TAXONOMIAS DO CINZA
PÁGINAS DE GELO E DE SOL
O tipo de inversão irônica apresentada em Vida extinta estava longe de ser a regra. O mais comum, no tratamento crítico ou ficcional do romance russo, era a entrega, de corpo e alma, ao patético. Um curioso conjunto de contos “pseudo-russos” – narrativas escritas com temas e personagens russas, tentando de alguma forma reproduzir o efeito da “nova” literatura – escritos nos primórdios do século vinte nos ajudará a compreender o que estava em jogo. Adicionam elementos para entender o “renascimento da emoção” que muitos críticos de fim de século consideravam uma das principais contribuições do romance russo.
A existência de temas russos na literatura ocidental é tão antiga quanto a longa duração da idéia de barbárie moscovita. Balzac escreveu uma “novela russa”, narrativas românticas fizeram dos eslavos bons selvagens e a aliança franco-russa montou obras e mais obras a partir de estereótipos da vida russa. O folhetim formou sólido e duradouro pacto com o “tema” russo; cossacos deram colorido a incontáveis romances de aventuras.73
Embora seja difícil separá-la completamente dessa tradição, há uma forma de narrativa pseudo-russa umbilicalmente dependente do boom, em que aparece a marca dos temas críticos e dos romances recém-aparecidos.
O próprio Vogüé não resistiu à tentação e escreveu novelas pseudo-russas. Reuniu-as no volume coeurs russes.74 O visconde tentou recriar a modulação turguenieviana, apresentando caçadores
e servos imersos em melancolia senhorial. Arriscou também uma estória semi-gótica, com enforcamentos e indivíduos aparentemente mortos que ressucitam. Ou seja, toda a gama de efeitos estéticos do romance russo, desde a “suave tristeza”, a que José Carlos Júnior se referiu, até aqueles momentos excessivos que o leitor, segundo Clóvis Bevilacqua, tinha que fazer “esforços terríveis para suportar”.
Pontos e contos (1922), de Felício Terra, e Histórias da vida e da morte (1907), de Tomás Lopes são
exemplos brasileiros desse micro-gênero. Os contos que os compõem foram publicados originalmente nos primeiros anos do século vinte. Felício Terra (pseudônimo de Nuno de Andrade)
73 Para uma compilação extensa de temas russos na Inglaterra, dos primeiros contatos elizabetanos até romances de
espionagem da guerra fria, cf. CROSS, Anthony, Under western eyes, 1517-1825, 1971; do mesmo autor, The Russian theme in
English literature, from the sixteenth century to 1980, 1985. Na América Latina, cf. SCHANZER, Georges, Russian literature in the Hispanic world: a bibliography, 1972. Folhetins com personagens e situações à russa eram comuns em periódicos
brasileiros. “A investida dos mortos”, de Henry de Forge, 1900, é um exemplo. Ou o conto “Olga” na revista Imperia, fev. 1928. Foi frente a este contexto que Lima Barreto ironicamente definiu o seu Dr. Bogoloff como “pseudo-revolucionário russo”. Benjamin Batista, em 1932, publicou um romance inteiro “pseudo-russo”, com aventuras passadas na União Soviética. BATISTA, Benjamin, A ilusão russa, 1932. Katucha (1931?), de Benjamin Costallat, não chega a ser um pseudo- russo integral, mas traz a prostituta-protagonista – personagem emblemático – com nome russo.
publicou seus “pseudo-russos” durante a guerra russo-japonesa. A polaridade maniqueísta gerada pelo evento será um dos muitos elementos melodramáticos presentes nos contos. O autor não faz a menor questão de esconder que a Rússia – e, mais do que ela, a autocracia russa – é um vilão digno dos piores momentos de Eugene Sue. O Japão, por sua vez, é o herói de alma pura.75 Para pintar o
quadro, Terra valeu-se das “negras cores da indignação e do asco” empregadas pelo “solitário Isnaia (sic)”76 para descrever o despotismo russo.
As narrativas tratam de acontecimentos e personagens ligados ao conflito de 1905 ou a episódios da perseguição aos “niilistas” dos anos recentes. Quase todos os contos são cenas de tribunal ou de cárceres subterrâneos.77 Em “Madame Stoessel”, a mulher do comandante caído em
desgraça após a derrota naval confronta o conselho de juizes tiranos, culpa a tirania russa “e despedaçando o vestido para mostrar o flanco desnudado em que os cacos de metralha gravaram extensa cicatriz vermelha, gritou, pela terceira vez – Stoessel!”. A atitude surte o efeito típico das reviravoltas melodramáticas: “Todos baixaram as pálpebras. Aquela cicatriz irradiava como um sol, e os farrapos do vestido brilhavam como auréolas”.78
“No calabouço” apresenta a mesma situação: o encontro folhetinesco entre uma princesa e o assassino de seu marido, vítima de bomba niilista:
Acordando da contemplação íntima, sacudiu a cabeça, deu um passo rápido para frente, com os braços encolhidos; e alucinada, as mandíbulas apertadas, a respiração presa, perguntou ao condenado:
-Teu nome?
