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2 REFLEXÕES ACERCA DO TEMA

2.1 Aprendizagem Empreendedora (AE)

A teoria sobre a AE está em pleno desenvolvimento, sendo que alguns conceitos, considerados fundamentais, são constantemente referidos na literatura atual. Por exemplo, Leiva, Alegre e Monge (2015), recuperam a ideia de que AE é o processo desenvolvido nas ações, em que o indivíduo adquire, assimila e organiza novamente conhecimentos obtidos de estruturas existentes, construindo uma aprendizagem que afeta a ação empreendedora.

Cope (2011) afirma que experiências descontínuas ocorridas durante o processo empreendedor podem estimular diferentes formas de altos níveis de aprendizagem, que tornam-se fundamentais tanto em nível da firma, quanto em nível do indivíduo. Politis (2005) enfatiza que a maioria da aprendizagem que acontece no ambiente empreendedor, é, por natureza, experiencial. Para esse autor, a aprendizagem com experiências passadas se trata de um processo complexo, impulsionado pelo comportamento do empreendedor, que desempenha papel relevante quando se busca ampliar a compreensão, especificamente, sobre AE.

Entretanto, é recomendável fazer-se a distinção entre possuir experiência empreendedora e conhecimento empreendedor, antes de se discutir, especificamente, a AE (POLITIS, 2005). Segundo esse autor, experiência empreendedora é a experiência vivenciada pelo empreendedor, construída pela observação direta, ou participação em eventos associados com a atividade empreendedora, como a criação de um novo empreendimento, por exemplo. E o conhecimento empreendedor é o resultado prático em si, recolhido dessa experiência empreendedora, isto é, o conhecimento adquirido de forma experiencial.

Para Leiva, Alegre e Monge (2009) a AE pode ser adquirida de três maneiras, indireta, formal, e experimental, e assimilada de duas formas, por extensão, e por intenção. Para esses autores, a aquisição de forma indireta ocorre por meio da observação do comportamento, e

ações, de outras pessoas, bem como de seus resultados, e aprovação ou desaprovação social. A aquisição formal, explícita e codificada, acontece quando o empreendedor consulta formalmente fontes, como livros, artigos, ou por meio do ensino formal, treinamentos, etc.; e a aquisição experimental, quando a experiência, figuradamente, é transformada em conhecimento (LEIVA; ALEGRE; MONGE et al., 2015).

Sob o ponto de vista cognitivo, a assimilação acontece de acordo com o modo como as pessoas processam e interpretam as novas informações adquiridas, estabelecendo significados e associações com o conhecimento e as informações mantidas na memória (LEIVA; ALEGRE; MONGE et al., 2015). De acordo com os mesmos, os modos de assimilação ocorrem por extensão, quando o indivíduo assimila por meio da aplicação ativa de suas ideias, ou conceitos, sobre o mundo real, e acontecem por intenção, quando o mesmo realiza a reflexão interna.

A partir de uma dimensão social e coletiva, Taylor e Thorpe (2004) visualizam a AE como um processo de co-participação, onde a aprendizagem é dependente de fatores históricos, sociais e culturais, mais do que de fatores cognitivos dos indivíduos. Para os autores, esse processo é caracterizado por eventos críticos significantes, que servem de catalizadores da investigação sobre o próprio processo de aprendizagem. Por exemplo, por meio de uma entrevista semi-estruturada, com foco em eventos críticos, pode-se investigar a visão dos respondentes sobre o seu comportamento, no contexto onde ocorrem, viabilizando ao pesquisador fazer inferências sobre o seu comportamento e personalidade, dentre outros aspectos. No caso do empreendedor, especificamente, inferências referentes às reações e mudanças de seu comportamento diante de um evento crítico.

