5. TRAJETÓRIAS DE APRENDIZAGEM
5.4 Trajetória de Firmino
Não pode ser egoísta. O que você aprendeu,
precisa passar pra alguém.
A conversa com o professor Firmino ocorreu em fevereiro de 2016. Ele
havia sido o primeiro contatado acerca da realização das entrevistas, mas
mostrava-‐‑se bastante “desconfiado” e inseguro. Após os encontros com os
outros, voltei a falar com ele, que então, aceitou. Em alguns momentos da
narrativa, deu algumas respostas curtas e sem muita certeza do que estava
descrevendo.
Firmino tem 42 anos e possui ensino médio completo. Atua como
conferente de importação de peças de roupas na região do Brás, das 8h às 17h,
e no período noturno, dá aulas de caratê. Como docente, sempre atuou na
mesma academia, com carga horária de sete horas semanais. Dos
entrevistados, é o que atua há menos tempo na profissão: seis anos.
Seu interesse pelo caratê surgiu ao assistir filmes de artes marciais.
Iniciou os treinos aos 12 anos de idade em Minas Gerais, e deu continuidade
quando se mudou pra São Paulo.
eu assistia filme de artes marciais e gostava bastante, aí tudo
levou a isso né, querer treinar, querer aprender artes marciais...
Achava bonito né, todo mundo fazendo uns golpes muito
bonitos... pessoal parecia que voava nos filmes, aí eu ficava...
era criança ainda, né.
Foi aluno do sensei Celso, por quem tem grande admiração. Sua
participação em campeonatos foi limitada por falta de recursos financeiros
para pagamento de viagens, equipamentos e inscrições.
pra você participar de um campeonato, você tem que ter
condições, todos os campeonatos é pago, os material
protetores não são baratinhos, né? Se você é pai de família,
imagina, às vezes a criança quer alguma coisa, aí você tira da
criança e vai comprar um protetor, comprar alguma coisa,
sempre! É quimono, sempre, ainda mais que agora tem que tá
tudo com ”logado”, tudo com a marquinha, né? Eu disputo
campeonato também né, mas é simples né, às vezes esses
jogos regionais, às vezes eu vou no paulista também, é tanto
que eu me classifiquei no paulista esse ano, mas nem fui
participar, por quê? Porque eu tinha que pagar de novo, tinha
que comprar protetor de tórax, ai eu falei “não, não vou
participar não” Imagina você pagar a inscrição de novo, 60, 70
reais e comprar o protetor, mais o que, 300 reais? E aí? E o que
que você vai ganhar? Se ganhar, ganha porrada, ou ganha
uma medalha, que seja, todo mundo “ah, você ganhou,
parabéns”. Mas nada, dinheiro nada, você é um, se você
começa a conquistar algo, não tem apoio de ninguém lá, “ah
eu vou te pagar com tanto, ah eu vou te dar um bolsa, um
tanto por mês pra você se bancar” Você não tem esse apoio, se
tivesse apoio das empresas, ou da prefeitura mesmo, não tem
esse apoio, caratê não tem apoio de nada. Ninguém.
Começou a dar aulas em 2009, ao substituir um professor. “Eu conquistei
[a faixa preta] e logo me jogaram nessa”. Para Firmino, um faixa preta está pronto
para dar aulas se for dedicado e se esse for seu objetivo. Mas coloca que com
tantos anos de formação, o faixa preta certamente deve ter algo para contribuir
com os outros.
Para a preparação de aulas, Firmino possui uma apostila que traz o que
deve ser dado em cada faixa, mas os movimentos, principalmente os de kata,
afirma já ter em mente. Acerca do aquecimento, alongamento e preparo físico,
como treinos de abdômen, ele diz que não planeja, trabalhando o que for
necessário de acordo com o dia.
Eu tenho apostila sim, nós temos uma apostila, que é tudo né,
Kihon, só Kata que não, né? Kata nós já têm na mente, como
sim, aí tem, Kihon, Kihon Ippon, Kihon diagonal, esse tem.
Agora sobre os outros, né, alongamento, abdômen, né? Essas
flexibilidades aí, às vezes uns pulo diferente, isso aí nós não
planeja nada, já sabe que aprendeu aí coloca, coloca que o dia-‐‑
a-‐‑dia.
