Capítulo III – Orientações Teóricas Inerentes à Prática in loco
3.2. Fundamentação da Prática Pedagógica na Educação Pré-Escolar
3.2.3. O Contributo do SAC – Sistema de Acompanhamento das Crianças
Como já fora aqui referido, a aplicação do Sistema de Acompanhamento das Crianças (SAC) possibilita ao educador a observação, a aplicação e a respetiva reflexão da sua prática, para que possa compreender os seus efeitos junto das suas crianças e, assim, aperfeiçoá-la.
A implementação do SAC permite, na perspetiva de Portugal e Laevers (2010), que o educador adquira, de um modo geral, uma perceção clara sobre as suas crianças e consiga assim, selecionar as que requerem maior nível de atenção e apoio.
O SAC incorpora, portanto, três fases, que podem ser aplicadas ao grande grupo, mas também de forma individual quando o educador achar necessário. A fase um corresponde à avaliação, a dois à análise e reflexão e a três à definição de objetivos e de iniciativas. Estas três fases estão intimamente ligadas, sendo que formam um ciclo de observação, aplicação, reflexão. Contudo, durante o estágio pedagógico, como já fora supramencionado, só foram realizadas as fases um e dois a nível do grupo em geral e a fase um a nível individual.
Para além de auxiliar o educador a conhecer o seu grupo de crianças, o SAC permite-lhe conhecer, em simultâneo, o seu espaço de trabalho, os recursos disponíveis, os objetivos que pretende alcançar, as características do meio envolvente e das famílias do seu grupo. Deste modo, o educador usufrui de todo um conjunto de vantagens para poder aperfeiçoar o seu trabalho, com o objetivo de proporcionar às crianças momentos ricos, diversificados e significativos de brincadeira e aprendizagem.
No que consta à primeira fase, o educador avalia a situação do grupo em geral, relativamente aos seus níveis de bem-estar e de implicação. Esta avaliação ocorre no final do primeiro mês de aplicação do sistema, servindo assim como avaliação diagnóstica. Posteriormente, seguir-se-á o ciclo de aplicação das três fases ao longo do tempo de utilização do SAC.
Nesta avaliação, cada criança é considerada de forma individual, no que concerne aos seus níveis, como já fora referido, de bem-estar e implicação nos diversos momentos que fazem parte da sua rotina. O educador, com o passar das semanas, se notar desajustamentos nos níveis que atribuiu a determinada criança, poderá retificá-los. Os níveis atribuídos variam do um ao cinco, sendo que se poderão distinguir pela atribuição de cores. Normalmente, as crianças que se encontram em níveis baixos (um e dois) é-lhes aplicada a cor vermelha, por outro lado, se estiverem num nível médio (três), a cor laranja, e num nível avançado, considerado bom, (quatro e cinco), a cor verde.
A cor vermelha representa as crianças que revelam baixos níveis de bem-estar e implicação, o que caracteriza uma preocupação para o educador. Estas crianças não sentem prazer nas atividades desenvolvidas, sendo a principal causa, o facto de não irem ao encontro dos seus interesses, aspeto este que requer a reflexão e intervenção do educador. Relativamente ao indicador do bem-estar, se as crianças apresentarem níveis vermelhos, significa que requerem, de forma imediata, de uma atenção acrescida, uma
vez que não se sentem bem e felizes no seu jardim-de-infância. Por conseguinte, o educador deve proceder para um acompanhamento individualizado destas crianças.
As crianças destacadas com a cor laranja são as que apresentam níveis médios de implicação e bem-estar. Para com estas crianças, o educador deve, de igual modo, tomar uma atenção acrescida, visto que ainda não atingiram os níveis considerados desejáveis, pois tal como as crianças destacadas a vermelho é provável que as atividades não estejam de acordo com os seus interesses e/ou necessidades.
Finalmente, a verde, são assinaladas as crianças que, na visão do educador, parecem usufruir totalmente do espaço, quer da sala, quer das atividades e do jardim-de- infância como um todo, não suscitando preocupações acrescidas, sendo claro que não deverão carecer da atenção e carinho de quem a acompanha.
De um modo geral, os níveis de bem-estar e de implicação estabelecem relações muito próximas, ou seja, se uma criança se sente bem num determinado contexto, terá maiores probabilidades de estar implicada numa determinada atividade. E o mesmo se observa relativamente ao nível de implicação, pois quando a criança “(...) não encontra estímulo ou desafio adequado nas atividades em oferta, (…), também terá dificuldades em se implicar e facilmente se sentirá aborrecida, desgostada, impaciente, zangada, experienciando estados psicológicos facilmente conducentes a problemas de comportamento” (Portugal & Laevers, 2010, p.79).
