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Aprendizagem aplicada: um modelo multi-referenciado

No documento TESE_O tecido de Penélope (páginas 96-102)

3.1 A emergência da aprendizagem nos estudos organizacionais

3.2.6 Aprendizagem aplicada: um modelo multi-referenciado

A segunda corrente alternativa sobre aprendizagem tem como suporte teórico uma base de estudos multirreferenciada; a aprendizagem está relacionada à experiência direta e requer uma intervenção ativa por facilitadores treinados ou consultores, para melhorar as práticas de aprendizagem individuais e coletivas. Postula-se que, ao desenvolver a AO, devem-se utilizar exemplos reais em projetos organizacionais, bem como a teorização de que o aprendizado resulta da interação entre instruções programadas e do questionamento espontâneo que emerge da interpretação da experiência. A aprendizagem baseada em projetos está associada à importância das práticas reflexivas, as quais se referem aos significados pelos quais os participantes de um projeto baseado na realidade fazem sentido de sua participação na experiência para si mesmos e para os outros (Raelin, 2001).

As raízes desses estudos estão:

• nos trabalhos de Dewey (1959), o qual procurava entender o pensar relacionando o pensamento reflexivo com o processo educativo a partir de uma análise pragmática;

• o processo de reflexão empregado para a aprendizagem transformativa de adultos de Mezirow (1991);

• os estudos sobre pesquisa-ação, propostos por Lewin (1973);

• também têm impacto na constituição dos estudos sobre a aprendizagem aplicada a proposta de Kolb (1984), a qual se

fundamenta nos estudos de Piaget, e a análise Freudiana sobre a resistência à mudança e aprendizagem.

Depreende-se, dessa leitura, a formação de uma heurística representativa de diferentes visões psicológicas sobre a aprendizagem, constituindo um método multirreferenciado (caráter pragmático – uso das teorias para a promoção da aprendizagem). DeFillipi & Orsntein (2003) consideram que a popularidade do modelo está associada ao fato de que esta visão seria fundamentada em quatro perspectivas psicológicas diferentes: comportamental, aprendizagem social,

cognitiva e psicodinâmica.

Ressalta-se que estas visões (emoções e aprendizagem aplicada) estão em acordo com a utilização de referenciais psicológicos, os quais fundamentam novas concepções sobre AO.

A terceira área emergente está relacionada à aprendizagem em redes. Como se trata do objeto dessa pesquisa, desenvolveu-se uma análise mais aprofundada sobre o que representa o fenômeno das redes organizacionais, e as implicações para o processo de aprendizagem.

4 CONCEITO DE REDES E SEUS DESDOBRAMENTOS NOS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS

O conceito de “rede” representa um tipo de arranjo organizacional fundamental para a compreensão do que seja “aprender” em uma comunidade epistêmica. Na dimensão ontológica, trata-se de abranger e analisar as relações em seus aspectos de construção e relação, baseando-se em elementos (pessoas ou organizações) que configuram um campo no qual diferentes sentidos constituem-se, permanecem e modificam-se continuamente, diferentemente de uma leitura antropomorfizada (rede com existência real e concreta). A compreensão deste objeto de análise tem sido caracterizada pela convergência e a adaptação de conceitos das ciências humanas e sociais.

A teoria das organizações, ao enfatizar as redes, denota um conjunto de elementos heterogêneos estruturados por meio de papéis, atribuições e relações entre seus atores (indivíduos e ou organizações), o que caracteriza o processo de estruturação, ação e pluralidade presentes nas redes.

Etimologicamente25, a origem do termo estão no latim, rete e está associada à noção de entrelaçamento de fios, cordas, cordéis, arames, com abertura regulares fixadas por malhas, formando uma espécie de tecido. Atualmente, o termo também está associado ao processo tecnológico, representando a totalidade dos circuitos e dispositivos de comutação que permitem a ligação entre os equipamentos terminais de dados. Além destas concepções de entrelaçamento e tecnologia, o termo rede também está associado a elementos pejorativos, como cilada, compilação de coisas tecida pela intriga. Apreende-se, destas concepções, que a utilização do termo na teoria organizacional apropria-se da metáfora de que as redes representam ligações as

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quais formam um produto maior, como, por exemplo, o tecido. Ou seja, a partir da conexão de elementos individuais, constrói-se uma coletividade. Ao mesmo tempo, observa-se a concepção de relação entre atores sociais, a qual pode resultar em fator de risco, capaz de gerar conflitos.

