2 REFLEXÕES ACERCA DO TEMA
1 Fracasso no topo
2.4 Comportamento do empreendedor
Comportamento pode ser considerado, de uma forma geral, como uma característica primordial dos seres vivos, praticamente identificado com a vida (SKINNER, 2003), em particular do ser humano.
O comportamento do empreendedor, especificamente, pode ser descrito por determinadas características que algumas pessoas apresentam, por exemplo, diante de oportunidades empreendedoras, isto é, de como as percebem, como pensam, se adaptam, se predispõem, e agem de forma empreendedora (HISRICH, PETERS e SHEPHERD, 2014).
Na visão desses autores, a intenção, ou predisposição, desempenha fundamental papel para a atividade empreendedora, uma vez que captura os fatores motivadores que influenciam o comportamento do indivíduo, como demonstrado anteriormente na Figura 1. Nesse sentido, estimulam a manifestação de determinadas características atribuídas aos empreendedores, como por exemplo: a educação, refletida não apenas na escolarização formal, mas também na experiência de vida, (capital humano), na capacidade de gerar conhecimento, na habilidade de
se comunicar e nas aptidões para descobrir novas oportunidades e solucionar problemas; a idade, sua relação com o processo da carreira de empreendedor, em outras palavras, a idade de vida relacionada com a sua idade empreendedora, representada pela experiência empreendedora que é considerada um dos mais relevantes indicadores para prever-se o sucesso empreendedor; e, o histórico profissional, representado pela experiência profissional anterior do indivíduo (HISRICH, PETERS e SHEPHERD, 2014).
Entretanto, de acordo com Ucbasaran et al. (2013), considerando que onde existe a incerteza também existe a possibilidade do fracasso, o empreendedor que pode alcançar o sucesso (com ou sem todas as características citadas) pode, também, sofrer o insucesso, o que pode impactar profundamente o seu comportamento nos negócios.
O comportamento diante do IE, especificamente, de acordo com Gulst e Maritz (2013), tem fundamento cultural, por exemplo, a atitude-resposta diante do fracasso é positiva nos Estados Unidos, enquanto que no Reino Unido e no Japão é negativa, o que, segundo eles, revela parte do carácter paradoxal do IE. Esse paradoxo também é representado pelo fato de que, uma vez ocorrido o IE (percebido como um incidente crítico), em um primeiro momento, pode provocar um instintivo sentimento de evitação no indivíduo, e, subsequentemente, em sentido contrário, pode ser percebido como um ente “professor”. Coerentes com essa concepção, estudos com empreendedores que experimentaram o IE, evidenciam elevado conteúdo emocional em seus relatos, revelando sentimentos como medo, confusão, pressão, estresse, e determinadas manifestações metafóricas como, por exemplo, sentir que está no purgatório (COPE e WATTS, 2000; SHEPHERD, 2003; UCBASARAN et al., 2013). Nos estudos de Cope e Watts (2000), incidente crítico é classificado como um evento essencialmente emocional, provocando um período de intensos sentimentos, que perdura enquanto decorre a subsequente reflexão interpretativa do fenômeno ocorrido.
Referente ao comportamento do empreendedor diante do IE, Shepherd (2003) mantém o foco de seu estudo sobre o indivíduo que possui e gerencia seu próprio negócio, a quem denomina auto-empregado, pelo fato do mesmo, além de se manter por meio da atividade empreendedora, estabelecer um estreito relacionamento emocional com seu empreendimento. Conforme esse autor, especialmente na empresa familiar, tal envolvimento emocional pode estar ligado à criação de um produto ou serviço concebido de acordo com seus ideais de funcionalidade, inovação ou estética, em completa identidade com o empreendedor. Além disso, muitas vezes, o negócio não serve apenas como fonte de sobrevivência, mas como um catalisador de força e identidade da família, sendo que, uma eventual quebra, pode representar para o auto-empregado uma forte perda pessoal, gerando uma resposta emocional negativa.