O assassino abaixou as pálpebras, estremeceu, como se aquela aparição lhe despertasse um mundo de recordações tenebrantes e respondeu humilde:
-Chamo-me a miséria!
-Mentes, bradou a princesa espavorida, teu nome é o crime. - E o teu, senhora?
- Meu nome é a dor!79
Crime e castigo: o bandido andrajoso, à beira de virar nobre, e a princesa, tornando-se aos poucos prostituta misericordiosa, entabulam improvável conversa sobre a intensidade dos respectivos sofrimentos. O preso faz longo discurso sobre a brutalidade da autocracia e termina emulando a “religião do sofrimento”. Prostra-se aos pés da princesa e pede-lhe perdão pelo ato
75 Para não deixar dúvidas, veja-se, resumidamente, como ele descreve Oyama, o líder militar japonês: “(...) brando,
profundamente religioso, admiravelmente estóico; insensível ao medo e bravo por temperamento; clemente, justiceiro e sábio; (...) esmoler, sensitivo, artista, às vezes poeta, crente inabalável da supremacia asiática do Japão e nas magnificências da futura vigília mongólica; (...) misto de matemático e de teólogo, de taumaturgo e de aventureiro (...)” TERRA, Felício, Contos e crônicas., 1922, pp. 156-157.
76 Idem, pp. 171-172.
77 Livros como os de Stepniak pintavam quadros terríveis das prisões russas, e é certamente a essas referências que Terra
se voltava quando compunha seus contos.
78 TERRA, Felício, op. cit, p. 23. 79 Idem, p. 94.
nefando. Ela insiste, porém, para saber-lhe o nome. A resposta é dada, nessa cena arqui- melodramática:
O preso ergueu-se transfigurado; e agitando no ar a mão queimada pela dinamite soltou seu nome: - Obolensky. -Ceus! exclamou a princesa recuando, semimorta.
-Um príncipe! murmurou o inspetor tirando o barrete de astrakan...80
O tema da prostituição, numa narrativa banhada do início ao fim de otchaianié – o ponto em que conflui alma russa e folhetim – está explícito em “Lina, de Moscou”. Novamente, juiz e acusada estão frente a frente. Lina era acusada de ter assassinado quatro soldados. Quando da captura, “fora surpreendida a beijar um punhal, com fervor de alucinada, talvez com requintes de alucinada, talvez com requintes de carniceira”. Lina, cujas mãos “tremiam, como se o frio do aço houvesse provocado estranhas crispações de gozo”,81 sentia a volúpia do martírio, identificada por Vogüé no homem
prestes a arremessar-se ao chão e no velho-crente supliciado pelo chicote siberiano. E também atribuída por Gilberto Amado aos “músculos ágeis de cobra” da condessa Tarnowska, que era, lembremos, a “mais estranha alma de mulher que jamais conheceram os narradores de melodramas”. Lina, contudo, matou-os porque haviam atentado contra sua pureza, lançando-a no meretrício. A revelação é suficiente para desconcertar o magistrado e torná-lo presa da nevrose:
O juiz aproximou-se da desventurada, e insensivelmente tentou despedaçar as algemas com as unhas. Queres fugir, filha? – inquiriu o juiz, rangendo os dentes e com as pupilas enormemente dilatadas, como as do agonizante. Queres fugir, mártir? Perguntou ainda o juiz, colando os lábios febris nas mãos geladas da assassina. (...) O juiz inteiriçou o corpo, distendeu os músculos num largo espreguiçamento felino, tomou o punhal de Lina, deu um grito de desespero e correu, delirante, pelo corredor afora...
-Quero matar o grão-duque...quero reabilitar a dignidade humana... quero vingar o infortúnio da Rússia... E brandia o punhal, com a fronte gotejando suor, os cabelos hirtos, a boca cheia de escuma... Estava louco.82
O referencial de Terra era a indignação tolstoiana. Tomás Lopes preferiu esteiar-se em Dostoiévski. Este não é mencionado nas narrativas, mas aparece na aludida passagem do prefácio sobre o triste fim do Baobá da Glória. Em face das opções apresentadas pela difusão do romance russo, ao invés do “Evangelho de Tolstói”, Lopes prefere “comover-se com o gênio de Dostoiévski”.
