na
aula especial, pedindo que cada um explicasse, mostrando o movimento. Em
seguida, voltou todos os exercícios da aula ao que foi visto no treino especial.
Quanto ao dia a dia profissional, afirmam que as maiores dificuldades
estão na falta de investimento na profissão, uma vez que a remuneração é
muito baixa (confidenciaram não ter qualquer aumento há anos); interesse da
escola em “manter alunos a qualquer custo” e em dar valor a aulas que trazem
maior retorno financeiro (como spinning), reduzindo o espaço do caratê; e a
falta de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do esporte.
Todos os participantes gostam muito do que fazem e deixam
transparecer nos relatos e nas aulas observadas que não é pela remuneração,
mas sim pela veneração, amor, história de ligação e gratidão pela arte marcial
que são professores de caratê.
No documento
TRAJETÓRIAS DE APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA EM CONTEXTOS NÃO ESCOLARES
(páginas 108-116)