Todo objeto é situado, inscrito no mundo. Buscar apreendê-lo analisando as conexões que o atravessam, as influências recebidas, não negligenciando as dimensões sociais e psíquicas, é imprescindível à psicossociologia
(CARRETEIRO; BARROS, 2011, p. 210). Como este estudo dissertativo foi desenvolvido especificamente no município de Brusque – Santa Catarina considerou-se pertinente reunir e abordar informações relativas a esse contexto, uma vez que ele detém particularidades, e a partir de algumas delas emergiu em parte o problema de pesquisa investigado.
A história da colonização de Brusque teve início no século XIX à margem direita do rio Itajaí-Mirim. Segundo historiadores, essas margens já eram habitadas por alguns brancos, verdadeiros aventureiros e desbravadores da floresta, os autênticos pioneiros que movimentavam a vida econômica da região (SEYFERTH, 1974). A partir de 4 de agosto de 1860 quatro grupos de imigrantes alemães deram entrada na colônia dirigida pelo Barão Maximiliano de Schneeburg, que depois tomaria o nome de Brusque. Dirigida pelo seu primeiro diretor, que permaneceu até 1867, a cidade prosperou rapidamente. Em 1875 introduziram-se em Brusque numerosos contingentes de imigrantes italianos que se expandiram por numerosas linhas, formando um centro urbano que se transformou numa cidade progressista e grande centro de produção agrícola e industrial (EL-KHATIB, 1970).
A cidade herdou as características alemãs de seus colonizadores na arquitetura, na comida, nas festas populares, etc. Também outros povos legaram contribuições étnicas à cultura germânica instalada, como os primeiros imigrantes italianos e posteriormente os poloneses, que trouxeram consigo técnicas de tecelagem. Posteriormente, Brusque passou a ser conhecida como “Berço da Fiação Catarinense” e “Cidade dos Tecidos”. Foi nessa cidade que se iniciou um dos maiores pólos têxteis de Santa Catarina e do Brasil, configurando nomes importantes como: em 1892 a Tecidos Carlos Renaux; em 1898, Buettner e em 1911 a Schlösser. A indústria metalmecânica também prosperou na cidade: as principais indústrias desse segmento se concentram na área automotiva, dentre elas algumas de grande projeção nos mercados interno e de exportação atualmente. O setor de máquinas, equipamentos
eletromecânicos e serviços metalúrgicos também passou a se desenvolver significativamente a partir de 1960.
A área de confecções cresceu mais recentemente, durante os anos 1980, estabelecendo na cidade centenas de pequenas e médias empresas. De acordo com dados de 2011 do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), as oportunidades de trabalho nesse ramo representavam 76% das vagas formais de trabalho ofertadas (SEBRAE, 2011).
Nos últimos anos o setor têxtil enfrentou uma forte crise, que gerou falências e processos de recuperação judicial inclusive de empresas centenárias, as quais outrora haviam conferido a Brusque o título de “Cidade dos Tecidos”. Segundo declarações do presidente do Sindicato Têxtil em entrevista a um jornal local (WERNKE, 2012), os quantitativos de recisões continuam a crescer, mesmo diante da “crise têxtil” com que se deparou o setor, mas por iniciativa dos trabalhadores; ele ressalta ainda que esse crescimento no volume de rescisões se relaciona aos altos quantitativos de vagas de emprego disponíveis no município, que geram uma dinâmica própria no mercado de trabalho.
Brusque também se destaca no turismo religioso e de compras de produtos têxteis e de confecções, atraindo pessoas de muitos lugares do estado, e, muitas vezes, até do país. A cidade é conhecida ainda pela Festa Nacional do Marreco - Fenarreco, uma dentre as várias festas catarinenses do mês de outubro, cuja proposta é de resgate da cultura germânica dos colonizadores da cidade.
A Região do Vale do Itajaí à qual Brusque pertence é formada pela união de 53 municípios agrupados em quatro microrregiões: Blumenau, Itajaí, Ituporanga e Rio do Sul. A cultura germânica presente de modo expressivo na Microrregião Blumenau, onde se insere Brusque, traz consigo o “mito do povo trabalhador”, uma representação social do povo blumenauense, constituindo-se de uma visão da região como sendo alemã e trabalhadora. Dr. Blumenau, fundador de Blumenau, é descrito por Ferreira e Petry (1999) como um idealista, porém, um homem de ação. “Em torno dele foram cristalizando-se valores como perseverança, o espírito empreendedor, a poupança e o progresso, a ponto de se tornar referência para a cultura do trabalho germânico” (FROTSCHER, 1998, p. 94). O trabalho, na cultura germânica, assume a função de distinção entre os povos, valorizando aqueles que se aproximam dos valores vigentes nessa cultura naquilo que tange ao trabalho, e desvalorizando e denegrindo aqueles que não tomam parte nesse ideário.
