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4 APRENDIZAGEM E CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS

4.2 APRENDIZAGEM SEGUNDO O CONSTRUTIVISMO PIAGETIANO

Segundo Piaget (1974), o que vai proporcionar a aprendizagem é a ação do sujeito sobre o ambiente. Abid (2003) afirma que na visão de Piaget o sujeito e os objetos só existem em relação. Esses elementos não existem por si só, mas emergem a partir das relações entre o sujeito e o mundo. Nesse jogo de relações, o sujeito é o centro de funcionamento, ou seja, é auto-regulado. Dessa forma, Piaget (1987) afirma que a auto-regulação desemboca na auto- organização. A auto-organização, segundo Abid (2003) é um sistema de relações que envolve organização e adaptação. A organização é um sistema de relações deste aspecto interno do desenvolvimento cognitivo. Neste caso, o sujeito é considerado um organismo que, fazendo parte de um sistema, possui uma relação com outros órgãos dentro do mesmo sistema. A organização se dá na relação do sujeito com outros organismos no mundo. A adaptação, por

sua vez, destaca o aspecto externo das totalidades funcionais, ou seja, a relação dos sistemas com o mundo. Esse aspecto é a transformação do mundo pelo sujeito. A tendência dessa transformação é chamada de assimilação (PIAGET, 1974). De um lado existe a assimilação (transformação do mundo pelo sujeito) e, do outro, existe a acomodação (transformação do sujeito), sendo estes processos pelos quais o sujeito compreende o mundo (PIAGET, 1974) construindo esquemas (estruturas mentais internas com informações decodificadas do ambiente). Na acomodação, o sujeito muda a forma de pensar o mundo, a partir do ajuste dos esquemas. Como existe uma relação do sujeito com o mundo, entende-se que este sujeito age no ambiente. Nessa ação, ele assimila o meio e se acomoda a ele (ABID, 2003).

É neste ponto que chegamos na diferenciação entre auto-regulação e auto-organização na visão piagetiana. Piaget (1987) afirma que a adaptação é equilíbrio entre assimilação e acomodação, processo este que o autor denomina de equilibração. A auto-regulação é um conceito cibernético, e a ele está relacionado como é a ciência das máquinas, sejam elas naturais ou artificiais, cujas operações e correções podem ser realizadas por elas mesmas. Abid (2003) afirma que, na visão piagetiana, assim como as máquinas, o organismo vivo não se preocupa em evoluir, mas a voltar a seu estado inicial depois de um estado de desequilíbrio. Isso é auto- regulação. Já a auto-organização é ação, no sentido em que conduz o sujeito a novos ajustes de suas estruturas ao mundo. Nas palavras de Piaget (1987), é próprio do comportamento fazer da auto-regulação a auto-organização, a qual produz novos esquemas. Ou seja, trata-se da transformação da auto-regulação em auto-organização – relações instáveis que vão promover o desenvolvimento de novas estruturas, que só pode ser feito com ajuste a novos desvios (ABID, 2003).

Essa discussão culmina na noção que inteligência, para Piaget, é adaptação e esta, por sua vez, é auto-organização. Abid (2003) afirma que, na visão piagetina, a inteligência é resultado do processo evolutivo da vida. Isso significa dizer que a inteligência evolui juntamente com a vida, em direção a criação de novos esquemas a partir da ação do sujeito no mundo. Uma das justificativas para isso é que a estabilidade buscada na equilibração (auto- regulação) nunca é alcançada. Diante disso, a auto-organização da inteligência (que envolve assimilação e acomodação) é um processo contínuo e hierárquico, não havendo descontinuidade na formação dos esquemas. Isto significa a preservação e construção ininterrupta de possibilidades ou ultrapassagens infindáveis de limites, barreiras ou obstáculos: o sujeito sempre estará apto a aprender e a se desenvolver.

