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4.6 FORMAR E SE FORMAR

4.6.2 Aprendizagens aperfeiçoadas

As formações do PNAIC eram norteadas por cinco princípios e entre eles estavam a prática da reflexividade e a mobilização de saberes.

Estes princípios deveriam levar os professores a “compreender que o que eles já sabem pode ser modificado, melhorado, trocado, ratificado, reconstruído, refeito ou abandonado (BRASIL, 2012b, p. 14).

Marcelo Garcia (2009, p. 8), ao definir a profissão docente como uma

“profissão do conhecimento”, afirma que o compromisso em transformar o conhecimento em aprendizagens para os estudantes, tem sido elemento legitimador da prática do professor.

Neste sentido, os professores reorganizam, reconstroem, remodelam suas práticas tornando-se autônomos e protagonistas de suas ações. Assim, os espaços socializadores, para Nóvoa (1995, p. 27)

Podem estimular o desenvolvimento profissional dos professores, no quadro da autonomia contextualizada da profissão. Importa valorizar paradigmas de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, que assumam a responsabilidade do seu próprio desenvolvimento profissional e que participem como protagonistas na implementação das políticas educativas.

Para averiguar se as formações do PNAIC levaram em conta a prática da reflexividade, perguntou-se para as professoras: Você reorganizou alguma situação apreendida do PNAIC enquanto OE para a sua turma?

As respostas se mesclaram aos períodos em que as professoras foram cursistas e OE. Isso se deve ao fato de que as aprendizagens se sobrepõem umas às outras remodelando-as, não sendo possível, muitas vezes, identificar de forma estanque onde se apreendeu determinado conteúdo. Sobre isso precisamos levar em consideração alguns fatores das narrativas.

A memória, segundo Pollak (1992), organiza os fatos e acontecimentos a partir de marcos que nem sempre seguem uma ordem cronológica. Um outro fator deve-se ao que Larrosa (2002, p. 24) definiu por experiência. Para este autor, a

“experiência é aquilo que nos passa, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar, nos forma e transforma”.

Abrantes (2011, p.122) também considera a experiência no processo de socialização como uma parte do todo social que “depende da capacidade (e disposições) de interpretar e interpelar o social”.

Aliado aos aspectos próprios da memória e da compreensão do que vem a ser experiência, Gimeno Sacristán (1999, p. 70) afirma que a prática “é construída historicamente, já que cada ação traz consigo a marca de outras ações prévias”.

Neste entendimento, as aprendizagens foram para Mônica, Valéria e Alice um disparador para reorganização de suas práticas.

Elas relataram que apesar dos estudos das formações do PNAIC serem direcionados aos três anos iniciais da alfabetização, as possibilidades didáticas para a aprendizagem podem ser colocadas em prática em qualquer etapa de ensino, desde que adaptadas aos níveis de desenvolvimento cognitivo de cada criança.

O PNAIC, com o caderno “A heterogeneidade em sala de aula e a diversificação das atividades” (BRASIL, 2012c) trazia estudos que consideravam a heterogeneidade como um fenômeno intrínseco aos processos educativos. Mais do que entender essa discussão teoricamente, elas transcreveram isso em suas práticas.

Alice diz que que trouxe do PNAIC o hábito de fazer as sondagens de escritas59 com seus estudantes do 1º ano para que, em seguida realizasse o _______________

59 Estas sondagens referem-se à Teoria da Psicogênese de Emília Ferreiro e Ana Teberosky sobre os processos e as formas pelos quais as crianças aprendem a ler e escrever. Esta teoria

planejamento de acordo com os níveis de dificuldades deles, ou seja atendendo a heterogeneidade de sua turma.

Esta prática possibilitou ampliar os modos de considerar a heterogeneidade para outros anos. Alice explica como faz isso:

Eu trabalho com 4º ano como corregente, então as professoras elaboram as atividades de Língua Portuguesa e mandam para nós e nós pegamos essas mesmas atividades e pensamos nessas crianças que têm dificuldade e variamos. Por exemplo, ao invés de pedirmos um texto, elas fazem uma frase ou ainda escrevem palavras, para outras vamos entregar caça-palavras, cruzadinhas, formar palavras a partir de outras palavras e isso eu uso muito atualmente e o PNAIC ajudou para que isso acabasse fazendo parte dessa minha prática e lá também quando eu fui orientadora via muitas coisas que ajudaram a melhorar a minha prática enquanto a professora alfabetizadora (OE- Alice).