Segundo Shepherd (2003), cada uma dessas respostas emocionais negativas pode afetar a capacidade de aprendizagem do invíduo diante do fracasso, especialmente por suas circunstâncias ambíguas, destacando que a aprendizagem com o insucesso não ocorre de forma imediata nem automática, dependendo da ocorrência de processos psicológicos e de recuperação do trauma emocional. Nesse sentido, Byrne e Shepherd (2013) enfatizam que empreendedores, seus negócios e seus fracassos, se diferenciam de forma substancial, e que essas diferenças são refletidas no conteúdo emocional, explorado nas narrativas dos empreendedores que vivenciaram o IE, impactando seus esforços de compreender o que faz sentido (makesense) na descontinuidade de seus negócios. Segundo esses autores, um dos resultados de seus estudos sobre as emoções relacionadas ao IE, revelado na narrativa dos sujeitos, evidencia que o impacto desse evento estressante gera emoções negativas, e, que, mesmo assim, também produz emoções positivas, que, associadas a um enfrentamento (coping) focado na emoção, por exemplo, desempenham um papel relevante no processo de reflexão e análise no momento logo após, ou depois, ao evento.
Para Byrne e Shepherd (2013), o “fazer sentido”, no âmbito das emoções individuais, demanda numerosos recursos cognitivos que, juntamente com o refletido, ou pensado, pode expandir as estruturas cognitivas, pensamentos e ações, criando um contexto cognitivo positivo, estimulador de emoções positivas. Segundo Shepherd (2003) a aprendizagem diante do IE pode ser abordada considerando possíveis barreiras emocionais para o empreendedor que o experimentou, que influenciam o “fazer sentido” e os resultados da própria aprendizagem, isto é, às questões de conteúdo e natureza dessa aprendizagem, quando este percebe as informações sobre o IE. A relação entre essas variáveis é demonstrada pelo modelo de relacionamento entre as informações recebidas da perda do negócio e a aprendizagem alcançada pelo empreendedor, moderado pelos níveis de trauma percebido pelo mesmo, como demonstra a Figura 3:
Figura 3 – Relacionamento entre os níveis de informações sobre a perda do negócio e de aprendizagem do empreendedor, moderado pelo nível de percepção do trauma causado pelo IE.
Fonte: O autor com base em Shepherd (2003, p. 321)
Para Shepherd (2003) o montante de informações (feedback) recebido pelo empreendedor sobre a perda de seu negócio – por exemplo, lembrança do dia do fechamento do negócio, da demissão dos colaboradores, da entrega das chaves ao liquidador, da cobrança dos credores, etc. – no primeiro momento, pode ser mais significativo do que as informações sobre as ações ou os motivos que provocaram o seu fracasso. Em uma segunda fase, que o autor denomina de o momento seguinte (aftemath), o feedback, então com mais informações, proporciona ao empreendedor uma oportunidade de aprender mais sobre a experiência, entretanto, na visão desse autor, tanto os limites cognitivos do indivíduo, como o impacto emocional – trauma – percebidos pelo o que faz sentido no IE, podem se transformar em barreiras limitantes – moderadores – para o processo de aprendizagem potencializado pela experiência vivida.
Nessas circunstâncias, é típico o empreendedor apresentar uma resposta emocional negativa (grief) diante do sentimento de perda – semelhante ao luto – do seu negócio, o que, desperta um comportamento experiencial e sintomas psicológicos como consequência, ainda de acordo com Shepherd (2003). Complementando, esse autor afirma que existem evidencias empíricas de que uma resposta com base em emoções negativas interfere na atenção do indivíduo às informações recebidas da perda do negócio, e, que, cada uma dessas interferências, impacta fortemente a habilidade de o mesmo aprender diante de eventos críticos, isto por que, segundo o autor, eventos desse tipo recebem alta prioridade no processamento de informações, mais do que um evento de magnitude mais moderada.
Baixo nível de trauma
Moderado nível de trauma Alto nível de trauma
B aixo Nível de aprendizagem
do empreendedor
Nível de informações sobre a perda do negócio
Como o modelo anteriormente mostrado na Fig. 2 sugere, quanto menor for o nível de informações recebidas em feedback sobre a perda do negócio, diante de um baixo nível de percepção do impacto causado pelo IE, menor será o nível de aprendizagem adquirido pelo indivíduo, em outro extremo, quanto maior for o nível de informações diante de um elevado nível de impacto percebido, e menor o trauma sofrido, maior será o nível de aprendizagem adquirido (SHEPHERD, 2003).
