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Pressupostos da Teoria Social da Aprendizagem

Capítulo 2: Teoria Social da Aprendizagem

2.1 Pressupostos da Teoria Social da Aprendizagem

Para introduzir os pressupostos da Teoria Social da Aprendizagem, Wenger (1998) nos apresenta um contraponto em relação aos processos e ao entendimento que as Instituições apresentam em relação à aprendizagem. É a partir de tal contraponto que tece suas considerações acerca da Teoria Social da Aprendizagem.

Para Wenger (1998, p.3), nossas Instituições adotam processos que assumem a concepção de que aprender seja um processo individual, pautada em um ponto inicial e um ponto final; é melhor separá-lo de nossas atividades

15 “[…] communities of practice are not only a context for learning […] but also, and for the same

cotidianas; aprender seja resultado de um processo de ensino que é mensurado a partir de instrumentos avaliativos (prova). Wenger (1998, p.3, tradução nossa) nos propõe alguns questionamentos16, dentre os quais destacamos dois: a) o que ocorreria se adotássemos uma perspectiva diferente, a qual colocasse a aprendizagem no contexto de nossa própria experiência de participação no mundo? b) o que ocorreria se, além disso, assumíssemos a aprendizagem como um fenômeno fundamentalmente social que reflete nossa própria natureza profundamente social como seres humanos capazes de conhecer?

Nesse contexto, Wenger (1998, p.4) aponta que a Teoria Social da Aprendizagem assume quatro pressupostos, a saber:

1) somos seres sociais; esse fato, longe de ser uma verdade trivial, é um aspecto essencial da aprendizagem;

2) o conhecimento é uma questão de competência em relação a determinados empreendimentos valorizados como, por exemplo, cantar com afinação, descobrir fatos científicos, consertar máquinas, escrever poesias, ser cordial, crescer como um rapaz ou uma moça, etc;

3) conhecer é uma questão de participar no desdobramento de tais empreendimentos, por assim dizer, comprometer-se de uma forma ativa no mundo;

4) o significado – nossa capacidade de experimentar o mundo e nosso compromisso com ele como algo significativo – é, em última instância, o que deve produzir a aprendizagem.

Wenger (1998) reconhece a existência de muitas e distintas teorias de aprendizagem e sinaliza que a Teoria Social da Aprendizagem não substitui

16a) “what if we adopted a different perspective, one that placed learning in the context of our

lived experience of participation in the world?”; b) “And what if, in addition, we assumed that learning is, in its essence, a fundamentally social phenomenon, reflecting our own deeply social nature as human beings capable of knowing?”

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outras teorias de aprendizagem; entretanto, possui sua própria estrutura bem como seu conjunto de pressupostos.

Para Wenger (1998), a Teoria Social da Aprendizagem constitui-se num marco conceitual organizado por um conjunto coerente de princípios e recomendações gerais para compreender e possibilitar a aprendizagem. Assim sendo, pode ser assumida como uma ferramenta de análise para diferentes públicos e interesses.

No que tange ao contexto intelectual que influenciou Wenger (1998), aponta-nos que envolve teorias “ditas” tradicionais como as teorias da prática social, as Teorias de identidade, as Teorias de estrutura social e as Teorias de experiência situada. Essa relação é ilustrada por meio da Figura 2.

Figura 2: Dois eixos principais de tradições relevantes para a constituição da

Teoria Social da Aprendizagem.

Fonte: Elaboração a partir de Wenger (1998, p. 12, tradução nossa).

Como ilustra a Figura 2, o eixo vertical é fundamentado pela tradição da Teoria Social, enquanto o eixo horizontal é composto por dois componentes que constituem formas de continuidade e descontinuidade social.

Para Wenger (1998, p.13), o eixo horizontal atravessa o eixo vertical e “proporciona um conjunto de categorias intermediárias entre os pólos do eixo vertical”17

. Com relação aos eixos intermediários, destacam-se as Teorias: da coletividade, do significado, da subjetividade e de poder. A Figura 3 ilustra tal relação.

