UM NATURALISMO SUPERIOR (segunda parte)
“APRENDER FRANCÊS E DESAPRENDER SINCERIDADE”
Antes de seguirmos os desdobramentos da querela naturalista, que intensificara-se com a chegada dos russos, voltemos para a década de 1870 e relembremos Tobias Barreto e seu interesse pelas belas letras russas. O leitor terá reparado que a maioria dos críticos citados até aqui estiveram de alguma forma vinculados ao grupo do qual Tobias foi pai fundador. De fato, o romance russo caiu como uma luva para o imaginário crítico da Escola do Recife: libertar-se do pesadelo da história e conectar-se, através de uma rede de intelectuais, às idéias mais avançadas: eis o atrativo que a irrupção recente do romance russo oferecia. Além de servir como mais uma das novidades pelas quais aqueles intelectuais ofereciam-se em sacrifício, a literatura russa funcionou como elemento
77 BEVILAQUA, Clovis, op. cit., pp. 214-215.
78 Vale lembrar que no rearranjo de 1888-89 ao ensaio de 1882, Bevilacqua fez observação similar, ao discordar da
afirmativa de Dupuy sobre a superioridade do romance russo: “Não direi que haja razão em classificar o romance natural como superior ao que se tem escrito em França, mas é incontestável que em outros horizontes, o sol da arte jorrava a mesma luz”. Cf. infra, p. 72.
aglutinador. Ajudou a criar identidade intelectual para o grupo. É sabido que, no que se refere à Escola do Recife, não se pode falar de um “grupo” com sentido tão coeso quanto alguns de seus propagandistas tentaram criar. O que se pode dizer, dentro dos propósitos deste trabalho, é que o debate literário e cultural em torno do romance russo passou a ser uma das possibilidades disponíveis, no bazar das novas idéias, para a construção de um discurso minimamente comum a alguns dos intelectuais que se proclamavam portadores do legado de Tobias Barreto.
Em 1874, Tobias Barreto afirmava que Gógol e Turguêniev eram algo muito diferente das “futilidades” francesas. Na década de 1880, após a invenção e exportação em massa do romance russo, Tobias Barreto manteve esse ponto de vista a respeito da literatura russa, adaptando-o às novas maneiras de encarar o problema. Infelizmente, o crítico não o expandiu em nenhum artigo monográfico, mas há indícios, nos seus últimos textos (faleceu em 1889), de que a discussão pós-
boom começava a fazer parte de sua pauta.
“Irreligião do futuro”, artigo de 1887-88, tem como mote o comentário do livro homônimo de Guyau. É pretexto para Tobias Barreto desenvolver sua linha polêmica favorita, a crítica completa e absoluta à liderança francesa na cultura brasileira. O desejo de ver a tutela alemã em seu lugar é ponto por demais conhecido na história do pensamento brasileiro, e não necessita aqui de maiores expansões. Palavreado versus substância nutritiva; robustez e burlesco; verdade e arrogância; precisão científica e retórica bombástica; confiança e desespero; profundeza e mediania: são alguns dos pares de oposições que Tobias vai construindo ao longo de “Irreligião do futuro”, atribuindo-os, respectivamente, à Alemanha e à França. O livro de Guyau é, a seu ver, sintoma da derrocada da guerra Franco-Prussiana: “Já um pouco desesperançados da revanche pelas armas, afagam a ilusão de uma revanche pelas letras!”79 Idéia que poderia ser aplicada a O romance russo, comentado, de fato,
logo depois. Dentro desse roteiro, era previsível que o crítico sergipano não encampasse o dernier cri naturalista, sinal, a seu ver, da precariedade intelectual francesa.80
O terreno está preparado para a discussão do romance russo. E isso ocorre imediatamente após a evocação do naturalismo de Zola:
No estrito domínio literário mesmo, a decadência se faz sentir de um modo bem notável. Ainda não há muito tempo, um dos mais sisudos e conscienciosos críticos franceses, De Vogué, dizia o seguinte: “O começo do século 19 trouxe-nos novidades. Mas todos os fundos apresentaram-se exaustos. Tivemos então de tomar emprestado à Inglaterra e à Alemanha, e a literatura reanimou-se. Atualmente, porém, surgiu de novo para a França uma época de fome e de anemia.”81
79 BARRETO, Tobias, “A irreligião do futuro” (1887), 1892. p. 290. 80 Idem, p. 281.
81 Idem, p. 282. Tobias Barreto não indica a fonte, mas trata-se do trecho final do Avant-propos de O romance russo. Cf.
A leitura de Melchior de Vogüé tocou no ponto nevrálgico de Tobias Barreto. Entusiasmado, continua:
É isto mesmo, exatamente isso. O honrado crítico confessa sem rebuço a falta de originalidade do seu país, e leva a sua despreocupação ao ponto de reconhecer que chegou também a vez dos russos, a quem agora cabe a missão de vir em socorro da indigência literária dos franceses.