Para Nohria (1992), o uso do termo rede não seria necessariamente novo. Desde 1950, esta terminologia já vinha sendo utilizada nas ciências sociais e na área da saúde. Estudos em organização já enfatizavam a prevalência das relações informais no espaço da organização. Contudo, o termo ganhou força na década de 1990, devido a alguns fatores em especial, como: a emergência de uma nova competição entre as organizações, a qual conflitua com um modelo de organização burocrático e distanciado do processo de cooperação presente na relação interfirmas; a emergência de novos processos tecnológicos, os quais permitem às organizações experimentar novos formatos de trabalho, e novas perspectivas de relacionamento entre os atores. Por fim, o autor credita a emergência da área, como objeto de estudos, à maturidade referente à pesquisa aplicada, passando de uma abordagem esotérica para uma análise fundamentada em pesquisa aplicada com dados reais.

Considerando-se redes interpessoais, Baldi & Lopes (2002) observam que as mudanças na década de 1990 afetaram os hábitos das pessoas e o perfil da força de trabalho. As mudanças iam ao encontro das necessidades contextuais dos atores em termos de mais autonomias no desenvolvimento das atividades, flexibilidade temporal e maiores desafios nas atividades a serem desenvolvidas (Baldi & Lopes, 2002: 34).

Do ponto de vista organizacional, o uso do termo “redes” tem sido associado ao novo tipo “ideal” de organização que seria diferente da burocracia presente como referência no século XX. Trata-se do conceito de uma empresa mais flexível, orgânica, não baseada nem no mercado, nem nas hierarquias (Powell, 1990). A explicação para a sua base seria o relacionamento dos atores

entre si e com o restante do ambiente (fornecedores, clientes, competidores, etc.). Em um tipo ideal de organizações-rede, todos os membros são integrados. Grupos ou categorias formais, alocação geográfica ou foco nos mercados específicos não são barreiras significativas para a interação. Relações interpessoais de todos os tipos – comunicações formais, conselhos, socialização, etc. – seriam estabelecidas facilmente entre e dentro de grupos ou de categorias formais. Essas organizações seriam mais adaptáveis aos ambientes complexos, variáveis e turbulentos, os quais demandam flexibilidade (Baker, 1992: 397).

As redes podem ter um grande conjunto de variações e aplicações no contexto organizacional, desde redes flexíveis de pequenas e médias empresas, redes top-down (ou de subcontratação), redes de relacionamento, redes de informação, redes de comunicação, redes de pesquisa, redes de inovação, etc. As diversas possibilidades envolvem organizações de variados tamanhos e que atuam em diversos segmentos econômicos e sociais. Os princípios centrais da aplicação do conceito de redes, segundo Cândido & Abreu (2000), seriam a interação, o relacionamento, a ajuda mútua, o compartilhamento, a integração e a complementaridade.

Powell (1996) considera que os estudos sobre redes organizacionais estariam associados a uma concepção estratégica, discutindo a colaboração como forma de auxiliar as organizações a adquirirem recursos e habilidades que não poderiam ser desenvolvidos individualmente. Também estão associadas à idéia de rede as concepções de aprendizagem e inovação, nas quais a colaboração contribuiria para facilitar a criação de novos conhecimentos, e não apenas a transferência dos conhecimentos entre os membros. Por fim, as redes estariam associadas à concepção relacional em que a colaboração seria apontada como forma de tornar as organizações mais centrais, capazes de prover aos membros em rede uma influência maior sobre outras organizações.

Hardy et al. (2003) aprofundam essa categorização ao propor claramente três focos de estudo, baseados na taxionomia proposta por Powell (1996: 141/142):

a) os efeitos estratégicos da rede;

b) os efeitos relacionais e políticos da criação da rede;

c) os efeitos no nível de transferência e geração de conhecimento produzido pela rede.

Os autores definem a colaboração como central nas três vertentes, cuja ênfase seria a negociação por um processo constante de comunicação, sem que se reforcem os mecanismos de controle hierárquico entre organizações:

a) a concepção de colaboração em: rede como estratégia, varia da corrente econômica de estudos organizacionais e interessa-se pelo que a rede pode proporcionar à organização. Desse ponto de vista, o ganho representa a potencialização dos recursos e habilidades organizacionais, valorizados pela interação que traz um novo diferencial;

b) na concepção de rede como processo relacional, as relações dos indivíduos em rede restringem ou dinamizam a ação organizacional. Nesse sentido, os atores sociais têm preponderância na observação e na análise proposta pela teoria;

c) a concepção de redes pode ser observada sob o ponto de vista da

aprendizagem, a qual se expressa pela transferência de

conhecimento entre os membros, embora esteja presente também na criação de novos conhecimentos.

O estudo das redes organizacionais não necessariamente segue estas categorias como excludentes. A divisão proposta por Hardy et al. (2003) foi utilizada porque permitiu uma melhor visualização de aspectos diferenciados,

embora se considere que estão inter-relacionados, conforme poderá ser observado nos resultados deste estudo.

No documento TESE_O tecido de Penélope (páginas 96-102)