3.1. Análise macro – O Estágio Profissional no contexto da formação inicial
3.1.2. Aprender a ensinar
A evolução é tão veloz que os professores tomam consciência que a formação inicial não basta para o resto da vida, que é necessário aprender
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durante toda a vida, atualizar-se, modernizar-se (Delors, 2003), aprender a ensinar não é exceção.
Sabe-se, de antemão, que todos os professores do ponto de vista de “aprender a ensinar” passam por diferentes estádios, fases, ao qual são confrontados com distintas exigências pessoais, profissionais, sociais (Queirós, 2014a). Diria que ninguém nasce ensinado, assim como ninguém nasce professor do dia para noite. Acredito haver dentro de cada um de nós uma certa predisposição que nos corroí e nos atribuí significado. Assim como o bicho da madeira a perfura a fim de mexer com ela, não no sentido de a estragar mas como se quisesse que esta acordasse para ver cumprida a sua missão.
Somos ensinados a vida toda, desde os primeiros passos até à idade em que precisamos do auxílio da bengala para andar. E todos nós ensinamos alguma vez, alguma coisa a alguém, as primeiras palavras, o apertar os cordões, a andar de bicicleta, ou até que as rosas picam mas que a sua beleza é especial. Ensinar no verdadeiro sentido da palavra implica um pouco mais do que todas as aprendizagens do senso comum. Matos (2014, p. 174) diz-nos que “falar de educação é falar do processo que permite transformações duradouras e significativas para o desenvolvimento e formação do ser humano. Falar de educação significa falar da intencionalidade, da organização, das condições e circunstâncias, da qualidade e quantidade das tarefas, do tempo e do espaço, da estrutura, da sistemática do processo educativo”. Podemos assim entender a existência da educação em sentido lato e em sentido restrito. Em sentido lato, como referido anteriormente porque toda a vida nos educa. Em sentido restrito, quando falamos de uma ação decorrente entre pelo menos duas pessoas (educador e educando), onde existe uma transmissão. É urgente no entanto que haja uma ligação entre estas duas educações, existindo uma troca de informações e partilha, mas nunca ignorando toda a educação provinda do mundo, das coisas, da natureza, dos factos e das situações (Bento, 1995).
Para que possamos ir mais longe e perceber este ponto bastante sensível, importa perceber outros aspetos a ser tomados em consideração. A pesquisa educacional aborda duas metáforas segundo Sfard (1998) que acabam por
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elucidar a aprendizagem profissional. Não se pretende contudo, defender uma em prol da outra, mas perceber que estas se complementam. Assim podemos distinguir a metáfora de “aquisição de conhecimento” que é a mais antiga. Esta defende que o cérebro humano é um recetor de conhecimentos, pronto a ser cada vez mais preenchido com determinadas matérias, sendo que a pessoa que aprende, acaba por ser detentor de tais aprendizagens significativas. Assim que tomamos consciência que esta metáfora da aquisição está presente em todas as áreas da aprendizagem, acabamos por nos tornar mais recetivos à sua importância, isto é, a tudo que nos rodeia. Adquirindo o máximo de competências mesmo que em outras áreas, acabaremos sempre por conseguir aplicá-las em áreas totalmente diferentes. Recebemos e tornamos nosso esse conhecimento, por forma a construí-lo e adaptá-lo a nós. O professor deve ajudar o aluno no sentido em que ele consiga alcançar os seus objetivos, isto é, deve ser capaz de usar todas as ferramentas possíveis para que o aluno evolua. Assim que adquirimos o conhecimento, podemos aplicá-lo e depois partilhá-lo com os outros. Ao longo dos tempos este conceito de aquisição tem persistido num vasto número de artigos (Sfard, 1998). A mesma autora defende ainda a existência de outra metáfora, a “participação na construção da aprendizagem” sendo esta mais atual. A metáfora da aquisição está de tal forma enraizada em cada um de nós, que muito provavelmente nunca iriamos ter a noção de uma metáfora alternativa. As novas pesquisas remetem-nos para a participação na construção da aprendizagem. Os conceitos mudaram e o “ter” passa a dar importância ao fazer. Um conhecimento não estará completo segundo a metáfora mais atual “participação na construção da aprendizagem” se àquilo que aprendemos não formos capazes de acrescentar e nos envolver no processo de aprendizagem. Como diz o provérbio chinês “Não dês o peixe, mas ensina-o a pescar”6. Não
importa só acumular aprendizagens mas saber evocá-las na prática, isto é, o processo de aprendizagem é muito mais do que adquirir conhecimentos e torná- los próprios, mas passa essencialmente segundo este ponto de vista, por caracterizar o aprendiz numa pessoa interessante, na participação de
6 Provérbio chinês que significa que o mais importante é que saibamos fazer determinadas coisas
em vez de estas nos aparecerem feitas. Neste caso em concreto é necessário que saibamos (re) construir o conhecimento e não apenas que o adquiramos.