Esta idéia, que vinte anos antes teria provocado um grito de espanto, ou uma gargalhada de desdém, presentemente nada encerra de estranho e contestável. É uma verdade que transluz das atuais condições da França e suas relações com a Rússia. O eslavofilismo hodierno dos franceses não exprime somente, como é crível à primeira vista, uma necessidade de coadjuvação e reforço intelectual.82
Tobias deve ter regozijado quando se deparou com trechos como estes, no Avant-propos de O
romance russo: “salvo raras exceções, o livro que age e nutre, aquele que tomamos com seriedade, que
lemos ante a família reunida, e modela as inteligências, esse livro não vem mais de Paris”, e “as ideias gerais, que transformam a Europa, não saem mais da alma francesa”.83 Em seguida, expõe sua
posição pessoal:
Assim falando, posso tambem passar por um eslavófilo. Não me envergonho do epíteto: pelo contrário, aceito- o de bom grado. Há somente a ponderar que o meu entusiasmo pela Rússia refere-se exclusivamente à Rússia literária; quanto à política, esta me é antipática, sobretudo no que diz respeito ao seu ódio estúpido contra a Alemanha. Se me engano na minha apreciação da cultura espiritual dos russos, consola-me a lembrança de estar ao lado de Juliano Schmidt, Georg Brandes, De Gubernatis e inúmeros outros corifeus da crítica européia, para quem a literatura russa é um tesouro digno do maior apreço.84
Nas mãos do crítico sergipano, o argumento de Melchior de Vogüé, ao admitir a impotência pátria, vira instrumento de crítica cultural. Os russos não são apenas outro modelo de realismo e naturalismo literário, e sim arma de combate ao francesismo. A literatura russa ocupa, no ideário de Tobias Barreto, o mesmo universo semântico (embora com espaço muito menor) do germanismo: é referencial de cultura superior, autêntica e profunda. A cisão estabelecida por Vogüé visava a regeneração da vida intelectual e literária da França. Na interpretação de Tobias Barreto, os russos são a negação de tudo o que a cultura francesa representava.
A inclusão da literatura russa no repertório de Tobias deve ter sido influente entre os admiradores.85 Clóvis Bevilacqua tem conexões evidentes com a Escola do Recife. Artur Orlando,
82 BARRETO, Tobias, “A irreligião do futuro” (1887), 1892. p. 282. 83 VOGÜÉ, Melchior de, op. cit., 1888, p. XLVIII.
84 Ibidem. Em 1887, portanto, Tobias não falava explicitamente de Dostoiévski ou de Tolstói, a quem devia conhecer do
recém-lido O romance russo. Nesse mesmo ano, em outro ensaio, Tobias Barreto menciona um dos escritores russos que constavam, em 1874, de “A organização comunal da Rússia”: “Ivan Turgueniew, que sempre escreveu novelas em alemão e em francês, nunca deixou de ser o mesmo russo; sempre o mesmo pessimismo, sempre a mesma intuição eslava”. BARRETO, Tobias, “Traços de literatura comparada do século XIX”, p. 132. No mesmo artigo, a Rússia aparece como “povo musical”, ao lado da Alemanha, França e Itália. Idem, p. 180.
85 Em discurso apresentado no Centro Sergipano, Mario Gameiro compara os percalços biográficos do próprio Tobias
cujo comentário sobre os russos veremos adiante, também foi bacharel egresso da faculdade de direito pernambucana. E não se pode duvidar da alta conta em que Tobias Barreto era tido por Orlando, já que, nas páginas da Filocrítica, Tobias era “uma espécie de Schopenhauer, capaz de fazer ciência como Aristóteles, poesia como Shakespeare ou crítica como Juvenal”.86 José Carlos Junior
também saiu diplomado, em 1882, pela mesma faculdade de direito, e trabalhou em O Domingo em 1888.87 Portanto, na mesma época e periódico em que Clovis Bevilacqua publicava “Naturalismo
russo – Dostoievsky”. Em paralelo, José Carlos Junior lançava em A quinzena suas observações sobre os russos.