Firmino procura conhecer as limitações de cada aluno e trabalhar de
forma a fazer com que o movimento seja sempre melhorado, respeitando os
limites de cada um. Ele acredita que com dedicação, qualquer aluno pode
evoluir e afirma fazer o que pode para alcançar este objetivo.
ele tem alguns limites, aí a gente já sabe os limites dele,
mesmo assim ainda foca nele, “precisa melhorar assim, assim,
assado” Porque se você não pegar no pé dos alunos, os alunos
não vai dedicar pra melhorar, vai pensar que tá bom, que tá
bom, aquilo ali tá bom e pronto. Não, você precisa insistir,
falar: “Não, precisa melhorar” e assim que pega no pé, se
deixar, é como se fosse... Relaxa, né? “Não, eu tô bom, eu sou
o bambambam” Sempre tem que pegar no pé, precisando
melhorar, e melhora, a tendência é melhorar. Eu preciso
melhorar, né? Nós precisamos, né? (risos)
[...]
a gente sabe que é limitado, mas só por essa dedicação que ele
tem, de se desenvolver e ficar feliz em fazer os movimentos
isso é muito prazeroso, isso é muito bom. Limite, todo mundo
tem um limite, o ser humano ele é limitado, nós temos limite,
não é perfeito, todo mundo tem algo, né? Precisa, às vezes, vai
se descobrindo aos poucos “ah aquele aluno é assim, assim”.
Ele é bom naquilo, mas naquele outro pedaço ele não é bom,
tem, ninguém é perfeito, né? E é assim mesmo, se fosse todo
mundo que era perfeito seria ótimo (risos). Todo mundo 100%,
tirou 100, nota 100 o máximo.
Durante as aulas, foi possível observar o trato do Firmino com os alunos
em especial no que concerne às orientações dadas em cada exercício. Em
alguns casos, apresenta dificuldades para dar os ‘comandos’ nas aulas, assim
como na definição de estratégias de treino e explicação aprofundada de
determinados assuntos.
Com foco no exame de faixa, ficou esclarecendo duvidas que os alunos tinham sobre
kata.
Um aluno perguntou:
-‐‑ Sensei, como faço o shutô-‐‑uke neste kata?
-‐‑ Assim ó, e repete três vezes.
-‐‑ E como eu deixo o braço, em que ângulo?
-‐‑ Assim (e mostrou mais duas vezes como executar).
O aluno refez o movimento e ainda não estava bom. O sensei parou e disse rindo:
“onde estou errando?”
Quadro 16 – Diário de Campo -‐‑ 08 de dezembro de 2014
Ele passou kata de acordo com as faixas que estavam na aula (branca, laranja, verde e
marrom). Repassou muitas vezes alguns golpes da sequência do kata da faixa laranja
(heian yondan), mostrando o movimento sem dar muitas explicações orais.
-‐‑ Faz assim (mostra o movimento). Entendeu?
-‐‑ Assim, com a mão pra cima (mostra o movimento quatro vezes seguidas).
Quadro 17 – Diário de Campo – 13 de março de 2015
No discurso de Firmino, frases como “Será que vou errar” são recorrentes.
Durante a observação das aulas, não são poucas as vezes que ele para e pensa
na explicação que está dando sobre determinado exercício e verbaliza “onde
estou errando”. Ele explicita sua reflexão durante a ação.
Nos exemplos acima nota-‐‑se que Firmino ainda está desenvolvendo seu
conhecimento prático pessoal (CONNELLY e CLANDININ, 1988 apud BEN-‐‑
PERETZ, 2011). Demonstra dificuldades em explicar com propriedade
determinado assunto e principalmente em como orientá-‐‑lo. Ele sabe executar o
movimento, mas em muitos casos tem problemas para ensiná-‐‑lo. Nesse
sentido, Shulman (1986) aponta que saber determinado conteúdo para ensinar
vai além de fatos e conceitos – ou no caso do caratê, além de executar um
movimento -‐‑, sendo necessário que os professores tenham clareza da
organização de seus princípios e estruturas. Os professores necessitam saber o
porquê de determinados assuntos. (BALL et al, 2008).
60% da aula de aquecimento. O professor demonstra ter um condicionamento físico
invejável, melhor que o de alunos mais jovens e fortes.
