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imposto trabalhistas (no caso da empresa para a qual esses trabalhos são

6 AS SUCESSIVAS MUDANÇAS DE TRABALHO/EMPREGO O capítulo anterior mostrou que todos os sujeitos pesquisados

6.1 RAZÕES DAS MUDANÇAS

6.2.2 Aprendizados e suas ambivalências

Sabe-se que toda mudança de ocupação normalmente oportuniza o aprendizado de um novo ofício, de um novo “fazer”; mesmo que seja uma mudança para a mesma ocupação, porém em uma empresa diferente, as atribuições a serem exercidas não serão exatamente as mesmas. As histórias dos participantes evidenciaram não apenas os quantitativos, mas também a diversidade de ocupações, possibilitando igualmente a diversidade de aprendizado. Assim, a segunda subcategoria identificada refere-se aos aprendizados e suas ambivalências21. Os sujeitos ressaltaram essa questão sob duas perspectivas, expressando a ambivalência em relação a ela: a primeira refere-se a um sentimento positivo com relação ao aprendizado adquirido, sendo este inclusive evidenciado como única coisa positiva em uma trajetória com sucessivas mobilidades laborais; a segunda aborda os sentimentos negativos com relação ao ato de aprender, ou seja, à repetição do processo de aprendizagem, iniciado a cada troca de trabalho/emprego.

21 Reconhece-se que aprendizagem e aprendizado são conceitos diferentes: a primeira é entendida como o processo pelo qual se aprende e o segundo é o resultado desse processo, ou seja, o que de fato se aprendeu (STEIL, 2002). No entanto, como neste estudo tais conceitos foram mencionados pelos participantes como sinônimos, contemplando essa singularidade mantivemos como trazido.

Com relação aos aspectos positivos dos aprendizados, sete participantes ressaltaram o vasto e diverso conhecimento oriundo dos diversos ofícios aprendidos ao longo da sua trajetória ocupacional, compreendendo esse amplo aprendizado como um benefício que ficou para suas vidas. Ágata diz: [...] eu tive uma experiência enorme, eu aprendi muita coisa. É isso que ficou. Esmeralda detalha mais a respeito:

[...] de todo lugar que eu passei, sempre adquiri um conhecimento, né. Então assim, eu acredito que adquiri muito, alguns conhecimentos, né. Já passei por várias situações, por vários determinados serviços, né. [...] Tive esse conhecimento, essa carga para mim hoje. [...] Tive esse conhecimento, esse feeling legal, né, que foi de crescimento para mim. [...]. Eu adquiri muito aprendizado, muitas coisas que atualmente eu coloco na minha vida.

Questiona-se, porém, o fato de esse conjunto de conhecimentos expresso acima ainda não ter possibilitado a Esmeralda sair da precariedade socio-ocupacional, mesmo estando no ensino superior. Igualmente no caso de Opala, o conjunto de aprendizado relatado abaixo não permitiu que ele saísse da marginalidade do crédito financeiro, já expresso no item anterior, e muito menos que lhe possibilitasse estar empregado na ocasião da coleta de dados:

Muito aprendizado, bastante aprendizado, bastante bagagem que eu tenho certeza que tem gente ai que tem anos de empresa, mas não tem a experiência que eu tenho hoje.

As percepções sobre adquirirem “muitos aprendizados” em decorrência das trajetórias com sucessivas mobilidades ocupacionais também são expressas referindo essas trajetórias quase como condição para o conjunto do aprendizado: Aprendi muita coisa que não aprenderia se eu não tivesse essa trajetória (Safira); [...] foi bastante conhecimento que eu jamais imaginava que teria. E hoje eu tenho esse aprendizado que eu não esqueço mais (Topázio). Com relação aos conhecimentos adquiridos no e pelo trabalho, e à proximidade entre trabalhador e atividade, Gernet e Dejours (2011) apontam que:

o saber-fazer aprendidos são consideravelmente, talvez mesmo inteiramente, remanejados no curso mesmo da atividade de trabalho, e desvendam

assim a parcela subjetiva do trabalho e seu caráter “vivo”. O trabalho real não pode, por conseguinte, ser apreendido como uma coisa ou um objeto separado daquele que realiza (p. 62, grifo nosso).