A fim de confirmar essa aprendizagem, uma nova questão foi posta pela entrevistadora: Então o PNAIC não serviu só enquanto você era professora de alfabetização? E rapidamente Alice confirmou dizendo:

Não, ele me serve ainda hoje que eu estou no ciclo II60. No 4º ano ainda tem crianças que precisam ser alfabetizadas, que estão em diferentes níveis de escrita e leitura, não têm compreensão do que leem. Então tem muitas coisas que a gente ainda usa, acredito que até do 5º ano ao ensino médio a gente ainda precisa fazer adequações metodológicas.

Mônica, também fez esse movimento de traspor estas práticas para outros anos, segundo ela: “muitos jogos eu adaptei para o ciclo II. Se eram com palavras simples, eu os fazia com palavras mais complexas”.

Valéria expressa esta transposição dos conhecimentos do PNAIC ao lamentar o ensino remoto, pois presencialmente poderia trabalhar os problemas matemáticos com seu 7º ano61 a partir de contextos do cotidiano, que segundo ela, foi melhor esclarecido, nas formações que ministrava. Nesta lógica, o PNAIC também se configurou para Valéria como um espaço de remodelagem de aprendizagens.

A sistematização de atividades de consciência fonológica também foi ampliada por Mônica:

_______________

foi implementada nas ações do PNAIC para direcionar o planejamento de atividades diversificadas e diferenciadas em Língua Portuguesa.

60 Ciclo I: 1º, 2º e 3º anos; Ciclo II, 4º e 5º anos. Isso ocorre desde 1999, com a implantação dos ciclos de aprendizagem no município.

61 Valéria também tem vínculo empregatício com o sistema estadual de educação e trabalha com os 7º anos do Ensino Fundamental II.

Não é porque eles estão no 4º ou 5º ano que a gente tem que deixar de lado (consciência fonológica), ainda precisa trabalhar muitas questões da escrita, ainda tem muita coisa para eles aprenderem [...] então com o PNAIC eu consegui base, muitas vezes para vencer as lacunas do ciclo II, porque o 4º ano, eles vêm com muitas lacunas de alfabetização.

Para Simone, as caixas de livros disponibilizados às crianças, como uma das ações do PNAIC, contribuíram para melhoria da sua prática, pois ela como uma contadora de histórias nata, trazia esporadicamente os seus livros para que os estudantes tivessem acesso a livros bons, já que a escola não dispunha desse material literário de boa qualidade. Então ela pontua “os livros dispostos para as crianças” da caixa de livros do PNAIC como um elemento que a ajudou a aperfeiçoar sua prática, pois cita que na sua concepção de leitora e nas orientações do PNAIC, a leitura deve ser um componente obrigatório na rotina com as crianças.

O componente curricular de Geografia também entrou no rol de práticas aperfeiçoadas por Simone:

Eu lembro que sempre me incomodou muito fazer a aula de geografia para chegar na planta baixa, fazer a maquete da sala de aula, com aquelas caixinhas de fósforo, aí eu não aguentava mais (com tom de cansada de fazer de modo repetitivo esta prática) e eu não conseguia mais pensar em outra possibilidade e depois eu lembro de uma formação que ficou marcada isso para mim, fazer um desenho no pátio, fazer um desenho no chão, eles utilizarem o corpo como localização dessa planta baixa, não só olhar aquela maquete, mas interagir de uma forma diferente, então eu falei “nossa como nunca pensei nisso antes!”

Estes novos modos de fazer a prática docente perpassam pela dinamicidade necessária para que as aprendizagens no adulto professor se efetivem. Sobre isso, Nóvoa (1995, p. 28) afirma que a formação dos professores, além de ser um processo de investigação que esteja vinculado às práticas educativas, também precisa passar pela “experimentação, pela inovação, pelo ensaio de novos modos de trabalho pedagógico. E por uma reflexão crítica sobre a sua utilização”.