O sensei pediu que os alunos o imitassem, mas os exercícios eram demasiadamente
complexos e difíceis de executar. Por exemplo, um exercício consistia em fazer flexão,
mas na volta bater palmas ou dar um pulo e encostar as mãos no joelho. Todos os
alunos tentaram fazer, alguns com muita dificuldade, outros não conseguiram
(inclusive, eu). Em determinado momento o sensei pediu para fazermos rolamento ao
longo do tatame. Os alunos começaram a fazer, mas eu fiquei travada, com medo de
executar (eu era a única mulher presente no tatame). Perguntei ao sensei como
executar, pois não sabia por onde começar e estava aflita. Firmino parou para pensar
e executou o movimento demonstrando “pensar” em como faria para me explicar.
-‐‑ Abaixe a cabeça e vire assim. Entendeu?
Eu virei de lado pois fiquei com medo de machucar a coluna e o pescoço.
-‐‑ Vai assim... de frente... (ele demonstra a execução do movimento). Entendeu?
Com a mão no queixo, disse: vou pensar e em outra aula te explico. E orientou então
que toda a turma fosse beber água.
Quadro 18 – Diário de Campo – 20 de outubro de 2014
O exemplo acima ilustra situações de aprendizagem no cotidiano da
profissão, principalmente no que diz respeito à reflexão na prática educativa.
Conforme aponta Schön (1997), essa prática reflexiva na docência é
caracterizada por um profissional que aprende na prática e a partir dela, que
reflete sobre regras, valores, teorias e estratégias e outros aspectos da docência
concebidos diretamente na ação.
Sobre a avaliação dos alunos, Firmino procura avaliá-‐‑los todos os dias,
observando o que pode ser melhorado e onde o aluno precisa focar.
Todo dia a gente olha algum detalhe, melhorou assim,
melhorou outro, não melhorou, precisa pegar mais no pé...
Todo dia sempre você tem que olhar, sempre pega na perna,
mostra a base, mostra a mão, pega na cabeça, o olhar, o olhar
pra frente, tem que manter. Todo dia você precisa ver algo.
Em uma de suas aulas, Firmino demonstra com clareza essa concepção
ao explicar a um aluno o motivo pelo qual ele não era avaliado somente no dia
da prova.
Seguiu-‐‑se um intervalo (os alunos estavam muito cansados) e durante esse tempo
um dos alunos questionou acerca de sua nota no exame de faixa realizado no fim de
dezembro:
-‐‑ Sensei, qual foi a minha nota no exame de faixa? Quando vou saber se fui
aprovado?
-‐‑ Passou, tudo certo. Quando a gente diz “Ok” para o exame é porque você está
pronto para trocar de faixa. A gente verifica isso todo dia, no aula-‐‑a-‐‑aula. Não tem
essa de ver só no exame. Imagina (risos), seria impossível... tanta gente no exame
para ser observada (risos).
Quadro 19 – Diário de Campo – 26 de janeiro de 2015
Ao descrever como acontece uma aula, Firmino discorre sobre uma que
se inicia com aquecimento, em seguida alongamento, depois treino físico com
abdominal e flexão e então o kihon e kata. Essa ordem pode ser vista em quase
todos os registros de suas aulas pois, em geral, ele procura seguir a mesma
estrutura.
Sobre seu modo de ensinar, ele se considera rígido e bastante insistente
no que quer passar. Diz que “pega no pé de todo mundo” e de modo geral,
procura “passar” da mesma forma como aprendeu, utilizando sua própria
experiência como aluno.
Para se atualizar para dar aulas, Firmino busca apoio em seus
professores, em especial no sensei Celso, com quem tira dúvidas constantes
Aí eu tenho o meu sensei Celso, né? Aí sempre que tem dúvida,
as perguntas, se mudou alguma coisa né, aí ele: “Não, é assim,
assado...” mas nós tem que tá adaptado no dia de hoje e
também voltar pro anterior, pode no dia de hoje, por exemplo,
sensei Celso foi pra Europa e aprendeu alguns movimentos lá,
só tá se protegendo, trouxe pra cá, pra nós. Mas muitos
caratecas, sem proteção nenhuma, eles fala: “Não, não precisa
se proteger” Mas nós, porque, nós aprendemos assim, sem
proteção nenhuma. Agora se você vai treinar em outra
academia, e ele falar “Não, é assim!” Tem que fazer assim.
Porque você é disciplinado, você aceita, você é humilde em
aceitar, tem que ter disciplina...
