1 INTRODUÇÃO
1.2 OBJETIVOS
2.1.1 Aprendizagem formal e informal
A aprendizagem é gerada a partir de elementos formais, onde se caracteriza por ser altamente estruturada e elementos informais, ou seja, menos estruturada, de forma espontânea (CLOSS; ANTONELLO, 2014; LARENTIS; ANTONELLO, 2014). Merriam e Caffarella (1991) afirmam que a característica principal da aprendizagem formal é a estrutura, sendo
apoiada institucionalmente e normalmente baseada no clássico modelo de sala de aula com um responsável que a planeja, programa e avalia as etapas dos seus processos. Normalmente, a aprendizagem formal é individual, sendo decorrente de um conhecimento vertical e intencional dentro de uma estrutura de ensino (MALCOLM; HODKONSON; COLLEY, 2003).
A aprendizagem formal dentro do contexto organizacional é constituída por treinamentos, educação básica, workshops, cursos de especialização, educação continuada (DUTRA, 2001). Marsick e Watkins (2001) definem o elemento formal da aprendizagem com base em uma estrutura rígida, sendo institucionalizada e em sala de aula. Em seu estudo, as autoras concluíram que somente 20% da aprendizagem dos funcionários eram advindos de processos formalizados de aprendizagem. Dutra (2002) exemplifica como elementos formais de aprendizagem, as ações dos indivíduos dentro de estruturas baseadas na clássica metodologia de ensino.
Aprendizagem formal refere-se àquela que resulta de algo que foi planejado, como cursos e programas que muitas vezes, as organizações oferecem (MARSICK; WATKINS, 2001). Segundo Daley (2002), aprendizagem formal nas organizações preenchem um papel importante de capacitação e treinamento para com os seus membros. Bitencourt (2001), Silva, Rebelo e Cunha (2006) e Roglio (2006) enfatizam o potencial que as escolas e universidades possuem como influenciadoras na aprendizagem formal proporcionando o exercício sistemático e continuado da prática reflexiva no desenvolvimento dos indivíduos.
Grohmann (2004), relatando sobre a aprendizagem formal identifica os principais reflexos que esta tem na aprendizagem, como por exemplo, o aumento das habilidades dos participantes, a identificação de outras habilidades, a aquisição de novos e o refinamento de velhos conhecimentos. Leite, Godoy e Antonello (2006), no entanto, destacam o treinamento explícito como uma das formas de aprendizagem formal. Antonello (2011) complementa afirmando que a aprendizagem formal é recorrente da atividade de aprendizado construída intencionalmente e que apresenta algumas situações de caráter experiencial, acontecendo de forma individual onde o conhecimento é vertical e intencional, e normalmente, com estruturas rígidas dentro de estabelecimentos de ensino.
Os autores Versiani, Oribe e Rezende (2013) reforçam que a aprendizagem formal acaba fomentando processos de mudanças organizacionais, contribuindo para a AO. Os programas utilizados pelas organizações caracterizados como práticas formais de aprendizagem evoluem e desenvolvem seus membros e contribuem para o aprendizado organizacional (OPRIME; MONSANTO; DONADONE, 2010; GONZALEZ; MARTINS, 2011). O aprendizado relacionado às organizações reflete para as práticas do ambiente de trabalho, onde
podem residir as formais, ou seja, os programas estruturados criados pelas organizações para promover o conhecimento, melhoria e mudanças organizacionais (VERSIANI; ORIBE; REZENDE, 2013).
Em relação à aprendizagem informal, sendo ela baseada em uma experiência intencional, sendo induzida através de um processo de reflexão, pela ação, pró-atividade e pela criatividade, inerente ao contexto organizacional e às práticas cotidianas, porém, não é formalmente estruturada (WATKINS; MARSICK, 1992). A aprendizagem informal pode encontrar-se em processos formais de ensino, podendo ser planejada ou não, mas necessariamente envolve algum grau de consciência que a pessoa está aprendendo (WATKINS; MARSICK, 1992). Para Garrick (1998), a AI caracteriza-se como a aprendizagem baseada no trabalho e da aprendizagem que acontece a partir das experiências individuais. Livingstone (1999) define aprendizagens informais como sendo as atividades que envolvem a busca pelo entendimento, conhecimento ou habilidade, acontecendo fora dos círculos de programas educacionais.