Segundo relato de Seyferth (1981), com a industrialização de Brusque, que se ampliou a partir de 1930, o colono, além do seu
trabalho na roça, tinha seu trabalho/emprego na fábrica, denominando-se como colono-operário, e essa condição trouxe à tona distinções entre os trabalhadores: os Eidecksen (lusobrasileiros) e os Alemães (teutobrasileiros). O Eidecksen
é aquele que após o turno da fábrica, vai se divertir, beber no botequim, não procura melhorar sua vida trabalhando mais. O operário teuto- brasileiro, por oposição, se apresenta como alguém que está sempre procurando melhorar seu nível de vida, e após o trabalho na fábrica se dedica a outras atividades, agrícolas ou não [...] mesmo que para isso tenha que andar 10 quilômetros até a fábrica diariamente. [...]. As implicações étnicas dessa definição são mais ou menos claras: esse ‘amor’ ou ‘dedicação’ ao trabalho é um defeito do Deustschtum – a capacidade de trabalho dos que tem origem alemã vem da sua germanidade (1981, p. 200).
O trabalho na cidade era fortemente norteado por essas identificações – os Eidecksen, também conhecidos como brasileiros, e os alemães, aqueles de origem germânica, descendentes de alemães, sendo esses últimos dotados de privilégios que se davam pela preferência nas admissões, enquanto nas demissões a preferência se dava pelos ditos brasileiros (SEYFERTH, 1981). Para a autora, essa distinção por longos tempos propiciou uma ascensão social dos alemães; muitos ocupavam cargos de liderança dentro das fábricas, como contramestre e mestre e muitos foram alçados à classe dos patrões, originando muitas empresas cujos fundadores são de origem germânica. Atualmente, a preferência por trabalhadores alemães não se faz presente na cidade, em razão principalmente da falta de pessoas para o trabalho, provocada pelos elevados índices de abertura de vaga de emprego e de rotatividade (WERNKE, 2012). Esses índices elevados geram dificuldades às empresas para manterem seu “quadro de pessoal”, não podendo dar-se ao “luxo” de fazer tal distinção. De qualquer modo, parece inegável que esse enredo histórico contribuiu para a forte relação brusquense com a temática do trabalho.
A valorização e a qualificação do sujeito trabalhador, segundo esses princípios germânicos, são evidenciadas ainda nos dias atuais. Exemplo disso é a matéria “Brusquense único no Brasil” publicada em um jornal local em 18/01/2013, abordando a premiação RankBrasil referente aos 75 anos de vida laboral ininterrupta, em uma única
empresa, de um trabalhador brusquense com 90 anos de idade. O evento comemorativo que ganhou os noticiários em nível nacional contou com a presença, além do presidente da empresa na qual o Sr. Walter Orthmann trabalha, do prefeito municipal, dentre outras autoridades. Em seu discurso o prefeito assim se pronunciou: É o primeiro brasileiro da história a receber essa premiação. Para Brusque é um orgulho total. Seu Walter recebeu o troféu, mas para nós, para o Estado e para o Brasil, ele é o nosso troféu (grifo nosso). E o Sr.
Walter, por sua vez, declarou: Enquanto puder, vou trabalhar. Não estou nem pensando em parar. Estou tranquilo no meu trabalho e gosto muito do que eu faço (MATIAS, 2013, p. 8-9). Parece inegável que a premiação, o evento e também as falas evidenciam e confirmam o trabalho como um valor fortemente instaurado na cultura do município.
A cidade de Brusque conta, segundo dados de 2010 do IBGE, com uma população de 105.503 habitantes (IBGE, 2011a), sendo a 11ª maior em população no Estado e situando-se entre as dez maiores economias de Santa Catarina e na posição 184 entre os municípios brasileiros (IBGE, 2011b). Dentre os cem municípios com os melhores Índices de Desenvolvimento Municipal (IDM), segundo dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN), Brusque ocupa o 21º lugar em nível de Brasil e o 1º em nível de Estado. Esses índices abarcam as áreas de emprego, educação e saúde; com resultados variando de 0 a 1 e indicando que quanto mais perto de 1 maior é o nível de desenvolvimento, a cidade obteve índice geral de 0,88, sendo 0,90 em emprego, 0,81 em Educação e 0,93 em saúde (FIRJAN, 2008). Estes dados estatísticos e comparativos igualmente parecem justificar sua fama de ser uma cidade que oportuniza trabalho e qualidade de vida6.
“As sociedades humanas existem num determinado espaço cuja formação social e configurações são específicas” (MINAYO, 2010, p. 39); é esse o contexto social e são essas as especificidades do município de Brusque, aqui trazidos brevemente a fim de possibilitar que o leitor estabeleça um pano de fundo para a compreensão do texto.
6 Quando se pergunta a uma pessoa sobre as motivações que a levaram a vir para Brusque, seja no momento de entrevista para aquisição de emprego, seja em uma circunstância social, a resposta, na maioria das vezes, está vinculada a oportunidades de emprego e em segundo lugar à qualidade de vida.