Além de os procurar para se atualizar, Firmino considera seus
professores como modelos e influência, pois afirma que eles ensinavam “da
maneira que você gosta de aprender”, explicitando com detalhes cada golpe.
Nesse sentido, é possível notar a admiração e busca de Firmino em lograr
ensinar da mesma forma que seus mestres.
Ele mostra o movimento, explica o movimento, de onde ele
nasce, o movimento, onde você coloca, onde é seu eixo, onde
nasceu. Toda essa biomecânica, ele faz todo o gesto, estimula,
faz, mostra e explica também ao mesmo tempo, né, o que é
que você precisa, o que você pode fazer com o corpo, com a
perna, com o punho.
No local de pesquisa acontecem aulas seguidas (das 18h30 às 19h30 e das
20h30 às 21h30). Com isso, algumas vezes, os professores da segunda aula
chegam mais cedo. Em alguns registros no diário de campo, nota-‐‑se que
Firmino replica em sua aula pontos observados nas de outros professores.
Fiquei para a segunda aula da noite, agora com menos alunos. Novamente eu era a
única aluna mulher e a menos graduada. O aquecimento foi o mesmo dado na aula
anterior pelo sensei Douglas. Comandos: Correndo... parados... em fila: agora o Heian
Shodan.
-‐‑ Fernanda, olha aqui o movimento didático. Ajusta o pé. Faz assim ó... Assim ó... (e
repete o movimento tentando me mostrar o erro, replicando com o corpo) hum...
entendeu?
Firmino mostra o movimento, mas não explica verbalmente. Ele nota que eu ainda
não havia conseguido acertar e sai da minha frente (espelho) e fica do meu lado.
Parece ter notado minha dificuldade com demonstrações em forma de “espelho”.
Na aula anterior, ele havia observado a abordagem do outro sensei comigo, e notando
minha dificuldade, procurou replicar o comportamento do outro professor.
Quadro 20 – Diário de Campo -‐‑ 01 de setembro de 2014
Firmino considera ainda estar aprendendo a dar aulas e vê o papel do
professor como um pai, que ensina não apenas o conteúdo específico, mas
também questões voltadas ao caráter e disciplina.
Sempre eu estou aprendendo, sempre tem novidade, né?
Sempre tem novidade pra você aprender, pra você passar pros
alunos. Sempre eu vejo algo... também, aprendo alguma coisa,
sempre tô aprendendo, né? Não sou, quer dizer, todo mundo
aprende algo, sempre tá aprendendo. O caratê, se é uma vida,
sempre todo dia você aprende, e o caratê é isso, todo dia você
aprende alguma coisa, toda aula você aprende alguma coisa, e
não para, né? Nunca acaba, né? Sempre você vai aprender
algo diferente.
Além disso, para ele, a docência trata de um compartilhamento de
saberes, que entende ser importante passar para outros para que possam ser
ajudados da mesma forma que ele foi.
não pode ser egoísta e querer só pra você, porque o que você
aprendeu precisa passar pra alguém. Aí você já se formou em
7 anos, 8 anos, mais ou menos, com certeza você tem algo pra
dar, pra passar.
Em alguns momentos afirma ser um “atrevido”, pois não consegue
dedicar o tempo que gostaria ao caratê por conta de sua rotina puxada e às
vezes sente que não está atualizado o suficiente, demonstrando certa
insegurança em estar onde está.
O que que nós treina aqui é o que que eles fazem lá, só que
muito mais rápido o que eles fazem, né? Muito mais rápido...
Não é nada que o ser humano não consegue fazer com treino,
né? Mas eles só vive daquilo, é diferente, nós não, nós não
vive disso. Às vezes, eu falo que eu sou um atrevido, eu tô
aqui como atrevido, né? Não é pra mim tá aqui assim aqui nas
artes marciais. Era pra mim tá, sei lá, tá trabalhando, né? Aqui
não, já é atrevido mesmo (risos). É que eu gosto, mesmo
estando aqui no meio dos melhores... (risos).
Comparando sua primeira aula e sua situação atual, diz se sentir mais
seguro para dar aulas, mas sempre se pergunta se o que está fazendo está
certo, pois às vezes se sente impotente quando não consegue fazer o aluno
aprender alguma matéria.