Além de laços mais ou menos fortes com a faculdade do Recife, estes críticos tinham em comum a juventude. Vogüé apostava na nova geração para carregar o entusiasmo pelos russos. Sua exortação se dirigia “àqueles que têm vinte anos”. José Carlos Junior, Clovis Bevilaqua e Artur Orlando, com respectivamente 27, 29 e 33 anos, quando publicaram os ensaios mencionados, não eram os normalistas facilmente impressionáveis que ficariam inscritos na memorialística como público ideal para recepção dos romancistas russos, mas eram relativamente jovens, ainda em início de carreira.
Dostoiévski era bom exemplo de escritor autenticamente nacional; logo, os ensaios produzidos sobre ele ganhariam destaque na gestação de uma identidade comum da Escola do Recife. Uma boa fonte para a localização deste discurso são os prefácios cordialmente trocados entre aqueles intelectuais, nos quais se exercita o elogio mútuo. A criação de um “outro” a ser combatido, o francesismo fluminense, passa pela citação dos russos, em linha cuja matriz são as idéias de Tobias Barreto. Assim foi que Silvio Romero se manifestou, justamente num dos prefácios escritos para as
Obras Completas do mentor e conterrâneo:
Provavelmente os que no Rio de Janeiro encerram em José Verissimo e Araripe Júnior toda a moderna crítica brasileira não conhecem de Celso Magalhães, por exemplo, o estudo consagrado a Carlos Ferreira; de Tito Livio os que fez de Medeiros e Albuquerque, Raul Pompéia, Julio Ribeiro; de Rocha Lima o que versa sobre Guerra Junqueiro; de Tobias os que aplicou a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Guyau; de Orlando o que trata de Bourdeau; de Clovis o que tem por objeto Dostoievisky. Pois, se os não conhecem, procurem conhecê-los e verão que os dois críticos prediletamente consagrados, cujo valor, aliás, sou o primeiro a proclamar, nunca escreveram nada que seja superior aos ensaios aludidos.88
sem exagero foi um martírio. Sua biografia tem pontos de contato com a via crucis dos pensadores e literatos da grande nação européia./No vasto império moscovita, o escritor, graças à situação do meio social, recebe, logo ao nascer, a coroa de espinhos do sofrimento, e cujas torturas, muito mais tarde, sobrevêm a bênção da glória”. GAMEIRO, Mário. “Tobias Barreto – sua vida e sua ação”. Revista americana, jun. 1915, pp. 58-59.
86 ORLANDO, Artur, op. cit., 1886, p. 25.
87 Cf. COUTINHO, Afrânio; SOUZA, J. Galante de. Enciclopédia da Literatura Brasileira, 2001. 88 ROMERO, Sílvio, “Prefácio” (1901), 1926, p. XXXI.
Não só Clovis Bevilacqua escolheu Dostoiévski, em meio a outros russos, como Silvio Romero pinçou do colega precisamente esse artigo. Gesto similar é feito no livro de 1897 sobre Machado de Assis:
Machado de Assis merece uma apreciação aprofundada, como a de Scherer sobre Diderot, a de Taine sobre Balzac, a de Faguet sobre Chateaubriand, a de Hennequin sobre Tolstoi, a de Montegut sobre Pope, a de Vogue sobre Dostoiewski, que sei eu? como a de qualquer crítico que se preze sobre qualquer escritor de mérito.89
Ou seja, como exemplo de boa crítica, moderna e científica, Silvio Romero havia extraído, dentre todos os textos de Clovis Bevilacqua, o artigo sobre o russo; e, repetindo o movimento, de todos os ensaios do visconde francês (que fora o inspirador de Bevilacqua) constantes em O romance
russo, o escolhido foi exatamente o sobre Dostoiévski. Poderia parecer paradoxal que uma mente tão
direta e prática como a de Silvio Romero tivesse feito essa opção, já que o momento dostoievskiano é, de longe, o mais ambíguo do livro de Melchior de Vogüé. O paradoxo some se, mais uma vez, pensarmos no que Dostoiévski significava para o intelectual periférico de fins do século. Dostoiévski era alternativa nova e nativista. Combinação perfeita. A estética inovadora do escritor russo, definida como um tipo diferenciado de naturalismo, ancorada na nacionalidade, podia ser contraposta a “novos” muito ousados, artistas que questionassem as bases cientificistas sobre as quais erigia-se todo o edifício da crítica literária de Romero e da absoluta maioria dos críticos do período.