Referente ao processo psicológico do IE, Shepherd (2003) inicia sua abordagem pelas informações que as pessoas recebem como resultado da perda do negócio (feedback) isto é, sobre suas próprias ações – ou seu comportamento como auto empregado – diante do insucesso, usando-as para pesquisar como seu negócio fracassou, revisar seu conhecimento sobre como gerenciar negócios, revisar seus sistemas de crenças e princípios, perceber o sentido que faz para si, superar o fracasso, e, se possível, aprender com o mesmo, dentre outras.
Sob esse enfoque, Ucbasaran et al. (2013) estruturam os processos decorrentes do IE, conforme a Figura 4 a seguir:
Figura 4 – Processos decorrentes do Insucesso Empresarial – evento crítico.
Fonte: O autor com base em Ucbasaran et al. (2013, p.16).
Nesses processos inter-relacionados, pode-se obsrevar que, de acordo com Ucbsaran et al. (2013), o evento do IE comporta-se como disparador dos demais processos, gerando cada um, consequências sobre o indivíduo, e influenciando ao mesmo tempo os demais processos, sempre tendo o indivíduo como sujeito, as vezes ativo, outras, passivo desses processos. INSUCESSO EM- PRESARIAL (evento crítico) O MOMENTO SEGUINTE (Aftermath) O PROCESSO PSICOLÓGICO DO IE RESULTADOS Custos Financeiros Custos Sociais Custos Psicológicos Inter- relacionamentos Aprendizagem “Fazer sentido” (sensemaking) Moderadores Cognitivos Aprendizagem Recuperação (recovery) Magnitude do impacto Moderadores do impacto Respostas emo- cionais negativas (grief)
A Figura 5, a seguir, sintetiza esses processos.
Figura 5 – Sintese conceptual da pesquisa Insucesso Empresarial e Aprendizagem Empreen- dedora
A síntese das concepções adotadas por este estudo, fruto das reflexões teóricas a respeito do tema realizadas anteriormente, sugerem que diante da ocorrência do incidente crítico – IE –, pode ocorrer, inicialmente, “o impacto” no comportamento do empreendedor, com uma magnitude própria, que pode ser moderada, por exemplo, por uma experiência anterior em insucesso. A seguir, inicia-se o curso de tempo chamado de “o momento depois” em que são verificados os prejuízos imediatos, como o custo econômico-financeiro (tangível), os custos psicológicos e sociais (intangíveis), e outros, quando são escolhidos os tipos de enfrentamento ao impacto – emoções negativas, positivas, conflitos, perdas, etc.
Concomitante ou subsequentemente a esse momento, pode ocorrer o processo psicológico social em que o indivíduo busca o sentido que o impacto lhe causa, isto é, o que faz sentido no ocorrido, inclusive em relação à afetação de seu relacionamento com familiares, servidores, e demais envolvidos no negócio descontinuado, isso tudo, imerso em um período de maturação e de reflexão crítica do indivíduo, que pode passar, por exemplo, pela busca das causas do fracasso, ou na revisão de seu conhecimento, crenças e valores, que podem alterar seu comportamento empreendedor.
Uma das possibilidades, dentro desse processo, é o desencadeamento de outro, o de AE, que apresenta alguns processos inter-relacionados de baixos e/ou altos níveis de aprendizagem, como por exemplo, a de “tentativa e erro”, a transformativa auto imposta ou imposta por fatores externos, a de mudanças de comportamento e crenças, a aprendizagem experiencial, e outros.
Quando ocorrem os processos de aprendizagem (independentemente do tipo) pode ser que sejam acompanhados de riscos e conflitos, que, de forma sinérgica, podem afetar os resultados da experiência crítica do IE e do processo de AE, por um lado representados por mudanças no empreendedor do tipo comportamental, de aprendizagem, e de recuperação, ou, por outro, pela saída da atividade empreendedora – voltar ao mercado de trabalho através de emprego, etc. Esses resultados, de modo dinâmico, retroagem, em parte, sobre o comportamento do empreendedor na forma de aprendizado e de vivências – aprendizado sobre si mesmo, sobre os negócios, gestão, ambiente, relacionamentos, etc. – reforçando seu estoque de experiências em empreendedorismo e insucesso, que servirão para eventuais novos empreendimentos. Além disso, os resultados podem servir, de forma cíclica, eventualmente, como moderadores de impactos gerados por eventos críticos no futuro.
A presentam-se no próximo capítulo os procedimentos metodológicos adotados para esta pesquisa.