Ao descrever o processo de AE, Gulst e Maritz (2014) destacam o conceito original de aprendizagem de Skinner, concebido como uma mudança de comportamento, seguido pelo conceito derivado da literatura vigente, como sendo a criação do conhecimento que tende para a mudança de comportamento. Aprendizagem que, de acordo com Wang e Chugh (2014), se ocorrer no contexto empreendedor é considerada empreendedora, destacando que a AE está sendo reconhecida como parte do processo empreendedor, no qual os indivíduos, tanto proprietários, quanto inseridos nas organizações, perseguem novas oportunidades além dos recursos disponíveis, alargando as fronteiras do empreendedorismo. Em abordagem anterior, porém semelhante, Cope (2003) estuda os resultados de aprendizagem da atividade empreendedora em vários contextos, especificamente no empreendedorismo corporativo e em pequenas empresas, enfocando os empreendedores proprietários, por considerar que, durante

os primeiros estágios de crescimento de uma organização, existe uma ligação inextrincável com o seu fundador.

Com o passar do tempo, uma vez ultrapassadas as fronteiras de seu campo de estudos, o empreendedorismo avança sobre o da Aprendizagem Organizacional (AO), inaugurando uma área comum de conhecimento entres esses dois campos, na medida em que o empreendedor ao desempenhar o papel de proprietário-gestor, ou integrante de uma organização, pratica a atividade empreendedora. Tal atividade pode se efetivar pesquisando, identificando ou desenvolvendo novas oportunidades de negócio, novos produtos, serviços ou tecnologias, ou criando novos conhecimentos e habilidades (WENG e CHUGH, 2014). Assim, de acordo com esses autores, a AE pode ser identificada como a área comum de conhecimento entre os contextos do empreendedorismo e da AO, decorrente e, ao mesmo tempo, promotora de processos experienciais complexos, nos quais os empreendedores aprendem com suas experiências passadas e presentes, como demonstra a Figura 1 a seguir.

Figura 1 – Fronteiras entre empreendedorismo, Aprendizagem Organizacional e AE, e tipos de AE.

Fonte: O autor com base em Wang e Chugh (2013, p.10).

Wang e Chugh (2013) consideram um dos principais desafios da AE identificar e compreender como o indivíduo se comporta diante de demandas inerentes à atividade empre-

Aprendizagem Organizacional Aprendizagem

Empreendedora

Aprendizagem individual Aprendizagem por explora- ção e aproveitamento de

oportunidades

Aprendizagem intuitiva e sensorial

endedora, como, diante de uma possível oportunidade empreendedora ou de um evento críti- co. Como demonstrado na Figura 1 anterior, os autores descrevem os tipos de AE:

– Aprendizagem individual, quando o indivíduo adquire dados, informações, habilida- des ou conhecimento;

– Aprendizagem exploratória, quando o foco do empreendedor está em descobrir e interpretar as informações oriundas do campo, referentes aos resultados obtidos diante dos esperados – ponto de vista da variação de performance;

– Aprendizagem de aproveitamento, quando a ênfase se concentra em pesquisar o que

é aproveitável, visto antes, planejando e delineando as oportunidades percebidas, por meio do aprofundamento de percepções iniciais e da sua experimentação;

– Aprendizagem intuitiva, quando adquirida pelo conhecimento das relações entre os fatos e a descoberta de possibilidades – pensamento conceptual e abstrato;

– Aprendizagem sensorial, se dá pelo conhecimento dos fatos ou detalhes com base nos sentidos externos, por meio de sinais, sons e sensações físicas – pensamento analítico e concreto (WANG; SHUGH, 2013).

Segundo esses autores, experiência empreendedora é a experiência vivenciada pelo empreendedor, construída pela observação direta, ou participação em eventos associados com a atividade empreendedora, como a criação de um novo empreendimento, por exemplo, enquanto que, o conhecimento empreendedor é o resultado prático em si, recolhido dessa experiência empreendedora, isto é, o conhecimento adquirido de forma experiencial.