Histórias da vida e da morte contém narrativas de temática diversa; as “russas” estão agrupadas
na seção “Páginas mascaradas”.83 O experimento não foi publicado em edição obscura: veio a lume
80 Idem, p. 100. O príncipe desfarçado de proletário é a situação primeira de Os mistérios de Paris, de Eugene Sue. 81 Idem, p. 300.
82 Com tantos elementos melodramáticos, não é ocasional que “Lina de Moscou” tenha sido reproduzido no Almanaque
do Teatro, 1906.
pela Garnier, que, aliás, editou outras obras do autor. Morto precocemente, em Paris, Lopes deixou número considerável de livros publicados. Totalmente esquecido nos dias de hoje, não se trata, pelo menos no que diz respeito à circulação de seu nome entre os contemporâneos, de um pobre-diabo de bulevar.84
A relativa fama do autor não implicava em qualidade de sua obra, narrativas diletantes construídas a partir de pontos de vista conservadores a respeito de arte e literatura.85 A escolha
anatoliana de temas russos feita por Lopes é uma adesão novidadeira à religião do sofrimento. Há nos contos, todavia, alguns dados que permitem consolidar a apreciação da formação e circulação do ideário dostoievskiano em inícios do século.
O prefácio, assinado de Paris, oferece pequeno relato dos meandros da composição e publicação das composições russas. Os ventos vindos da capital francesa estimularam “Horácio” a desposar uma prostituta e tentar redimí-la; a mesma “influência eslava”86 da religião do sofrimento
animou Lopes a compor, em outubro de 1902, o primeiro dos contos russos (“Dúvida”), sob pseudônimo de “Ivan Kalganov”. Eduardo Salamonde, editor de O país, aceitou a publicação e sugeriu a troca pelo nome verdadeiro do autor.
Dei-lhe motivos para conservar o pseudônimo: não era natural que eu, sem nunca ter saído até então do Brasil, assinasse com o meu nome um trabalho literário cuja ação se passava na Rússia. O conto foi publicado dias depois; e à tarde, A tribuna, que nessa época fazia apreciações sobre os jornais da manhã, escreveu: “O país publica um conto do conhecido escritor russo Ivan Kalganov”. Daí ficou o pesudônimo; foi ele que me trouxe até Max Nordeau, com quem entretive uma espécie de polêmica a propósito da guerra russo-japonesa. Um dos contos mesmo, oferecido ao ilustre escritor, é datado de Porto-Arthur.87 É uma visão, é um sonho; por isto justamente não quero corrigir: o sonho é ainda a
mais inofensiva forma de viver. Quase todos os contos do “conhecido escritor russo” têm sido publicados em O país e na
Gazeta de notícias. A parte do livro em que eles estão tem o nome de “Páginas mascaradas”, unicamente porque as histórias
são russas e o autor é brasileiro.88
A presença de extremos, de extração melodramática, fica visível já no proprio título do volume e de suas seções: vida e morte, gelo e sol. E a idéia da máscara, inscrita na seção dedicada aos
84 Prova disso, se efetivamente os conhecia, são os destinatários das dedicatórias dos contos: Medeiros e Albuquerque,
Alcindo Guanabara, Guimarães Passos, Emilio de Menezes, Paulo Inglês de Souza. Nas Paginas Mascaradas, A. J. Martins Fontes, Markoslav Sozovowsky, Domicio da Gama, Mario Pederneiras, Max Nordeau, Inglês de Sousa. Nas Paginas de
Gelo e de Sol, Henrique Chaves, João Luso, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Rochinha, Alberto Nepomuceno, “R.B.”,
“Z”.
85 Antonio Dimas demonstra como os artigos de Tomás Lopes concentram-se no repúdio à modernidade estética (no
caso, o Art Nouveau), sob a bandeira do combate à “insensatez, delírio e desordem”. Temos então, novamente, um leitor do romance russo embebendo-se na alma russa contra o que lhe parecia uma tendência moderna deletéria. DIMAS, Antonio, 1983, p. 111.
86 LOPES, Tomás, Histórias da vida e da morte, 1907, p. II.
87 Infelizmente não pude localizar mais detalhes dessa fantástica correspondência entre Lopes e Nordau. Este, de fato,
polemizou sobre a guerra. Este é “Lúcifer”: “Relembremos. Quando alguém, por exemplo Nordau e C. Malato, entrevia a possibilidade duma vitoria japonesa, com graves conseqüências ulteriores, generais em robe de chambre e pantufas sorriam compassivamente”. “Volta ao mundo em 30 dias”, Aurora, 1o fev. 1905.
russos, remete ao emblema máximo da “imaginação melodramática”, tal como foi mapeada por Peter Brooks.89 Além dessas associações, Lopes pode muito bem ter se baseado em títulos de romances
russos – Guerra e paz, Crime e castigo – o que só confirmaria o ponto.