A abordagem individual é seguida pelo educador quando destaca crianças com baixos níveis, ou seja, com cor vermelha e/ou laranja. A Ficha 1i faz parte, portando, de um processo pessoal e abrange os dados da criança, quer de identificação, quer no que se refere às aprendizagens e ao seu desenvolvimento, dando ênfase a aspetos significativos para a criança em questão, ao seu percurso e às suas evoluções e regressões.
Esta ficha foca-se em dimensões como “atitudes”, “comportamentos no grupo” e “aprendizagens em domínios essenciais”, visando compreender os níveis de desenvolvimento da criança, essencialmente nas áreas motoras, de expressão e comunicação e conhecimento do mundo. Destaca-se ainda, por incorporar uma área onde a própria criança tem um papel ativo, partilhando o seu parecer quanto às suas aprendizagens e aos seus interesses.
Passada a fase um, segue-se para a fase seguinte, em que faz parte a análise, a reflexão e conclusão dos dados que foram retirados da avaliação do grupo em geral (1g) e, caso tenha ocorrido, de crianças individualizas (1i).
Nesta abordagem, o educador tem que ter em conta os aspetos positivos e os negativos, procurando responder às questões “O que é que está a correr bem?” e “O que é que é preocupante?”.
Os aspetos positivos representam, para o educador, uma prática que deve ser continuada e valorizada, enquanto que os aspetos negativos servem de reflexão e melhoria da sua prática. Estas reflexões deverão ser o mais sintéticas possíveis, para que o educador possa compreender aquilo que tem que mudar e/ou aperfeiçoar.
No que concerne aos aspetos negativos, estes podem estar associados a diversos fatores e, na perspetiva de Portugal e Laevers (2010), o educador quando avalia o contexto associado aos baixos níveis de implicação e bem-estar das crianças, deve ter em conta cinco “variáveis contextuais”. São elas: Oferta educativa, Clima do grupo, Espaço para iniciativa/autonomia, Organização e Estilo do adulto. Estas variáveis são, portanto, registadas na ficha 2g.
A primeira variável a ser considerada é a Oferta educativa. Nesta, o educador deve avaliar o espaço educativo, se dispõe de materiais e espaços suficientemente ricos e diversificados que possam apelar e ir ao encontro dos interesses e necessidades das crianças. O Clima do grupo, em que o educador deve ter consciência se a criança se sente bem, segura e à vontade junto de todo o grupo que a acompanha, quer crianças, quer adultos. Em relação ao Espaço para iniciativa/autonomia, o educador deve refletir se proporciona às suas crianças ambientes que possibilitem a sua iniciativa e autonomia, dando-lhes oportunidade de escolher o que querem fazer, que materiais querem utilizar, com quem querem estar/trabalhar, durante quanto tempo querem realizar uma determinada atividade e, principalmente, saber ouvir as opiniões das suas crianças e valorizar os seus conhecimentos. O quarto aspeto a ser tido em consideração é a Organização, em que o educador deve avaliar se a rotina está de acordo com os interesses e necessidades das crianças, procurando assim visar, acima de tudo, o seu bem-estar e uma educação de qualidade. O educador deve, igualmente, respeitar cada criança como ser único, tendo em mente que cada criança apresenta ritmos diferentes, em determinadas atividades. Assim, o educador deve optar por uma divisão de tarefas entre os adultos da sala, para que consiga fazer uma boa gestão dos recursos e assim, acompanhar de forma íntegra todas as crianças. Por fim, o Estilo do adulto, segundo Portugal e Laevers (2010), corresponde à variável contextual que “(...) perpassa todas as anteriores (…) e que trata de atender aos níveis de sensibilidade, de estimulação e de promoção da autonomia das crianças por parte do adulto/educador.” (p. 92).
Após uma análise detalhada sobre este pressuposto, é notável a sua relevância e o seu papel aquando do processo de ensino-aprendizagem. Seguindo os ideais propostos pelo SAC, o educador detém de um melhor e mais aprofundado conhecimento do seu grupo, dando aso à promoção de atividades e estratégias que vão ao encontro dos interesses e necessidades das suas crianças, permitindo suscitar junto das mesmas uma aprendizagem baseada em momentos significativos, estimulantes, ativos, integrados e enriquecedores para cada criança como ser único, fazendo-a sentir-se parte integrante de um todo.