A aprendizagem informal foca-se nas necessidades específicas dos indivíduos, logo, é altamente relevante para o mesmo (DAY, 1998). Para Marsick e Watkins (2001), a aprendizagem informal se caracteriza como um resultado de uma atividade, podendo acontecer através de tarefas, interação interpessoal, sentir a cultura organizacional, experimentação por tentativa e erro, com o ambiente propício ou não para o aprendizado. Malcolm, Hodkonson e Colley (2003) afirmam que a aprendizagem informal ocorre através de práticas presentes no cotidiano dos indivíduos. A aprendizagem informal refere-se às oportunidades que emergem de forma natural no cotidiano dos indivíduos, onde a própria pessoa controla o seu processo de aprendizagem, caracterizando como experiencial, prática e não institucional (CONLON, 2004).
Nas pesquisas de Livingstone (2000), destaca-se que mais de 70% da aprendizagem que acontece nos locais de trabalho têm natureza informal. Os estudos de Gerber (2006) mostraram que todos os indivíduos pesquisados usaram formas de aprender que não foram oferecidas por suas experiências formais de aprendizagem. Eraut (2011) corrobora com os resultados de Livingstone (2000) em uma pesquisa no Reino Unido. O autor conclui que as atividades informais desenvolvidas no ambiente do trabalho são responsáveis por cerca de 70 a 90% daquilo que foi aprendido. Marsick e Yates (2012) ao revisarem 39 estudos qualitativos sobre a aprendizagem informal, concluíram que as experiências de aprendizagem informal, são inerentes aos trabalhos e às rotinas diárias, também que a aprendizagem informal aconteceu com o objetivo de solucionar um problema, sendo esta realizada através de conversa, interação
social, colaboração, logo os autores enfatizam que o coração da aprendizagem informal está nos relacionamentos e nas práticas diárias.
Cunningham e Hillier (2013) buscando identificar como os indivíduos aprendem nas organizações e, por isso, revisando a literatura, os autores baseiam-se no aprendizado baseado nas atividades e nos processos informais, como por exemplo a troca de informações com colegas mais experientes. Na pesquisa empírica dos autores, com 84 supervisores de departamentos, os autores destacam algumas formas de como se aprende informalmente no local de trabalho através dos processos como quando o indivíduo abraça mais responsabilidades que aquelas previstas em seu cargo, quando desenvolve um círculo de contatos de aprendizagem e compartilha seus conhecimentos e descobertas com esse círculo, e por fim, quando constrói relacionamentos positivos com colegas em seu local de trabalho.
A ideia principal da teoria na aprendizagem informal reside no fato, onde os indivíduos no seu cotidiano, no dia-a-dia da organização, possam realizar tarefas, resolver problemas e cooperarem com os seus companheiros através da interação entre si e o contexto, é assim que se desenvolve o processo da aprendizagem informal (FLACH; ANTONELLO, 2010). Em se tratando de como as pessoas aprendem no trabalho, Hager (2012) afirma que as pessoas têm o potencial de aprender de forma diferente uma das outras, essas formas de aprender, informais em suas abordagens, propõem que os trabalhadores que deveriam ter o controle sobre as formas pelas quais se aprendem no trabalho e não os que treinam.
É através da aprendizagem informal, no local de trabalho que os indivíduos (trabalhadores da organização) adquirem atitudes, valores, habilidades e conhecimento como parte das suas rotinas diárias (LE CLUS, 2011). A integração de funcionários, as tarefas diárias, oportunidades de eventos, rotinas do dia-a-dia, situações que não são planejadas e controladas, interações com a cultura organizacional e o ambiente externo também podem proporcionar a aprendizagem informal de um indivíduo (FLACH; ANTONELLO, 2010).
Na literatura existe uma visão dominante que busca identificar as características que possam separar radicalmente a aprendizagem formal da informal, sendo esta uma abordagem equivocada, pois o mais importante é identificar sua interação e integração (ANTONELLO, 2011). Malcolm, Hodkonson e Colley (2003) afirmam que entender a interação entre a informalidade e a formalidade da aprendizagem traz vantagens em relação aos argumentos de abordagens mais convencionais que propõem a sua simples separação. Adotar este posicionamento é ampliar as possibilidades de leitura e compreensão mais consistente e profunda de um fenômeno complexo e dinâmico (ANTONELLO, 2011).