A limitação da noção de sujeito auto organizado está na visão de transformação do mundo. A auto-organização é limitado pois não considera o aspecto de que o sujeito transforma o mundo. Afinal, quando falamos que a auto-organização se dá através da evolução do indivíduo no ambiente (transpondo os limites colocados pelo mundo), entende-se que o sujeito, a todo momento, busca a sua integração e ajuste ao mundo. Nessa visão, o sujeito supera seus próprios limites para compreensão do mundo. O processo fica centrado no sujeito e sua relação com mundo é limitada apenas pela sua evolução no ambiente. É neste sentido que Piaget denomina este processo de Construtivismo (PIAGET, 1974; 1987), pois o sujeito se torna capaz de construir seu próprio conhecimento a partir de sua ação no mundo, se afastando de concepções empiristas ou inatistas da aprendizagem, em que consideram que o conhecimento está no objeto e é transferido para o sujeito ou que o sujeito já nasce com o conhecimento nele, respectivamente.

Dentro dessa perspectiva, notamos que o elemento importante no processo de aprendizagem para Piaget é a ação. Suas ideias, no início dos anos 80, começaram a ter forte impacto em pesquisas educacionais, principalmente aquelas voltadas ao ensino de ciências. As ideias de Piaget acerca da assimilação, acomodação e equilibração deram origem a métodos de ensino, sendo o mais conhecido o ensino por mudança conceitual ou conflito cognitivo (POSNER, et al, 1982).

Segundo Posner et al (1982), tomando como base o referencial teórico de Piaget (1974), a aprendizagem é o resultado da interação entre o que o estudante já aprendeu anteriormente e as suas ideias ou conceitos atuais. Na época, vários trabalhos da literatura em Ensino de Ciências investigavam a origem das chamadas concepções alternativas, em um movimento denominado Movimento das Concepções Alternativas (CARVALHO, 2004).

Concepções alternativas, informais ou prévias são ideias sobre conceitos científicos que os alunos aprendem fora ou dentro do contexto da escola, as quais apresentam incompatibilidade com ideias científicas, por apresentarem erros conceituais do ponto de vista científico (POZO; CRESPO, 1998; CARVALHO, 2004; SILVA; AMARAL,2013). É considerado que tais ideias apresentam importância no processo de aprendizagem pois estas emergem em sala de aula e conflitam com os conceitos científicos ensinados pelo professor. Um exemplo de concepção alternativa é a ideia de calor como uma entidade oposta ao frio, ambos sendo considerados sensações térmicas. Essas ideias são reforçadas no senso comum com o uso de expressões do tipo: “hoje está muito calor” ou “hoje está muito frio”. Esta concepção conflita com a visão científica de calor, o qual é compreendido como um processo

de transferência de energia entre corpos com diferentes temperaturas. Ou seja, se um corpo passa de 2ºC para 3ºC, mesmo apresentando sensação térmica fria, houve transferência de calor (AMARAL; MORTIMER, 2001; KÖHNLEIN; PEDUZZI, 2002).

Diante desse contexto, Posner et al (1982) afirma que a identificação das concepções alternativas sobre diferentes conceitos científicos e o entendimento de sua persistência, parecia ter se esgotado na pesquisa, havendo necessidade de se compreender como estas ideias interagiam com o conhecimento novo ensinado em sala de aula. É neste sentido que Posner et al (1982) observa como a teoria piagetiana parece ter potencial para explicar como se dá a aprendizagem em sala de aula levando em consideração a interação entre concepções alternativas e conhecimento científico.

Usando os conceitos de assimilação e acomodação, Posner et al (1982) afirma que os alunos promovem uma mudança conceitual quando estão diante da tarefa de explicar algum fenômeno. Segundo o autor, primeiramente, o aluno interpreta o fenômeno, tentando explicar com suas próprias ideias (concepções alternativas) no processo de assimilação. Depois, o aluno, ao perceber que suas ideias são limitadas diante da explicação do fenômeno, ao se sentir insatisfeito, ele substitui sua concepção alternativa pelo conhecimento científico, ao se aparentar mais plausível, promovendo a acomodação.

4.3 APRENDIZAGEM NA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA CULTURAL –