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Capítulo III – Orientações Teóricas Inerentes à Prática in loco

3.3. Fundamentação da Prática Pedagógica no 1.º Ciclo do Ensino Básico

3.3.1. Aprendizagem Cooperativa: Um Trabalho de Equipa

A aprendizagem cooperativa compreende a união dos alunos a fim de alcançar um objetivo comum (Johnson, Johnson & Hobulec, 1999). Para Lopes e Silva (2009) a aprendizagem cooperativa é vista como um procedimento, onde um grupo de alunos se ajuda mutuamente na aquisição das suas aprendizagens. Este trabalho deve ser feito em parceria entre o grupo e o professor, para que possam obter conhecimentos sobre um determinado assunto.

Deste modo, compreende-se que o objetivo não é somente que o aluno aprenda o que está a ser ensinado, mas que também partilhe com o seu grupo as suas aprendizagens, fomentando um clima de interação, troca de saberes e de criação de momentos de aprendizagem. Através de uma aprendizagem cooperativa, os alunos têm a possibilidade de desenvolver mais e melhores relações em grupo, aprendendo a respeitar e a ouvir o outro e, simultaneamente, a produzir situações de aprendizagem para si e para os outros (Arends, 1995).

O trabalho cooperativo visa, portanto, que um grupo de alunos aprenda juntos, de forma cooperada, participativa e com uma finalidade em comum. Assim, um aluno de um determinado grupo deve lutar por si, mas também por todo o seu grupo, uma vez que, para que todos tenham sucesso, o trabalho terá que ser conjunto e não individual. Por outras palavras, os alunos devem trabalhar todos, cada um com o seu papel, de forma a garantir o sucesso do grupo, como sendo um só.

Deste modo, e segundo a perspetiva de desenvolvimento cognitivo, a interação entre os alunos permite que o domínio de conceitos importantes para a sua aprendizagem sejam mais facilmente retidos. A teoria de Vygotsky, zona de desenvolvimento próximo, vem assim corroborar este princípio, pois, segundo Morgado (2004) “(...) a aprendizagem cooperada facilitará nos alunos a promoção de atitudes de colaboração relativamente ao seu progresso e ao progresso dos colegas através de trocas e apoios recíprocos” (p. 70). Lopes e Silva (2010) fazem alusão ao caráter individual do processo de aprendizagem, contudo sublinham a influência de fatores externos. Neste sentido, afirmam que ao trabalhar em grupo, os alunos conseguem mais facilmente realizar as tarefas propostas e identificar e refletir sobre os seus erros.

O trabalho cooperativo, todavia, não corresponde à formação de grupos em que cada aluno efetua um trabalho individual, sendo esta uma prática muito comum em salas de aula. A existência de um verdadeiro trabalho cooperativo respeita critérios essenciais para a qualidade do trabalho cooperativo (Johnson et al., 1999). Os critérios associados à aprendizagem cooperativa prendem-se a que os alunos devem, por exemplo, preocupar-se em alargar as aprendizagens do grupo e de cada um, trabalhando de forma satisfatória e empenhada; consequentemente aprendem a trabalhar e a estar em sociedade, permitindo alargar o espaço de troca e partilha de conhecimentos, fomentado assim momentos de aprendizagem para todos; os grupos que trabalham cooperativamente analisam e avaliam as suas aprendizagens e o seu desempenho dentro do grupo, de forma a manter e/ou adequar a sua prestação em detrimento do sucesso do grupo (Fontes & Freixo, 2004).

Lopes e Silva (2009) corroboram esta mesma opinião salientando que o grupo deve ter objetivos claros e específicos, de forma a poder avaliar e refletir sobre o seu desempenho e assim promover a aprendizagem entre e para todos.

O trabalho cooperativo visa fortalecer cada membro de um grupo enquanto ser único, pois trabalhando juntos contribuem para a formação de cada um enquanto ser social e detentor de um papel importante no grupo e na sociedade.

Segundo esta ordem de ideias é importante referir que existem atividades cognitivas e pessoais que só acontecem quando as crianças se envolvem com outras crianças e partilham, descobrem e formulam as suas aprendizagens. Assim, quando um aluno está a explicar oralmente como resolveu um problema, quando estão a ser discutidos conceitos e quando se relacionam conteúdos de uma matéria, a aprendizagem está a decorrer de forma cooperada. Os alunos preocupam-se uns com os outros e tentam que todos compreendam o que se esta a tratar. Lopes e Silva (2009) referem que a responsabilidade do aluno para com os colegas, “(...) a capacidade de se influenciarem uns aos outros, bem como as conclusões a que chegam, a modelagem, o apoio social e as recompensas interpessoais aumentam quando a interacção face a face entre os membros do grupo aumenta” (p. 18).

Clarifica-se, assim, que a interação entre os alunos e o próprio professor permite a aquisição e a promoção de uma aprendizagem mais rica, diversificada e significativa. Quando o aluno partilha aquilo que sabe está não só a promover a aprendizagem dos seus colegas, bem como a sua própria aprendizagem, pois podem suscitar dúvidas e

outro colega pode esclarecê-las, tornando assim a aprendizagem não de uma criança, mas de todo um grupo, muito mais enriquecedora.