Existem elementos de aprendizagem formal que ocorrem em situações informais e elementos de aprendizagem informal que podem acontecer em situações onde se dá a aprendizagem formal (MALCOLM; HODKONSON; COLLEY, 2003). Esta natureza de inter- relação conecta-se aos mais diversos contextos nos quais a aprendizagem acontece. Toda a aprendizagem na vida dos indivíduos torna-se uma oportunidade de aprendizagem e que a aprendizagem em situações informais é tão importante quanto às experiências de aprendizagem formais, ou seja, as ocorrências cotidianas podem ser caracterizadas como a falsa fronteira da aprendizagem formal e informal, pois elas têm a capacidade de tornarem-se veículos para o desenvolvimento de aprendizagem seja ela formal ou informal (ANTONELLO; GODOY, 2009).
Figura 1 – Macrocategorias e Categorias de Análise
Fonte: Camillis e Antonello (2010, p. 6).
Ao transitar entre os processos formais e informais de aprendizagem, Camillis e Antonello (2010) identificaram macro categorias e categorias de análise que transitam pelos processos ao investigarem os processos de aprendizagem de indivíduos que não exercem um papel gerencial, inseridas em um contexto de estresse, competição, conflitos, mudanças, novos desafios e colaboração. Tais contextos podem identificar os processos de aprendizagem, seus facilitadores e seus obstáculos (conforme Figura 1).
Essas macro categorias e categorias de análises definidas por Camillis e Antonello (2010) transitam entre processos formais e informais retratando formas de aprendizagem pelas quais os indivíduos podem adquirir, e dessa forma, sistematizar como acontecerá a aprendizagem. A aprendizagem ocorre também pela interação do conhecimento que o indivíduo aprende e como repassa para a organização. Para as autoras, esses processos são descritos como: a) Aprender sozinho – quando o indivíduo busca por conta própria as informações que julgar necessárias, sem interações com outras pessoas; b) Aprender pela prática/fazendo – o indivíduo aprende ao realizar a tarefa a ele designada; c) Aprender por meio da interação com pessoas – observação de como os colegas da área atuam e pelo auxílio de outras pessoas no aprendizado; d) Aprender com especialistas – troca de informações e recebimento das mesmas de pessoas mais experientes e com mais conhecimento em determinado assunto; e) Aprender observando – atitudes, comportamentos e postura de outros indivíduos no local de trabalho; f) Aprender a partir da solução de problemas – busca de informações e alternativas para resolver um determinado problema e avaliar o resultado da ação; g) Aprender com os erros – erros entendidos como parte das ações do dia-a-dia de trabalho; h) Aprendizagem autodirigida – busca por conhecimentos relevantes para seu aprendizado por iniciativa própria do indivíduo; i) Aprendizagem formal – cursos formais propostos pela empresa.
Segundo Antonello (2011), o processo de aprendizagem é dinâmico e complexo, deve- se considerar o contexto como uma referência no qual ocorre a aprendizagem, e que este pode ou não criar um equilíbrio entre o saber e o saber fazer. Em seu estudo, Antonello (2011) identificou e analisou o processo de intercâmbio entre as práticas formais e informais de aprendizagem, ou seja, como ocorre a interseção entre a aprendizagem formal e informal, a autor sugeriu doze tipos gerais de formas de aprendizagem e cada uma delas abrangendo experiências ou eventos de aprendizagem.
No Quadro 2 são apresentadas as categorias e subcategorias do estudo. As categorias incluem modos informais de aprendizagem, desta maneira, observa-se a relação entre os processos formais e informais de aprendizagem (ANTONELLO, 2011).
Quadro 2 – Categorias e subcategorias de análise dos estudos Categorias Subcategorias Experiência anterior e transferência extraprofissional
1. Experiência anterior: transferência de aprendizagem de ocupação/cargo anterior. 2. Transferência e aprendizagem oriunda de educação formal anterior: trazer a teoria para a prática de cursos realizados no passado.
3. Aprendizagem fora do trabalho: lazer, hobby, atividades, trabalho voluntário.
Experiência
1. Exigências, tarefas e problemas complexos.
2. Experiências amplas: que requerem múltiplas habilidades e compreensão global. 3. Experiências multifacetadas: requerem conexão entre diversas áreas do conhecimento. 4. Atividades pioneiras e de inovação: experiências que envolvem o desenvolvimento de novas ideias ou abordagens.
5. Experiências traumáticas: situações difíceis.
6. Processos de mudança organizacional: por exemplo, reestruturação, fusão.
Reflexão
1. Reflexão sobre a ação: após atividade ou evento. 2. Reflexão na ação: durante uma atividade ou evento. 3. Reflexão em grupo/coletiva.