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determinadas atividades, em vez de acumular os conhecimentos para si mesmo. Ou seja, com isto podemos afirmar que a capacidade de comunicar acaba por ser desenvolvida em contexto real de prática, aquando da inserção numa comunidade, neste caso a escola, conseguindo uma adaptação a todas as normas vigentes que esta acarreta. Assim o aprendiz (futuro docente) acaba por tornar-se parte integrante da comunidade escolar. A aprendizagem implica participação nas atividades de instrução e a participação deve ser encarada profundamente. Enquanto a aquisição salienta o individual, a prática dá importância ao meio envolvente e aos indivíduos que dela fazem parte. Em suma torna-se fulcral saber conjugar as duas metáforas por forma a adquirir uma aprendizagem mais eficaz e duradoura.
A aprendizagem pode ainda ser caracterizada segundo Belle (1982) como: formal, informal e não formal. Através destas três aprendizagens construímos o caminho e os alicerces necessários para uma boa aprendizagem de como ensinar, isto é, através das atividades e dos próprios processos que nos sujeitamos ao longo da vida vamos aprendendo determinadas características que se tornam cruciais para o momento de atuação. Assim, Belle (1982) refere que a aprendizagem informal é um processo que decorre ao longo da vida, onde cada pessoa vai adquirindo conhecimentos, capacidades, posturas através das experiências e do próprio contacto com o meio ambiente. Traduzindo em toda a minha vida fui sujeita a influências que me foram úteis para o ensino, para aprender como ensinar e que me tornam única com as particularidades que incorporei da influência recebida. Relativamente à aprendizagem não formal, esta é caracterizada como sendo qualquer atividade organizada e sistemática, ou seja, tudo o que é realizado fora da estrutura dita formal (escola) no sentido de providenciar diferentes tipos de aprendizagens úteis para sabermos lidar com outras pessoas e com o facto de termos de conseguir ensinar alguma coisa a alguém (Belle, 1982). Neste ponto, o facto de ter retirado algumas formações desportivas, de frequentar o voleibol, dar catequese e participar no grupo de jovens fez com que o contacto com os alunos fosse mais real, mais próximo. Acabava por adquirir competências que eram utilizadas nas aulas sem me aperceber e que acabavam por ter transfer das tarefas para a escola e da escola
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para as restantes tarefas. Por fim, a aprendizagem formal foi toda aquela que foi aprendida de forma institucionalizada e hierarquizada, começando na escola primária e acabando na universidade (Belle, 1982). Aqui a aprendizagem ao longo dos anos, inclusive na faculdade através do ensino específico da profissão tornou-se uma mais-valia para poder moldar o meu eu profissional, assim como todas as influências positivas e negativas dos professores com quem interagi. Assim a universidade foi capaz de promover uma prática reflexiva proporcionando um ambiente de aprendizagem crucial para poder ensinar. A reflexão torna-se particularmente útil na formação de professores, sendo capaz de proporcionar uma ponte entre os conhecimentos adquiridos, e a experiência profissional, as observações e o próprio contacto com a restante comunidade educativa (Nelson & Cushion, 2006). O autor supracitado aborda três formas de refletir: a reflexão na ação (ou seja, durante a ação presente), reflexão sobre a ação (no âmbito da ação presente mas não no meio da atividade) e reflexão sobre a reflexão na ação (fora da ação). Ao longo deste estudo, Nelson e Cushion (2006) concluíram que a reflexão oferece uma estrutura conceitual para entender a formação de treinadores. Assim como para nós, futuros docentes, o facto de refletirmos criticamente sobre as experiências de ensino e sobre as aulas torna-nos cada vez mais conscientes do contexto em que estamos inseridos e dos erros que não devemos cometer.
Na verdade, é através deste processo reflexivo que os estudantes estagiários tomam consciência dos seus comportamentos e desenvolvem um raciocínio logico por trás de cada ação.
Tornarmo-nos professores, acaba por ser um caminho cheio de curvas e contracurvas, numa velocidade aceitável e evolutiva que acarreta todo um conjunto diverso de aprendizagem e experiências ao longo de todo o percurso formativo (Pacheco & Flores, 1999).Assim, podemos retroceder ao filme da nossa vida, ao exato momento em que eramos alunos e perceber tudo o que não gostávamos nos professores, só assim seremos capazes de não reproduzir com os nossos alunos o mesmo caminho. Seremos capazes de lhes proporcionar oportunidades mais alargadas e mais vincadas nas questões fulcrais para o desenvolvimento de competências (Allessandrini, 2002). Segundo Queirós
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(2014b, p. 59)“ensinar é assumir uma postura ética no mundo, e sugere que esta mesma postura ética seja talvez, a única, mas também a melhor satisfação que um professor possa ter”. Foram realmente muitas as horas que passei a refletir, a discutir com os colegas, a dormir sobre os assuntos, sobre o desporto e as suas perspetivas e concluo que valeu apena, que ensinar é a coisa mais gratificante que um professor pode ter e que cá para nós, ainda tenho muito que suar. Aprender a ensinar acaba por ser um processo de aprendizagem onde há uma alteração da nossa atuação consoante as informações que recebemos e analisamos (Rodrigues, 2015). Para que possamos perceber todo o contexto a que nós, EE nos sujeitamos, é necessário que haja um enquadramento legal. Não nos esqueçamos que o EE não é um professor efetivamente da escola, mas sim alguém externo que vai realizar o contexto profissional numa escola para poder continuar o seu percurso formativo.