Em relação aos eixos, é importante destacar que Wenger (1998, p. 12- 15) apresenta uma síntese de cada uma das Teorias. Assim, buscamos indicar o entendimento do autor para cada uma delas que corroboram a Teoria Social da Aprendizagem:

Teorias de estrutura social: dão prioridade às Instituições, normas e regras. Nessa Teoria, destacam-se os sistemas culturais, discursos e a História;

Teorias da experiência situada: priorizam dinâmicas da existência cotidiana, a improvisação, a coordenação e a coreografia da interação. Na presente Teoria, destacam-se as relações interativas das pessoas com o seu ambiente;

Teorias de prática social: referem-se à produção; a de maneiras concretas de participação no mundo. Destacam-se a atividade cotidiana e cenários da vida real, mas com uma ênfase nos sistemas sociais de recursos compartilhados por meio dos quais, entre outros aspectos, os grupos se organizam e coordenam suas atividades;

Teorias de identidade: abordam questões de formação social da pessoa tais como sexo, classe social, etnia, dentre outras. Busca compreender a formação da pessoa como resultado de suas relações sociais;

Teorias da coletividade: tratam da formação de diversos tipos de configurações sociais. Buscam descrever mecanismos de coesão social como solidariedade, compromisso, interesses comuns e afinidade;

Teorias da subjetividade: abordam a natureza da individualidade e buscam explicar como surge a experiência da subjetividade a partir de um compromisso com o mundo social;

Teorias de poder: a questão do poder é fundamental na Teoria Social. Objetivam encontrar conceituações para o poder que evitem perspectivas simplesmente baseadas em conflitos ou em modelos baseados em consenso;

Teorias do significado: buscam explicar como as pessoas produzem significados e, no contexto da Teoria Social, como produzem significado a partir da participação social e das relações de poder que se estabelecem.

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Figura 3: Intersecção refinada das tradições intelectuais relevantes para a

constituição da Teoria Social da Aprendizagem.

Fonte: Elaboração a partir de Wenger (1998, p. 14, tradução nossa).

Diante do exposto, Wenger (1998, p. 13) sinaliza que os eixos (horizontal, vertical e intermediários) estabelecem o marco básico da Teoria Social da Aprendizagem.

Com base nos estudos realizados por Jean Lave e por Ettienne Wenger (Lave & Wenger, 1991), objetivando a formulação de uma teoria de aprendizagem, enquanto dimensão da prática social, que Wenger (1998) apresenta a Teoria Social da Aprendizagem, cuja centralidade alicerça-se no pressuposto da aprendizagem como participação social.

[...] a participação não somente se refere aos eventos locais de compromisso com determinadas atividades e com determinadas pessoas, é também um processo de amplo alcance que consiste em participar de uma forma ativa nas práticas das comunidades sociais e em construir identidades em relação a estas comunidades. [...] Esta participação não se refere somente a forma como fazemos, mas sim conforme quem somos e como interpretamos o que fazemos. (WENGER, 2011, p. 22, grifos do autor, tradução nossa)18

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[...] la participación no sólo se refiere a los eventos locales de compromiso con ciertas actividades y con determinadas personas, sino también a un proceso de mayor alcance consistente en participar de una manera activa en las prácticas de las comunidades sociales y en construir identidades en relación con estas comunidades. […] Esta participación ni sólo da forma que hacemos, sino que también conforma quiénes somos y cómo interpretamos lo que hacemos.

Partindo das premissas enunciadas, Wenger (1998, p.5, tradução nossa19) apresenta quatro componentes que caracterizam a participação social como um processo de aprendizagem e conhecimento. São eles:

1) Significado: uma forma de falar de nossa capacidade (de mudar) – individualmente ou coletivamente – de experimentar nossa vida e o mundo como algo significativo;

2) Prática: uma forma de falar de recursos históricos e sociais compartilhados, sistemas e perspectivas que possam sustentar o engajamento/compromisso mútuo na ação;

3) Comunidade: uma forma de falar sobre as configurações sociais em que nossos empreendimentos se definem como buscas valiosas e nossa participação é reconhecida como competência;

4) Identidade: uma forma de falar sobre como a aprendizagem muda quem nós somos e cria histórias pessoais de transformação no contexto de nossas comunidades.

A Figura 4 apresenta um diagrama que objetiva representar a interação entre esses componentes gerando, assim, a aprendizagem.

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1) Meaning: a way of talking about our (changing) ability – individually and collectively – to experience our life and the world as meaningful. 2) Practice: a way of talking about the shared historical and social resources, frameworks, and perspectives that can sustain mutual engagement in action. 3) Community: a way of talking about the social configurations in which our enterprises are defined as worth pursuing and our participation is recognizable as competence. 4) Identity: a way of talking about how learning changes who we are and creates personal histories of becoming in the context of our communities. (WENGER, 1998, p. 5).

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Figura 4: Componentes de uma Teoria Social da Aprendizagem.

Fonte: Wenger (1998, p.5, adaptação e tradução nossa)

Como apontado anteriormente, nos tópicos que se apresentam a seguir, aprofundaremos a discussão sobre cada um desses componentes da Teoria Social da Aprendizagem.