Agora eu tô mais seguro, né? (risos) Antes não, antes a gente
falava “Vixi, será que eu vou errar?” Pensa bastante coisa
assim “Será que eu vou explicar direito?” Né? E hoje em dia
não, hoje em dia você já chega, já tá com você aquilo ali né, o
caratê é aquilo ali, você não tem medo mais, antes não, antes
você se sentia... A primeira vez, né? Você vai dar aula, tá
inseguro, tem algum pra te falar “Pode ir que vai dar certo”
incentiva você, se alguém te falar isso, coloca na cabeça que
vai dar certo. Mas, porém, você se sente um pouco inseguro
ainda, mas depois começa a ver que não é nada daquilo aí
começa já, a se entrosar mais, né? Aí vai melhorando aos
poucos.
Acerca das dificuldades da ocupação, Firmino aponta problemas com a
infraestrutura, principalmente o barulho que vem das aulas de spinning e a
necessidade de manter alunos por razões comerciais, o que dificulta o trabalho
de alguns preceitos do caratê, em especial quanto ao Dojo-‐‑kun.
Hoje em dia “Hahaha, desculpa! Não sei o que...”. Não pode,
né? Tem que saber adoçar as coisas, que é difícil você manter,
né? Ainda mais que a academia disse que quer mais aluno, se
nós for bem disciplinado aqui, eles não vão ter aluno. Aí deixa
um pouquinho, né? “À la vonté” né? Pode falar, né? Pouca
coisa, mas de vez em quando puxa também, precisa né, se não
os que tão disciplinando vão querer ir no embalo, né? Mas
precisa dar uma puxadinha de orelha.
Como forma de contribuir para a melhoria da profissão, ele acredita que
além de incentivos governamentais para melhorar as condições de treino e
acesso cultural dos atletas, o caratê deveria ser obrigatório nas escolas, pois da
mesma forma que ajudou em sua vida – a não fazer nada errado, “coisa que não
presta” -‐‑, ele acredita que ajudaria na vida de outras crianças.
Ele gosta de tudo no caratê e diz que se resume a sua própria vida.
Tudo. Gosto do kihon, do kata, da luta, da disciplina, todo o
conteúdo, né... os princípios, é... tudo né, desde a formação, né,
se esforçar pela formação do caráter né, fidelidade né, conter o
espirito de agressão, tudo isso mexe comigo... comigo mexe né,
eu insisto em tá aqui por causa disso né, porque eu gosto, pra
mim é vida mesmo. Não é vida porque eu não sou 100%
focado né, durante o dia eu tô trabalhando em outro setor né,
5.5 Aprendendo a ser professor: elementos de aprendizagem
Os professores de caratê participantes da pesquisa possuem trajetórias
muito peculiares. No que diz respeito à formação acadêmica, Celso possui
extenso currículo. Cursou a pós-‐‑graduação logo que se graduou, além de
fazer diversos cursos voltados para a área de educação física. Douglas
também tem formação superior, graduado em Gestão Pública e tendo cursado
dois anos de Educação Física. Ele também almeja continuar os estudos
fazendo pós-‐‑graduação em breve. Teo e Firmino estudaram até o ensino
médio. O primeiro, ao relatar sua formação, logo se explicou “Eu não fiz
faculdade ainda porque não deu tempo, só terminei o colegial completo”. O último
demorou a entender o que eu queria dizer com “formação”, referindo-‐‑se à sua
graduação no caratê.
A trajetória de caratê de todos os participantes é marcada pelo desafio
de formação, forma de reconhecimento e superação pessoal. Começaram a
treinar entre a infância e a adolescência e todos demonstram ser muito gratos
ao que a arte marcial proporcionou em suas vidas.
A carreira docente dos participantes começou, em geral, ao substituir
seus professores, seja por atraso ou por alguma necessidade da escola.
era difícil se ausentar, mas quando tinha alguma coisa, era eu
que assumia a turma, é... ele já vinha fazendo essa experiência,
muitas vezes com ele presente, ele falava “puxa o
aquecimento, faz isso, faz aquilo” e algumas vezes ele falava
“hoje você dá aula” ele interpelava no meio assim né, fala
“olha, isso não! Isso, assim, assim” e explicava, ele mais ou
menos, foi me ensinando como é que eu deveria fazer e eu
tinha uma retaguarda né, meu pai, faixa preta também, tinha
No documento
TRAJETÓRIAS DE APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA EM CONTEXTOS NÃO ESCOLARES
(páginas 98-108)