Esquema 3. Formas de debate
1. GÊNEROS TEXTUAIS/DISCURSIVOS
1.4. Aprendizado e zona de desenvolvimento proximal
Iremos tratar um pouco mais sobre a relação entre desenvolvimento e interação humana formando, segundo Vygotsky (1991), o conceito de zona de desenvolvimento proximal, (doravante ZDP), ou seja, essa teoria ―define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário‖ (VYGOTSKY, 1991, p. 58).
Segundo o autor, A ZDP define funções que ainda não amadureceram, mas que estão no processo de maturação e que futuramente irão amadurecer através das relações interativas com sujeitos mais capazes. Sendo assim, as interações entre os pares nas relações dialógicas sociais são de fundamental importância para o pleno desenvolvimento humano. O aprendizado é construído através dessas conexões mútuas no processo colaborativo entre eles formando, dessa maneira, a zona de desenvolvimento proximal.
Rego (1995) afirma que Vygotsky não ignora as definições biológicas humanas, entretanto, atribui enorme importância aos aspectos sociais que fornecem instrumentos e símbolos que mediam a relação do indivíduo com o mundo, fornecendo mecanismos psicológicos e formas de agir nesse mundo.
Conforme podemos perceber, ―o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas‖ (VYGOTSKY, 1991, p.61). É pelo aprendizado que o ser humano se desenvolve atuando ativamente nas relações sociais, despertando os processos internos desse desenvolvimento que ocorre somente em contato com o ambiente cultural. Por exemplo, uma criança nascida de um casal surdo-mudo só aprenderá a falar se houver contato com pessoas que falem e interajam com ela e, caso isso não ocorra, não desenvolveria sua linguagem oral, mesmo com todos os requisitos biológicos necessários para tal finalidade. Sendo assim, ―o desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações propícias ao aprendizado‖ (OLIVEIRA, 1997, p. 57).
Nessa perspectiva, é o aprendizado que possibilita o processo de desenvolvimento, este de natureza social específica é capaz de inserir as crianças no universo intelectual daqueles que estão em sua volta. Vygotsky (1991) explica que o aprendizado da criança se inicia antes mesmo dela frequentar a escola, porém, o aprendizado escolar introduz novos elementos no seu desenvolvimento, e são esses novos elementos que poderão por meio nas relações interativas ser propiciadores da aprendizagem.
Além disso, Vygotsky (1991) analisa a questão do aprendizado sob dois níveis, o nível de desenvolvimento real ou efetivo, cujas conquistas já foram consolidadas pelas crianças e o nível de desenvolvimento potencial, cujas ações a criança é capaz de fazer mediante o auxílio de alguém, surgindo assim, uma ZDP que se refere à distância entre o que a criança sabe fazer sozinha e aquilo que ela realiza em colaboração com outras pessoas de seu grupo social. Por isso, as intervenções colaborativas salientam evidências de funções psicológicas em maturação, entendendo, pois, que o individuo só poderá tirar proveito dessas intervenções se tiver a capacidade de entendimento através do suporte das funções em desenvolvimento e, assim, entender o significado do auxílio recebido (CHAIKLIN, 2011).
Concordando com Vygotsky (1991) e o conceito de ZDP, buscamos alinhar em nosso trabalho interventivo a essa teoria da aprendizagem associada às nossas atividades propostas em contexto escolar, ou seja, no ensino-aprendizagem do gênero debate regrado buscamos perceber o desenvolvimento da argumentação escolar na oralidade por meio das orientações da professora pesquisadora como mediadora nesse processo, ou seja, através de uma ZDP criamos uma relação de colaboração entre os envolvidos no processo de ensino do gênero em estudo.
Ademais, buscamos, também através da ZDP, relacionar o ensino da língua (gem) de maneira dialógica e interativa, visando uma aprendizagem realmente eficaz, pois as relações dialógicas entre os estudantes favorecem a construção da aprendizagem nas trocas interativas, quando entendemos que este momento colaborativo das atividades proporciona um aprendizado mais eficaz nas trocas realizadas entre os estudantes interlocutores desse processo. Com isso, segundo Oliveira (1997), Vygotsky ao desenvolver o conceito de ZDP e outras ideias, oferece elementos de extrema importância para a compreensão entre ensino, aprendizagem e desenvolvimento, visto que
(...) o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em operação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança (VYGOTSKY, 1991, p. 60-61).
Segundo o autor, o aprendizado desperta diversos processos internos de desenvolvimento, capazes de operar apenas quando as crianças interagem com adultos e com outras crianças em seu ambiente. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se partes das aquisições do desenvolvimento independente da criança.
Contudo, as práticas escolares de acordo com os princípios vygotskianos deverão considerar o sujeito como produtor ativo no seu processo de conhecimento, já que não é um receptáculo vazio recebendo passivamente as informações externas. De acordo com essa perspectiva, pensamos em aulas realmente significativas, buscando promover trocas interativas entre os estudantes e suas contribuições em sala de aula como sujeitos produtores de conhecimentos. Nos debates que promovemos a interação entre os estudantes foi de fundamental importância para o desenvolvimento crítico e argumentativo na oralidade, pois o ensino dos gêneros orais é tão necessário quanto o escrito no ensino-aprendizagem de uma língua a serviço das relações sociocomunicativas de linguagem. Por isso, almejamos ―uma escola em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes‖ (REGO, 1995, p. 118).
Portanto, na próxima seção trataremos das práticas de ensino de língua (gem) no contexto de sala de aula.