A aprendizagem cooperativa admite um caráter mais complexo que competitivo e/ou individualista, uma vez que permite que o aluno adquira não só os conhecimentos escolares, mas também competências sociais que lhe permitam trabalhar em grupo (Lopes & Silva, 2009).

Deste modo, devem ser ensinadas às crianças algumas competências sociais para que possam compreender o funcionamento do trabalho em grupo. Estas competências podem ser consideradas também como sendo regras de funcionamento da sala de aula destacando-se, entre outras: saber esperar pela sua vez; elogiar os outros; partilhar os materiais; pedir ajuda; falar num tom de voz adequado à situação; encorajar os outros; aceitar as diferenças; escutar os outros; partilhar ideias; celebrar o sucesso; ajudar os outros. “Os membros do grupo devem saber como liderar o grupo, tomar decisões, criar um clima de confiança, comunicar e gerir os conflitos e sentir-se motivados para o fazer” (Ibidem, 2009, p. 19).

No que corresponde à avaliação do grupo, todos os elementos devem avaliar o seu desempenho. Esta avaliação deve ser feita ao grupo como um todo, mas também individualmente. Devem refletir sobre as ações de cada um, como sendo positivas ou negativas e manter ou modificar a sua forma de operar, de modo a alcançarem o maior sucesso possível enquanto grupo. Na visão de Lopes e Silva (2009), este tipo de avaliação irá permitir: que os grupos de aprendizagem se mantenham unidos; promover a aprendizagem das competências sociais; assegurar que todos recebam feedback do seu trabalho; advertir aos alunos que têm de se empenhar e praticar o seu modo de agir em grupo de forma cooperativa.

Relativamente à organização dos grupos de aprendizagem cooperativa, estes podem ser grupos formais, informais ou cooperativos de base. Os grupos formais são os que trabalham de forma cooperativa desde 1h até várias semanas de aulas. Tal como remete a aprendizagem cooperativa, estes grupos trabalham de forma a atingir objetivos comuns, havendo uma responsabilidade pelo trabalho de todos.

Os grupos informais, adotados aquando da intervenção prática in loco, correspondem aos que trabalham cooperativamente no espaço de poucos minutos até a duração de uma aula inteira. A criação destes grupos teve o intuito de promover o empenho, estimulação e interesse pelas atividades, suscitando a atenção dos alunos para o que estava a ser tratado na sala.

Por fim, os grupos cooperativos de base funcionam durante longos períodos de tempo e são grupos heterogéneos com membros permanentes. Segundo o autor acima citado, a finalidade destes grupos de aprendizagem é que os seus membros se apoiem mutuamente, transmitindo a ajuda e o estímulo necessários para a obtenção de um bom desempenho. Os grupos cooperativos de base permitem assim que os alunos estabeleçam relacionamentos seguros e duradouros, com quem se sintam à vontade e motivados para a realização das suas tarefas.

Quando são formados grupos de aprendizagem cooperativa, para motivarem os alunos a participarem e a contribuírem para o sucesso do trabalho, o professor pode atribuir papéis a cada aluno e, assim, cada um é responsável por desempenhar uma função dentro do grupo cooperativo e contribuir para atingir os objetivos comuns.

Existem vários tipos de papéis que podem ser desempenhados dentro de um grupo cooperativo, nomeadamente: o verificador, o facilitador, o harmonizador, o intermediário, o guardião ou controlador de tempo e o observador. Cada um deles com funções específicas que contribuem para o sucesso e aprendizagem de todo o grupo. É de referir que a atribuição de papéis deve ser feita de forma gradual e rotativa (Lopes & Silva, 2009).

A aprendizagem cooperativa pressupõe assim um vasto conjunto de vantagens para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Webb & Vulliamy (1996), citados por Morgado (2004) enunciam algumas:

- Em ambientes de cooperação, os alunos produzem mais ideias;

- Os alunos explicam, questionam e aprendem com os outros utilizando e desenvolvendo a linguagem e diferentes padrões de interacção;

- Em ambientes de cooperação, os alunos reconhecem mais facilmente o valor da sua própria experiência na aquisição e desenvolvimento de novos conhecimentos; - Em ambientes de cooperação, os alunos desenvolvem mais confiança em si próprios como aprendizes (p. 72).

O trabalho cooperado, para o professor, revela-se igualmente vantajoso, facilitando a gestão do seu trabalho, pois surge como orientador das aprendizagens dos alunos. Estes, por sua vez, só irão consultá-lo quando não conseguirem resolver a sua dúvida dentro do grupo de trabalho.

Por fim, é pertinente salientar que a aplicação do trabalho cooperativo deve passar por várias fases. Como o período de estágio correspondeu a apenas 120h, foi procedida somente à fase de Pré-Implementação, sugerida por Lopes e Silva (2009), que

será abordada mais a frente neste relatório, no ponto referente às estratégias de intervenção colocadas em prática no âmbito da Investigação-Ação na vertente de 1.º CEB.

3.3.2. Diferenciação Pedagógica: A Promoção de uma Educação de Qualidade