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Capítulo 2: Teoria Social da Aprendizagem

2.5 Aprendizagem

Para abordar o conceito de aprendizagem, Wenger (1998) retoma a caracterização que fez acerca dos componentes da Teoria Social da Aprendizagem (comunidade, prática, significado e identidade) bem como os diferentes processos que derivam desses componentes ou das relações duais que elencou ao discorrer sobre a teoria, tal como apresentamos até aqui.

Ao abordar os componentes prática e comunidade, Wenger (1998) enfatiza que estão inter-relacionados.

Diante do exposto, entendemos que a aprendizagem, conceito central da Teoria Social da Aprendizagem, pode ser definida por meio dos componentes CoP, identidade e/ou significado bem como das relações entre eles. Assim sendo, a seguir, apresentaremos algumas considerações sobre a aprendizagem ancorando-nos nas ideias de Wenger (1998).

2.5.1 Aprendizagem e Comunidades de Práticas

Wenger (1998) destaca que a aprendizagem supõe uma interação entre experiência e competência e indica que tal interação é um terreno fértil para a aprendizagem, sendo o compromisso mútuo entendido como um processo que ajusta e tenciona constantemente a interação entre experiência e competência. Nessa direção, pontua as CoP como lugares privilegiados para a aquisição e criação de conhecimento, tal como apontamos na epígrafe do capítulo. Wenger (1998) entende que uma CoP a qual oferece acesso à competência e provoca uma experiência pessoal de engajamento/ compromisso mútuo, favorece a aquisição de conhecimento. Nesse sentido, uma CoP em que se evidencia uma história de engajamento/compromisso mútuo em torno de empreendimentos articulados/conjuntos, visando a que tal conhecimento adquirido avance constantemente, constitui-se, também, num lugar privilegiado para a criação de novos conhecimentos.

Nesse sentido, segundo Wenger (1998), uma CoP pode se constituir numa Comunidade de Aprendizagem. Para ele, uma Comunidade de Aprendizagem “não só inclui o aprendizado como regra na história de sua prática, senão também o inclui no centro de seus empreendimentos”.

(WENGER, 1998, pp. 214-215, tradução nossa) . Em outras palavras, o autor destaca que uma Comunidade de Aprendizagem se constitui na estreita interação (tensão) entre experiência e competência.

2.5.2 Aprendizagem e Identidade

A aprendizagem também pode ser entendida como uma experiência de identidade dado que, segundo Wenger (1998), a aprendizagem transforma quem somos e o que podemos fazer. De acordo com sua concepção, “nesta formação de uma identidade a aprendizagem pode se converter numa fonte de significado e de energia pessoal e social”. (WENGER, 1998, p.215, tradução nossa)73

Quanto a uma experiência de identidade, Wenger (1998) pontua que a aprendizagem supõe tanto um processo como um lugar, ou seja, “supõe um processo de transformação de conhecimento além de um contexto que defina uma identidade de participação” (WENGER, 1998, p.215, tradução nossa)74

. Sendo assim, o autor concebe que a aprendizagem se apoia, simultaneamente, no processo e no lugar e que, nesse contexto, as práticas de comunidades de aprendizagem oferecem um contexto ideal para o desenvolvimento de novas compreensões, uma vez que tais comunidades assumem processos de mudança como parte da identidade de participação.

Wenger (1998) destaca que a identidade, vista como trajetória, deve incorporar um passado e um futuro e indica que isso pode fortalecer a identidade de participação dos membros de uma comunidade de aprendizagem de duas maneiras:

1) incorporando a sua história o passado de seus membros – isso é, permitindo que o que foram, o que fizeram e o que sabem contribua para a constituição de sua prática;

72“[...] includes learning, not only as a matter of course in the history of its practice, but at the

very core of its enterprise.”

73 “It is in that formation of an identity that learning can become a source of meaningfulness and

of personal and social energy.”

74 “It entails a process of transforming knowledge as well as a context in which to define an

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2) abrindo trajetórias de participação que coloquem o compromisso com sua prática em um contexto de futuro valorizado. (WENGER, 1998, p.215, tradução nossa)75

Além disso, de acordo com Wenger (1998), no contexto das comunidades de aprendizagem, as experiências de multiafiliação podem impor um nível maior de complexidade aos nexos de multiafiliação dos seus membros. Entretanto, o autor aponta que um caminho para a superação dessa complexidade seria a conciliação, ou seja, tentar abarcar, “dentro de sua própria prática, uma porção cada vez maior de nexos de multiafiliação de seus membros”. (WENGER, 1998, p.216, tradução nossa)76

Neste sentido, Wenger (1998) sinaliza que o engajamento/compromisso, a imaginação e o alinhamento “são ingredientes importantes da aprendizagem - a vincula com a prática, mas também faz com que seja extensa, criativa e eficaz no mundo mais amplo” (WENGER, 1998, p. 217, tradução nossa)77

e a combinação entre eles faz com que a comunidade se constitua num contexto mais rico para a aprendizagem. Portanto, para Wenger (1998), a combinação de compromisso/engajamento mútuo e imaginação produzem uma prática reflexiva dado às características de cada um desses elementos, como já apontamos nos tópicos anteriores.

Por fim, Wenger (1998) enfatiza que, considerar que a aprendizagem supõe a capacidade de negociar novos significados e de se converter em uma nova pessoa, implica em supor novas relações de identificação e de negociabilidade, novas formas de afiliação e de propriedades de significado. Com isso, entende-se que são mutáveis as posições dentro de uma comunidade e da economia de significado.

2.5.3 Aprendizagem e Significado

75 “1) by incorporating its member’s past into its history – that is, by letting what they have been,

what they have done, and what they know contribute to the constitution of its practice; 2) by opening trajectories of participation that place engagement in its practice in the context of a valued future.”

76 “[...] within their own practice, an increasing portion of the nexus of multimembership of their

members”

77“[...] are all important ingredients of learning – they anchor it in practice yet make it broad,

Wenger (1998, p. 216, tradução nossa) destaca que “quando uma comunidade faz da aprendizagem uma parte fundamental de seu empreendimento, a sabedoria útil não se concentra no núcleo de sua prática”. O autor defende a existência de uma sabedoria periférica que, muitas vezes, acaba sendo marginalizada pela comunidade.

A cerca da marginalidade, Wenger (1998) destaca dois tipos na dualidade comunidade-identidade. A primeira se estabelece pelo fato de certos membros de uma comunidade não serem participantes de pleno direito (marginalidade da competência) e a segunda, devido ao fato de algumas experiências serem depreciadas, ignoradas temidas ou reprimidas pela comunidade (marginalidade da experiência).

Nesse contexto destaca-se a importância do processo de negociação de significado, uma vez que é possível que uma comunidade negocie a interação entre atividades periféricas e centrais, objetivando novos conhecimentos, novas formas de desenvolver competências e, por sua vez, novos conhecimentos. Além disso, evidencia-se a importância dos processos de participação e não- participação dado a essa negociação poder direcionar a trajetória da comunidade levando em consideração as sabedorias periféricas e as potencialidades existentes nas marginalidades.