Essa concepção, juntamente com os relatos dos participantes, conduz à reflexão de que o fato de experimentarem tal aprendizado, ainda que este não os leve à superação da precariedade laboral, pode ser a única forma de vivenciarem os prazeres do “trabalho vivo”, conforme expressado por Marx (1985/1818-1883). Pode-se perguntar, então: seria essa a única fagulha de continuidade, diante de tantas rupturas subjetivas na relação com o trabalho contemporâneo? Diante de tantos dissabores vivenciados, o “aprendizado” obtido seria aquilo que os mantém integrados diante de tantas fragmentações? Essas questões ganham força analisando-se a narrativa de Turquesa: É a única coisa positiva

nesse monte de troca de emprego. Se aprende um monte de coisas e assim, a gente cresce como pessoa (grifo nosso). Ou seja, se não há um crescimento socio-ocupacional ao “final” de tantas trocas de trabalho/emprego, haveria, pelo menos, o ganho do crescimento pessoal que se deu no e pelo trabalho, conforme percebido por esses sujeitos.

As perspectivas negativas do aprendizado foram explicitadas de forma ambivalente, conforme relata Jaspe:

Então, é bom e é ruim. Você tem que conviver

com muitas pessoas. Você conhece muitas empresas, lugares bons e ruins, aprende muito, mas isso não é fácil, nem sempre é bom [...] Até aprender outro serviço... e, quando se aprende, precisa mudar de serviço. Então é difícil (grifo nosso).

Em seu relato, fica claro o círculo vicioso: é necessário “aprender outro serviço”, e, “quando se aprende”, vem a necessidade de novamente “mudar de serviço”, reiniciando o processo. No caso de Jaspe, sua trajetória de trabalho foi, dentre todas, aquela que teve o maior quantitativo de ocupações, o que nos induz a pensar que ele está continuamente exposto às exigências de aprender a fazer tudo de novo, compreendido pela maioria dos participantes como um aspecto negativo dessas constantes trocas laborais. Tal vivência minimamente desestabiliza a constituição identitária desses trabalhadores, seja por esses rompimentos do contínuo “aprender a fazer”, seja pela continuidade expressa na valoração do seu aprendizado.

Outras narrativas também evidenciaram o desconforto quanto ao processo de aprendizagem: [...] vou trabalhar lá e eu nunca fiz aquele serviço. Entendeu? Então isso não é bom. Até me acostumar com o serviço, ter o conhecimento ali dentro (Ágata); [...] mudar de serviço é sempre muito difícil, tem que aprender tudo de novo (Opala). As mobilidades ocupacionais para empresas com ramos de atividades diferentes aumentam as dificuldades e fazem sobressair os aspectos negativos oriundo do processo de aprendizagem. Esse fato foi trazido claramente por Esmeralda em sua narrativa:

Por serem todos [ocupações], a maioria das

empresas terem ramos diferentes, a adaptação em cada uma delas fica muito difícil: ter que aprender coisas bem diferentes, por exemplo, ser caixa, ser secretária... Mas, eu falo assim... l, eu nunca tinha trabalhado em loja de decoração, e eu sou uma pessoa bastante estrambalhada; sou uma pessoa muito grande e tal. E uma loja de decoração tem que ter todo cuidado; trabalha com cristais e com coisas delicadas. Então, eu tive que me adaptar com certas coisas, trabalhar comigo pra estar atuando e aprendendo aquelas coisas todas.

A diferença entre empresas e seus ramos distintos de atividades implica na necessidade de aprender as especificidades dos diferentes trabalhos e dos produtos de cada uma delas, o que também gera preocupação e angústia, conforme relata Topázio:

O que foi difícil é pegar o jeito do trabalho lá dentro da empresa. Aprender o jeito de fazer as coisas daquela determinada empresa. Cada empresa tem um jeito diferente de se fazer. [...] Piorou a coisa, por que lá [empresa de material de construção] tem desde parafuzinho a cano de 6

metros. Então, não foi nada fácil.

A trajetória profissional de Topázio registra grande diversidade de ocupações laborais: cortador de malha, ajudante de jardinagem, limpador de terreno, borracheiro, mecânico de automóveis, vendedor de enxovais, frentista, caixa e gerente de posto de combustível, vendedor de automóveis, assistente de depósito de fios, balconista de materiais de construção, assistente de depósito de materiais de construção, estoquista e pintor. Tomando em conta sua história, seu depoimento mostra a

necessidade de estar constantemente tendo que aprender sobre os novos ofícios:

Eu chegava lá de manhã, tanto num lugar quanto no outro: hoje vou focar naquilo ali, vou ter que aprender aquilo ali, de qualquer jeito e aprender mais uma coisa além daquilo ali. Sempre procurando aprender mais e mais até chegar onde teria que chegar. Onde achava que era a minha função.