4. Escrever um jornal reflexivo: diário de aprendizagem, anotações dispersas. 5. Refletir sobre como os outros fazem as coisas.
6. Questionamento: ser questionado ou questionar a si mesmo.
7. Aprendizado oriundo do fracasso: analisando o que foi errado e porque.
Autoanálise 1. Referindo-se à autoanálise e autoavaliação.
Observação – Modelos
1. 1. Observação estruturada e crítica dos outros.
2. 2. Observação informal/casual dos outros.
3. 3. Usar um modelo de papel positivo: tentar fazer algo como alguém faz. 4. 4. Usar um modelo negativo de papel: esforço para não fazer o que alguém faz.
Feedback
1. Feedback oriundo de sua equipe de trabalho. 2. Crítica de pares de trabalho.
3. Avaliação de desempenho (formal) por pares/colegas/superiores. 4. Escuta eficiente: para o que é dito sobre desempenho.
5. Feedback oriundo de clientes e outros profissionais.
6. Leitura da linguagem do corpo: como as pessoas reagem a você.
Mudança de perspectiva
1. Mudança de papel.
2. Transferência/troca de trabalho.
3. Trabalhar com pessoas de áreas diferentes à sua.
4. Trabalhar com diferenças culturais e inspiração súbita ou insight.
Mentoria (mentoring) e
tutoria (coaching)
1. Ser assistido por um mentor – tutor – referindo-se a: mentor – orientação/conselheiro: ocupacional, para carreira, para vida pessoal, tutor/treinador – instrução/demonstração. 2. Exercer o papel de mentor – tutor – referindo-se a: ensinar: tutoriar; instruir; ser mentor/conselheiro de outros e comentários simultâneos às ações.
Interação e colaboração
1. Trabalho em grupo/equipe. 2. Colaboração em projetos.
3. Aprendizagem oriunda de outros profissionais da mesma área. 4. Aprendizagem a partir de clientes.
5. Trabalho em equipes multidisciplinares.
6. Rede (networking) com outros profissionais da mesma área.
Cursos e Treinamentos
1. Treinamento no trabalho (on the job).
2. Rotação de funções (job rotation) e programa trainee. 3. Intensa aprendizagem/intenso treinamento
4. Multiplicação de treinamentos/cursos.
Informal
1. Informal no trabalho: baseada na prática: aprendizagem informal e comunidade de prática.
2. Informal: em cursos de mestrado e especialização.
Aprendizagem pela articulação entre teoria e prática 1. Escrever artigos/papers/relatórios. 2. Apresentar conferências. 3. Justificar/Defender/explanar ações. 4. Trabalhos do curso.
5. Simulação durante curso. 6. Trabalho final e dissertação.
7. Especialização/mestrado articulados à aprendizagem baseada no trabalho. Fonte: Antonello (2011, p. 231).
Percebe-se uma relação entre as macrocategorias analisadas por Camillis e Antonello (2010) e a taxonomia de formas de aprendizagem definida por Antonello (2011), por exemplo quando Camillis e Antonello (2010) falam em aprender por meio da interação por pessoas, Antonello (2011) menciona questões como mentoria, feedback, interação e colaboração da equipe. Outro exemplo é a macrocategoria de aprender a partir de solução de problemas e a partir de erros, na taxonomia de formas de aprendizagem de Antonello (2011), a qual refere-se às experiências anteriores, reflexão e mudanças de perspectiva.
Conforme Antonello (2011) há um processo de interação, intercâmbio entre as práticas formais e informais de aprendizagem, e ele acontece por meio da articulação sistematizada de ambos, logo se percebe a constante ligação da experiência e da reflexão nos dois tipos de formas de aprendizagem. Moon (2004) afirma que a AE e AR são formas de aprendizagem. A aprendizagem seja ela individual ou coletiva, mediada pelos processos formais ou informais é analisada por diferentes modelos teóricos, sendo os principais o aprendizado experiencial e pela reflexão, que tem como base os estudos de Dewey, Lewin e Piaget. Esses autores afirmam que a aprendizagem “é um processo de tensão e conflito, que ocorre através da interação entre o indivíduo e o ambiente, envolvendo experiências concretas, observação e reflexão, e gerando uma permanente revisão de conceitos” (ANTONELLO, 2005, p. 18). A seguir, abordaremos de forma detalhada a AE.