O prefácio deixa claro que Lopes via os contos russos como o eixo das Histórias da vida e da
morte, já que só a eles dedica explicação mais detalhada.
A utlização das epígrafes para cada seção também é indicativa do ecletismo presente no volume. A epígrafe geral da obra, retirada de Flaubert, tenta transmitir noção de hybris: “Mieux vaut l’exuberance que le gout, le desert qu’un trottoir et un sauvage qu’un coiffeur”. Isto, porém, é contradito pela epígrafe parnasiana das Velhas páginas: “La prose, c’est de la broderie sur soie, et les vers sont des series de perles”. E as palavras de Tolstói que encabeçam as Páginas mascaradas, retiradas de Katia, um dos múltiplos títulos franceses para a Felicidade conjugal,90 enfatizam a força do
sentimento: “...Chaque homme a sa maniere de parler. Mais il y a tel sentiment qui sait se faire comprendre”. Muito a propósito, já que era do romance russo que se falava.
Em contraste com outros contos do livro, as narrativas russas têm em comum títulos sintéticos, que evocam o ideário simbolista: “Dúvida”, “Mistério”, “Agonia”, “Vertigem”, “Espectro” e “Febre”. Logo se vê que tratam de estados-limite, de vórtices emocionais, o que a leitura confirma. São dois suicídios, assassinatos de todo tipo e um atentado político. Os demais contos não-russos constróem ambientação fúnebre e melancólica, mas sem tamanho apreço pelo terrível e pelo impressionante; pelo crime, tema dostoievskiano por excelência.
Os contos russos são os únicos que fazem uma modesta tentativa de experimentação literária. Ao atribuir a narração de cada um deles a um objeto específico, Lopes tenta obter algum tipo de efeito de estranhamento. Contudo, a intenção promissora fica dissolvida pelo próprio autor no seu prefácio em que ele se apressa a explicar o significado de cada uma das narrativas das “Páginas mascaradas”, e vira mero jogo de esconde-esconde. As vozes do punhal, do revólver, da torre, do veneno e da locomotiva e da fome se manifestam por monólogos interiores, certamente inspirados nos diálogos e na consciência cindida dos personagens de Dostoiévski. Claro está, porém, que Lopes não chega nem perto disso. O que ele consegue, por vezes, é criar um símile de determinadas traduções de Halpèrine-Kaminsky e de outros tradutores “amaciadores”.
Os objetos-narradores, mesmo envolvidos em situações-limite, falam sempre com a voz sisuda e filantrópica de um bom cavalheiro da belle époque. O revólver, vendo o nobre amo prestes a cometer suicídio, pensa na vida razoável do príncipe e indaga se o gesto tresloucado é necessário; o
veneno perora contra as maquinações perversas da esposa de seu dono, que se compraz em liquidar o marido bom e generoso; a torre vale-se de um tolstoísmo frouxo para condenar os horrores da guerra. As discussões filosóficas sobre vida e morte que tais objetos ensejam permancem sempre algo postiço, como se fossem decalques aplicados à narrativa.
Para ressaltar o caráter folhetinesco de tudo isso, três dos contos são histórias de príncipes. E os objetos-narradores – punhal, veneno – são típicos emblemas de vilania no melodrama.