Lançando olhar retrospectivo sobre os escritos de Bevilacqua, Araripe Junior destaca, em
Épocas e individualidades, o mesmo artigo apreciado por Silvio Romero:
No livro que cito ainda encontro um estudo sobre o romance russo que demonstra o vigor do jovem ensaísta, o qual não encontraria dificuldades em disputar um dos primeiros lugares na crítica literária, se o quisesse. Esse trabalho revela conhecimento dos autores eslavos que têm sido vertidos para o francês e denota o tato do analista que soube logo penetrar no espírito dos dois mais extraordinários autores que o norte da Europa russa tem produzido, Tolstoi e Dostoievski. Na apreciação do último, Clovis Bevilacqua torna saliente a profunda psicologia que o romancista russo faz de Raskolnikov, herói do Crime e Castigo, que, segundo penso, não é senão o misticismo criminoso trabalhando na alma de um Hamlet moscovita.90
Voltando a Silvio Romero e sua diatribe contra Machado de Assis, podemos ver como o romance russo continua a tensionar as relações entre o centro fluminense e o grupo da periferia. No ensaio, os russos funcionam sempre como um anti-Machado. Julgando que os méritos porventura existentes do escritor fluminense residem na construção de delicados estados psicológicos à maneira de Bourget, Romero faz o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan
89 ROMERO, Sílvio, op. cit., (1897), 1992, p. 141. A dedicatória a este volume é para Artur Orlando, Clovis Bevilaqua e
Martins Junior, “nossos maiores amigos vivos da Escola do Recife”.
90 ARARIPE JR., “Clóvis Bevilacqua” (1899), 1958. p. 375. Curiosamente, Bevilacqua não fala de Tolstói em nenhum
Poe e Dostoiévski. O “tom grandioso e épico” deste último, “esturge em algumas paginas da Casa dos
Mortos (...), capazes de emparelhar com algumas cenas de Dante”.91 A propósito da famosa passagem
do galope da história nas Memórias póstumas de Brás Cubas, repete o argumento: “Todavia, acho que não consegue plenamente o efeito de impressionar. Fica bem abaixo de Dostoiewski, Poe e até de Hoffmann, quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.92 Machado de Assis “Não lembra, pois nem Juvenal, nem Martins Pena, nem Molière, nem
de todo Baudelaire, ou Poe ou Dostoiewski. Não é, finalmente, da raça dos humanitários propagandistas e evangelizadores de povos ao gosto de Tolstoi”.93 E nessa toada segue o livro. Seja
no registro de uma horripilante vertente estética neo-gótica, de que Dostoiévski é o exemplo, seja na chave social, corporificada em Tolstói, Machado de Assis fica sempre, a despeito de seus esforços e pretensões, aquém desses patamares. Não chega a ser uma daquelas “futilidades do gênero” a que Tobias Barreto se referia em 1874, em contraste com a “bela literatura” russa, mas fica perigosamente perto disso.94
Boa parte dos procedimentos de Silvio Romero, inclusive a comparação entre Edgar Allan Poe e o russo, são inspirados por Écrivains francisés, de Émile Hennequin, citado pelo brasileiro como um dos grandes mestres da crítica moderna. Há nas entrelinhas de Machado de Assis um elogio dos críticos pioneiros do romance russo. “A critica deu um passo adiante nas mãos de Hennequin, de Rod, de Vogue, de Faguet”.95 Ora, Hennequin e Vogüé notabilizaram-se por escrever sobre os
russos, e E. Rod foi um tolstoiano de primeiro escalão, um dos mais importantes neo-conversos à literatura russa na década de 1890. Deixou textos críticos não somente sobre Tolstói e Dostoiévski como sobre o próprio Vogüé. Faguet, cuja atuação na difusão do romance russo não é comparável ao dos três primeiros, também legou alguns artigos sobre o tema.