Politis (2005), assim, descreve AE como o processo composto por três componentes principais: as experiências anteriores do empreendedor, o processo de transformação, e o conhecimento produzido associado ao existente, para efetivar o reconhecimento e o aproveitamento de oportunidades vindouras e o enfrentamento do novo. Em outras palavras, o processo que aproveita os resultados antecedentes do empreendedor e os resultados do processo de transformação dessas experiências em conhecimento novo, no qual o modo predominante desta transformação em conhecimento, influencia o tipo específico do mesmo, que por sua vez, poderá servir de guia para a escolha ou enfrentamento de experiências futuras.

A aprendizagem relacionada ao comportamento do empreendedor, vem recebendo diversas abordagens em estudos acadêmicos (UCBASARAN et al, 2012; BYRNE e SHEPHERD, 2013; COELHO e MCCLURE, 2005). Por exemplo, na abordagem sustentada por Politis e Gabrielson (2009) a ideia central da AE é o valor da ação pessoal e direta, como experiência vivida, comparado com a simples observação da ação de outros ou da leitura. Os

autores descrevem AE como um processo cíclico onde os indivíduos se voltam para trás e para frente entre modos opostos de ação versus reflexão sobre eventos críticos ou descontinuidades ocorridas na sua vida. Na visão de Pittaway e Thorpe (2013), uma das dimensões da aprendizagem ocorre por processos adaptativos, onde o aprendizado acumulado através da experiência possibilita aos empreendedores construir um estoque cognitivo vinculado à aprendizagem originada na experiência, que, após reflexão, pode ser utilizado em situações similares.

Sob outro enfoque, a aprendizagem é o processo gerador-proativo, em que o empreendedor passa a ser sensível a potenciais incidentes críticos, isto é, pela identificação de fatores e circunstâncias que possam vir a ser críticas, entre as quais se inclui o insucesso do negócio (PITTAWAY; THORPE, 2013).

Cope (2011), sob uma análise empírica e teórica do IE, identifica como um dos seus resultados possíveis, o conjunto de processos de aprendizagem desenvolvidos em multi-fases, ou quadros, que são o centro de um contínuo temporal do próprio IE, em torno do qual gravitam um leque de possibilidades de aprendizagem. Na visão desse autor, após o evento do IE, podem ocorrer as seguintes fases, ou quadros temporais:

– Primeiro quadro, chamado de “o momento depois”, quando são analisados os custos imediatos do fracasso, financeiros, sociais; psicológicos e de inter-relacionamentos, e utilizados mecanismos de entrentamento;

– Segundo quadro, chamado de “processo psicológico e social”, quando é buscada a recuperação do fracasso, por meio de processos de fazer sentido, de maturação, e de inter- relacionamentos, eos processos de aprendizagem possíveis;

– Terceiro quadro, chamado de “reflexão crítica”, relacionando o processo psicológico social com o comportamento do empreendedor e os processos de aprendizagem possíveis;

– Quarto quadro, chamado de “processos de aprendizagem inter-relacionados”, quando materializam-se, ou não, as diferentes formas e resultados cognitivos, de processos inter-relacionados de aprendizagem, e de recuperação diante do fracasso (COPE, 2011).

O mesmo autor, sintetiza o conjunto de processos de aprendizagem, como sendo, para o indivíduo que experimentou o IE, um demorado processo de “sensemaking”, ou seja, busca do sentido do que ocorreu.

Diante do exposto, este trabalho adota a definição de AE a partir da abordagem de Cope (2003, 2011, 2013), especificamente, associada ao IE: aprendizagem empreendedora – diante do insucesso empresarial –, é conjunto de processos de aprendizagem desenvolvidos em multi-fases, que constituem o centro de um contínuo temporal do próprio insucesso

empresarial, em torno do qual gravitam um leque de possibilidades de aprendizagem. O conjunto dessas multifases, ou quadros, provocados pelo IE, são o momento depois ao evento, o processo psicológico social, o processo de reflexão crítica, e os processos de aprendizagem

inter-relacionados (de baixos e/ou altos níveis).

A adoção desta definição possibilita a identificação dos processos a que os empreendedores, neste estudo, brasileiros e uruguaios, eventualmente tenham se submetido ao vivenciarem o fracasso de seus negócios.