Com relação ao aprendizado laboral, Gernet e Dejours relatam que

o desenvolvimento da inteligência no trabalho exige uma relação prolongada com a tarefa e com o material. [...] O saber-fazer técnico se caracteriza por uma experiência sensível que requer a participação dos sentidos, mas também dos sentimentos e dos afetos na manipulação das máquinas e na execução dos procedimentos de trabalho (2011, p. 62).

O curto tempo de vínculo com cada ocupação laboral vivenciado pelos participantes desse estudo converge com a fala dos autores acima, uma vez que diversas de suas narrativas expressam dificuldades nos processos de aprendizagem, ainda que relatem ter aprendido muito nas diversas ocupações laborais.

As ambivalências com relação ao aspecto da aprendizagem, primeiramente apontando o constante aprendizado como benefício e depois como angústia e preocupação, no ato da aprendizagem, estão ilustradas na narrativa de Turquesa: É claro que é difícil. Você tem que aprender e você têm que mostrar para as pessoas que você é competente e que você está pronta e receptiva para aprender sempre. Novamente o ideário neoliberal (ANTUNES, 2009) se faz presente no discurso, ressaltando a importância e necessidade da competência na relação com o trabalho.

Para além das referências ambivalentes à aprendizagem de novas ocupações laborais, Diamante, Quartzo e Rubi referiram somente os aspectos negativos do ato de aprender: [...] ter que aprender um novo serviço é muito difícil. É a parte ruim de ter muitos serviços (Diamante); [...] pra mim, assim, é muito difícil aprender as coisas, quando muda de um serviço para outro (Quartzo); [...] por mudar, ter que conhecer, aprender mais e trabalhar. Isso é difícil (Rubi). Lembramos que o

trabalho contemporâneo, por suas transformações em curso, é caracterizado por processos de constantes mudanças que envolvem “esforço coletivo de reconstrução da realidade psicossocial de uma organização de trabalho” (ZANELLI; SILVA, 2008, p. 49). Assim, requer-se dos indivíduos nela inseridos maior investimento na aprendizagem para melhor adaptar-se a novos valores e, consequentemente, a regras, atitudes e ações. Dessa forma, à medida que há investimento eficaz na aprendizagem por parte dos indivíduos, potencializa-se a capacidade destes de lidar com as mudanças.

Com relação às dificuldades em aprender um ofício novo e tudo o que implica esse ofício, além de se apresentar como um desafio, pelos quantitativos de ocupações vivenciados por todos os participantes desse estudo, também cabe ressaltar os aspectos cognitivos e o papel dos níveis de escolarização nos processos de aprendizagem. A respeito desse aspecto, ao retomar o perfil dos nove participantes que relataram dificuldades no processo de aprendizagem a cada novo ofício assumido, podemos observar que, embora Jaspe, Ágata, Diamante, Opala tenham menor escolaridade e Quartzo tenha o ensino médio completo, os demais não se caracterizam por “baixa escolaridade”, pois possuem ensino superior. Poder-se-ia, então, aventar acerca da baixa qualidade do ensino, mesmo em níveis de educação superior. Embora outros aspectos possam ser considerados como componentes em processos de aprendizagem, a categoria em questão teve por objetivo evidenciar que existem dificuldades com relação à aprendizagem no processo de sucessivas trocas de trabalho/emprego e que estas são vivenciadas pelos sujeitos como nocivas à sua constituição.

Vivenciar uma trajetória de trabalho é, sobretudo, vivenciar um conjunto de ações laborais cotidianas ao longo da vida, podendo sua maior ou menor diversidade levar a menores ou maiores rompimentos dessa regularidade, bem como possíveis continuidades. Assim, ao mesmo tempo, a identidade de trabalhador é constituída na repetição/igualdade (idêntico), mas também nas diferenças dessas vivências objetivas (dimensão coletivo/social) e subjetivas (dimensão individual). Constatou-se que as trajetórias socioprofissionais dos sujeitos deste estudo são marcadas por constantes rupturas, sendo os motivos (involuntários ou voluntários) dessas rupturas marcados, paradoxalmente, pela continuidade, na tentativa de “melhorar a vida”. Com relação às rupturas, podemos ressaltar, além da sua própria trajetória assim constituída, os aprendizados oriundos dos ofícios de cada ocupação trocada, embora esses últimos também sejam percebidos pelos sujeitos como continuidades do seu crescimento. Elas também são

observadas através das consequências nocivas relatadas nas vivências desses sujeitos, seja nos diversos processos de seleção de pessoal, na perda ou não acesso ao crédito ou nas dificuldades para uma nova adaptação, a cada mudança efetuada.