O propósito de Tomás Lopes é emular o “gênio” dostoievskiano e comover o leitor. A abertura de “Dúvida” traz lugar-comum repetido em todos os contos: “Era uma fria noite de inverno; lá fora geava como no Pólo; e eu pensava nas criancinhas que morriam de frio e fome, hirtas e enregeladas na neve da cidade”. A opulência do aposento do “Príncipe Dievouchkine”, cheio de tapeçarias e peles, contrastava, novamente, com “as criancinhas morrendo de frio...”.91 Em “Mistério”, o frio, a
miséria das crianças e a perfídia da mulher, volúvel e contraditória, são elementos definidores de ambiência “russa”. Signos de que Lopes lança mão para criar um simulacro dostoievskiano:
Oh! As incoerentes injustiças da alma feminina! Nobre e belo Dmitry Fefitchine! Se eu pudesse salvar-te! Mas como? Se eu não tenho nem vontade nem querer? Nunca lamentei tanto a minha imobilidade passiva; se eu pudesse desfazer-me e queimar-lhe o seio branco onde arfava uma doçura de rola e se encondia manhosamente um coração de víbora! Ah! Aquela mulher, que tão calma e capciosamente enterrava na terra úmida o doce Dmitry Ferfitchine, tão bom e amoroso!92
Morto “Ferfitchkine” pelas mãos de Olga, o enterro é preparado sob clima plúmbeo: “Daqui a três dias é o enterro de Dmitry Ferfitchkine; que será de Olga? Que miséria! Que frio!”. O clima invernal serve de recurso fácil para dar cor local e caracterizar a miséria humana. Tão fácil que Lopes deixa de lado qualquer preocupação com a verossimilhança. Datado de “S. Petersburgo – junho – 18++”, este é o cenário desolador do verão russo: “Lá fora ventava e caia a neve. Quanta gente àquela hora não acharia sabor e encanto à vida? (...) Lá fora, o vento e a neve... Que frio! Que frio!”.93
Ninguém é o que parece ser, em Dostoiévski e no melodrama. Em “Agonia”, o príncipe Astafy Tvorogov manuseava seu punhal e preparava-se para cometer suicídio, com o mesmo
otchaianié que apoderou-se de “Lina de Moscou”.
O apelo ao sentimentalismo desbragado mantinha evidentes laços intertextuais com as traduções afrancesadas de Dostoiévski. Em 1897, o paulista Diário popular oferecia aos leitores versão da “Àrvore de Natal.” Originalmente fragmento do Diário de um escritor, no contexto finissecular
90 Lopes provavelmente teve em mãos a edição de Katia traduzida pelo Conde d’Hauterive, lançada pela Perrin em 1878 e
reeditada em 1885, 1886 e 1911 (e pela Plon em 1928). BOUTCHIK, Vladimir. Bibliographie des ouvres littéraires russes
traduites em français.
91 LOPES, Tomás, op. cit., 1907, p. 45. 92 Idem, pp. 55-56.
circulava, como vimos, em uma coletânea de novelas e contos adaptada por Halpérine-Kaminsky. Eis como se encerra a estória:
Depois de apalpar a face de sua mãe, admirou-se de senti-la completamente imóvel e tão fria como a parede. -Ah! Faz muito frio aqui.
Ficou ainda algum tempo junto dela; tendo sua maozinha pousado no ombro da morta, assoprou os dedos para aquecê-los e agarrando o seu gorro que caíra, saiu às apalpadelas(...)
Mas em compensação fazia calor, havia o que comer, ao passo que aqui vê-se movimento, quanta gente caminha, quantos cavalos, quantos carros e sobretudo quanto frio! Ah, este frio!94
A ligação estreita com as traduções francesas maciçamente disponibilizadas após 1883-1886 se torna ainda mais clara na escolha dos nomes e sobrenomes russos dos personagens das “Páginas mascaradas”. Tomás Lopes obteve suas informações em um apanhado de obras russas, em especial as de Dostoiévski. A começar pelo próprio pseudônimo com que publicou o primeiro dos contos pseudo-russos em O país: “Kalganov” está nos Irmãos Karamazov. “Tvorogov” é personagem de La
femme d´un autre. O “Dievouchkine” do primeiro conto é protagonista de Biédnie liúdi (O nome
“Yestafy”, embora existente em outras obras de Dostoiévski, também está nesse primeiro romance). “Ferfítchkine” aparece em Notas do subsolo. “Volkonsky” pode ser Valkóvski, de Humilhados e ofendidos (segundo Vogüé, um “traidor de melodrama”), ou variação dos Bolkônskis de Guerra e paz. A caracterização dos personagens, portanto, é tributária direta da difusão de traduções estabelecida havia cerca de quinze anos.
Além de prestigiar as traduções, Tomás Lopes devia refletir sobre as considerações dos críticos literários. Vogüe, lembremos, prefaciou algumas dessas edições. Em “Vertigem”, o facínora Androwitch Forfitkaia prepara-se para arremessar a esposa Catharina Vanikaia do alto da torre- narradora:
De súbito Androwitch Forfitkaia, reunindo as suas cansadas forças de bêbado, ergueu Catharina à altura da balaustrada; houve um arrepio naquele corpo fraco que tremia, e ele, o ébrio, gozou alguns instantes o prazer de sentir aquele pavor! E eu, quieta, na minha imobilidade de tantos anos, não podia libertá-la, nem salvá-la! Os verdes olhos de Catharina estavam parados de assombro; ela adivinhava que os braços cansados do marido já não podeiam sustê-la mais